Diário

3 Capítulo II - Um sentimento sem nome


Notas iniciais
Boa noite.

Uma linha pode representar um mundo de coisas e ao mesmo tempo um grandioso nada.

A loira alta de corpo escultural terminava de colocar os brincos enfrente ao espelho, sabia que a namorada iria reclamar pela sua demora. Sorriu afofando os cabelos para dar volume dos grandes cachos que havia feito.

– Baby. – Santana chamou da sala. – Vamos nos atrasar.

Sorriu pelo tom controlado que ela havia utilizado, pegou a bolsa de mão que estava encima da cama e seguiu pelo corredor.

Quinn estava sentada no sofá enquanto Santana se mantinha em pé esperando impaciente.

– San se acalme. – Brit suspirou com um sorriso calmo. – Até parece que você realmente quer ver a Rachel cantar.

Santana deu as costas abrindo a porta sem responder, Quinn se levantou e acompanhou a outra loira porta afora.


Quinn estava concentrada na figura do palco, cada movimento do corpo, cada menear com a mão. Seus ouvidos não ouviam nada além da voz que saia pelos lábios carnudos, Rachel tinha o poder de se afundar nas emoções do personagem a mesma facilidade ela tinha de transitar entre elas.

Quando Rachel subia no palco o mundo deixava de existir e Rachel Berry sumia junto com ele, ela se tornava a personagem e apenas aquilo importava.

O palco é o seu mundo, as luzes sua direção e a musica sua voz.

Quinn estava em pé com os demais, aplaudindo com mais força do que qualquer um. Tão concentrada em Rachel não percebeu o que os amigos tinham percebido.

Como o fato de que em cada nota que a diva sustentava a loira prendia a respiração e sua pele arrepiava. Também não percebeu a lágrima que escapou pelo canto dos olhos verdes que brilhavam encantados.

– Ela realmente conseguiu. – Sua voz quebrada em um murmúrio não passou despercebida por Kurt que estava ao seu lado.

– Sim, conseguiu. – Kurt sorriu, esfregou as costas de Quinn. – Vamos pros bastidores espera-la.


Rachel estava limpando a maquiagem do rosto quando a batida no camarim denunciou os convidados.

– Hey. – Mercedes colocou a cabeça para dentro. – Podemos entrar?

– Claro. – Sorriu desfazendo o penteado com cuidado, desembaraçando os fios. — Gostaram?

– Você estava fantástica. – Brittany sorriu segurando firme na mão de Santana. – Estava com saudades de te ouvir cantar.

– Brittany. – Sorriu largamente, se adiantou engolfando a loira em um abraço de urso. – Deus, senti falta desses olhos azuis.

– Minha diva foi impressão minha ou essa noite você estava ainda mais feroz no palco? – Kurt a segurou pelas mãos assim que a morena se soltou da terapeuta.

– Não sei. – Sorriu nervosa. — Estava?

– Bem eu não sou tão bom assim com as palavras como a Quinn então talvez a nossa autora queira dizer algo. – Os olhares convergiram para a loira que se mantinha em pé próxima a porta.

A avelã encontra o chocolate e juntos se fundem na mistura quente e perfeita, o silencio perdurou por alguns míseros segundos antes que Quinn o quebrasse.

– Jean de La Bruyère tem uma célebre frase que diz assim: “Muitos adjetivos, péssimos elogios. Os fatos é que elogiam.” – Um meio sorriso no canto dos lábios. – Em outras palavras não precisamos dizer a quão estupenda Rachel foi essa noite isso é um fato consumado e sacramentado.

Durante toda a fala os olhos das duas não se afastaram, eles demonstravam a sinceridade das palavras ditas e a compreensão do que elas significavam. Kurt bateu palmas.

– Por isso senhoras Quinn Fabray se tornou uma das maiores autoras do nosso tempo. – Sorriu. – Rachel querida por que você não se arruma e nós te esperamos lá fora?

– Sim. – Respondeu para ele, mas não desviou o olhar de Quinn. – É um bom plano.


