Diálogos

3 Terceiro Diálogo - Transplante


- Olá, tudo bem?!

- Opa, tudo sim! Mas... Nos conhecemos?

- O que acha?

- Não me parece estranha. Mas creio que nunca nos vimos.

- Está certo. Nunca nos vimos, mas nos conhecemos.

- Como assim?

- Esquece. Tem tempo para um café, ali do lado?

- Até que tenho... Mas...

- Relaxa, vamos conversar. Por o papo em dia.

- Como assim?! Não nos conhecemos, mulher!

- É o que vamos descobrir, agora vamos! É bom ver os amigos de novo.

- Como assim?! Deus, que amizade?!

- Aquelas que construímos antes da morte.

- Morte?! O que? Eu estou bem vivo, moça!

- Eu também, graças a Deus. É sempre bom voltar...

- Ai, acho que estou começando à entender.

(sentam-se, pedem dois cafés. Trocam olhares e continuam a conversar)

- E então, como está sua nova vida?

- Agora eu entendi! Está se referindo à vidas passadas, é isso? — Está dizendo que me conhece de outros tempos. Mas que coisa mais bizarra!

- Você não me respondeu.

- Ah... Claro, perdão. Minha nova vida está tranquila... Trabalho, trabalho, e lazer, vez e outra.

- E o coração?

- O coração... Bem, estou solteiro, se isso responde sua pergunta.

- Parcialmente. Você daria ele pra mim?

- Calma moça! Mal nos conhecemos! Pelo menos... Não nessa vida, como deve estar pensando.

- Relaxa. Tenho uma doença terminal, meu coração é fraco, e vai parar. Preciso de um novo. Entende?

- É sério? Está falando em cirurgia? Transplante?

- Sim.

- Não me parece doente. Se assim fosse, estaria internada.

- Devo ter um seis anos pela frente. Não vou ficar magra ou sem cabelos. Uma hora vai parar, e pimba!

- Pimba? Não fala como uma doente terminal!

- Eu sei, mas não vou morrer.

- Por quê tanta certeza?

- Vai ser meu. — Poem a mão sobre o peito do rapaz.

- Mas... Mas é claro que não! Não vou morrer tão cedo, moça, desculpa!

- No seu lugar também não iria. Mas você sempre foi de fazer essas loucuras por mim.

- Olha, moça, foi um prazer. Mas esse papo é muito estranho, adeus! E boa sorte!

- Posso ir com você?

- Não! Mal sabe pra onde vou!

- Pra sua casa, talvez.

- Isso mesmo.

- Pode ser! Não tenho onde morar.

- Mas como assim?!

- Vendi tudo pra custear a cirurgia, já me garanti. Esperta sua amiga, né?

- Você é louca.

(rapaz para)

- Já sei, algo lhe diz que você não pode me deixar, certo?

- Como sabe de tudo isso?

- Sonhos. E você estava em todos eles.

(silêncio).

- Vamos fazer um jogo, moça?

- Diga!

- Venha, e eu te dou seis anos pra você me convencer à te dar meu coração, certo?

- Ok! Então vamos, não sei se tenho tanto tempo!

E vão.

Notas finais
Obrigado pela leitura!