Dez Anos
27 Capítulo Vinte e Seis
Notas iniciais
Capítulo Vinte e Seis
Edward Cullen
A COLINA,
por Edward Anthony Cullen
Capítulo Um — Perdição
O clima era frio e seco naquela noite, o detetive apertou o casaco ao redor de si enquanto caminhava pelos arredores da casa no alto da colina, tentando encontrar algo ali que chamasse sua atenção. Era um lugar estranho para a construção de uma casa, principalmente em uma região de clima tão ruim, aquele era um dos pontos rondando a mente do homem.
Entrou na casa, a porta silenciosa não fez mais que um baixo e quase inaudível ruído ao ser aberta. Ele viu o piano de cauda empoeirado, sua cor preta praticamente desaparecida debaixo de tanta poeira. Era o único móvel da sala que não estava coberto por um lençol branco.
Aproximou-se da peça, vendo que as teclas tinham marcas de dedos, a única parte do instrumento livres de poeira. O banquinho estava atirado no meio da sala, próximo a mesinha de centro.
O homem seguiu seu caminho até a janela, vendo através do vidro a comoção ao redor do lago que ficava perto a residência. O corpo da vítima tinha finalmente sido encontrado, ali dentro de um barquinho a deriva, estava Ellen.
Eu tinha seis anos quando tomei aulas de natação pela primeira vez na vida, depois que quase me afoguei na piscina da casa dos meus pais. Muito quase, mesmo, minha mãe estava sendo apenas exagerada quanto a isso, eu apenas cai na água e fiquei lá por dois segundos até papai me socorrer.
Ainda assim, ela insistiu que eu aprendesse a nadar o quanto antes. E, mesmo que eu não fosse mais do que uma criança na época, ela disse:
— Afogamentos são terríveis, filho. Eu me afoguei quando era um pouco mais velha do que você, é a pior sensação do mundo.
Então, eu tomei as aulas de natação e nunca me afoguei. E, quando tive de decidir como Ellen no livro morreria, a primeira ideia em minha cabeça foi justamente o afogamento.
Para que o livro ficasse o mais verídico possível, fiz pesquisas sobre como era morrer afogado, eu tinha de concordar com minha mãe sobre o pensamento dela a respeito daquilo. Afogamentos pareciam terríveis, se tivessem me perguntado o que mais temia no mundo eu diria que me afogar, até estar a um ponto de perder Bella.
Aquela era a pior sensação do mundo.
***
Estava em aula quando meu pai me ligou naquela segunda-feira, apenas ignorei a chamada, continuando a prestar atenção na aula. Então, as mensagens começaram a chegar.
Pai: Eu preciso que venha a minha sala agora, Edward.
Pai: Não estou brincando Edward Anthony Cullen, quero você na reitoria em pelo menos cinco minutos.
Pai: Edward?!
Pai: Filho, eu realmente preciso que venha até mim. Temos de conversar, venha. Confie em mim, estou do seu lado, sempre.
Então, eu fui. Surtando sem entender o que tanto meu pai queria comigo. Foi quando pensei no pior, algo tinha acontecido com a minha mãe? Ai, o segundo estalo aconteceu em minha mente, podia ser algo sobre Bella?
Corri do prédio que estava até o da reitoria, ciente de que qualquer que fosse a alternativa, seria horrível. Não queria meu pai falando sobre Bella, muito menos queria que qualquer coisa tivesse acontecido com minha mãe, por mais intolerante, rígida, ou intransigente como ela estava sendo nos últimos tempos, ainda era minha mãe, eu ainda a amava e a queria bem.
Soube que estava tudo certo com minha mãe quando vi Bella na sala de espera do escritório do meu pai, mas logo me acalmei em partes, o mundo começou a desabar. Se Bella e eu estávamos ali ao mesmo tempo para falar com Carlisle, só podia significar algo e isso se confirmou quando ele saiu de sua sala, acompanhado de Jacob Black.
— Edward, senhorita Swan, entrem! — Meu pai apontou para o interior de sua sala, ele estava sério como nunca tinha visto antes, parecia menos com meu pai e mais com o advogado que eu tinha convivido pouco enquanto ele ainda exercia a profissão logo no começo da minha vida.
Bella estava branca como papel, ainda assim pisou firme em seus saltos até a direção do escritório. Ela não voltou a me olhar desde que tínhamos visto Jacob e seu sorriso debochado ali, eu queria que ela me olhasse, que me desse algum indicio de o que deveríamos fazer, pois não conseguia pensar em nada para nos tirar do perigo.