Parados do lado de fora do teatro esperando Rachel aparecer e finalmente atender os fãs agrupados perto de algumas barras de proteção. Santana envolveu Brittany com um dos braços, pela visão periférica notou a movimentação de alguns paparazzi.

– Kurt não é melhor chamar dois taxis logo? – Mercedes se mexeu incomodada. – Quero dizer não cabe todo mundo em um só.

– Vou cuidar disso. – Ele se afastou para a pista.

As portas se abriram e dela saiu Rachel envolta no seu casaco quente, o sorriso nos lábios para os fãs. Rapidamente se adiantou e começou o ritual de dar autógrafos, trocar algumas palavras e tirar fotos. Quinn se mexeu incomodada mantendo as costas para a rua tentando não amostrar o rosto.

– Nervosa? – Mercedes arqueou uma sobrancelha.

– Não. – Deu de ombros tentando soar indiferente, mexeu com os botões do casaco.

Rachel assinou mais um programa do show quando uma garota que aparentava ter 16 anos perguntou: — Senhorita Berry você gosta de ler?

– Sim eu leio sempre que posso. – Sorriu para a menina assinando outro programa.

– Eu comecei um livro novo que talvez interesse a senhorita. – A garota era insistente, começou a tentar seguir Rachel através dos fãs.

– É, qual? – Sorriu para a foto.

– A saga de Stern. – Observou a diva parar por um segundo antes de dar atenção a outro. – A personagem principal é uma garota chamada Beth Stern e ela é simplesmente idêntica a senhorita.

– Entendo. – Olhou para ela acenando com a cabeça. – Conheço a história, mas creio que foi apenas um acaso.

– Ela é judia igual a senhorita. – A garota insistiu. – Stern é um sobrenome judeu para…

– Estrela. – Rachel concluiu sentindo-se um pouco impaciente. – Sim eu sei disso.

Os fãs envolta começaram a prestar atenção na conversa das duas.

– A senhorita poderia processar a autora por uso indevido da imagem. – A garota sorriu satisfeita, sabendo que conquistou a atenção da atriz.

– Eu nunca processaria a Quinn. – Rachel reagiu sem pensar, mordeu o lábio logo em seguida.

– Você conhece a autora? – Os olhos da menina brilharam. – Ela fez isso como uma declaração de amor? Vocês tem um caso?

Rachel sentiu os flashes ficando mais intenso, sua boca ficou seca lançando um olhar rápido para trás mirando a figura loira de costas para a rua.

– Basta você saber que a história não denigri a minha imagem e eu não irei processar a autora. – Assinou o ultimo programa. – Agora se me dão licença meus amigos me esperam.

Caminhou até as quatro mulheres enquanto os seguranças do teatro tentavam dispersar os fãs.

– Vamos sair daqui? – Pediu parando ao lado de Quinn.

– O que foi? – Brittany olhou para os fãs.

– Uma fã fazendo perguntas impertinentes. – Seu maxilar tencionou enquanto enfiava as mãos nos bolsos do casaco. – Os paparazzi já foram?

– Não ainda estão batendo fotos. – Santana suspirou irritada. – Como vocês aguentam isso?

– Por que você acha que eu estou de costas? – Quinn retrucou entre dentes.

– Rachel seus fãs não estão indo embora. – Brit os indicou com o queixo. – E alguns estão apontando pra Quinn.

–Ah não. – A loira mencionada curvou a cabeça para o chão. – Rachel quais foram as perguntas?

– Se eu tinha um caso com a autora da Saga de Stern. – Murmurou sentindo as bochechas corarem.

Santana soltou uma gargalhada enquanto Kurt se aproximava sem entender.

– Já consegui os carros. – Olhou para elas. – Qual a graça?

– Uma fã descobriu a paixão latente da Fabray. – Santana deu de ombros. – Então por que vocês não comem logo a cara uma da outra e vivem o conto de fadas?

– San. – Brittany apertou o braço da mulher. – Seja agradável.

