Dezesseis Anos e Meio
34 Capítulo 33
– Pai, você pode me levar pra casa do Misha amanhã? — perguntou Dean, dengoso, assim que chegou em casa. Acabava de saber que o carro de Richard havia pifado, e sendo assim, não poderia lhe dar carona. Se Roger lhe fizesse esse favor, Sam poderia buscá-lo na casa do amigo. Apanhá-lo em casa, infelizmente, era arriscado demais...
Roger olhou o menino e sorriu.
– Amanhã? Dean... Amanhã nós vamos fazer uma caminhada no parque... Eu, você e sua mãe! — exclamou o pai, com entusiasmo.
– Fazer uma caminhada!? — Espantou-se Dean. — Não... Eu... Não posso... — gaguejou o menino. Queria estar com seu amado, e não ir ao parque com os pais. Domingo passaria o dia com eles...
– Por que não? — perguntou Roger, apesar de saber muito bem a resposta. A verdade é que preferia que seu menininho não fosse sair por aí para namorar outro homem...
– Pai... Eu combinei com o meu namorado... Não posso sair com vocês amanhã... Eu quero me encontrar com ele! — respondeu o louro, corajosamente.
Roger tentou fazer chantagem emocional. Fazia tempo que não saiam só os três... Mas Dean insistiu.
– Deixa ele ir! — sugeriu Mackenzie, que acabava de entrar porta a dentro. — Se eu pudesse, até te levava, Deaninho, mas amanhã vou fazer hora extra no trabalho... — disse a moça, despenteando os cabelos do irmão mais novo.
Dean sorriu de uma orelha a outra. Mackenzie estava ficando cada dia mais legal!
– Assim você e a mãe podem aproveitar o dia... Quem sabe namorar um pouco? — disse a moça para Roger, soltando uma risadinha em seguida.
Sarah pareceu gostar da sugestão. Fazia tempo que não fazia um passeio romântico com seu marido. Eles já estavam próximos dos sessenta, mas e daí?
Mãe e filha conversavam agora animadamente, cortando a conversa entre Roger e Dean, que apenas prestavam atenção.
– Isso, Roger! Que ótima ideia à da Mackenzie... Nós podíamos ir ao cinema! — entusiasmava-se Sarah. Depois o assunto convergiu para a hora extra que a pobre moça teria que fazer no sábado. A vida andava difícil pra todo mundo... De bom humor, Sarah acabou presenteando a filha com algumas notas de 20 dólares.
–------------------------------------------------------------------------------
Não tinha mais jeito.... Roger suspirou, e Dean era só sorrisos. Estava agradecido pela intervenção da irmã.
– Tudo bem, eu deixo o Dean na casa do amigo, e depois a gente sai... — concordou o Sr. Campbell.
–---------------------------------------------------------------------------------
Sábado amanheceu chovendo muito. Roger ainda tentou convencer o filho a passar o dia com eles, para desagrado de Sarah, mas não conseguiu. Ele tinha dado sua palavra... Sem escapatória, levou Dean até a casa de Misha.
– É esse prédio aqui, pai! — mostrou Dean.
Roger não sabia se queria ou não ver o namorado do filho. Talvez ainda fosse cedo pra isso...
– Comporte-se. — ele disse, simplesmente, dando-lhe um beijo na testa. Esperou até que Dean interfonasse e entrasse no prédio.
–--------------------------------------------------------------------------------
Enquanto isso, Sam observava a chuva escorrer pela janela. Estava já pronto, esperando ansioso Dean ligar. Graças a Deus Roger resolvera cooperar, e o seu encontro com o louro ocorreria sem grandes problemas.
O moreno sorriu, olhando para os quadros que tinha na parede. Seu bebê provavelmente gostaria de surpresa! O retrato que fizera de Sam estava agora impresso e enquadrado, enfeitando o quarto do moreno ao lado das pinturas de Ross...
–----------------------------------------------------------------------------
Assim que Dean chegou na casa de Misha, ligou para seu namorado. Agora era ele quem esperava ansioso o outro chegar. O menino contava os minutos para finalmente estar a sós com Winchester. Os dias em que não podia estar ao seu lado pareciam passar cada vez mais devagar...
O temporal caía com vontade. De repente, tudo se apagou.
– Que droga, um blackout! — lamentou-se Misha que prestava atenção à um programa de TV.
Dean tratou de ligar pro namorado para pedir que dirigisse com cuidado e ligasse ao chegar no prédio. Afinal, não adiantava interfonar.
– Talvez seja melhor a gente ir descendo... — sugeriu o louro. Eram oito lances de escada afinal...