— Senhor Cullen...
— Não vamos precisar de nada, senhora Madison. — Meu pai interrompeu sua secretária, praticamente empurrando-me para dentro de sua sala quando passei por ele, seu olhar queimou por mim, então ele bateu a porta.
Jacob ocupou um lugar a frente da mesa do meu pai, Bella sentou na cadeira da outra extremidade e eu me vi obrigado a sentar no meio. Agradeci por aquilo, não era mais capaz de me manter estável sobre minhas pernas.
O cabelo de Bella exalava o cheiro de morango do seu shampoo, eu quis me aproximar dela e sentir aquilo melhor. Abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem, ainda que no fundo soubesse que não ficaria, mas não queria acreditar naquilo, prefira continuar em meu mundo cheio de positividade.
O mundo que nós dois estávamos seguros.
— O senhor Black veio até mim hoje com uma história interessante — papai começou a falar, sentando em sua cadeira, seus olhos fixos no meu.
— Muito interassente. — Jacob riu do meu lado esquerdo, eu lhe lancei um olhar enojado, querendo poder socá-lo ali mesmo.
— Silêncio, senhor Black! — papai exclamou. — Eu sou a pessoa comandando esta reunião.
Black se encolheu e quis rir da cara dele, mas me contive com um sorriso debochado como o que ele tinha anteriormente.
— O senhor Black disse que viu vocês dois se beijando no seu carro Edward, na frente de um prédio ontem à noite — papai disse por fim.
O sorriso sumiu do meu rosto, como diabos Jacob tinha visto aquilo?
Eu tinha saído do apartamento de Bella quando já era mais de meia-noite, ela desceu comigo para pegar um livro seu que estava em meu carro, foi tudo questão de segundos entre ela entrar no Ford, me beijar e voltar ao prédio. A rua estava deserta, nem mesmo o porteiro do prédio dela estava à vista.
Então, eu conclui, Bella morava em um bairro rico, fazia sentido Jacob sendo um playboy sustentado pelo pai como era, estar por ali perto. Ele podia até mesmo morar no prédio dela, tinha grana para isso.
— Vocês confirmam essa história? — Carlisle perguntou, olhando de mim para Bella.
— Não — Bella respondeu séria, mas o rosto ainda estava pálido e ela apertava suas mãos sobre seu colo. — Edward Cullen e eu só possuímos um único tipo de relação, reitor, a de aluno e professora — falou confiantemente, eu mesmo poderia confiar em suas palavras senão estivesse envolvido naquele assunto até o último fio de cabelo. — Não sei por qual motivo o senhor Black inventou tal absurdo, mas ainda é apenas isso, um absurdo. — Ergueu o rosto, ela mal respirava.
— Não é um absurdo! — Jacob se desesperou, depois de ganhar um olhar reprovador do meu pai. — Eu os vi se pegando no carro de Edward, além do mais, ele ficou todo revoltado outro dia quando falei sobre a senhorita Swan pra ele. E, eu os vi conversando na festa da universidade, na maior intimidade. Olhe como eles estão preocupados, é óbvio que tem algo acontecendo.
— Você tem provas concretas sobre isso, Jacob? — Carlisle indagou, suspirando. — Vídeos, fotos, áudios? Qualquer coisa que prove que Edward e a senhorita Swan estão envolvidos romanticamente.
— Não. — Jacob murchou, mas se colocou de pé. — Tem de acreditar em mim, senhor Cullen, eles estavam no maior beijo dentro daquele carro. Isso deve ser proibido, a senhorita Swan tem de deixar a instituição!
— Tenho três coisas para falar, senhor Black. — Papai se colocou de pé também. — Primeira: O senhor não tem prova alguma sobre suas acusações, o que faz dela nada criveis. Segunda: A instituição não possui um regulamento sobre relacionamento amoroso entre alunos e professores, isso é algo que iria ser julgado pelo conselho estudantil do estado caso acontecesse, somente se o professor, ou professora, fosse denunciado por assédio sexual. — Eu engoli em seco. — Terceira: Se você está com conceitos baixos na matéria da senhorita Swan aconselho estudar mais para recuperar suas notas, ou abandonar a classe antes que seja incapaz de se formar nela, inventar qualquer mentira sobre isso não irá solucionar seu problema.
— Mas, eu juro que os vi! — Jacob gritou.