– Estou sendo. – Resmungou. – Quero poupar o tempo das duas com jantares e conversas fúteis e fazer com que elas vão direto pra ação.

– San…

– Baby a Quinn estava comendo a Rachel com os olhos encima do palco a Rachel queria rasgar a roupa da Quinn no momento em que entramos no camarim. – Continuou defendendo sua tese. – Pelo amor de Deus a Fabray escreveu um livro sobre a Berry.

– Fala baixo. – Quinn disse entre dentes. – Kurt você não disse que o taxi já estava nos esperando?

– Sim.

– Então vamos. – Deu as costas para o grupo sendo presenteada por mais flashes.

Ignoraram as perguntas e se dirigiram para os dois carros amarelos parados no meio fio.


Tomou mais um gole da taça de seu vinho tinto observando a interação do grupo. Kurt e Mercedes eram agora donos de uma conceituada produtora de filmes chamada Crônica. Aprendeu que os dois amigos vieram para New York e depois de terem decidido por impulso tomar uma aula de fotografia por um semestre se apaixonaram pelo ofício e decidiram mudar para Cinema.

Já haviam terminado o jantar e estavam apenas tomando o vinho e falando sobre qualquer coisa que viesse a cabeça e foi ai que o perigo reinou. Quando Kurt tomou o ultimo gole de sua taça, respirou fundo inflando as bochechas rosadas e disparou:

– Então, creio que a senhorita Fabray tem algumas coisas para explicar. – Os olhos azuis lhe miraram quase que perfurando sua alma.

Quinn abaixou os olhos para a própria taça.

– Foi durante o nosso primeiro semestre na faculdade. – Começou ciente que pelo menos três pares de olhos daquela mesa lhe fitavam. – Eu tinha acabado de apresentar um trabalho perfeito, para comemorar Santana resolveu que tínhamos que ir para um bar. Ela queria estrear as identidades falsas que ela tinha conseguido.

– E agora eu percebo como aquele trabalho era porco. – Bufou frustrada. – Sério não valeu os 100 mangos cada.

– Enfim depois de muitos shots de tequila e garrafas de cerveja eu já estava completamente alta e tinha essa ruiva linda do outro lado do bar que não tirava os olhos de cima de mim. – Tomou um gole da bebida. – Santana e Brit já estavam praticamente fazendo sexo do meu lado e eu estava carente quando eu percebi já estava conversando com a ruiva e tinha dito que meu nome era Charlie. E assim foi pelo menos por aquela noite, ela era a ruiva e eu o Charlie, acordei na manhã seguinte em algum motel barato coloquei minha roupa e sai antes que ela acorda-se, mas antes eu paguei a diária do quarto.

– Muito cavalheiresco. – Santana fingiu secar o canto do olho esquerdo. – E assim nasceu o Charlie, tenho tanto orgulho.

Quinn soltou uma risadinha baixa, os amigos ainda lhe encaravam, mas evitou o olhar preferindo a mesa.

– E o livro? – Rachel finalmente falou.

– Era madrugada. – Levantou os olhos encarando os castanhos como mogno. – Eu estava deitada na cama sem conseguir dormir. Me levantei e fui até o computador e abri um arquivo de documento novo e simplesmente escrevi, quando dei por mim tinha quase todo o enredo da história pronto e os personagens.

– Mas por que a personagem principal é tão parecida com a Rachel? – Mercedes franziu a testa.

– Sinceramente? Eu simplesmente escrevi. – Encolheu os ombros.

– Talvez… — Brittany tomou participação, apertou a mão que estava na coxa de Santana impedindo qualquer comentário. – Bem… talvez a Rachel estivesse o tempo todo no inconsciente da Q. Você nunca levou um relacionamento a sério antes da Kate e assim que eu li o primeiro manuscrito eu tive certeza que era da Rachel que você falava.

– Eu tenho que me acostumar com a versão inteligente da Brittany. – Kurt murmurou se servindo de mais vinho. – Quem é Kate?

