Diário 2.0

10 Capítulo X - Solidão


Eu sou péssima nos meus relacionamentos. Sério. Eu tenho a impressão que estraguei todos eles ou pelo menos boa parte deles. Quando eu não estragava tudo eu era sempre a garota certa na hora errada… no lugar errado. Então eu passei o último ano sozinha, é sério… surpreendente eu sei, meus amigos não acreditam nisso até hoje, mas eu resolvi que precisava focar em mim e me concentrar na minha vida. Aprendi que eu não posso exigir que outra pessoa me faça feliz, a minha felicidade depende única e exclusivamente de mim. Mas confesso que por mais que eu tenha aprendido a gostar de estar sozinha, em alguns momentos é… difícil… não ter alguém com quem dividir alguns fardos. Demi cantou que em alguns dias nós precisamos de alguém… hoje é um desses dias. Hoje é um daqueles dias que quando você diz que me ama eu queria que fosse mais do que como uma amiga. Hoje é um daqueles dias que eu queria tudo o que planejamos. Hoje é um dos dias que eu queria ser o suficiente para você. E hoje é um dia que eu entendi que ainda preciso aprender mais… ou como disse uma ex-namorada talvez seja só a minha lua em peixes ou o meu ascendente em câncer.

Quinn se afastou da sala para atender o celular, era uma chamada de vídeo. Suspirou vendo o rosto sorridente de Beth.
— Oi meu amor. – Sorriu para a filha. – Como foi seu dia?
— Foi bom. – Beth sorriu ainda mais, os cabelos loiros estavam presos em um arco para ficarem longe dos olhos verdes. – Posso falar com Rachel?
— Rachel está ocupada agora. – Quinn viu a filha amuar o rosto. – Foi um dia complicado meu amor, ela está conversando com alguns amigos. Mas sua tia Santana está aqui.
Beth sorriu e começou a pular.
— Posso?
— Pode. – Quinn voltou pelo corredor, viu Rachel parada perto da parede conversando com Finn, olhou para Santana que estava sentada no sofá conversando com Tina. – Santana, por favor.
A latina franziu as sobrancelhas antes de se levantar e ir até onde Quinn estava, a loira apenas virou o celular em sua direção.
— A melhor parceira de crime do mundo! – Santana sorriu pegando o aparelho. – Me diz, alguém te provocou no colégio outra vez?
— Não. – Beth sorriu para a tia. – Depois que eu derrubei a Maggie ninguém mais mexe comigo.
— Exatamente como a tia Tana ensinou. – Santana piscou para ela e viu a sobrancelha arqueada de Quinn. – Não me de esse olhar, você e eu vivíamos nos empurrando pelos corredores do McKinley.
— E eu gostaria que Beth não seguisse esse exemplo. – Quinn ergueu um pouco a voz para que a filha ouvisse.
— O que? – Santana franziu as sobrancelhas e olhou para Beth que sorria. – Ela não está ouvindo Q, a conexão está péssima.
A latina se afastou enquanto a garota ria, Quinn revirou os olhos e seguiu a mulher.
— Então, quer conhecer algumas pessoas que te viram pela última vez quando você tinha uns 3 anos? – Santana perguntou sorrindo, sabia que estava atraindo a atenção de todos na sala.
— Posso? – Beth sempre parecia animada em ser incluída em alguns dos aspectos da vida de Quinn.
— Mas é claro, a maioria aqui te viu na barriga da sua mãe. – Santana revirou os olhos, sentiu Quinn apertar sua cintura em um alerta para observar o que falaria para a menina. – Eles estavam na sala no dia que você nasceu, sabia?
Beth sorriu enquanto Santana andava na direção de Tina e Artie que olhavam com curiosidade para as duas.
— Aqui… a Tina você já conhece, não é? – Santana enquadrou a asiática.
— Sim! – A menina gritou animada. – Eu amo a voz dela em Kiss me, Kate e foi super injusto você não ter ganhado o tony ano passado.
Tina olhou para a pequena e arregalou os olhos.
— Oh meu Deus, Quinn e Rachel tiveram uma filha. – Ela brincou arrancando uma risada da menina. – Beth você é linda!
A menina sorriu encabulada, um tom rosado atingindo suas bochechas. Artie se apresentou para a menina que começou a enche-lo de perguntas sobre como era gravar um filme. Ele ria e ia respondendo as perguntas da menina sobre os diferentes tipos de câmera. Quinn sorriu sentindo o coração esquentar diante da filha interagindo com os antigos amigos. Ela estava tentando não ficar olhando para Rachel e Finn que conversavam em voz baixa no canto. Uma batida na porta lhe distraiu assim que Hiram saiu da cozinha e foi atender.
— Trouxemos as pizzas. – Jesse anunciou entrando com Sam e o namorado. – Kurt está vindo.
