Diário 2.0
41 Capítulo XLI - Fé
E como de praxe, mamãe vai operar e eu preciso me refugiar em Diário.
Se você me conhece… sabe que eu tenho um lado espiritual levemente aflorado. Dependendo do tempo que você está na minha vida, sabe o quanto eu reluto em lidar com isso. Sim, eu reluto.
Eu já recebi avisos. Já me foi mostrado. Mas eu tenho medo e se eu for sincera… eu nem sei do que tenho medo. Ultimamente tem sido difícil, eu tenho recebido mais e mais “ataques” espirituais… e a minha mãe sempre agiu como meu escudo nessas situações. Estou aqui remoendo o que eu posso ou não falar, o que eu devo ou não falar… e é difícil eu confesso.
Eu tenho uma missão pessoal, algo que eu vim para aprender nessa vida e eu não sei se consigo. E eu nem sei se estou realmente tentando e isso é algo que é ainda pior… porque eu nem sei por onde começar. Por onde começar? Você tenta amar o seu próximo, mesmo quando ele é a pior pessoa que você conhece? Você tenta não desejar mal a ele? Você tenta não se levar pela vaidade ou pelo orgulho? É difícil sabe… quando você se vê já está resmungando que foi uma facada mal dada.
Quinn precisa aprender. Eu preciso aprender. Eu só não sei se conseguimos, quer dizer… eu meio que tenho que fazer com que ela consiga… para ter um pouco de fé e esperança que eu também vou. Eu apenas tenho que descobrir como.
Hiram suspirou, passou o lenço sobre o rosto enquanto se apoiava na parede. Respirar. Era a única coisa que ele podia pensar. Respirar. Rachel estava bem. Respirar. Quinn não estava.
Os passos fortes e apressados lhe fizeram erguer a cabeça. LeRoy estava vindo, furioso ele poderia dizer, atrás dele estava Jeremy e os olhos do rapaz estavam preocupados.
— O que aconteceu? – LeRoy rugiu assim que estava perto o suficiente do ex-marido.
— Elas sofreram um acidente de carro, um motorista bêbado atravessou uma placa de pare. – Hiram respondeu com a voz cansada. – Quinn freou o carro, mas não conseguiu evitar a colisão. Rachel… — Ele parou lambendo os lábios. – Rachel bateu com a cabeça no painel do carro, o cinto estava frouxo ao que parece. Ela teve uma concussão e está em observação porque desmaiou, ela fez uma tomografia e não apresentou nenhum sinal de hemorragia, mas um traumatismo leve.
— Mas Rachel está bem, não é? – LeRoy perguntou nervoso.
— Está, ela está bem. – As palavras eram calmas e tranquilas, tudo o que Hiram não estava sentindo.
Passos mais suaves atraíram sua atenção. Travis era um homem alto, grisalho e de intensos olhos azuis sempre alertas, o rosto era barbeado e a postura firme.
— Falei com o neurocirurgião. – A voz era mais grave do que a de LeRoy. – Eles querem colocar Quinn em coma induzido para conseguir realizar os exames. No momento os espasmos estão muito fortes e a frequência está aumentando, ela ainda não teve uma reação positiva aos analgésicos.
— Já conversou com os Fabray? – Hiram ignorou o olhar do ex-marido.
— Ainda não, mas Quinn quer ver Rachel antes que o procedimento seja feito.
Hiram passou a mão pelo rosto sentindo a própria barba que precisava ser feita e suspirou.
— Precisamos falar com Frannie, não acho que Judy ou Russell possam tomar essa decisão. – O Berry murmurou e pelo canto dos olhos viu o namorado se mexer, ergueu a cabeça e o encarou desconfiado. – O que?
— Quinn já autorizou. – Travis encolheu os ombros. – Eu estava na sala, ela autorizou o procedimento.
— Sem assinar? – Hiram arqueou as sobrancelhas.
— Ela quer o procedimento. – Travis suspirou. – É a melhor decisão, Hiram. A coluna está estabilizada, os primeiros exames não apontam nenhuma lesão… precisamos de mais exames para entender o porque dela não estar se mexendo.
Hiram negou com a cabeça antes de apertar a ponte do nariz.
— Vá atrás de Frannie e converse com ela, explique o que a irmã dela quer e para os pais dela. – Hiram respirou fundo e olhou para LeRoy. – Levarei meu ex-marido para ver nossa filha.
Só então Travis olhou para LeRoy que retribuiu o olhar com uma sobrancelha arqueada. O moreno fez um aceno curto com a cabeça para ele, que não foi retribuído antes de se virar para Hiram e o beijar suavemente na bochecha.
