Diário de 83
18 Nosso Vínculo é Exclusivo
Notas iniciais
Encino, Califórnia – 08:26 hrs
15 de maio, 1983
Despertei com a luz do sol invadindo a sala. Meus olhos se abriram e a primeira visão que tive foi da poltrona ainda reclinada um pouco distante do sofá em que eu estava. Nesse momento, minhas memórias despertaram, lembrei de toda noite anterior, mas tive dificuldade em aceitar que tudo aquilo foi mesmo real.
Minha cabeça repousava no peito dele, eu conseguia sentir o seu tórax subindo e descendo, o seu coração batendo, fechei os olhos e desfrutei daquele som por alguns minutos antes de me levantar — aquilo era música, o som das suas batidas era a mais pura concepção de música, ele era completamente formado por ela —. Quando me inclinei para vê-lo, Michael dormia um sono profundo. Seus cachos, normalmente molhados, agora estavam secos e bagunçados, seu rosto estava sereno — e confesso que era assim que eu gostava de vê-lo, sem aquelas lágrimas nos olhos —.
Me aproximei e funguei o seu pescoço. Sua pele estava quente, seu cheiro era suave e natural. Lembro que, até algumas horas atrás, eu estava beijando aquele pescoço como se não houvesse amanhã, e o corpo dele reagia a todas aquelas coisas. Por fim, subi os lábios até os seus cabelos e os beijei, me levantei e fui até o banheiro mais próximo pra fazer uma higiene básica antes dele acordar.
O único banheiro naquele cômodo era atrelado ao seu quarto, mas ele dormia com tanta dificuldade que eu tive pena de acordá-lo pra pedir permissão (eu sei que ele me mataria depois por eu ter entrado no seu quarto, mas foda-se, motivo de força maior). Busquei as chaves que não estavam tão difíceis de encontrar, testei até achar a certa e entrei sem pensar duas vezes. O quarto do Michael, naquele condomínio, era bem mais modesto que o de Encino. Não haviam troféus por lá, nem tantos pôsteres, e pouquíssimas coisas lembravam ele. Vi que, do lado da cama, havia um violão, e eu me perguntei se ele sabia tocar ou se tinha somente pra "quebrar um galho". Segui até o banheiro ao lado e tive que me virar com os resultados da noite passada (sem detalhes, sem detalhes). Não demorei muito, lavei as mãos e saí em menos de 20 minutos, mas aquele violão ainda me encarava (será que o Michael também me mataria por brincar com ele?)
Fui até a beira da cama e me sentei, tomei o violão no colo e o posicionei. Pensei no que eu poderia tocar, nada alto para não acordar o Michael. Depois de alguns instantes fritando a cabeça, comecei a testar notas, a compor uns trechos em cima da "canção da fruta" do Paul. Era a música que eu mais gostava, mas que ainda precisava de alguns ajustes.
Comecei a tocar.
"Não é preciso nem dizer…
Eu não valho muito
mas seguirei, mesmo tropeçando
Aprendendo aos poucos que a vida é boa.
Repita comigo
É melhor se arriscar do que se arrepender
Me dê uma chance
Me aceite
Eu irei embora
em um dia ou dois…"
Ouvi a porta abrir. Meus olhos encontraram os dele imediatamente: tinha uma carinha de sono, os olhos meio apertados e os cabelos arrepiados. Eu sorri, eu nunca tinha guardado tantos detalhes da aparência dele antes (como se, somente depois que me entreguei àquela loucura, aquelas coisas tivessem aparecido pra mim). Me perguntava se com ele era diferente.
— Bom dia…? Por favor, não me mata.
— Não, eu… eu adorei a música. Pode cantar mais…?
Até sua voz passava um conforto, uma preguiça agradável. Assenti, sorrindo, e voltei a tocar.
"Todas as coisas que você diz…
É sério ou é apenas para me deixar menos preocupado?
Você é tudo de que eu preciso me lembrar.
