Diário de 83

17 O Sol Sempre Brilha na TV


Notas iniciais
Ooii, gente, agora que o clima vai subir! Estejam avisados ¬u¬ Boa leitura ♥

Los Angeles, Califórnia – 10:47 hrs

14 de maio, 1983

Faz algumas semanas que deixei Hayvenhurst. Eu voltei ao hotel, para a infelicidade de um John Branca que me queria de alguma forma perto do Michael a qualquer custo. Voltei à estaca zero, disse a ele os meus planos. Não revelei o que eu havia ouvido, fazer isso seria uma grande besteira, ele poderia cancelar o show e me mandar mais cedo pra casa, o que eu não queria. O show é a minha última chance de fazer essa viagem ter valido a pena; um último tiro antes de morrer completamente para essas pessoas.

Eu peguei o meu violão e voltei a ensaiar.

“Eu procurei dentro de mim mesmo

E não encontrei nada lá para acalmar a pressão

da minha mente sempre aflita…

Ooh…

Todos as minhas forças se foram

Eu temo os olhares solitários e enlouquecidos

que o espelho reflete nestes dias…

Ooh…"

Suspirei e parei de cantar. Aquela música refletia o meu eu de agora, e era doloroso demais admitir isso pra mim mesmo, admitir que eu deixei essas pessoas entrarem no meu coração. Doía, mas era nessa que eu apostaria, uma pessoa havia me ensinado que a melhor canção era a que vinha de dentro.

"Toque em mim…

como pode ser

Acredite em mim…

o sol sempre brilha na TV

Me segure…

perto do seu coração

Toque em mim…

e dê todo seu amor para mim"

— Morten…?

Era a voz da Judy.

— Entra…

Ela veio logo em seguida. Não me virei pra cumprimentá-la, continuei lá, sentado na minha cama, tocando notas dispersas.

"Toque em mim…"

— Eu… eu soube que vai fazer um show hoje à noite, parabéns — Judy parecia acuada pra me parabenizar, ela havia notado que eu estava cabisbaixo.

— Obrigado… — deixei o violão de lado e olhei nos olhos dela — você vai me ver, não vai?

— Claro! Eu sei que você vai se sair muito bem.

Ela parecia receosa em se aproximar, porém eu fiz um sinal pra que não se preocupasse. Nossa relação esfriou muito com o afastamento, mas eu ainda gostava dela, ela cuidou bem de mim no tempo em que eu estive no hotel. Judy se aproximou e eu a deixei sentar no meu colo. Ela levou os lábios ao meu rosto e beijou o canto da minha boca. Eu retribuí com um selinho.

— A gente vai voltar a ficar…? — ela murmurou.

— Não sei, Judy… Esse vai ser meu primeiro e último show por agora, eu já disse ao Branca que quero voltar à Londres depois disso.

— Por quê?

— Descobri umas coisas no contrato que não me agradaram…

Ela suspirou e se levantou.

— Sei como é isso. Esses empresários… acham que são inalcançáveis.

Assenti em silêncio.

— Sabe por que o sol sempre brilha na TV? Porque a realidade tende a ser dura e decepcionante…

— Frase legal pra colocar em um livro.

Eu deixei uma risada fraca escapar.

— É, não é? Pelo menos já sei como vou iniciar minha autobiografia.

Ela riu baixinho.

— Eu tenho que voltar ao trabalho. Eu realmente espero que você fique mais tempo por aqui — ela deu uma piscadela. — Tchau, Morten, até hoje à noite. Não cansa a voz, hein?

— Pode deixar, Juju.

Assim que ela saiu, eu enfim percebi por que eu havia passado tanto tempo de costas para a porta: a minha jaqueta preta estava lá, pendurada em um suporte. Eu fiz aquilo de propósito (talvez até inconscientemente), eu queria me dar alguma motivação para essa noite.

“Por favor, não me peça para defender

as vergonhosas descidas do caminho em que estou sendo levado melancolicamente pelo tempo…

Ooh…

Eu procurei dentro de mim mesmo hoje,

pensando que devia haver alguma maneira de manter meus problemas distantes…”

Mas que porra… Não impora o que eu tentasse fazer, ele estava em todo aquele projeto… na minha consciência… nas letras das minhas músicas. À noite, eu o levaria comigo.

x ----- x

21:45 hrs

(“Não posso pensar em você hoje. Não posso pensar no que aconteceu hoje. Eu… eu não posso levar isso pro palco, eu não posso, e eu não vou. Você entende isso…?”)