— Eu quero você na sala quando colocarem Quinn em coma. – Hiram falou enquanto o namorado se afastava, Travis parou para olha-lo. – Eu não me importo de cobrar cada maldito favor que já fiz dentro deste hospital. Você vai estar na sala enquanto o exame for feito, maldição se eu puder exigir isso você vai fazer o exame.
— Hiram…
— Não. – O Berry ergueu o dedo o calando. – Eu estou te pedindo, então, por favor.
— Ok… eu vou fazer o que você quiser e o que for permitido. – Travis concordou com a cabeça. – Se isso acalma todo mundo e se isso acalmar Rachel.
— Isso vai. – Hiram concordou com a cabeça.
Travis se afastou pelo corredor e Hiram continuou encarando a parede na sua frente enquanto LeRoy lhe encarava firmemente.
— Quem é esse?
— Meu namorado. – Hiram o encarou. – Agora você vai ser um pai amoroso com Rachel, não vai estressa-la e nem acusar Quinn de absolutamente nada. Ela precisa de você, então esteja lá.
Hiram deu as costas para o ex-marido sem se importar em ver sua reação. Caminharam até o quarto de Rachel, a morena estava deitada com uma bag de soro pendurada no apoio. Ela abriu os olhos vendo o pai, sorriu, mas o sorriso perdeu um pouco de força quando viu LeRoy e Jeremy.
LeRoy avançou na direção da filha a pegando pela mão, beijou os dedos da mulher e deu um sorriso preocupado.
— Como você está se sentindo?
— Com uma dor de cabeça horrível. – Rachel forçou um sorriso antes de olhar para Hiram. – Alguma notícia?
— Tudo continua na mesma, ela está acordada e tem os reflexos intactos. – Hiram acariciou cuidadosamente os cabelos escuros. – Mas ainda não consegue mover o corpo, estão tentando um coquetel de analgésicos e relaxantes musculares para tentar amenizar a dor e os espasmos.
— Ela ainda está sentindo dor? – Rachel murmurou fechando os olhos.
— Sim, ela ainda está sentindo dor. – Hiram respondeu ainda acariciando os cabelos da filha. – Eles vão coloca-la em coma para poder realizar mais exames.
— O que? – Rachel arregalou os olhos.
— Ela quer te ver antes do procedimento ser feito. – Hiram mantinha a voz o mais calma possível.
— Eu quero ir lá.
— Então assim que as coisas forem confirmadas, eu vou te levar lá, mas eu preciso que você mantenha a calma e a positividade. – Hiram sorriu para ela. – Travis está em contato com alguns dos melhores neurocirurgiões do país, ele vai descobrir o que está acontecendo. Vamos ter fé e entregar nas mãos do senhor.
Rachel apertou a mão do pai.
— O senhor falou com Shelby?
Ela viu a expressão de Hiram ficar tensa por um momento.
— Ela já conversou com Beth e…
— E?
— Beth tentou fugir para vir para cá. – Hiram suspirou e segurou o rosto de Rachel assim que o medo se espalhou pelo rosto da mais nova. – Ela ligou para o Ben pedindo que ele fosse a buscar no aeroporto, parece que ela comprou uma passagem com o cartão de emergência que Quinn deu para ela. Ben avisou a Judy que ligou para Shelby. Ela está bem e está em casa.
— Beth enlouqueceu? – Rachel sentiu a voz esganiçar.
— Ela está com medo. – Hiram negou com a cabeça e suspirou. – Noah morreu não tem dois meses e então ela ouve que a mãe sofreu um acidente de carro e estava desacordada. Ela está apavorada.
Rachel apoiou a cabeça no travesseiro, a dor atravessando seu crânio.
— Me deixa falar com Shelby.
Ela estava bem ciente que LeRoy estava irritado ao seu lado, mas ela não ligava para isso agora. Ela precisava falar com Beth.
— Quinn já sabe? – Perguntou enquanto o pai lhe dava o celular que estava fazendo a chamada de vídeo.
— Não.
— Nem deve. – Rachel olhou para a tela.
Mais alguns instantes antes do rosto de Shelby aparecer na tela.
— Rachel. – A voz de Shelby era cheia de alivio.
— Oi mãe. – Rachel ignorou a descrença no rosto de LeRoy, mas sorriu com o olhar emocionado de Shelby. – Eu estou bem, mas acho que papai já te disse isso.
— Já, ele tem me deixado a par de tudo, mas é tão bom ver você. – Shelby respirou fundo. – Nós estamos chegando na sexta, Judy e eu concordamos que é melhor ter alguma posição sobre Quinn antes de Beth a ver.
— Eu concordo. – Rachel lambeu os lábios. – Papai me disse o que ela fez, posso falar com ela?
— Pode, ela está no quarto. – Shelby se moveu. – A deixei de castigo.
Rachel concordou com a cabeça e fechou os olhos por um momento, a dor estava forte. Ouviu a batida na porta e então a voz de Shelby falando com Beth.