Você está me evitando…
Eu voltarei para te buscar de qualquer maneira"
Ele esboçou um sorriso fraco e se aproximou lentamente da cama onde eu estava, puxou a cadeira mais próxima e se acomodou de frente pra mim. Eu não sabia o porquê, não sabia o que tava acontecendo, mas ele olhou pra mim com um olhar descansado, vago e perdido, seu sorriso acentuou, suas maçãs do rosto se preencheram e eu quase pude ver os seus dentes. Pensando melhor agora… era o mesmo olhar que as minhas ex-namoradas faziam quando estávamos juntos… era o mesmo olhar que eu fazia quando olhava pra ele.
"Me dê uma chance
Me aceite
Eu irei embora
Em um dia…"
Cantei, quase no automático. Meus olhos se perderam nos dele, eu já nem lembrava o próximo refrão. Depois de um tempo em silêncio, Michael se aproximou e beijou os meus lábios com um selinho lento e confortável. Fechei os olhos e torci para que aquele momento não terminasse, porém ele se afastou e me trouxe de volta à realidade.
Voltamos ao silêncio. Eu olhei para os seus lábios, eu o vi umedecê-los, buscando os resquícios de qualquer vestígio meu. Naquele momento, me senti recompensado.
— Eu… — ele lentamente se afastou — eu vou tomar um banho. Se você também quiser…
— N-nós…?
— Um depois do outro, Morten! — Michael tentou disfarçar o rubor das próprias bochechas. Eu nem me esforcei, deixei a vermelhidão me consumir. Putz, que vacilo — Eu também tenho roupas no closet. Se quiser se trocar…
— Usar as suas roupas de engomadinho?
Provoquei, com um sorriso sapeca no rosto. Ele lentamente moveu a cabeça em um movimento negativo, rindo baixo.
— Idiota… À essa altura eu pensei que você… bom… — ele deu ombros — que você estivesse precisando trocar a calça.
— Ah, então você sentiu? — provoquei novamente, arqueando a sobrancelha e mantendo o sorriso cínico.
— Nem pensar, não vou detalhar mais do que isso — Michael já estava parecendo um pimentão, ele nunca foi muito chegado a conversas mais… "calientes". Eu ri e o deixei em paz.
Ele foi até o banheiro e eu o aguardei no meu canto. Não fizemos mais nada de interessante depois disso: Michael e eu tomamos café da manhã juntos; eu sei fazer algumas coisas, então preparei um capuccino, torradas com queijo e cortei algumas frutas.
— Uau… faz tempo que eu não faço isso — Michael comentou, enquanto me ajudava na preparação das comidas.
— Sabe cozinhar, Michael?
— Um pouquinho… não muito. Bom… minha mãe ainda é melhor do que eu nisso, e acho que ela não vai perder o posto tão cedo — ele riu baixo.
— Ah, com mãe não se compete, meu amigo, elas sempre ganham — eu ri. — Mas você tá se virando bem…
— Eu só cortei umas frutas, Morten. Se eu não soubesse fazer isso, eu ficaria preocupado — ele brincou.
Depois que preparamos as coisas, comemos em silêncio. Após ter lavado o rosto e comido alguma coisa, eu percebi que tínhamos muito a conversar. Michael se espreguiçou discretamente e iniciou um assunto.
— Você saiu do seu show pra vir me ver?
— Nah… ele já tinha terminado, eu vim logo depois de xeretar os presentes das fãs.
Ele assentiu.
— Vi que você recebeu muitos. Não sei por que o Branca te subestimou… não é do feitio dele.
— Talvez ele esteja acostumado com artistas do seu nível. Eu sei que ainda nem cheguei perto…
— Não se menospreze assim… — ele levou uma mão ao meu rosto e roçou o dorso na minha bochecha — você é muito bom, você é excelente. Eu não estou exagerando, você tem técnica vocal, alcança notas difíceis e tem um timbre único. Qualquer pessoa com um pouco de conhecimento viu o que eu vi ontem, e, acredite, não vai demorar pra você colher os resultados disso.
Eu sorri e mordi os lábios.
— Valeu, Michael… Você não está dizendo isso porque gosta de mim, não é?
— Claro que não — ele afirmou sem pensar duas vezes, porém as palavras que viriam a seguir pareciam entaladas na sua garganta. Ele suspirou discretamente e prosseguiu. — Por gostar de você, é que sou sincero. Além do mais… — soltou outro suspiro, um mais intenso que o anterior, enquanto relaxava os ombros e reclinava para trás, descansando as costas na cadeira — eu não sei como lidar com isso.
