Diário 2.0

15 Capítulo XV - Palavras e silencio


Você já encontrou aquela pessoa com quem você falaria por horas e horas? Você poderia falar sobre qualquer coisa que quisesse, das mais pessoais as mais bestas. E tudo bem se ela é a mesma pessoa com a qual você fica em silêncio sem precisar dizer nada para se entenderem. Se encontrar essa pessoa a preserve, sério. E pense bem, não estou falando que essa pessoa vai ser sempre o seu par romântico ideal, essa pessoa pode ser simplesmente sua amiga. Mas se ela for o seu amor, converse sobre qualquer coisa que quiser, sobre o que puder, sobre o que precisar… não deixe que palavras não ditas estraguem tudo. Palavras não ditas doem mais do que as ditas em alguns momentos.

— Espera, então o Sam se descobriu bissexual durante a faculdade? – A loira perguntou tirando uma das mãos do volante e a erguendo com as sobrancelhas franzidas. – Com um companheiro de time?

— Isso. – Rachel concordou com a cabeça soltando uma risada baixa. – Sam se apaixonou pelo running back, um belo de um hispânico se você quiser saber. Ficaram juntos por dois anos até que Sam o pegou o traindo e ai eles se separaram.

— E nesse meio tempo Kurt e Blaine estavam juntos? – Quinn mantinha as sobrancelhas franzidas tentando acompanhar a história.

— Sim, estavam com planos para o casamento e tudo o mais, mas então Blaine recebeu uma proposta para ser ator principal numa peça em West End, na verdade eu tenho certeza que o produtor se apaixonou por ele. – Rachel resmungou mexendo nos filtros do ar-condicionado o jogando para cima, odiava o vento frio sendo jogado diretamente para os seus pés. – Enfim, ele e Kurt brigaram porque Kurt não queria ir para Londres. Então eles terminaram o noivado e Blaine foi embora.

— E ai Sam e Kurt ficaram juntos?

— Não, Sam namorou com Angela por alguns anos enquanto Kurt saia com o Bryan e com o Elliot de forma casual. – Rachel soltou uma risada enquanto via a mulher loira arquear as sobrancelhas. – Eles só vieram a namorar depois e mesmo assim foi complicado, Kurt não queria nada sério e Sam queria. Eles começaram com uma amizade com benefícios por uns dois anos e foi indo até que Kurt ficou mordido de ciúmes quando viu uma mulher dando encima de Sam em uma boate.

— E ai eles ficaram juntos? – Quinn soltou uma risada baixa já se divertindo com tudo aquilo.

— Ficaram, até que Blaine retornou. – Rachel observou Quinn soltar uma risada ainda mais alta. – Ele ficou… puto porque eles estavam juntos, enfim… Blaine conseguiu fazer a cabeça de Kurt e eles reataram.

— É brincadeira, né? – Quinn a olhou com descrença antes de voltar sua atenção para a estrada.

— Não, é sério. – Rachel estendeu o braço acariciando os cabelos claros. – Sam ficou arrasado e para ser sincera o Kurt também não estava feliz. Isso tem uns 6 meses, mais ou menos…

— Mas eles estão juntos agora. – Quinn afirmou.

— Estão… reataram tem uns 2 meses… — A atriz confirmou. – Blaine voltou para Londres e Kurt se recusou a ir com ele, primeiro porque não queria deixar o emprego e segundo porque ele realmente estava arrependido de ter deixado o Sam.

— Então eles reataram? – Quinn suspirou como se estivesse cansada. – Isso é bem… dramático.

— Quase como a nossa história. – Rachel brincou com os cabelos de Quinn. – Apenas tirando o fato de que não tivemos nenhum relacionamento amoroso uma com a outra até agora.

Quinn puxou a mão de Rachel a levando aos lábios para beijar o dorso da mesma. A morena repousou a mão contra a coxa de Quinn e a apertou suavemente.

— Você está bem? – Perguntou atenciosa. – Essa noite você ficou inquieta na cama.

— Estou bem amor, apenas estava com a cabeça cheia. – A loira ofereceu um sorriso de desculpas. – Estava pensando em um enredo novo.

— Para o livro? – A morena sorriu se empolgando. – Não vai mesmo me dizer nada?

— Eu quero… — Quinn parou e lambeu os lábios. – Eu quero fazer com que Beth se apaixone. Como… realmente se apaixone… aquele amor que vai revira-la dos pés à cabeça.

— Achei que fosse lidar com o pai dela. – Rachel franziu as sobrancelhas.