— Rach? – A voz ansiosa da menina a fez abrir os olhos.
— Oi meu amor. – Rachel tentou manter uma voz levemente feliz. – É tão bom ver você, sabia?
— Você está bem? E a minha mãe? – A menina perguntou rapidamente.
— Calma, eu estou bem. – Rachel arqueou as sobrancelhas, mas o movimento fez o pulsar em sua cabeça aumentar. – Eu só preciso que você diminua o tom de voz, minha cabeça está doendo muito agora. Sobre a sua mãe, ela está acordada.
Viu Beth morder o lábio inferior e suspirou.
— As coisas não estão boas, meu amor. – Rachel tentou aliviar a tensão em sua voz. – Sua mãe está acordada, mas não consegue mover o corpo. Mamãe te disse isso, não disse? – Viu Beth concordar com a cabeça. – Então, ela vai ter que fazer mais exames para descobrir o que está acontecendo. Mas Beth, eu sei que você tentou vir para cá sozinha.
— Mamãe não quer…
— Beth. – Rachel falou firme e viu a menina parar. – Não tem justificativa. Você não pode pegar um avião sozinha, tem noção de quão preocupante seria para todos nós se você tivesse feito isso? Além de toda a tensão que já estamos aqui, ainda teríamos que nos preocupar onde você está, se está bem ou não.
— Eu avisei ao tio Ben, mas ele me dedurou.
— Ele não te dedurou, ele fez o que qualquer pessoa responsável faria. – Rachel a admoestou. – Seus avós estão loucos aqui, e se a expressão do meu pai quando me contou foi um quinto da angustia que eles sentiram quando Ben contou… você vai ter sorte se não estiver de castigo até a universidade quando sua mãe descobrir.
— Eu sei. – Beth abaixou o rosto. – Mas eu preciso ver a minha mãe.
— Eu sei meu amor, mas agora não é possível. Ninguém pode ver a sua mãe nesse momento, eu não vou te esconder nada Beth, mas preciso que você tenha maturidade para entender as coisas e que nesse momento você tem que ficar ai.
— Promete que não vai me esconder nada? – Beth pediu.
— Promessa de irmã. – Rachel falou com segurança. – Me promete que vai se comportar e agir como uma menina responsável?
— Promessa de irmã.
*Diário*
Benjamin estava sentado no último banco da capela olhando para Russell e Judy Fabray sentados no banco da frente. Eles estavam rezando juntos desde que Judy chegara, Frannie estava resolvendo tudo o que fosse preciso enquanto Benjamin tinha tomado para si a tarefa de vigiar os dois mais velhos.
*Diário*
Dor. Dor. Dor.
Ela só sentia dor.
Dor.
Seu corpo se mexia contra a sua vontade. E dor. A dor queimava por cada centímetro de sua pele. Por cada milímetro de músculo. Ela não podia se mover, apenas encarar o teto branco.
— Você ainda está ai? – Sua voz era rachada, quase suplicante.
— Você tem fé? – A resposta veio em sua voz firme e saudável. – Eu disse Quinnie, eu fui você, eu sou você e eu serei você.
— Você é apenas a minha mente enlouquecendo, não é? – Podia sentir as lágrimas quentes queimando no canto de seus olhos, quanta dor alguém poderia suportar.
Seu rosto um pouco mais velho entrou na frente de seus olhos, aquela era uma Quinn saudável, mas parecia tão abatida.
— Eu sou fruto de muitas coisas Quinnie, eu sou o fruto da sua dor, eu sou o fruto da sua esperança, eu sou o fruto da sua mente sim… de uma mente que precisa de um descanso e então me colocou aqui para te lembrar que é necessário ter fé.
— Está doendo. – Quinn murmurou, seus dentes cerrados.
— Eu sei, eu estou sentindo. – A mais velha respondeu. – Eu sinto o que você sente.
— Então como você está em pé? – Engoliu em seco, ela queria tanto gritar, mas não conseguia.
— A pergunta é porque você não está, Quinnie. – Arqueou sua infame sobrancelha. – A única coisa que está te mantendo nessa cama é você mesma. O que você está sentindo é a dor que você acumulou ao longo de toda a sua vida, seu corpo está pedindo para expurga-la. Represar sentimentos causa dor, Quinnie.
— Filosofia, sério? – Suspirou rangendo os dentes.
— Eu estou sentindo a mesma dor que você está e eu estou em pé. – A mais velha ignorou o sarcasmo da mais nova. – Eu sou você Quinn. Eu sou você. Eu sou quem você quer ser. Eu sou o futuro que você deseja. E eu estou em pé. Você pode ficar em pé.
— Eu posso mandar a mim mesma para o inferno? – Resmungou de volta, as lágrimas quentes escorrendo pelas suas bochechas.
