Dezesseis Anos e Meio
33 Capítulo 32
Quando os meninos encontraram-se com Brian para voltar ao colégio, o homem estava visivelmente transtornado. De cara amarrada, deixou que os alunos se ajeitassem no carro e dirigiu sem lhes dizer palavra. Christian nada entendeu... Talvez Brian estivesse ainda com raiva dos arremessadores de ovos. Ou então, quem sabe, era dor de barriga... Pablo também estava calado, pelo jeito refletindo sobre cada palavra dita por Matthews. Dean, por sua vez, esforçava-se para não se esquecer delas. Queria contar pra Justin e Misha, que se divertiram a valer com as abobrinhas que saíram da boca do padre...
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Na hora, Sam mal conseguira raciocinar, só dava graças a Deus... Depois, enquanto dirigia de volta ao colégio, sua reflexões o levaram a entender que o plano superior provavelmente planejara tudo, nos mínimos detalhes... Ben piorara exatamente no dia em que ele encontraria Clark, e isso não era por acaso. O amigo precisava estar com o cachorrinho... Desculpar-se... Precisava salvá-lo, de certa forma sacrificando algo que importava pra ele: sua reunião de despedida com Sam. Assim, Clark redimia-se do ato cruel que cometera no passado, fazendo as pazes com a alma inocente do animal.
Sam chegou ao colégio sentindo-se leve e feliz. Tudo estava bem, na mais completa harmonia... Mais feliz ainda ficou ao ver Dean, que já estava de volta, conversando animadamente com Justin e Misha. Apesar de ter sido levado por Brian para falar com um padre malévolo, seu menininho não se abalara! O professor de teatro já ia se recolher em seu quarto quando viu Brian, dedo em riste, apressando-se ao seu encontro.
– O que você andou falando de mim, Winchester! — vociferou o homem, irritado.
– Eu? Falando de você? O quê? — Sam não entendeu.
– Não se faça de desentendido! — berrou Brian, espumando de raiva.
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Ruby e Jo, que estavam alertas, não perderam a oportunidade de prestar atenção. Estavam a espera de Brian já a algum tempo. Um dos leitores de "Teachers in Love" especulara se o treinador ainda morava com os pais. Curiosa, Ruby decidiu que daria um jeito de perguntar. O momento, entretanto, não parecia propício... Eles estavam brigando? De longe não dava para ouvir exatamente o que diziam, mas Ruby resolveu se aproximar de fininho.
– Tá louca, amiga... Vai se meter em briga de casal? — Jo protestou — se eles te virem, vão brigar com você!
– Eu só quero escutar... — disse Ruby, dando pouca atenção ao nervosismo da outra. — Serei discreta... — completou sacando a gigantesca máquina fotográfica, e pendurando no pescoço.
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– Você andou dizendo por aí que é meu namorado!! — Brian estava vermelho, e parecia transtornado.
– Euuuu??? — Arregalou-se Sam. Fazia tempo que Brian não o importunava com suas idéia malucas. Achou que estivesse livre delas de uma vez por todas...
– Sim, você! — Acusou Brian, resoluto. — Por que fez isso, Winchester?! Hein? Só para me espezinhar?
Sam respirou fundo. Talvez fosse melhor tentar um diálogo...
– Calma lá... Eu não falei nada pra ninguém... De onde você tirou isso?
Brian pareceu se descontrolar novamente. A frase que se seguiu saiu apressada, com as palavras enrolando-se umas nas outras.
– Uns rapazes... Gays! — enfatizou ele — vieram me contar. Disseram que você espalhou lá, pra todo mundo...
– Todo mundo quem? — Winchester estava perplexo.
– Todos os gays! Todos eles! Tá todo mundo sabendo dessa história sem pé nem cabeça...
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Ela já sabia. Já tinha certeza absoluta antes... Mesmo assim, ouvir a confirmação de que Sam e Brian estavam mesmo juntos, saindo da boca dos mesmos, era delicioso. Ruby sorria feito boba, seguindo os professores, morta de curiosidade em saber no que aquilo ia dar. Então Winchester resolvera abrir o jogo com os amigos? Contara sobre seu namoro com Scott, e era esse o motivo da briga...
– Já pra dentro, mocinha!
A morena estremeceu ao escutar a voz aguda do Sr. Benbow, o inspetor. Estava tão distraída... Nem mesmo chegara a tirar uma foto... Já passava das 19h e depois daquele horário, não era mais permitido aos alunos ficarem de bobeira pelos jardins.
A menina olhou enraivecida para o homem, feio e de baixa estatura. Parecia um duende malvado, do tipo que trabalhava para bruxas, em contos infantis. Desgraçado! Aquela peste vivia atrapalhando seus planos...
