Diário 2.0
42 Capítulo XLII - Bifurcação
O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.
— Fernando Sabino -
Beth respirava com força, o rosto vermelho enquanto ela encarava Ben que estava sentado na cama. Ela olhou para baixo fungando.
— Você me traiu. – Ela choramingou.
— Não Beth, eu te protegi. – Ben respondeu com calma. – Eu apenas protegi você.
— Eu não vi a minha mãe. – Beth o encarou, passou a mão fechada em um punho pela bochecha. – Eu não me despedi da minha mãe e agora ela está morta.
— Sua mãe não morreu Beth. – Benjamin engoliu em seco.
— Então porque ela não acorda? – A menina ergueu a voz. – Ela não acorda, tio Ben. Rachel me disse que ela não tem nada, que os exames estão normais, ela tinha que acordar.
— Beth… — Benjamin suspirou. – Eu não sei, eu não tenho essa resposta.
Beth deu as costas para o tio e segurou os cabelos claros, o choro dela fazendo com que Benjamin se sentisse impotente.
— Eu preciso dela, tio. – Beth olhou para ele.
— Eu sei querida. – Benjamin limpou a garganta tentando controlar a própria vontade de chorar. – Eu sei e eu também sei que ela precisa de você.
— Então porque ela não acorda? – Beth perguntou.
— Eu não sei, B. – Benjamin suspirou e abriu os braços. – Vem aqui.
Beth se aproximou sentando no colo do tio, enfiando o rosto contra o pescoço dele. Benjamin esfregou as costas da sobrinha tentando conforta-la. O mais velho olhou para cima e fez uma prece silenciosa de que a irmã acordasse logo.
*Diário*
Rachel estava com a cabeça apoiada na parede, sentiu Santana sentar do seu lado. A judia fechou os olhos apertando a mão com força.
— Ela não acorda, Santana. – Rachel murmurou.
— Ela vai acordar, só está sendo teimosa como sempre foi. – Santana respondeu segurando a mão da Berry. – Sabe que Quinn odeia fazer as coisas quando as pessoas querem.
Rachel sentiu a lágrima escorrer pelo seu rosto e os dedos de Santana as secando. Virou o rosto para olhar a latina.
— Quinn vai acordar. – Falou com calma e certeza. – Talvez ela só precise dormir para consertar o que está errado. Então quando ela acordar, vai estar sentindo e se mexendo outra vez.
— É?
— É. – Santana sorriu para ela. – Estamos falando de Quinn Fabray, merdas acontecem com ela e ela sempre sai por cima.
Ouviram os passos e olharam para o corredor, seus alunos estavam vindo pelo corredor.
— Meninos, o que vocês estão fazendo aqui? – Rachel passou a mão pelo rosto se levantando.
Becca olhou para os companheiros antes de falar.
— Não queremos que a senhora fique sozinha aqui. – A menina falou antes de olhar para Santana. – Com todo o respeito Dra. Lopez.
— Meninos, vocês não precisam. – Rachel olhou para Santana que encolheu os ombros em resposta. – Não é um ambiente saudável para vocês.
— Não se abandona um homem ferido, não é? – Evan falou atraindo a atenção dela. – Acho que também não se abandona uma mulher ferida, certo?
Rachel olhou para ele e sentiu a vontade de chorar voltar. O jogador andou até ela e a envolveu em seus braços.
— Vai ficar tudo bem, Srta. Berry. – Ele murmurou. – Vai ficar tudo bem.
*Diário*
Sua pele normalmente branca estava vermelha. Ela estava cansada, sedenta, faminta… olhou em volta e continuava sem ver nada por léguas.
— A mente é algo curioso, não é?
— Eu acho que eu nunca odiei tanto o som da minha própria voz. – Quinn respondeu irritada, olhou para a mulher que estava em pé de forma impecável. – Me explica como você está tão bem?
— Estamos presas dentro da nossa própria mente. – A mais velha respondeu. – Para mim é algo bom.
— É? E porque para mim, não é? – Se levantou sentindo o corpo reclamar. – Por que está esse sol escaldante? Por que eu estou com tanta sede e fome?