— Beth chame a sua mãe. – Santana instruiu vendo a menina ficar ainda mais curiosa. – Ela vai querer ver quem acabou de chegar.
Jesse apertou os olhos com curiosidade e olhou na direção de Quinn que não estava prestando atenção, a loira tinha visto Rachel fazer um movimento brusco se afastando de Finn. A morena se aproximou da autora com o semblante irritado, respirou fundo.
— Beth?
— Santana estava a distraindo. – Quinn falou em voz baixa, viu Finn lhe encarar de onde ele estava. – Eu não queria interromper vocês, está tudo bem?
— Ele me tirou do sério. – Rachel respirou fundo, viu Jesse abrir um sorriso olhando para o celular. – Não imaginei que Jesse fosse ficar tão feliz em ver Beth.
— Santana pediu para que ela chamasse Shelby. – Quinn falou em voz baixa. – Se você não está no clima não precisa…
A morena se esticou a beijando no rosto e indo parar ao lado de Jesse, se inclinando para o celular.
— Hey! – Sorriu vendo Shelby e Beth.
— Rachel! – Beth gritou entusiasmada. – Você está bem?
— Estou sim querida. – Rachel sorriu enquanto Santana afastava ainda mais o celular para conseguir enquadrar quase todo mundo. – Em breve eu prometo que vou te conhecer, viu?
Quinn sorriu vendo Santana estremecer com o grito da menina, as duas trocaram um olhar e a latina fez uma careta. Quinn percebeu a tensão na amiga e quase imediatamente sentiu a presença atrás de si.
— Podemos conversar? – Finn falou com a voz rouca.
Quinn se virou para ele e concordou com a cabeça se afastando na direção da cozinha, Rachel percebeu o movimento com o canto dos olhos, mas continuou conversando com Beth e Shelby. A menina disparava perguntas para todos os presentes como se fosse uma metralhadora. A autora abriu a porta da geladeira pegando uma garrafa de água, estendeu para ele, mas ele negou. Finn se apoiou na bancada cruzando os braços sobre o peito, ele estava visivelmente mais forte. Mantinha o corte militar e uma barba rala preenchendo o maxilar.
— Como você está? – Quinn perguntou testando o ar entre eles. – Eu vi um dos seus jogos no ano passado, está lançando bem.
— Estou bem. – Finn lambeu os lábios. – Vou ser negociado na próxima janela de transferências.
— Sério? – Quinn franziu as sobrancelhas. – E para onde vai?
— Vou vir para cá se meu agente fizer os movimentos certos. – Ele continuava a encarando sério.
— Giants? – A mulher tomou um gole de água.
— Jets muito provavelmente. – Ele olhou para o lado. – Podemos cortar o papo furado?
Quinn o olhou e esperou mantendo o rosto neutro de qualquer expressão, ele a olhou seriamente.
— Que merda é essa? – Perguntou com um grunhido. – O que você pensa que está fazendo com ela?
— Eu não estou fazendo nada. – Quinn respondeu mantendo a calma. – Nos reencontramos e começamos a conversar.
— Conversar? – Ele arqueou as sobrancelhas. – Suas declarações a imprensa? As fotos do beijo que vocês trocaram ontem? Isso é conversar para você?
— Finn… — Ela começou lentamente. – Rachel é solteira e pode fazer o que quiser.
— Não, não é e não pode. – Ele apertou os dentes fazendo a mandíbula saltar. – Rachel é minha mulher e eu quero que você recue e se coloque no teu maldito lugar.
Quinn tomou um gole de água para manter as palavras que queriam sair pela sua boca.
— É o que? É pra vender esses teus malditos livros? – Ele continuou usando o tom de voz agressivo, mas o tom era surpreendentemente moderado, ele não parecia querer que ninguém ouvisse a conversa. – Você é tão ruim escrevendo que precisa da imagem dela para ser alguém? É sempre assim com você, não é? Você sempre tem que usar alguém para alcançar algo, por que se for por mérito único e exclusivo seu você não consegue nada. Te mata ver que ela é bem-sucedida pelas próprias pernas e você tem que continuar se escorando nela. A usando. A prejudicando. Você não muda, Quinn?
Ela tomou outro gole de água e o encarou em silêncio. Ele balançou a cabeça soltando o ar em uma lufada.
— Pare de usa-la. – Ele murmurou se afastando da bancada. – Pare de ser a escrota que você sempre foi e pelo visto sempre vai ser.
Ele voltou para a sala, pegou sua jaqueta e olhou para Rachel falando em voz alta e ignorando os colegas e a conversa que ela parecia estar tendo com a mãe e a menina.
— Eu vou pro meu hotel, pensa no que conversamos. – Ele ajeitou a gola da jaqueta e saiu sem se despedir de ninguém.