Misha, entendendo a ansiedade do amigo, concordou. Já iam começar a descer quando a velha Kimberly, sua vizinha de frente, abriu a porta.
– Misha, você vai descer?
O garoto respondeu afirmativamente, e Kimberly pediu um favor. Seu neto estava chegando para visitá-la, e ela não aguentaria descer e subir todos aqueles degraus.
– Você abre o portão da garagem e da portaria pra ele? É um Ford Ka azul azul.
– Claro, Dona Kimberly! — respondeu Misha, prestativo.
Os dois garotos então desceram e esperaram um pouco. Quando viram o carro azul se aproximar, abriram para ele, e, antes que o portão da garagem se fechasse, Sam chegou também. Misha fez sinal para que entrasse, pois assim evitava que Dean se molhasse ao entrar no carro.
Sam estacionou logo na entrada, e saltou para cumprimentar Misha.
– Obrigada! Eu nunca agradeci a você e ao seu pai por tudo o que estão fazendo por nós! — disse o professor com entusiasmo, enquanto, quase sem pensar, pegava na mão de seu namorado. Enquanto esperavam o neto da velha Kimberly, que estacionara o carro em uma vaga distante, conversavam descontraídos.
–-------------------------------------------------------------------------------
Dean estava distraído quando o casal, que acabara de estacionar o Ford Ka, se aproximou. O louro não reconheceu o rapaz de imediato, mas assim que bateu os olhos na moça, viu que era Mackenzie, que fitou-o de volta.
– Dean? O que você está fazendo aqui?
O garoto estremeceu. Em seguida reconheceu Saul, que havia mudado o visual. Os cabelos antes espetados e descoloridos estavam arrumados e com um tom mais escuro. Os pierciengs que antes faziam a festa por todo o seu rosto, tinham ido embora. O garoto arregalou-se e soltou a mão de Winchester de repente. Então sua irmã estivera mentindo? No dia anterior mesmo choramingava nos ouvidos da mãe sobre o quanto ainda estava sofrendo, traumatizada com tudo que Saul lhe fizera...
– Eu... Eu... — gaguejou o garoto.
– Esse é o seu namorado? — a moça então perguntou olhando para Sam, de cima a baixo, sem esconder a surpresa.
– Não... Não é! — afirmou Dean, apavorado.
Mackenzie então sorriu, cumprimentou Misha e Sam, e puxou o irmão para uma conversa em particular, largando Saul com os outros dois.
–---------------------------------------------------------------------------
Dean engoliu em seco. Negaria até o fim se a irmã insistisse em achar que ele estava com Sam.
– O que você está fazendo aqui, garoto? — Mackenzie então perguntou, nervosa. Antes que Dean pudesse responder, ela continuou a falar. — Você não viu nada, ouviu bem? Nada!!
O louro balançou a cabeça afirmativamente. Estava bastante assustado com a reação da irmã.
Mackezie bufava, e balançava a cabeça como se não acreditasse no que acabava de lhe acontecer. O mundo era pequeno... Pequeno demais...
– Dean, o Saul é um bom homem... E ele está mudado... Está tentando arrumar um emprego agora...
– Então porque não conta para a mãe? Ela vai aceitar... — sugeriu o menino.
Mackenzie pareceu não gostar do comentário, e fitou o irmão com raiva. A expressão no seu olhar era de meter medo.
– Você vai ficar de bico calado, garoto! — ameaçou, entre dentes.
Dean acenou a cabeça novamente, mas o gesto não foi suficiente para tranquilizar a irmã.
– Da última vez que me prometeu ficar quieto, você deu com a língua nos dentes e minha mãe me deserdou! Parece que só nasceu pra atrapalhar a minha vida... Desde pequeno, só fez ser chato e mimado...
O louro observava a irmã, chocado. Era a primeira vez que tinha uma conversa a sós com ela desde o acidente na escada, e agora percebia que ela ainda guardava rancor. Os sorrisos, as brincadeiras, a boa vontade, pareciam ser apenas um disfarce para ganhar a simpatia de Sarah. Essa suposição se confirmou com o que Mackenzie falou a seguir.
– A mãe vai assinar a papelada daqui a duas semanas, Dean. E você não vai atrapalhar a minha vida, mais do que já faz, entendeu? Se qualquer coisa der errado, a culpa será sua! E não esqueça que agora eu sei que você namora um homem mais velho...
– N... Não... Ele não é meu namorado... — gaguejou Dean, apavorado.
– Claro que é! — riu a moça, debochada — E se você abrir o bico pra me prejudicar, vou colocar esse homem na cadeia! Ouvi o seu amiguinho chamá-lo de professor. Ele é seu professor? — perguntou ela.