A mais velha encolheu os ombros em resposta.
— É a minha mente.
— Sim. – A mais velha respondeu. – É a sua mente, Quinnie e se você está do jeito que está… é por sua culpa. Na verdade… você está aqui por culpa.
Quinn ergueu a cabeça, mas sua versão mais velha já tinha sumido outra vez. Ela precisava de água, de alimento e de abrigo, olhou o seu entorno tentando achar algo. A única coisa que ela viu foi um coelho, branco e fofo. Quinn franziu as sobrancelhas sem entender de onde diabos havia saído aquele coelho.
— Bem, se é assim que você quer… — Sua versão mais velha apareceu do seu outro lado a assustando.
Olhou para ela, e ela usava um colete por onde uma corrente de ouro estava pendurada. Quinn soube instintivamente que a corrente estava presa em um relógio de bolso e assim que o pensamento lhe atingiu, a mais velha puxou o relógio e piscou travessamente.
— Estamos atrasadas. – Falou com um sorriso. – Estamos muito atrasadas, Quinnie.
E então ela correu. Quinn ficou sentada olhando sua própria imagem correr e então parar, olhar para trás com um sorriso que Quinn estava começando a odiar e pular dentro de um buraco. Permaneceu sentada.
— Me livrei dela? – Murmurou sem entender.
— Não. – Sua versão mais velha respondeu aparecendo ao seu lado.
— Filha da… — Murmurou sentindo o coração acelerar com o susto, ouviu sua própria risada e olhou para a loira mais velha.
— Eu disse, estamos atrasadas. – Sua versão mais velha a pegou pelo braço e a puxou com uma força surpreendente.
— Atrasadas para o que? – A mais nova perguntou enquanto era obrigada a correr.
Elas pararam na borda do buraco que fora cavado no chão de terra, a mais nova esticou o pescoço tentando ver quão fundo ele era. A mais velha a empurrou com força.
A mais nova sentiu o corpo girar no ar, em cambalhotas que ela não podia controlar. Era como se seu estômago estivesse revirando do avesso e então tudo parou. Ela abriu os olhos e estava firme em seus próprios pés.
Altas sebes lhe cercavam, Quinn só podia ver um longo corredor para qualquer lado que olhasse.
— Acho que a resposta para a sua pergunta é... ironicamente... um labirinto. – Sua versão mais velha falou lhe dando um susto.
Quinn se apoiou em uma das sebes e olhou para sua versão mais velha que parecia interessada em examinar o emaranhado de galhos da cerca viva.
— Quem diria que se apaixonar por Rachel Berry te faria ser tão propensa a dramas.
*Diário*
Russell estava ajoelhado no chão, o rosário enrolado na mão junto a corrente de Quinn. Os dois crucifixos pendendo, balançando suavemente. Benjamin estava sentado no último banco da capela, havia chegado tinha meia hora e assumira o lugar da irmã mais velha. Frannie fora ficar com a mãe.
— Pai, eu errei. – A voz rouca de Russell assustou Benjamin, tinha mais de dois dias que ele não ouvia o pai falar. – Eu errei enquanto homem, pai e marido. Eu errei quando fiz minha filha acreditar que ela deveria ter medo do senhor e não amor.
Benjamin se encolheu, a voz do pai não era forte e alta como ele se acostumara. Era uma voz fraca, rachada… ele estava sofrendo e não escondia isso.
— Ela está com raiva do senhor, ela acredita que o senhor está a punindo pelos pecados que cometeu. – Russell fechou os olhos e respirou fundo. – Pai, eu estou tentando sentir o senhor… tentando estar em tua presença, mas no momento eu me sinto no inferno. Eu estou ajoelhado perante ti, implorando pela tua salvação. Salve-a, olhe dentro do coração da minha filha e veja quão cheio de amor ele é.
Benjamin respirou fundo e fechou os olhos.