Quinn suspirou correndo a mão pelos cabelos curtos, seu olhar cruzou mais uma vez com o de Rachel que estava ávido de curiosidade.

– Minha ex noiva. – Murmurou fechando os olhos, esperando a reação.

Kurt engasgou, Mercedes arfou e Rachel permaneceu em silencio.

– Namoramos por dois anos antes que ela resolve-se que deveríamos morar juntas eu concordei. – Encolheu os ombros mais uma vez. – Foi na época que o primeiro livro estourou e não estávamos esperando tudo aquilo, seis meses depois ela propôs e eu aceitei então num belo dia a Santana aqui me fez o grande favor de levar o nosso anuário sênior para o meu apartamento.

– Eu não tenho culpa se você escondeu todos os seus anuários. – Ergueu as mãos se defendendo, mas o sorriso afetado continuava nos lábios. – Vocês tinham que ver a cara que ela fez quando viu a foto da Berry, foi a coisa mais engraçada que eu já tinha visto.

– Não foi engraçado. – Quinn rebateu. – Foi cruel da sua parte.

Santana rolou os olhos para o teto. – Eu prefiro ver você com a Berry, eu simplesmente não conseguia aceitar você com a bruxa do gelo.

Rachel se mexeu incomodada na cadeira, Quinn suspirou.

– É melhor pedirmos a conta. – Mercedes sorriu sem graça. – Mas a noite foi boa.

– Claro que foi. – Brittany sorriu animada. – Senti falta de vocês.

– Decididamente devemos fazer isso mais vezes. – Kurt bateu palmas sorrindo abertamente.

– Decididamente alguém é fraco pra bebida. – Quinn sorriu olhando o homem com o rosto completamente vermelho.

Saíram para a noite fresca, o cheiro úmido da cidade invadindo as narinas. Kurt estava apoiado em Mercedes cantarolando alguma musica que não tinham ideia de qual era, mas os dois riam bastante. Rachel sorriu vendo os dois amigos tão descontraídos, olhou para trás vendo Brittany e Santana abraçadas em um silencio tão perfeito e por um instante pegou o sorriso que Santana dirigiu a loira.

– As duas são irritantemente adoráveis juntas. – O sussurro de Quinn ao seu lado.

– É elas são. – Sorriu triste voltando sua atenção. – Sinto pelo noivado.

– E eu sinto ter noivado. – Comentou penosamente. – Sabe quando eu autografei o livro pra você eu tinha uma situação totalmente diferente na cabeça.

– Do tipo?

– Não sei, mas certamente nossos amigos não estariam fazendo comentários, nós não ficaríamos levemente sem graça na presença uma da outra e principalmente eu não me sentiria insegura. – Olhou para ela, mas continuou andando.

– Você se sente insegura? – Deixou um ar de riso tomar os lábios. – Com o que?

– É como se eu olhasse para você e me perde-se. – Sorriu para o chão. – Eu paro para pensar nas primeiras páginas do meu primeiro livro e simplesmente vejo você ali naquelas palavras. Brittany esta certa, você estava na minha cabeça e a Santana de certa maneira também o livro é uma declaração, mas não é uma declaração de amor.

– É de que?

– Respeito, adoração, admiração e principalmente de inspiração. – Olhou para ela, as duas haviam parado de andar. – Você foi fundo e conseguiu, realizou o seu sonho. Ver você naquele palco hoje foi… — Parou tentando achar as palavras deixou a respiração sair por entre os lábios com um pequeno sorriso. -… foi o sentimento mais puro e intenso que já senti, mas não tem uma palavra que o defina.

Retomaram a caminhada em um silencio confortável, não era necessário mais palavras.


Notas finais
Então, eu resolvi dar esse presente de natal para vocês. Minha casa já está lotada de parentes então eu não devo escrever muito nos próximos três dias e em seguida entra o ano novo o que talvez também não me deixe tempo para escrever. Enfim, até ano que vem se Deus quiser.
Bom natal e um próspero ano novo a todos.