— É o que você faz toda vez. – Acariciou os cabelos da sua versão mais jovem, se inclinou na direção dela. – Se mova, Quinnie. Se mova.
A porta se abriu e Quinn piscou já não vendo mais a si mesma, respirou fundo e forçou um sorriso.
— É um dos meus cheiros favoritos no mundo inteiro. – Tentou afastar a tensão de sua voz.
Rachel delicadamente segurou em sua mão e Quinn tentou não gritar. O simples toque era como se ela estivesse sendo quebrada em milhões de pequenos pedaços. Hiram cuidadosamente afastou a cadeira de rodas e ajudou a filha a ficar em pé.
Quinn não sabia, mas os pais haviam entrado na sala, junto a Travis e toda a equipe médica que iria lhe deixar em coma.
— Oi amor. – Tentou deixar sua voz firme, mas Rachel percebeu quão tensa ela estava, a forma como a mandíbula estava firme era uma excelente dica. – Como você está?
— Como você está? – Rachel retornou a pergunta, seus olhos analisando Quinn.
— Perfeita. – Quinn suspirou, seus olhos bebendo de Rachel. – Você está aqui e é mais do que eu poderia pedir. Não, eu tenho algo para te pedir.
— O que? – Rachel pediu com as lágrimas querendo cair por seus olhos escuros.
— Cante para mim enquanto eles me apagam, pode ser? – Quinn pediu com a voz mais fraca. – Eu quero ouvir sua voz.
— O que você quer ouvir?
— O que você quiser cantar para mim. Eu só preciso que você cante.
Rachel lambeu os lábios antes de se inclinar e beijar suavemente os lábios da loira. Se afastou um pouco acariciando o rosto de Quinn.
— Ana bekôach gedulát yeminchá tatir tzerurá. – Rachel começou, a voz melódica e gentil. — Kabél rinát amcha sagveinu tahareinu norá.
Quinn franziu as sobrancelhas ligeiramente sem entender o que a namorada estava cantando.
— Ana bekôach gedulát yeminchá tatir tzerurá. – Rachel repetiu, seus olhos fazendo os de Quinn cativos. — Kabél rinát amcha sagveinu tahareinu norá.
A morena fez um leve aceno com a cabeça enquanto acariciava os cabelos de Quinn e repetia as duas frases pela terceira vez. Hiram se afastou um pouco deixando a filha ter o seu momento com a namorada, seus olhos castanhos cheios de lágrimas.
— Na guibór dorshéi yechúdcha kevavát shomrem. – Rachel acariciou a maçã do rosto de Quinn. — Barchem taharem rachamei tzidkatechá tamid gomlem.
Quinn sentiu o corpo começar a relaxar, sem ter certeza se era o que os médicos estavam aplicando em sua veia ou se era a voz de Rachel. Em algum momento ela percebeu que a dor havia abrandado um pouco.
— Hassín kadósh beróv tuvchá nahél adatechá. – A voz de Rachel abaixou gentilmente. — Yahíd ge’eh le’amchá p’nêh zochrei kedushatechá.
O sono começou a lhe tomar e Rachel se aproximou um pouco mais.
— Shavateinu kabél ushmá tza’akateinu yódea ta’alumot. – Quinn mal conseguia ouvi-la. — Baruch shem kevód malkuto le’olam va’ed.
Rachel apoiou a testa contra o peito de Quinn, o choro fraco lhe atingindo. As mãos de Hiram a puxaram gentilmente a afastando para a enfermeira poder colocar o oxigênio em Quinn e o médico examina-la.
Eles saíram para o corredor, Rachel na cadeira de rodas outra vez. Russell amparava Judy.
— Rachel. – O Fabray a chamou. – O que foi aquilo que você cantou?
— É uma prece. – Hiram respondeu pela filha. – Uma das mais poderosas que temos. Cada uma das linhas dessa oração deve ser meditada em um dia da semana, cada uma dessas meditações possui um significado, uma conexão nossa a D’us.
Rachel fechou os olhos e respirou fundo.
*Diário*
Ela encarava aquele céu azul, limpo. Seu corpo não doía. Sua mente estava calma. Leve. Leve como ela nunca se sentiu na vida.
Se levantou sentindo a grama macia, ela não podia ver nada em léguas para qualquer canto que olhasse. Respirou fundo, aquele ar puro e olhou para cima mais uma vez. O sol morno tocando seu rosto quase como uma carícia.
— Eu nem sabia que era possível ficar cansada de si mesma. – Falou em voz alta. – Então, onde estamos agora?
— Na sua própria mente. – A mais velha respondeu. – Você está presa dentro de si mesma, Quinnie. Agora você me diz… isso é algo bom ou ruim?
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