— Eu falhei pai, são os meus erros e não os dela. Eu estou tentando, estou tentando… estou lutando contra as minhas fraquezas. – Russell abaixou a cabeça apertando o rosário com mais força em suas mãos. – Confesse e seja perdoado. Eu me confessei pai, eu me penitenciei, eu estou tentando me redimir… então não a tire de mim, pai. Não me dê o gosto da salvação e em seguida me arranque ela. Eu aceito a tua penitência, mas puna a mim pai.
Benjamin se levantou e lentamente caminhou até o pai se sentando ao lado dele. Russell ergueu o rosto, mas não limpou as lágrimas em seu rosto marcado. Russell Fabray não estava se importando com os cabelos loiros ensebados e despenteados ou com a barba que não era feita há dias.
— Ele está aqui. – O mais novo esticou a mão e agarrou a do pai. – Ele está aqui e eu sei que o senhor o sente. Ele perdoou o senhor e perdoou Quinn há muito tempo, perdoou antes mesmo de vocês pensarem que precisavam de perdão. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido… o senhor precisa se perdoar pai.
— Não posso perder a sua irmã. – Russell negou com a cabeça. – Eu não vou aguentar.
— O senhor está aqui e ele está vendo o senhor, está vendo a sua dor e o seu amor por ela. – Benjamin se ajoelhou ao lado do pai. – Se a salvação de Quinn for junto a ele só cabe a nós aceitar e esperar pelo momento em que vamos estar juntos outra vez. Morte não é punição, pai. Morte é a continuação da vida.
Russell olhou para o mais novo e viu as lágrimas contidas nos olhos verdes do filho.
— Eu preciso acreditar nisso, porque eu preciso ver a minha mãe outra vez. – Benjamin fechou os olhos por um momento antes de olhar para o pai e acariciar os cabelos imundos. – Eu preciso acreditar que Ele está fazendo o que é certo, mesmo que isso me doa. E eu preciso que o senhor entenda que tanto quanto o senhor precisa do perdão de Quinn, o senhor também precisa se perdoar.
Russell fechou os olhos e respirou fundo, Ben gentilmente o levantou.
— Agora se o senhor conseguir me perdoar por dizer isso, o senhor está fedendo e precisa de um banho. – Ele ofereceu um sorriso para o pai. – Vou levar o senhor em casa, para um banho, para comer algo e descansar um pouco.
— Eu tenho que ficar aqui. – Russell protestou.
— O senhor realmente quer que eu chame Rachel aqui? – Ben arqueou uma sobrancelha e Russell imediatamente viu a filha do meio refletida naquele gesto. – No momento ela está com Beth, mas eu sei que se ela te vir nesse estado vai berrar com todo mundo e eu não quero receber uma palestra de Rachel Berry.
Russell deu um sorriso fraco e deixou o filho lhe guiar para fora da capela.
*Diário*
Elas andavam pelo corredor estreitou até chegarem a uma bifurcação. Quinn olhou para a sua versão mais velha que deu de ombros sem verbalizar nenhuma resposta.
— Você é tão útil. – Resmungou olhando para o caminho bifurcado.
— We're a thousand miles from comfort we have travelled land and sea… — A mais velha começou a cantarolar e a se mover suavemente, a mais nova se virou para lhe encarar. — But as long as you are with me there's no place I'd rather be…
— Hey. – Quinn falou tentando fazer com que a outra parasse, mas só conseguiu que a mulher começasse a dançar.
— I would wait forever exulted in the scene as long as I am with you my heart continues to beat… — A mais velha sorriu para ela. — With every step we take Kyoto to the bay strolling so casually…
— Eu estou tentando tomar uma decisão. – Quinn se virou e empurrou sua versão mais velha contra as sebes.
— We're different and the same gave you another name. – A mais velha falou as palavras se inclinando para a frente, seu nariz quase tocando o nariz de sua versão mais nova. – Você sempre está tentando se decidir, Lucy. Esse é um dos problemas, não é? O fato de que você pensa… pensa… pensa e nunca consegue realmente se decidir.
Elas se encaram, cada uma sem querer recuar.
— Para onde vamos, Lucy? Esquerda? Direita? Voltar para o início? – A mais velha puxou o relógio de ouro de seu colete e mostrou o visor para a mais nova. – O tempo está passando, Quinnie… para onde vamos?
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