— Com isso…?
— Eu… — ele pausava suas falas muitas vezes, tinha dificuldade ao falar sobre aquilo, e eu já conseguia imaginar o que era — eu tinha certeza das minhas preferências, dos meus pensamentos… agora não tenho mais.
— Ei, calma aí… é normal achar que sabe de tudo sobre si mesmo, você vai entender isso melhor quando tiver velho.
— Você leva isso com tanta tranquilidade… Não acha assustador não se conhecer?
Umedeci os lábios e dei ombros.
— Sim, foi esquisito quando eu soube, foi esquisito sentir tudo isso. Eu só pensava o quanto eu iria ser zoado pelos meus amigos se eles soubessem… mas então, eu pensei que guardar tudo isso pra mim seria muito pior.
— Por que você acha isso?
— Ah, porque seria, Michael. Eu olharia pra você todo dia, teria os desejos mais malucos possíveis, e guardaria tudo comigo até que morressem. E se nunca morressem? E se você também sentisse o mesmo? Ser humano é foda, ele vai querer entender as coisas sempre. Além do mais, não é como se agora eu quisesse sair beijando caras por aí. Eu tenho irmãos, eu já dividi a cama com amigos, eu só nunca tinha ficado com um homem antes, e eu tenho certeza dentro de mim que esse lance não faz meu tipo. Mas eu passei a gostar de você, e, por te conhecer bem, eu não consigo ver isso como algo ruim.
Michael corou levemente e desviou o olhar para a mesa.
— Você acha, então, que é como se nossa condição fosse exclusiva?
Eu me inclinei para frente e apoiei os meus cotovelos nos joelhos.
— Me responde uma coisa… Você me acha bonito? Sei lá… sexy, gostoso, atraente…
Ele corou com mais força e balançou a cabeça negativamente.
— V-você é lindo, mas isso nem passou pela minha cabeça, Morten. Eu não sei… começou com nossos papos, com a forma como você me apoiava. Depois, evoluiu… Pra você entender, eu nem consigo imaginar a gente… — ele engoliu seco — fazendo mais além de se beijar.
Assenti e relaxei os ombros.
— Viu? Eu não chamaria de "condição", mas "vínculo". Nosso vínculo é exclusivo. É único. Você e eu… sem rótulos. Mas, mesmo que tivesse... — peguei um pedaço da maçã que cortei pro café da manhã e comi — eu acho que pra mim não mudaria nada.
— Como você consegue…? Tem ideia do assassinato moral que a sociedade faz com essas pessoas?
— Eu não gosto de expor meus relacionamentos, eu nunca nem dei um beijo em público que não fosse dentro de uma balada. Pra mim é fácil manter essas coisas em sigilo.
Ele suspirou.
— Pra mim, não é…
Eu olhei pra ele, vi como o seu olhar se apagou, parecia tão abatido. Sorri fraco e levei uma mão ao seu queixo.
— Ei, vai dar tudo certo, ok? A gente pode contornar isso, ninguém vai saber. Seus pais, sua igreja, a mídia…
Alguma coisa na minha frase parecia não o ter agradado, pois ele se afastou e não quis comer mais nada.
— O salão? Morten, de Deus não se esconde nada… — os olhos dele cintilaram, mas ele conseguiu conter as lágrimas dentro de si. Michael passou a mão no rosto em seguida — D-desculpe… é que… é difícil, eu não sei lidar com isso.
— Tá tudo bem. Se não quiser ir em frente com isso, tudo bem. Eu disse que vou embora, só tive a esperança de… sei lá… aproveitar meus últimos dias aqui com você. Mas tá tudo bem…
— Podemos só… não tomar nenhuma decisão agora? Deixar esse assunto em um canto e mexer depois?
Dei ombros e comi mais um pedaço de uma fruta qualquer, já nem sabia mais qual era.
— Tudo bem, Michael.
Eu acho que ele não entendeu a gravidade das minhas palavras. Eu estava me preparando para ir embora, eu ia de verdade, e talvez a gente nunca mais fosse se ver, porém não quis reiterar ainda mais minha frase, uma hora a ficha dele teria que cair, eu só não queria que ele não estivesse preparado.