A noite caiu, o show começou. Sala cheia, palco fechado, alguns engravatados no fundo. As minhas memórias ainda me aturdiam com as palavras dele, do dia da Motown 25. Michael me ensinou a não levar problemas para o palco… mas tudo, tudo o que eu dei hoje, tudo o que eu ofertei foi pensando nele, e eu não conseguia fazer diferente daquilo. Mesmo porque… o palco se tornou a minha segunda casa.

“Me segure!

Perto do seu coração…

Toque em mim…

e dê todo seu amor para mim!"

Eu ofereci o melhor das minhas capacidades. Eu fui além dos limites da minha voz, eu entreguei a minha performance sem timidez. Eu estava disposto a fazer John Branca engolir as suas palavras e se arrepender de ter me subestimado, mas os frutos da minha raiva só poderiam ser colhidos alguns dias depois, com os resultados, e eu sinceramente não estava com pressa.

Era tudo tão escuro, eu sequer fazia ideia se havia algum conhecido na plateia. 1 hora e meia depois, saí sem uma despedida longa, queria o meu camarim (e me surpreendi por encontrar tantos vasos de flores por lá).

— Quem é que morreu?

— São para o senhor. A maioria são das garotas da área vip.

Disse uma das funcionárias dos bastidores. Eu ainda achava estranho ter funcionários me chamando de “senhor” e, também, aquele amor grudento do prelúdio de uma fanbase, mas pelo visto os resultados da minha fúria apareceriam mais cedo para mim.

Assobiei enquanto caminhava lentamente, admirando cada buquê daqueles.

— Uau… orquídeas, rosas, lírios, dentes-de-leão, tulipas…

Eu sou louco por flores, piradinho (acho que eu já falei isso, né?), mas uma realmente me chamou atenção. Arregalei os olhos quando vi uma planta diferente das outras, no fundo da mesa, próxima à parede.

— Uau! Mas que… que caralho de flor bizarra!

— Q-quer que eu tire?

— Claro que não, eu adorei! É uma estapélia, parece um cacto e tem formato de estrela, mas é só uma flor. Eu sou apaixonado por cactos e semelhantes desde que vi uns bem legais em Encino. Quem foi essa?

— Não tiramos os cartões de nenhum presente, senhor, e todos vieram com cartinhas. Só… não chegamos muito perto dessa por causa do cheiro.

— Ah, tô ligado… elas fedem mesmo.

Cara, se isso foi algum tipo de brincadeira de mal gosto, que se foda, eu adorei o presente! Estapélias estão longe de serem as minhas preferidas, são flores de países quentes, nem posso cogitar ter uma no meu acervo pessoal, mas as plantas que haviam chamado minha atenção naquele ano foram exatamente as que eu nunca tive contato antes, a graça está justamente no desconhecido.

E foi por falar em desconhecido que eu resolvi parabenizar pessoalmente a fãzinha criativa, mas, assim que me aproximei, toda a minha euforia entalou no meu peito e morreu por lá quando a única coisa que eu encontrei próxima daquela flor era um cartão para o condomínio The Lindbrook.

Suspirei. Parecia um castigo…

— Harket, o senhor Branca está vindo falar com o senhor — disse outro funcionário.

— Diga pra ele esperar.

Essa é a deixa perfeita. Peguei o meu casaco e me retirei pela porta dos fundos.

x ----- x

Encino, Califórnia – 23:44 hrs

Cheguei no apartamento em pouco mais de meia hora. Aluguei uma moto e joguei as despesas nas costas do Branca, era o mínimo que ele poderia fazer por mim, nem pensar que eu tomaria transporte público àquela hora.

— Nome?

— Morten Harket. É o prédio do Jackson, não é? Eu já estive aqui com ele.

— Ele saiu, você vai ter que esperar.

Droga… eu nem fazia ideia se ele ia demorar ou não (na verdade, eu nem sei se ele iria me deixar entrar, eu estava dando um tiro no escuro). Tentei arrancar mais informações do porteiro.

— Dona Remy está aí? — nem sei se o trabalho dela era do tipo que dormia por lá, mas eu precisava arriscar — Se sim, diga a ela que é o Morten, ela me conhece.

— Rapaz, você vai precisar esperar.

Suspirei. Bom… se ele não me enxotou logo, quer dizer que o Michael realmente está morando aqui, isso é intrigante.

Aguardei alguns minutos (uns 15 precisamente), e vi quando uma limusine chegou no local. Eu me aproximei lentamente, sem histeria, e vi dois seguranças se aproximando.

— Senhor, por favor, saia…

— É melhor não me tocar — eu disse, me impondo. — Eu não sou fã, ele me conhece.

— Deixa ele entrar.

A voz dele se sobressaiu. Os seguranças me olharam, relutantes, mas acabaram seguindo as ordens do patrão. Michael entrou pela garagem e eu fui guiado para os portões principais. Já dentro do prédio, o esperei em uma sala de estar, no terceiro andar. Ele demorou muito (e eu tenho certeza que foi de propósito), eu já estava criando uma pista de kart no piso de tanto andar de um lado pro outro, quando ouvi a porta se abrir.

