Diário de mármore: Maravilhoso novo mundo
5 Superfície
Chego no armazém armamentista e lugar está uma bagunça, munições, cartuchos, armas e manchas de sangue cobrem o chão. Evitando pisar nos objetos espalhados vou até os armários e abro o que possui meu nome etiquetado. Ele se abre diante o reconhecimento da minha digital e dentro dele está meu real equipamento.
Eu fecho meu sobretudo com um zíper que o lacra o transformando em algo como uma armadura. A roupa que uso não foi criada apenas com o intuito de ser algo bonito para celebração. Seu tecido foi desenvolvido para ser resistente a cortes e para dissipar impacto com uma tecnologia de distribuição cinética. Uma vez um homem da antiguidade disse: uma das belezas está na utilidade das coisas.
Também pego uma mochila que está preparada com suprimentos e coloco-a em minhas costas.
No antebraço oposto a caixa preta, o esquerdo, afivelo um dispositivo. Ele se parece com um disco prateado e te o diâmetro de um palmo. O testo tensionado meu pulso, sensores detectam isso e um escudo translucido azulado feito de energia se forma.
O desativo e pego de dentro do armário a minha arma principal, uma espada larga de mono fio. Ela é cinzenta e com detalhes em azul, sua guarda é larga como as antigas gládios e possui um slot para uma bateria. Pego três dessas e encaixo uma no slot da espada. Por fim coloco a lâmina na minha mochila. Ela fica pendurada por um sistema de bainha magnética.
Fico alguns minutos concentrado pensando em um plano. O que posso fazer para atravessar as planícies com aquelas coisas lá fora?
Porém alguns passos sobre os cartuchos de balas interrompem meu raciocínio. A Elipse acaba de entrar na sala. Ela está com a expressão fechada e quieta, algo diferente do habitual onde ela é a primeira a cumprimentar ao chegar em algum lugar.
— Doutora Elipse?
Ela nada responde e caminha até seu próprio armário armamentista. A pequena doutora o abre e tira de dentro, sua arma.
— Elipse.
— Eu vou com você — anuncia armando seu equipamento. Ele é um arco retrátil que não usa corda, assim como minha espada ele é carregado por uma bateria e suas flechas são disparos elétricos.
— Não, não vai — digo levantando uma sobrancelha. — Você vai ficar aqui e ajudar a Emcy e o Pascal.
— E quem vai ajudar você? Somos alienígenas em um planeta desabitado, com milhares de criaturas hostis em um campo de guerra. Capitão Gamma, não posso deixar que você vá sozinho.
— Por esses motivos que devo ir sozinho! Você vai ficar aqui! isso é uma ordem direta minha como seu capitão, desobedecer é insubordinação. — Fecho a cara e falo com um tom forte, não alto, mas firme para tentar intimidá-la.
— Desobedecerei com prazer, e ficarei feliz em pagar essa punição — responde enquanto pega uma submetralhadora do armário. — Você tem que parar de se responsabilizar por tudo sozinho, somos uma equipe.
Cerro meus dentes, não é a primeira vez que a Elipse questiona as minhas ordens, mas hoje foi a primeira vez que ela faz caso de algo tão sério.
— E os outros? vai deixá-los aqui sozinhos com menos uma pessoa para defende-los? Prefiro que você use de toda essa coragem para protege-los em minha ausência —
— Não se preocupe com a gente — Emcy interrompe nossa discussão. Ela está escorada na porta e não sei dizer o quanto ela ouviu. — Capitão, estamos suficientemente longe da concentração daquelas coisas e temos recursos para nos defender. Assim que reestabelecer a comunicação vou trabalhar nas torretas autônomas. Se a Elipse ir com você as chances de sucesso vão dobrar.
Eu a encaro por alguns segundos com os dentes cerrados e o punho apertado. Mas então Elipse quebra o silencio.
— Ótimo, já que o Capitão não tem nenhum argumento contra isso significa que posso ir — enquanto fala com um tom animado ela se dirige para a porta.
Por outro lado, suspiro e esfrego o rosto. — Droga. Emcy, cuide dos outros até eu voltar. Tentaremos manter contato e você rastreia a nossa posição pelas caixas pretas. Entendido?
— Sim senhor! boa sorte senhor! — Junto com a confirmação Emcy preta continência.
Vou para a porta onde a Elipse me espera. Apesar de sua aparente animação ela demonstra por algumas expressões corporais uma inquietude. Ela esfrega as mãos e fica batendo o pé até o momento que chego. Não consigo dizer nada para aquela carinha, tentar convence-la vai ser inútil.
— Espero que seu treinamento militar esteja em dia.
Destravo a tranca manual e empurro a porta forçando sua abertura, geralmente teríamos todo um sistema de descompressão, mas como já estamos em atmosfera a um bom tempo com a nave danificada isso vai ser desnecessário.
Com as portas abertas depois de tanto tempo tenho a minha primeira visão pessoal no novo mundo. O local que caímos foi na zona três, uma floresta de arvores gigantes, provavelmente ancestrais. A sombra que elas fazem impedem o desenvolvimento pleno de espécies menores então a vegetação aqui embaixo não é tão densa. O ambiente é bastante húmido e o ar é puro e refrescante, um alivio para meus pulmões. Me faz até esquecer como era as coisas lá na terra. Desço da nave e tenho meu primeiro contato com o solo. O chão está coberto por folhas secas que estralam por onde piso. Faz tanto tempo que não tenho essa sensação que me sinto uma criança aprendendo a andar.
Elipse me acompanha com passos tímidos, ela vem fechando seu jaleco para que ele também entre em modo defesa. Ela anda olhando para baixo admirando as folhas caídas sob suas botas.
— Vamos lá! — A chamo enquanto caminho em direção a Mother 3. — Seguinte Elipse eu exijo que você não se afaste muito de mim, ok?
— Sim capitão Gamma!
Com a caminhada tomamos distancia suficiente para dar uma boa olhada no dano que tomamos, me a parte o coração ver a nave nesse estado. Se eu tivesse pilotado melhor talvez ela teria concerto.
— Capitão! — Elipse me chama. Olho para ela e sua feição está apreensiva e ela aponta para a direção da queda da Mother.
Forço minha visão para e vejo ao longe as arvores balançando. Uma brisa forte começa a soprar e um zumbido surge em meu ouvido. O balançar das arvores se aproxima e com um reflexo eu pulo em direção a Elipse. — Se proteja! — grito enquanto a agarro. Atiro meu gancho eletromagnético na árvore mais próxima e nós puxo para cobertura.
Assim que caímos para o chão os ventos selvagens passam e acertam tudo com uma forte pancada acompanhada do som de uma trombeta absurda.
A onda de choque se dissipa e eu descubro meus ouvidos. Minha caixa preta começa a tocar, é uma ligação via rádio da Emcy.
— Vocês estão bem? O que aconteceu?
Por mais que eu queira responder, não consigo, pois estou ofegante demais. Essa onda de choque só pode ter sido causada por uma trombeta apocalíptica, uma arma desenvolvida para abater frotas inteiras com um único disparo. Elas são tão poderosas que são proibidas de serem usadas dentro de atmosferas. Mas o que faz meu coração bater rápido é saber que a Mother carrega uma dessa. Isso significa que ela não caiu e segue lutando.
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