Sem opção, uniu-se a Jo, que também tinha sido pega por ele, e ambas foram escoltadas para dentro, se afastando de vez dos professores brigões.
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– E isso não faz sentido nenhum... Sentido nenhum... — repetia Scott — por que eu não sou gay... Não namoro com homem! — reclamou.
– Mas, Brian... Isso não tem fundamento... Como eu faria pra falar com todos os gays? — ponderou Winchester.
– Não sei! Vocês tem os meios de comunicação de vocês...
Sam não pode deixar de achar graça. Só não caiu na risada ali mesmo porque o treinador bufava ao seu lado, trêmulo de nervoso. Talvez Brian fosse ainda mais maluco do que ele pensava...
Winchester foi caminhando ao seu lado, tentando convencer o homem de que não fora ele a começar tal boato... Ele não tinha nada a ganhar com isso... Discretamente encaminhou-o até a porta da enfermaria, e lá, pediu a uma enfermeira que lhe desse um calmante. "Acho que ele está alucinando" — avisou.
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Enquanto Sam estava as voltas com Brian, Dean finalmente conseguira falar com o pai. Já era noite, e Roger finalmente atendera o telefone de casa.
– Desculpa, filho. A bateria do meu celular acabou... — justificou-se ele assim que o menino reclamou por não ter conseguido contactá-lo mais cedo.
– Tudo bem... — Suspirou o garoto. O que importava agora era saber o porquê de Roger ter-lhe entregue assim, de mãos beijadas, para o padre anti-gay. Que espécie de pai era ele, que dizia aceitar o filho do jeito que era, e depois lhe jogava em tamanha arapuca?
– Pai... — Disse com a voz fraca, escolhendo as palavras — A nossa conversa... Eu pensei que estava tudo certo... Que você aceitava que eu fosse assim... Como eu sou.
– Eu te aceito, meu filho! Do que você está falando?
– Por que autorizou o professor Scott a me levar para o padre? — perguntou, sem conseguir esconder a mágoa que sentia.
– Você não queria ir? Ele me disse que o padre Matthews era um santo homem, e que estava levando outros garotos também... Para serem abençoados por ele...
– Só ser for amaldiçoados! — protestou Dean — Ele faz discursos anti-gay, pai! Não é nenhum santo homem... É que o treinador acha que pode desomossexualizar a gente...
Roger finalmente entendeu. Mas então Brian Scott sabia que seu filho era gay? Mais alguém na escola sabia? Dean então explicou sobre Navalhada, e como seu peso de consciência o levara a contar tudo para Scott.
– No fim das contas foi até divertido... — explicou o louro. — Mas uma vez foi o suficiente... Não quero mais voltar lá!
Roger prometeu falar com Brian. Seu filho não precisava mesmo de um padre lhe dando sermão. Ele sabia que o menino estava apenas confuso. Com o tempo, tudo se resolveria por si só...
Ligou para o homem imediatamente, que, meio grogue pelos remédios administrados pela enfermeira, aceitou sem argumentar. Dean estaria livre do padre Matthews para sempre...
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– Você vem com a gente hoje? — perguntou Christian para Dean logo antes do treino de basquete de sexta-feira.
– Eu não! — comemorou o garoto, contando sobre a conversa com o pai.
– Vai ser chato sem você... — suspirou o outro.
Dean sugeriu que Christian se livrasse daquela chatice também. Mas o garoto estava cada vez mais preocupado com Pablo. Queria passar a maior parte do tempo ao seu lado. A preocupação aumentou ainda mais quando Navalhada chegou tarde ao treino anunciando que sairia do time.
– Não tenho mais vontade de jogar... — contou para Christian, logo após conversar com o treinador. Pelo jeito as conversas com o padre do mal estavam fazendo seu amor sentir-se tão infeliz que nem mesmo desejava fazer as coisas que gostava...
Brian, por sua vez, foi compreensivo. Entendeu que o menino passava por um momento difícil, e não insistiu para que permanecesse no time. Mas tudo iria melhorar, com a ajuda do bondoso padre Matthews. Assim fora com ele no passado. Quando adolescente, com a morte de um amigo, sentiu-se perdido também... Era alguém de quem gostava demais... A dor da perda o fizera pensar que gostava de Dean de outra maneira. Bobagem... Sorte que os pais de Brian souberam como ajudá-lo. Foram procurar auxílio na Paróquia, e lá conheceram padre Mattews... No início, fora difícil pra ele, assim como estava sendo para seus jovens alunos. A medida que conversavam, entretanto, Brian absorvia os ensinamentos do homem. Acreditava que Matthews de fato o ajudara finalmente a superar a perda e a tirar os pecados de seus pensamentos. Agora podia se dizer um homem com H maiúsculo. Se achava muito bem resolvido...