Suspirei e tentei puxar outro assunto.
— Bom… você se mudou de vez pro The Lindbrook?
— É, eu vou tentar me adaptar. Ainda prefiro estar com a minha mãe, viver sozinho ainda me enche de medos… — refleti sobre suas palavras — Mas e você? Você vai mesmo embora…?
A pergunta dele me despertou.
— Sim… O que mais eu tenho pra fazer aqui? Eu não tô conseguindo criar minha carreira, o Branca fica me enrolando, o melhor que eu posso fazer é tentar as gravadoras de Londres.
Michael ficou em silêncio, mesmo depois que eu terminei. Encerrei aquele assunto com um suspiro frustrado.
— Bom, mas passou. Pelo menos eu conheci voc…
— Eu vou te assessorar.
Eu paralisei naquele mesmo instante. Nos olhamos por longos segundos, tudo o que eu consegui fazer foi apenas sorrir cinicamente.
— Ué, eu não entendi…
— Eu te assessoro. Eu vou pegar todas as suas informações com o John, os próximos compromissos, tudo que faça parte da sua carreira, e vou construir ela de verdade. E… bom… eu vou trazer os seus amigos para a América.
Arregalei os olhos e me levantei. Eu não estava acreditando… Depois de tanto tempo, eu finalmente seria valorizado! Será que era cedo demais pra me empolgar?
— Não brinca…
— É sério. Se o Branca não está fazendo o trabalho dele, eu vou dar um jeito. Eu só quero uma coisa…
— Tá brincando? Eu faço qualquer coisa! Pede aí!
Ele sorriu fraco e desviou o olhar para o chão, enquanto envolvia os braços no próprio corpo, num gesto involuntário.
— Vocês vão se hospedar aqui, e eu quero que vocês… eu quero que você… fique até o fim do seu contrato.
Eu nunca negaria aquele pedido. Assenti sem falar nada e vi quando o sorriso dele se acentuou. Isso só podia ser um sonho… meus amigos estariam comigo de novo, e eu teria ao meu lado o cara que mexeu com os meus pensamentos.
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Hollywood, Califórnia – 13:20 hrs
Michael me levou até um dos escritórios do Branca, que ficava lá pros lados de Hollywood. Depois do show, nós dois esperávamos que ele não tivesse ido atrás de mim, isso complicaria nossa busca, estávamos torcendo para encontrá-lo logo.
Ah, e falando em encontrar… não sei onde deixei meu fígado depois do Michael ter pisado naqueles pedais! O cara é pior que a La Toya dirigindo! Eu inconscientemente busquei o cinto de segurança até perceber que eu já estava usando ele. Drittsekk, alguém já inventou os carros com 2 cintos pra reforçar?
— Pega leve, pega leve…
— Eu tô pegando leve! — ele riu — Se ajeita no banco, Morten, deixa de ser exagerado.
Me ajeitei mesmo, parecia que tinham me colocado numa caixa e chacoalhado até não querer mais. Passei a mão nos cabelos e suspirei.
— A gente tá chegando?!
— Já, é logo ali.
Michael dirigiu mais um pouco e estacionou na frente do prédio executivo. Saímos tão apressadamente da casa do moreno que, quando entramos naquele lugar, enfim percebemos uma coisa estranha acontecendo naquele dia. Os corredores estavam uma bagunça e muitos telefones tocavam sem cessar. A presença do Michael nem causou cócegas no pessoal, pelo visto eles já estavam acostumados com o cliente super famoso do Branca.
— John…
Michael entrou no que parecia ser a sala do escritório dele. O homem estava no telefone, anotando algumas coisas.
— Um momento, um mo…
Ele sussurrou, e ele mesmo se interrompeu. O que quer que fosse o assunto da conversa, pelo visto era muito bom.
— Sim… sim, sim. Agora…? Sim…
Nos entreolhamos, desconfiados.
— Até, me ligue se precisar! — assim que desligou o telefone, ele nos olhou com espanto. Seu olhar recaiu em mim por último, ele se levantou e deu a volta pela mesa — Onde você estava?!