Rachel franziu os olhos e olhou para a cozinha não vendo Quinn sair. A morena saiu deixando para Santana a tarefa de distrair Beth sem explicar o que tinha sido aquilo. A morena parou no portal da cozinha olhando Quinn que não havia se movido.
— O que ele disse? – Ela se aproximou vendo Quinn de braços cruzados e a força com a qual ela segurava a garrafa.
— Apenas me lembrou quão incompetente eu sou em ter sucesso sem ter que utilizar as pessoas. – Quinn falou com a voz rouca e o olhar fixo onde Finn tinha estado. – Eu perguntaria o que ele te disse, mas eu presumo que ele tenha falado de todos os erros que eu cometi com você e em como eu sou autodestrutiva ou então ele deve ter falado de quão apaixonado vocês sempre foram e de como eu sempre atrapalhei tudo.
— Eu diria que ele falou sobre tudo isso. – Rachel falou lentamente tentando entender o que se passava dentro de Quinn, mas os olhos verdes estavam guardando absolutamente todos os seus sentimentos.
Quinn abaixou a cabeça e tomou um gole de água.
— Quinn… — A morena começou, mas Quinn sacudiu a cabeça a calando. – Me deixa falar…
— Quando todo mundo for embora eu tenho que te contar algo. – A loira falou com a voz rouca. – É importante.
Rachel franziu as sobrancelhas e concordou com a cabeça, sua mão escorregou para o braço de Quinn o apertando.
— Estamos bem? – Pediu em voz baixa.
Quinn sorriu apenas com os lábios, se inclinou a beijando na testa. Viu Santana espreitando perto da porta, assim que percebeu que fora notada a latina entrou erguendo o celular.
— Shelby disse para Beth se despedir, está na hora dela se preparar para dormir.
Quinn estendeu a mão pegando o aparelho que a amiga estendia.
— Oi meu amor, já está na hora. – Falou para a menina, Rachel apoiou a cabeça em seu ombro fazendo a garota sorrir com vergonha.
— Eu queria dizer boa noite. – Ela olhou para Quinn e franziu as sobrancelhas. – Está tudo bem? Parece triste.
— Está tudo bem, apenas estou cansada. – Quinn explicou vendo a filha franzir as sobrancelhas.
— Doente? – Ela pode ouvir um leve tremor na voz da menina, quase conseguia sentir a tensão de Santana que olhou rapidamente para Rachel.
— Não, apenas estou cansada. Prometo a você, está tudo bem… — Quinn viu as sobrancelhas da filha continuarem franzidas. – Vamos fazer assim, eu vou direto para LA e deixo você ver com seus próprios olhos que estou bem. Ok?
— Ok. – Ela murmurou contrariada, mas logo sorriu. – Rachel vem junto?
— Não amor, ainda não… — A Berry deu um sorriso contido. – Eu tenho muitas coisas para resolver aqui ainda, mas prometo que vou te conhecer em breve.
— Ta… — Beth murmurou. – Boa noite.
— Bons sonhos meu amor. – Quinn murmurou, ouviu Rachel e Santana desejarem boa noite e a menina desligar a ligação.
Rachel olhou para Quinn e ela podia sentir todas as perguntas da mulher. Santana estava parada em frente a Quinn.
— Rachel… o Jesse trouxe uma pizza vegetariana horrorosa para você. – A latina olhou para a atriz incisivamente.
Ela hesitou. Olhou de uma para a outra antes de concordar com a cabeça e se inclinar beijando Quinn na bochecha e sair da cozinha.
— O que ele queria? – Abaixou o tom de voz se aproximando de Quinn.
— Me lembrar quão inútil eu sou. – Quinn murmurou de volta. – Eu tenho que dizer a ela…
Santana suspirou e concordou com a cabeça.
— Você quer que eu te espere? – Ofereceu, mas viu Quinn negar com a cabeça.
— Se ela me pedir para sair eu dou o meu jeito. – Respondeu no mesmo tom de voz rouco.
— Estou aqui Q. – Santana apertou seu ombro antes de sair.
A noite se estendeu da maneira mais demorada e dolorosa para as duas. Os amigos conversavam e lembravam de pequenas histórias tentando aliviar o clima e arrancar sorrisos de Rachel. Quando Hiram se retirou para o quarto os amigos se levantaram, Quinn imediatamente começou a limpar a bagunça enquanto Rachel os levavam a porta. Ela viu Santana lhe lançar um último olhar antes de Brittany a arrastar para fora. Rachel se juntou a loira recolhendo o lixo, viu Quinn escapar na direção do quarto e suspirou. Pelo visto seria uma noite tão longa quanto o dia, pegou uma garrafa de água e quase pulou quando viu a loira entrar na cozinha com um envelope de papel pardo nas mãos.
— O que foi? – Perguntou franzindo as sobrancelhas.