— Eu vou. – Quinn concordou. – O pai dela está morto, ele morre alguns meses antes da história começar e vão demorar a localiza-la. Então ela precisa voltar…

— Voltar? – Rachel se inclinou um pouco a ansiedade era evidente.

— Costa Luna, é um pequeno país insular no mediterrâneo. – Quinn explicou com um sorriso. – O pai de Beth era um Duque nesse país e ela volta para assumir o posto que ele deixou vago.

— Então Beth se tornara Duquesa? – Rachel quase guinchou de excitação.

Quinn soltou uma risada alta antes de pegar a mão da mulher e leva-la aos lábios outra vez.

— Sim, ela se tornará uma Duquesa. – Quinn respondeu sorrindo.

— E por quem ela vai se apaixonar? – Rachel quase pulava no assento. – Por um plebeu? Ou outro nobre?

— Pela rainha. – Quinn falou e esperou pelo grito, mas apenas ouviu o silêncio, olhou para Rachel que lhe encarava com surpresa. – O que? O que foi?

— Você vai explorar a bissexualidade de Beth? – Rachel falou em voz baixa. – Tem certeza que é a melhor opção?

— Por que não seria? – Quinn estranhou a pergunta da mulher. – Eu já tinha feito isso antes, ela dormiu com mulheres.

— Mas você quer que ela se apaixone. – Rachel continuou falando no mesmo tom. – Por uma mulher.

— Ok… — Quinn franziu as sobrancelhas. – E isso seria ruim por…?

— Não é ruim. – Rachel se apressou em falar. – Não é mesmo, mas você me pegou de surpresa. Isso é uma coisa grande Quinn, é absurdamente grande. Beth Stern é fenômeno mundial está se tornando ícone da cultura pop e você fará com que ela se apaixone por uma mulher. Isso é… fantástico! E é de uma coragem absurda.

Quinn sentiu o alívio lhe inundar quase imediatamente, respirou fundo e deixou um pequeno sorriso aparecer- Eu não deveria estragar todas as surpresas. – Quinn salientou e imediatamente viu Rachel fazer bico. – Ok… ela se chama Rosalinda… ela é um pouco mais nova e a imagino sendo uma boa estrategista. Ela é justa, mas está aprendendo…a minha ideia é que ela vá se tornando uma verdadeira rainha ao longo da construção da história. Mas ela tem que ser… ela tem que ser mais do que apenas uma governante… ela tem que ser humana. Ela tem que ser mais do que apenas uma coroa.

— Parece que eu posso me apaixonar por ela. – Rachel inclinou a cabeça. – Você pensou em como elas vão se apaixonar?

— Eu quero que primeiro seja uma atração física… — Quinn meneou com a mão. – Elas são mulheres de poder… Rosalinda é um poder político enquanto Beth é o poder físico. Elas são atraídas uma para a outra, elas gravitam em torno uma da outra… Rosalinda é atraída por todo o mistério e escuridão que rodeia Beth e Beth é atraída pela leve arrogância e pelo magnetismo que Rosalinda tem.

— E então…

— Elas se envolvem e a minha ideia é que o tesão acabe se tornando algo mais conforme elas vão realmente se conhecendo. – Quinn olhou para ela rapidamente antes de voltar sua atenção para a estrada. – Mas ainda tenho que pensar nisso.

— O livro já tem nome?

— Não definitivo, mas tem um rondando a minha mente… — Quinn deu um pequeno sorriso. – O nome do Ducado de Beth…

— Que seria?

— Acrab. – Quinn respondeu calmamente. – É uma estrela, a maior parte das locações serão nomes de estrelas e astros celestes na verdade…

— Você já falou com sua editora? – Rachel voltou a mão para a coxa da mulher.

— Ainda não, quero ter algo mais… quero montar meu enredo de base com mais estrutura antes de falar algo. – Quinn balançou a cabeça e soltou um suspiro. – Eu sei que vou ter que defender meu caso muito bem para eles.

— Acha que eles irão reclamar? – Apertou a perna com um pouco de apreensão.

— Existe a possibilidade, eu quero que seja uma história mais adulta e menos adolescente. – Respondeu com um suspiro. – Eu quero crescer e a história está pedindo por isso. Basta saber se vão comprar a minha ideia ou se eu vou ter que entrar em uma guerra com eles.

— Tenho certeza que você vai conseguir defender seu caso. – Deu um pequeno sorriso. – Mudando de assunto, vamos ficar com Shelby esse final de semana?