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Horas mais tarde, Dean comemorava a liberdade enquanto via Christian e Navalhada se encaminhando para o carro, ao lado do treinador. Estava de bom humor, assim como Sam. Ambos passaram o dia trocando mensagens, e antecipando com felicidade seu próximo encontro, no sábado. Mal podiam esperar...
Winchester estava feliz também por Clark, e por seu pequeno Ben, que estava cada vez mais saudável. Clark escrevera de Nova York, contando estar muito empolgado e feliz com a mudança e com o novo trabalho. Trevor conseguira uns dias de folga, e estava com ele, dando-lhe todo o apoio necessário. Quanto ao cãozinho, este melhorava com enorme rapidez. Na verdade, só não estava com Sam ainda porque era ainda muito novinho, e precisava de mais atenção que um atarefado professor podia dar.
Cercado de boas vibrações, Sam mal se lembrava da conversa que tivera com Brian. Quando o fazia, era apenas para achar graça. O treinador era mesmo meio maluco... Scott, ao contrário, não conseguia esquecer. Estava com ódio mortal...
Primeiramente Winchester inventara mentiras horríveis sobre ele, para depois fazê-lo de idiota, posando-se de desentendido... O homem ainda tivera a audácia de aproveitar-se de seu nervosismo, mais que justificado, para pintá-lo como doido na enfermaria do colégio. Sem poder explicar o motivo de seu descontrole, e nervoso do jeito que estava, Brian não conseguira inventar desculpa que fizesse sentido. Além de olhares piedosos, ganhara um comprimido fortíssimo que o deixara grogue o resto do dia.
Desgraçado! Por culpa de Winchester também mal se lembrava das palavras de Roger ao telefone... Mal pudera articular com ele, e convencê-lo que levar Dean ao padre Matthews are necessário... Por enquanto, teria, ele mesmo, que cuidar para o menino não acabasse se perdendo, indo para o caminho do mau...
Era sobre isso que Brian pensava enquanto dirigia, levando Pablo e Christian até a Paróquia. Quando lá chegaram, assim que Matthews apareceu para abrir a porta, insultos começaram a ser gritados de cima da árvore. O padro praguejou os "anti-Cristos" e entrou, provavelmente temendo mais um ataque de ovos.
– Patrick! Skye! — chamou Scott com um tom amigável na voz. Precisava conversar seriamente com aqueles rapazes...
Patrick Vantouch e Skye Millani resolveram descer. Não tinham nada a perder com aquela conversa... Na verdade, pensaram que Brian fosse confrontá-los novamente sobre o que ouviram a respeito de seu namoro com Winchester. Mas Brian preferia nunca mais tocar nesse assunto...
– Por que ficam desrespeitando o padre? Ele é um senhor muito bondoso... Tenho certeza que se sentiriam muito melhor se aceitassem sua ajuda também!
Quanta hipocrisia! Patrick ficou pasmo. Não entendia como Brian, gay, podia enfiar aqueles pobres garotos na toca do padre do mal, e, agora, sugerir que ele e Skye fossem para lá também.
– Está doido! — reclamou o moreno com desprezo.
Brian insistiu, fazendo Patrick derramar sobre ele todo o ódio que tinha de Matthews. Skye, por sua vez, permenecia calado. Parecia triste, distante... Alheio àquela conversa toda.
– Mas então, se não gostam dele, por que vem pra cá toda hora? Inconscientemente, vocês querem ajuda... — argumentava Scott, com a melhor das intenções.
Antes que um dos dois abrisse a boca, Brian teve a sua resposta. Uma menina de sete ou oito anos apareceu correndo, e abraçou Skye com entusiasmo. O jovem sorriu pela primeira vez aquele dia. A criança era sua irmã mais nova, que saia do catequismo naquele horário. Aquela era a única forma que tinha de ver a irmãzinha. A família, Brian veio a descobrir em seguida, havia expulsado Skye de casa depois que ele se assumiu gay. Nem quiseram saber se ele tinha onde ficar... Patrick, seu melhor amigo, acolhera-o em casa.
Pobre rapaz. Scott encheu-se de compaixão. Nada justificava que pais agissem assim... Quem estava doente, precisava ser tratado, e não jogado fora... O treinador ficou abismado quando Patrick acusou Matthews de compactuar com atitudes preconceituosas e cruéis como aquela. O rapaz garantia: o padre não era nenhum anjo, e sim o demônio em pessoa.
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