— Eu também não admito gritos em minha sala, senhor Black.
Papai contornou sua mesa, abrindo a porta, mantendo-a aberta para Jacob.
— Volte a sua aula, senhor Black.
— Eu sei o que vi — Jacob disse para mim e Bella, pegando sua mochila debaixo da cadeira que estava sentado. — Senhorita Swan, muito obrigada pelas notas baixas que me deu até agora, isso arruinou minha ideia de ingressar em uma pós em ciências políticas em Harvard, meu pai quer me matar.
— Estude mais da próxima vez, senhor Black. — Bella o encarou de volta, arqueando uma sobrancelha, seus óculos de grau deixando-a perigosamente assustadora.
Jacob bufou, então saiu pisando alto no chão. A porta foi fechada e papai retornou ao seu lugar.
— Eu vou matá-lo, Edward! — Bateu na mesa, fazendo com que eu me encolhesse na cadeira, desviando o olhar para meus pés. — Você tem noção de quem é o pai de Jacob? A merda que ele podia fazer na sua e na minha vida? Olhe para mim quando falo com você, garoto! — Mais uma batida na mesa, o suficiente para que eu erguesse o rosto. — Quero saber de tudo, então comecem a falar agora.
— Edward não tem culpa de nada, senhor Cullen — Bella murmurou, eu a vi tirar os óculos e limpar os olhos. — Fui eu quem o seduziu, processe-me por assédio, mas ele não...
— Bella, pare! — mandei pasmo com o que ela estava falando.
— Eu não posso deixar Edward ser prejudicado, a culpada de tudo sou eu, desde o começo — ela me ignorou.
— Eu gostaria realmente de acreditar nisso, Isabella. — Papai a fuzilou com os olhos. — Mas, conheço Edward desde que ele nasceu e desde a semana passada naquele restaurante vi nos olhos desse garoto a verdade. Então, não mintam para mim, eu quero sinceridade.
Esfreguei meu rosto, sentindo-me idiota. Óbvio que ele sabia desde a semana passada, tentar me enganar daquilo só nos prejudicou ainda mais.
— Eu me encantei por Bella desde o primeiro momento que a vi na aula — comecei a contar, ainda evitando o olhar dela, ou de Carlisle. — Nós nos encontramos em um bar, ela me deu uma carona no fim da noite. Então, Nelly contou a Bella que eu escrevia e pediu que ela lesse meu livro. Bella leu, nós nos encontramos em uma cafeteria perto do apartamento dela para conversar sobre a história, foi no dia daquela tempestade louca, fomos para a casa dela e nos beijamos. Bella não queria continuar aquela história, mas eu passei a semana seguinte a cercando, até que chegou a festa da universidade e nós ficamos juntos de vez. — Olhei para ele rapidamente, deixando-o entender o que aquilo queria dizer.
— Estão juntos desde então?
— Sim — Bella respondeu em um fio de voz. — Senhor Cullen, me demita, mas Edward...
— Estou tão nessa como você! — exclamei, finalmente fazendo com que ela me olhasse.
— Você não pode se prejudicar, você ainda tem uma vida inteira pela frente. Imagine ser envolvido em um escândalo desse tamanho! — ela teimou, lágrimas nublando seus olhos.
— Foda-se, eu...
— Edward. — Papai bateu mais uma vez na mesa. — Não vou demiti-la, Bella. Muito menos afastar meu próprio filho da instituição. Edward não está seguindo o caminho que Esme e eu queríamos para ele, mas isso ainda é melhor do que tê-lo jogado na rua sem um diploma em o que quer que ele escolha.
— Animador!
— Você não está em posição de debochar aqui, Edward! — Carlisle gritou. — O caso de vocês não é proibido, mas será se o assumirem e Black, ou qualquer outro quiser levá-lo a um julgamento judicial e fizerem o conselho acreditar que foi assédio. Bella seria presa. — Ele suspirou. — Será se Esme souber, ela não medirá esforços para isso.
Meus olhos se fixaram nele.
— Ele nunca entenderá? Ela é minha mãe, ela devia me entender. — Senti as lágrimas em meus próprios olhos, Bella escondeu o rosto atrás de suas mãos. — Pai, pai eu amo a Bella. Eu não vou deixá-la ser presa, mas nós não podemos nos manter em segredo até que eu me forme, levará mais um ano e meio até que isso aconteça. Não fui assediado, não fui coagido, estou com ela por vontade própria, nem estou me beneficiando da posição dela como professora, Jacob não foi o único tirando notas baixas na turma dela.