— Não, vamos ficar na minha casa. – Quinn deu um pequeno sorriso. – Eu tenho uma casa em Los Feliz, fica a uns 8/10 minutos de Shelby na verdade…

— Espera… — Rachel ergueu a mão. – Você tem uma casa em Los Angeles?

— Sim, eu comprei tem alguns meses… estava cansada de sempre ficar em hotéis quando ia para Los Angeles. – Quinn encolheu os ombros. – Acabei pegando algum dinheiro e comprei uma casa aqui… acredite, me saiu mais barato no final das contas.

Rachel a encarou em silencio por um tempo antes de Quinn a olhar.

— Eu não quero falar sobre dinheiro, até porque não acho que chegamos nesse nível ainda, mas…

— Os livros me trazem uma boa renda. – Quinn a interrompeu. – Mas quando meu avô materno faleceu ele me deixou um fundo fiduciário, então eu fiz o que o velho me ensinou e o que eu basicamente aprendi durante toda a minha adolescência em que eu não tinha dinheiro suficiente ou uma casa para morar. Eu investi, apliquei quase tudo na corretora de valores da família da minha mãe… vovô era um homem de… bem… posses… então eu tenho uma renda que me deixa confortável.

— Ok… — Rachel olhou pela janela e ficou em silencio.

— Rachel. – A chamou com a voz mansa. – Eu…

— Apenas quero deixar uma coisa clara. – Rachel a interrompeu se virando de supetão. – Não quero seu dinheiro e posso pagar por minhas coisas.

Quinn franziu as sobrancelhas e a olhou rapidamente.

— Eu não disse que você queria ou que não podia. – Se defendeu quase que imediatamente. – Eu nunca iria sugerir nada disso, pelo amor de Deus.

— Apenas…

— Ok Rachel, eu entendi. – Quinn estalou e respirou fundo antes de abaixar o tom. – Ok… me desculpe… apenas, por favor, não insinue que eu quero te bancar.

Rachel se calou e voltou a olhar pela janela, elas poderiam ficar em silêncio por um tempo, mas algo estava incomodando Rachel.

— Posso perguntar algo? – Ela se virou para a loira e percebeu a força com a qual Quinn segurava o volante.

— Pode.

— O que aconteceu com seu pai? – Rachel perguntou cautelosamente. – E eu lembro que você tinha uma irmã…

— Não falo com Russel desde o acidente de carro. – Quinn apertou a mandíbula a fazendo saltar, mas sua voz era calma e controlada. – Ele apareceu no hospital depois que eu estava acordada, fez um grande show dizendo a minha mãe que ele pagaria as contas médicas e a fisioterapia. Afinal de contas esse era o seu dever cristão como pai, mamãe o expulsou aos berros dizendo que não precisava do dinheiro dele para nada.

— E como vocês fizeram com as contas? – Rachel franziu as sobrancelhas. – Quer dizer…

— Como eu te disse… meus avós maternos não eram exatamente pobres e mamãe pode não parecer, mas tem um diploma em psicologia que ela resolveu tirar da gaveta. Então ele sumiu… eu sei que ele continua em Lima, mas não tenho notícias de nada.

— E sua irmã? – A morena manteve o tom de voz controlado, ela se lembrava vagamente da irmã mais velha de Quinn.

— Frannie… — Quinn lambeu os lábios. – Ela… mora aqui em LA, é casada com um chef de cozinha e tem um filho…

— Ah isso é bom, então sua mãe está perto das duas filhas. – Rachel sorriu, mas percebeu a tensão na loira e franziu as sobrancelhas. – Acho que não fica…

— Frannie não aceitou muito bem o HIV. – Quinn apoiou a cabeça contra o encosto de couro e respirou fundo. – Ela cortou relações comigo e mamãe não ficou feliz com isso, elas acabaram discutindo e Frannie parou de falar com mamãe também. Ela concordou com Russel que eu era uma pecadora que estava sentenciada e que não podia compactuar com isso. Me faça um favor… não fale sobre isso perto da minha mãe.

— Não se preocupe. – Rachel levou a mão a coxa de Quinn e a apertou suavemente. – Não vamos mais falar disso.

*Diário*

Pararam nos portões que davam acesso ao condomínio, Quinn digitou a senha e esperou para que pudesse entrar. Rachel olhou as ruas sinuosas enquanto subiam a colina, ruas largas e bem cuidadas, arvores de um lado e casas do outro. Percebeu Quinn diminuir a velocidade quando se aproximaram de um muro branco, bem… ela podia ver muito branco a loira abriu o portão da garagem que poderiam caber confortavelmente uns três carros e entrou.