Nos olhamos por alguns instantes, em silêncio. Ele usava seus óculos escuros, uma camisa branca que normalmente tinha por baixo das roupas principais, as clássicas calças escuras e um par de chinelos fechados que, se eu o conheço bem, significa que ele não está mais planejando sair de casa por hoje.

— Viu as minhas flores?

— Sim…

Ele assentiu em silêncio, em seguida fechou a porta e caminhou lentamente em minha direção.

— Gostou delas?

— Como não gostar? Você pegou a flor mais esquisita que achou.

— O jardineiro de Hayvenhurst me contou que você estava paquerando as flores tropicais, então pensei em uma que você fosse gostar…

— Você sabe que eu gosto de flores, de qualquer uma delas, e que as minhas preferidas são as de países frios porque eu entendo melhor delas, mas você preferiu me dar uma tropical, que eu nunca tinha visto pessoalmente — eu arqueei a sobrancelha. — A única explicação que eu vejo pra isso é que você queria se certificar de que chamaria minha atenção de qualquer forma.

Eu não sei bem como ele reagiu, os óculos cobriam os seus olhos, o que dava a ele uma expressão indiferente.

— Essa é a sua desculpa pra ter vindo me ver?

Putz, levei uma "carta reversa".

— Eu só queria saber… Você assistiu ao show?

Ele custou a responder, mas fez um discreto movimento positivo com a cabeça. Suspirei.

— Isso é importante pra você?

Michael indagou. Pensei se devia dizer a ele, nós estamos numa situação bem delicada, mas tudo isso começou porque eu não fui franco. Eu não queria arriscar perder a minha chance de me apresentar neste país, contudo, agora que já o fiz, não há mais motivos para esconder; ele precisa saber a verdade.

— Também vim pra te contar uma coisa. No evento pós-concerto da senhora Minnelli, eu ouvi o Branca conversando com alguém que eu não conheço — ele cruzou os braços e continuou em silêncio, prestando atenção na minha história. Prossegui. — Ele estava me usando. Ele não queria criar a minha carreira, ele queria uma companhia pra você.

— O quê…? Como assim?

— Ele disse que você precisava de alguém, que você estava… — nesse momento, eu estagnei. Ao pensar nas palavras do Branca, me veio à mente algumas de nossas conversas, algumas delas dos meus primeiros dias aqui, sobre jovens talentos reclusos e problemáticos… sobre ficar longe desses problemas… — que você estava… se perdendo…

Michael parecia olhar nos meus olhos, mas era difícil confirmar minhas suspeitas.

— Ele disse que você confidenciava coisas a ele. Mas é claro… isso o fez ficar preocupado com a sua saúde, com o seu desempenho. Os abusos, a juventude perdida… você olhou para umas crianças brincando e me disse que não podia sentir falta do que não teve. Você disse que trabalhava desde os cinco anos. Ele temeu que você se perdesse…

Vi a primeira lágrima descer pela sua bochecha, porém, diferentemente do que parecia, não era só tristeza ali, era raiva também. Ele tirou os óculos e os jogou no sofá mais próximo, em seguida limpou o rosto com pressa.

— Isso não era da conta dele!

Finalmente pude encará-lo nos olhos. Era esse o momento, eu precisava pôr um fim às minhas dúvidas e descobrir quem eram realmente os meus amigos.

— Você não sabia disso, não é…?

— Você acha que eu teria a coragem de olhar na sua cara? De… de quase… de olhar nos seus olhos se eu estivesse de conluio com o John?!

— Por que não? Lembra da nossa conversa no feriado? Quando eu disse que o Branca seria meu assessor, e que ele te queria como meu tutor. Você pareceu aceitar tudo tão facilmente…

Provoquei enquanto me aproximava em passos lentos e largos. Eu podia estar fazendo outra merda, mas eu precisava que ele fosse franco comigo. Pela primeira vez eu não tinha mais receio em descobrir o que ele sentia verdadeiramente por mim.

— Eu estava surpreso! Eu te disse que o Branca não costuma assessorar os outros por livre e espontânea vontade…

— Mas é normal ele mandar aprendizes pra sua casa?

Michael suspirou.

— Argh, você é um idiota!

— Você não questionou nada. Tinha tanto medo de ficar sozinho… de não ter pessoas verdadeiras ao seu lado, que não pensou nas consequências dos seus atos.

— Morten…!