– N.... Não!
Mackenzie não disse mais nada. Puxou o irmão de volta para perto dos outros três rapazes que conversavam, sem assunto, sobre o temporal. Misha então abriu a porta para o casal e os três esperaram que Mackenzie e Saul subissem. Só depois que já estavam longe, Sam e Dean entraram no carro, e despediram-se de Misha.
–---------------------------------------------------------------------------
– Meu amor, o que foi? — desesperou-se Sam, que tentava dirigir em meio ao temporal enquanto via seu lourinho chorar como um bebê ao seu lado.
Entre soluços, Dean contou o que aconteceu.
– Então aquele era Saul? — horrorizou-se o moreno. O sangue subiu-lhe a face. Sorte não ter sabido antes ou era bem capaz de ter acertado um soco na cara do homem. Sorte também não ter percebido que Mackenzie estava sendo grossa com Dean, ou teria... Hmmmm, batido não... Mas teria cuspido nela!
Quando finalmente chegaram em casa, Sam abraçou seu bebê e prometeu a ele que tudo ficaria bem. Mackenzie não iria contar nada sobre eles, pois também queria seu segredo guardado. É claro que Sam estava apreensivo. Não confiava na irmã de seu namorado de forma alguma... Mas não queria Dean preocupado com isso.
– Olha como ficou lindo! — o moreno exclamou mostrando o desenho do outro, que pendurara na parede. Conseguiu arrancar-lhe um sorriso. Em pouco tempo o mais novo já estava mais animadinho e brincava com ele de cabra cega e nua, pulando pelado por todo o aposento.
Brincaram, namoraram, comeram coisas gostosas... Mas volta e meia Dean se pegava pensando na irmã. Estava muito triste e decepcionado, pois ela, de fato, o detestava.
– Não fica com essa carinha, que você corta o meu coração... — reclamava Winchester, agarrando o seu bebê em seguida, e o enchendo-o de beijinhos. Antes de deixá-lo de volta na casa de Misha, fez o garoto prometer que seria muito cuidadoso com Mackezie. Ele não queria seu lourinho sozinho com ela de jeito nenhum, e muito menos perto de Saul.
–---------------------------------------------------------------------------
O resto do fim de semana passou depressa. E na segunda-feira de manhã, ao ver seu lourinho, Sam aproximou-se. É claro que haviam trocado mensagens durante o domingo, mas o moreno precisava olhar Dean nos olhos para saber se se sentia mais alegrinho.
– Como você está? — o moreno então perguntou.
Dean ainda estava triste, é claro. Mas sentia-se melhor só de estar perto do homem que tanto amava.
O pátio estava lotado. Alunos e professores circulavam para todos os lados, e ninguém realmente parecia prestar atenção aos dois. Nessas horas, Dean e Sam não tinham medo de trocar uma palavra ou outra. Afinal, eram aluno e professor, e tinham assuntos da peça a tratar.
Se ninguém mais reparava, entretanto, Brian o fazia. Tentava entender o porquê de Sam ter espalhado que estavam juntos. Talvez não quisesse dizer o nome de seu verdadeiro namorado, e, pego de surpresa, acabara por dizer "Brian Scott" sem medir as consequências... Mas por quê? Por quê Sam escondia a verdadeira identidade do namorado? Brian então avistou o professor de teatro conversando com Dean. Seu coração disparou. Talvez porque o namorado de Winchester fosse menor de idade...
Ele desconfiara antes... Mas Sam, ardiloso, o fizera acreditar estar vendo coisas onde não tinha... Passara esse tempo todo enfeitiçando o garoto, que, a cada dia, afastava-se mais do caminho da luz. Brian era puro ódio... Precisava confrontar Sam Winchester e lhe arrancar a verdade de uma vez por todas. Ele ia pagar pelo que estava fazendo. Merecia ir para a cadeia!
–-----------------------------------------------------------------------------
Assim que Dean se afastou, Brian não pode se conter. Novamente aproximou-se do outro homem, com fúria.
– Winchester! — vociferou ele.
Sam rolou os olhos. O que seria dessa vez?
– Você e o Dean! Eu sei de tudo! — falou entre dentes, com a voz trêmula de raiva.
Os lábios de Sam, que preparavam-se para rir da besteira que viria, entreabriram-se surpresos.
– Eu e Dean? Nós... O quê? Não sei do que está falando... — balbuciou ele, nervoso. Se Brian tivesse mesmo descoberto, estava ferrado. O homem se sentiu congelar por dentro. A primeira coisa que veio à sua cabeça foi Mackenzie...
Fale com o autor