— Temos algum tempo antes de eu ter que ir buscar Beth. – Conferiu o relógio enquanto saia do carro. – Acredito que Shelby vá querer que a gente jante por lá hoje.

— Não tem problema. – A morena murmurou movendo os músculos rígidos do pescoço, viu Quinn se ocupar em descarregar o carro. – Sua mãe deveria ter vindo conosco.

— Ah ela tinha uma reunião na igreja hoje mais tarde, ela vem amanhã. – A loira explicou pegando a mala de Rachel que era mais pesada e sua mochila com algumas de suas coisas antes de abrir a porta traseira e estender a mão para soltar o cachorro do cinto de segurança canino. – Vamos rapaz, chegamos.

Arthur a encarou mal-humorado antes de bocejar e descer do carro, ele se sacudiu e se afastou indo se sentar na porta que daria para a parte de trás da cozinha.

— Eu já vou te dar seu biscoito. – Quinn resmungou fechando a porta do carro, teria que voltar para tirar a capa protetora antes de buscar Beth.

Ela olhou para uma Rachel que ria baixinho pelo mal humor do animal.

— Vem, vou te mostrar a casa. – Se aproximou da porta e digitou o código no painel embutido a mesma.

Abriu a porta e o cachorro disparou para dentro, deixou a morena passar na sua frente. A lavanderia ficava a direita da porta, o chão de linóleo branco assim como as paredes… a cozinha seguia com o mesmo piso de linóleo branco com armários e bancadas da mesma cor, o que sobressaia eram os eletromesdicos de inox, mas Rachel não conseguiu reprimir a sensação de frio que a cozinha lhe passou. A melhor coisa sem dúvida era a parede de vidro do chão ao teto lhe dando uma ampla visão de Los Angeles. Quinn estava parada um pouco mais atrás.

— Ali eu tenho uma mesa menor quando não quero usar a mesa principal. – Ela apontou para um ponto mais escondido, Rachel avançou e percebeu que era um canto circular com mais janelas estreitas que poderiam facilmente montar um painel da cidade. – A mesa principal.

Uma longa mesa de vidro se estendia em sua frente, Rachel percebeu que ela já estava encima de madeira clara, e a mesa tinha uma visão ampla para a sala que ficava em um nível abaixo. Nichos faziam vez de guarda corpo e ela viu algumas fotos e pequenas estátuas espalhadas por ele.

— A porta principal. – Quinn apontou enquanto descia a escada espaçosa de cinco degraus até a sala de estar.

Um sofá em forma de U era a principal peça, Quinn pousou as bolsas encima do sofá e viu que Arthur já estava deitado na cama perto da janela que só não era de parede inteira pois tinha uma porta em um dos cantos. – Ali é a varanda e como você pode ver… LA se abre para você.

— É lindo. – Rachel se aproximou vendo a quantidade de árvores e ruas que se abriam a sua frente, voltou sua atenção para a sala… a lareira na frente do sofá estava apagada e acima dela tinha uma televisão, o tapete que estava no chão era felpudo.

— Lá encima… — Quinn apontou para cima e Rachel percebeu que existia um guarda-corpo de vidro que dava visão para o andar de baixo. – É a suíte master e uma das três suítes… a outras duas suítes são seguindo esse corredor e do lado está meu escritório e mais um banheiro menor… embaixo é a piscina, a sala de mídias e uma sala que eu juro que é uma academia… basicamente tudo isso.

Quinn se mexeu de um lado para o outro enquanto Rachel continuava a olhar pela sala.

— E tudo é tão branco e com tantas janelas panorâmicas? – A morena perguntou com as sobrancelhas arqueadas. – Na verdade… seu apartamento em São Francisco também é assim.

— É… eu gosto de branco e de luz então… é… — Quinn encolheu os ombros e foi pegar as vasilhas vazias de Arthur para encher. – Eu acredito que precisamos comprar alguns mantimentos para a semana… eu sei que trouxemos algumas coisas, mas enfim…

— Por que tantas janelas? – Rachel perguntou distraída. – Quer dizer…a vista sem dúvida é maravilhosa, mas…

— Eu passei muito tempo me escondendo no escuro. – Quinn respondeu parada no terceiro degrau da escada, estava de costas para Rachel. – Acho que alguns diriam que isso é quase um… estou fora do armário e quero o quanto de luz eu puder ganhar com isso.

Rachel a observou subir e desaparecer indo na direção da cozinha, suspirou esfregando a própria nuca. Elas ainda tinham um longo caminho a percorrer…

Notas finais
@just_someone13