— Isso não importa, John, Morten e eu queremos falar com você sobre o contrato dele.
— Eu também quero falar sobre isso — ele olhou pra mim. — Precisamos trazer sua banda imediatamente!
— Sim, mas…
Nos entreolhamos. Espera aí, eu ouvi aquilo direito??
— O quê?! — repetimos ao mesmo tempo.
— Morton, já está na hora do seu álbum sair, e eu quero as músicas daquele seu amigo compositor. Vamos fazer a setlist assim que sua banda estiver completa.
— Setlist? Como assim??
Ele me olhou com convicção.
— Vocês vão fazer outro show, e, dessa vez, eu quero que seja completo!
Suspirei. É, eu tava feliz, pelo visto os resultados dos meus esforços custaram a chegar, mas enfim vieram, só que eu não dava mais nada pelas palavras do Branca. Minha confiança, agora, repousava nas decisões do Michael.
— O show rendeu bons resultados? — o moreno indagou.
— Excelentes para um nome desconhecido, eu diria. A voz do Morton é potente, suave e aveludada. Muitas pessoas de influência mostraram interesse, eles enlouqueceram ao ver a primeira fileira de menininhas excitadas pela performance dele.
Michael me olhou com certo incômodo. Pensando bem agora… será que foi ciúme?
Segurei na mão do moreno, que me olhou de forma apreensiva.
— Branca, eu quero que o Michael fique à frente disso.
— O quê?
O moreno suspirou.
— John, você é muito ocupado, você sabe que não tem tempo pra assessorar alguém por livre e espontânea vontade.
— E você tem? — ele arqueou a sobrancelha.
— Só estou dizendo que podemos fazer isso juntos. Eu vou ficar do seu lado e puxar sua orelha se você negligenciar o Morten, por mínimo que seja. Estamos de acordo?
Eu não fazia ideia do plano do Michael; ele trocou "me assessorar sozinho" para "manter o Branca fazendo o trabalho dele", e ele sabia o quanto eu não acreditava mais naquele homem. O que me restou foi confiar na intuição dele.
— Não vou negligenciá-lo, vai dar tudo certo. Estamos de acordo, Morton?
Ele me estendeu a mão. Olhei por alguns segundos para o Michael, que me deu um olhar incentivador.
Apertei sua mão. O que me restava era seguir em frente.
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14:14 hrs
Ficamos com fome, então Michael parou em uma lanchonete grande e pediu ao atendente uma mesa lá no canto. Estávamos bem na janela, a loja precisou ser fechada para qualquer novo potencial cliente, então conseguimos um pouco de tranquilidade. Quer dizer… quando se está com o Michael, "tranquilidade" é só um modo de falar, né? Estávamos sendo assistidos por um grupo de pessoas do outro lado da janela! Eu estava desconfortável como uma pessoa em um banheiro sem tranca, mas o Michael estava pleno como se aquele fosse um dia comum.
Pedimos algumas batatas e frango frito. Ele comeu pouco, como de costume, e eu devorei o meu lanche.
— Escuta… — terminei de mastigar, em seguida apontei uma batatinha pra ele — qual foi a sua com o Branca? Por que você desistiu de me assessorar? Sabe que eu não confio em mais ninguém além de você.
— Eu sei, Morten. Obrigado por depositar sua confiança em mim, mas eu pensei melhor durante as falas do John. Sua carreira é promissora e acabou de mostrar um pouco disso recentemente, esse é um ponto importante na construção do legado de um artista, os primeiros passos são essenciais, não podemos perder o ritmo agora — ele pegou uma das minhas batatas e comeu. — Eu não estaria sendo inteligente se pegasse essa responsabilidade toda pra mim, eu realmente não tenho muito tempo livre, mas tudo o que eu te disse foi verdade e vai acontecer. Dessa vez eu estarei lá para garantir isso.
Porra, ele era estrategista, era tão inteligente (ou era óbvio demais e eu que tava muito emocionado). Eu sorri com suas palavras.
— Que pena que estão olhando a gente, senão eu te daria um beijo — sussurrei.
— Talvez em casa…
Ele piscou logo após essa frase. Eu ri, contive meus ânimos e voltei a comer.
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