— Mas eu acredito… que você não sabia dos planos dele — ao ouvir as minhas palavras, eu vi quando suas lágrimas cessaram, quando a última desceu pela sua bochecha e teve o seu fim no chão. Ele continuou ali, olhando pra mim, sem saber onde eu queria chegar com aquilo. Me aproximei. —Porque, se soubesse, não poderia olhar nos meus olhos e dizer que verdadeiramente gosta de mim.

Dei uma pausa em minhas palavras, olhei em seus olhos e, numa última tentativa, eu novamente abri o meu coração.

— Michael… eu vou embora. De verdade. O que eu tinha pra fazer aqui, já fiz. Mas tem uma coisa que eu ainda não consegui… — tentei levar minha mão ao seu rosto. A princípio ele não repeliu, seus olhos escuros desceram até minha boca e eu repeti o gesto — eu não quero deixar de falar com você, de sair com você, de ficar ao seu lado… Mas eu vou embora, então isso não importa mais. Porém… se eu puder fazer um último desejo… peço que não faça eu me arrepender do que irei tentar agora.

Ele já sabia do que se tratava. Outra lágrima escorreu pelo seu rosto e, essa, tratei de limpá-la eu mesmo. Ele estava indo contra tudo o que sempre acreditou, e eu sei o quanto isso doía, mas o seu coração estava indo na contramão e era algo que ele não podia controlar; não controlamos de quem vamos gostar.

Deixei que minha boca falasse por mim. Quando nossos lábios se tocaram, um arrepio muito estranho tomou conta do meu corpo — uma sensação do proibido, uma coisa que eu não queria sentir nunca mais, contudo lentamente se esvaiu. Ele não recuou, nossas bocas se encaixaram e eu pude sentir o toque sutil dos seus dentes. Senti quando Michael levou as duas mãos ao meu rosto e iniciou um novo beijo por cima daquele, o que me desestabilizou totalmente. Quis retribuir, mordisquei o seu lábio inferior, que era carnudo e macio, e busquei rapidamente um canto quente na sua boca para que a minha língua pudesse explorar. Senti quando a minha língua resvalou na dele, Michael soltou um suspiro que me arrepiou, ele estava me dando combustível.

Nós caímos em uma poltrona próxima, eu fiquei por cima dele, tentando não sentar em seu colo, pois dava pra ver o quanto ele estava empolgado como eu — não me sentia pronto pra avançar uma etapa a mais e acho que tampouco ele, já era chocante demais pra mim estar gostando de beijar a boca de um cara.

Michael buscou a minha língua tantas e tantas vezes, ele mesmo instigou a intensidade daquele beijo, molhou os meus lábios com aquele carinho. Foi a minha vez de soltar um suspiro seguido de um gemido bem baixo, Michael levou as mãos à minha cintura e me puxou pro colo dele.

— Mich… — eu ia protestar, mas me calei. Eu não queria quebrar o clima, eu não queria que ele desistisse, lutar por aquele momento já tinha sido difícil demais. Deixei que nossos corpos se tocassem, o pior disso seria… bom… seria manchar a minha roupa (e eu só tinha aquela naquele momento), mas eu daria o meu jeito.

— O quê…?

Ele indagou, mas eu voltei a beijá-lo antes de qualquer quebra de clima. Busquei aquecer a minha língua na dele, busquei arrancar o seu fôlego — ele havia me tirado um gemido, eu precisava empatar aquela situação —. Prolonguei aquele carinho por mais tempo do que devia; eu conseguia controlar minha respiração (não era muito complicado pra quem nadava desde moleque), porém Michael não parecia acostumado. Senti os seus suspiros silenciosos e ofegantes, mas também senti a sua pouca vontade em parar com aquele ato.

Pus meu joelho ao lado esquerdo dele, enquanto minha outra perna apoiava no chão. Tentei pôr meu outro joelho do lado direito do seu corpo, mas a poltrona inclinou e acabamos deitados de mal jeito. Gargalhamos na mesma hora.

— O sofá…

Ele sinalizou com a cabeça. Saí de cima dele e fui até o sofá ao lado. Michael me acompanhou, ele me surpreendeu quando tomou a iniciativa e deitou sobre o meu corpo, seus lábios buscaram o canto esquerdo do meu maxilar, sua boca me beijou, sua língua passou discretamente pela minha pele; aos poucos Michael me mostrava que, desde o início, era ele quem tinha o controle de tudo, e era tão estranho aceitar que eu estava gostando disso.

Notas finais
Próximo capítulo: Despertei com a luz do sol invadindo a sala. Meus olhos se abriram e a primeira visão que tive foi da poltrona ainda reclinada um pouco distante do sofá em que eu estava. Nesse momento, minhas memórias despertaram, lembrei de toda noite anterior, mas tive dificuldade em aceitar que tudo aquilo foi mesmo real.