Quinn gesticulou para que ela se sentasse e deslizou o envelope pelo balcão.
Rachel arqueou as sobrancelhas enquanto retirava os papéis de dentro do envelope de papel. Quinn estava apoiada na bancada enquanto olhava atentamente para a morena, ela percebeu as sobrancelhas se franzindo e a tensão que assaltou a mulher. O silêncio se estendeu entre elas enquanto Quinn esperava por alguma reação.
— Quão irônico é, eu estar estrelando Rent e você me falar que é soropositivo? – A morena ergueu os olhos para encarar a loira.
Quinn não segurou o riso nervoso que explodiu em uma gargalhada quase histérica, lambeu os lábios e correu os dedos longos pelos cabelos loiros.
— Bem, eu acredito que fico feliz de você não estar fazendo Chicago. – A loira brincou sem olhar na direção da morena.
— Quinn. – Rachel simplesmente falou.
— Foi no meu primeiro ano em Yale. – Quinn desviou os olhos enquanto cruzava os braços na frente do peito. – Eu ainda estava lutando contra a minha sexualidade e tinha esse lindo professor de meia idade que tinha um casamento que segundo ele era fracassado e eu acreditei em suas palavras. Eu e mais outras alunas… e no ano anterior outras alunas também… e no outro… e no outro…
Rachel sentiu a boca secar enquanto via Quinn parecer erguer mais defesas entre as duas. Seu coração acelerado e a mente correndo as possibilidades.
— Enfim, uma das alunas começou a apresentar alguns sintomas e fez os exames. – Quinn lambeu os lábios secos. – Ela começou a procurar cada uma das “favoritas”, o denunciou a universidade… enfim… eu fui uma das contaminadas. Então…
Quinn parou, seu corpo tremia, mas ela apertava seus braços com força tentando manter o controle. Ela não ergueu os olhos para encarar Rachel.
— Ele foi processado e condenado. – Engoliu a saliva que se juntava em sua boca. – Eu estou em tratamento e o vírus já está indetectável no meu corpo há pelo menos dois anos.
Quinn lambeu os lábios sem conseguir erguer os olhos para ela.
— Eu estou te contando isso porque você tem todo o direito de saber antes de levarmos o nosso relacionamento a um outro patamar. – Quinn continuou falando em voz baixa. – Eu não fiz por mal ao te esconder isso e eu vou entender se você quiser parar agora. Eu só peço que você não me odeie e que isso fique entre nós.
Rachel olhou para os papéis outra vez e suspirou fechando os olhos. A notícia sendo assimilada pela sua mente seu corpo dormente, a morena se levantou e andou na direção da porta.
— Eu… — Ela parou e olhou na direção de Quinn. – Eu preciso de espaço… para pensar… os últimos dias foram complicados…
— Eu sei. – Quinn respondeu erguendo a cabeça, mas ainda sim não a olhando, a autora apoiou as mãos na bancada. – Eu vou entender se você quiser manter distância, eu só quero que você entenda que eu nunca quis te prejudicar ou te usar.
Rachel fechou os olhos e saiu pelo corredor indo para a sala, a mochila de Quinn apoiada no sofá a fez parar. A loira apareceu logo atrás segurando o envelope, passou pela morena evitando toca-la. Colocou a mochila e pegou o casaco que estava jogado no encosto do sofá. As duas finalmente se olharam e foi a vez de Rachel desviar o olhar. Quinn engoliu em seco e apertou o casaco entre as mãos.
— Se você precisar de algo que eu possa ajudar, não hesite em me procurar. – Quinn falou em voz baixa.
Ela viu Rachel dar um passo para o lado para que ela pudesse passar, seu coração falhando uma batida com uma dor fina se irradiando. Suspirou controlando a própria expressão.
— Apenas… não me odeie. – Pediu em voz baixa antes de sair pela porta.
Fechou a porta nas suas costas e respirou fundo tentando controlar o choro que queria tão desesperadamente sair. Apertou o botão do elevador e esperou, segundos longos de tortura. Segundos que a porta do apartamento não se abria e a morena a levava para dentro. As portas se abriram e ela entrou apertando o botão do térreo. Ela ficou em silêncio olhando fixamente para a frente, seu corpo tremendo, seu rosto ardendo. Ela nunca saberia dizer como conseguiu sair pela portaria, mas seu corpo parou assim que viu Santana apoiada no capô do carro. Desceu as escadas que separavam o prédio da calçada e seu corpo cedeu, Santana a pegou em seus braços e a puxou com força. Suas mãos se fecharam agarrando o pano da roupa da latina e ela apertou os dentes com força reprimindo o grito que queria tão desesperadamente sair.
— Eu estou aqui… — Ouviu o murmúrio em seu ouvido.

Notas finais
@just_someone13