— Filho, eu nunca levaria o caso de...
— Não é um caso — afirmei. — Bella e eu namoramos!
— Que seja, eu nunca os levaria ao conselho, eles não pegariam leve, eles não iriam querer saber sobre paixão, ou amor. Apenas veriam uma professora usando sua posição para ter relações sexuais com um aluno. Mas, sua mãe faria isso, Edward, é claro que ela faria. Você conhece Esme tão bem quanto eu. Ela é sua mãe, ficaria preocupada.
— Eu vou contar a ela. — Me coloquei de pé.
— Edward, não! — Isabella se levantou também, seu rosto vermelho e molhado pelas lágrimas. — Não, não faça isso. Não é assim.
— Então, como é? — questionei. — Nós iremos esconder isso por mais de um ano? Iremos deixar Jacob arranjar provas e ele mesmo nos levar ao conselho? Eu vou falar para minha mãe, então ela vai entender, eu sei que ela vai — falei o final para meu pai. — E ela nos ajudará.
— Ela não vai — ele frisou.
— É minha mãe, eu confio nela, ela vai entender.
Peguei minha mochila, a jogando pelos ombros.
— Edward, nos escute. — Bella tentou me seguir.
— Isabella, eu preciso conversar com você a sós — Carlisle anunciou, então ela parou no meio da sala, olhando de mim para meu pai.
— Edward, por favor...
Eu abri a porta, deixando a sala antes de ouvir o resto da sua frase.
Passei como um furacão pela senhora Madison, então segui caminho pelos corredores do prédio da reitoria. Iria pegar meu carro, dirigir até o escritório da minha mãe e implorar de joelhos para que ela aceitasse tudo aquilo, que ela não jogasse Bella em um processo judicial, que ela nos ajudasse se qualquer um tentasse fazer aquilo.
Eu cambaleei quando alguém me empurrou, minha mochila caiu nos degraus da escada que estava e vi Jacob Black um degrau a cima. Seus olhos escuros pareciam ainda mais escuros e raivosos.
— Você é um filho da puta, seu Cullen de merda! — Eu me ergui, sem esperar mais qualquer acusação, soquei a cara de Jacob.
— Eu sou o filho da puta aqui? Foi você quem tentou criar a porra de um conflito!
Mais um soco e Jacob estava caído nos degraus, cuspindo sangue e um dente.
— Fique longe dela! — Eu deferi mais um soco na sua boca, mas ainda assim ele conseguiu se levantar, tentando se soltar de mim.
Podia ouvir ao fundo gritos se aproximando, pessoas que trabalhavam no prédio da reitoria mandando que eu me afastasse de Jacob. Porém, tudo que eu conseguia fazer era continuar o batendo como um louco, pensando em Bella correndo riscos, pensando em perdê-la, pensando na minha própria mãe virando as costas para mim e para a garota que eu amava.
Descontrolado, com o punho dolorido e a mão recoberta de sangue, eu acabei atirando Jacob pelo corrimão da escada. Eu mesmo gritei ao me dar conta do que tinha feito, vendo-o jogado no chão.
Terminei de descer a escada, encontrando Jacob lá embaixo. Eu me ajoelhei ao lado dele, que estava caído de bruços, os olhos fechados.
— Jacob, porra! — Guinchei, checando se ele respirava, o que por sorte ainda acontecia, mas ele estava desmaiado e eu sujo de seu sangue. Olhei para minhas mãos, para minha camiseta dos Beatles, a mesma que estava quando conheci Bella, tudo manchado com o ato maluco que cometi. — Não morre, por favor, não morre! — implorei a Jacob.
— Afaste-se dele! — uma voz grossa ordenou.
Eu me coloquei de pé, ainda tremendo e assustado.
— Mãos para cima!
Ergui minhas mãos, então vi um policial do campus da universidade com uma arma apontada para mim.
— Fique parado! — o primeiro policial ordenou, enquanto outro se aproximava, pegava minhas mãos e as algemava.
— Não, eu não... — tentei falar algo, mas minha voz morreu ao olhar para o topo da escada e ver Bella e meu pai ali.
A sensação era de falta de ar, exatamente como em um afogamento, mas eu podia apostar que morrer ainda podia ser mais fácil do que passar por tudo aquilo.
Então, o escritor de romance policial parecia estar entrando em uma de suas histórias.
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