Devour

9 Transcenda


Estava escuro lá fora. Apesar de ainda ser madrugada e de não ter conseguido pregar os olhos durante um minuto sequer, eu não estava com sono. Sentei-me no sofá e observei a mala grande e preta que jazia no tapete à minha frente.

Hannibal surgiu, então, com um casaco marrom de lã e uma expressão que, nem de longe, seria capaz de sugerir que apenas algumas horas antes seu rosto estivera inteiramente coberto de sangue.

Afrouxei a echarpe que começava a me sufocar.

Era hora de deixar novamente aquela casa... Mas, curiosamente, eu não me sentia tensa ou angustiada. Não estava partindo sozinha, afinal.

Levantei-me, peguei a mala e tentei sorrir.

Aquela seria uma viagem de família.

***

Após a liberação da bagagem, fomos recebidos no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci, na comuna italiana de Fiumicino, em Roma, por uma jovem de traços orientais. Hannibal e ela trocaram meros acenos de cabeça enquanto eu fui simples e completamente ignorada.

Ele carregava nossas malas e uma bolsa térmica enquanto, vestindo um trench-coat verde militar, a garota nos conduzia ao estacionamento. Era muito bonita, embora toda aquela altivez atenuasse um pouco a graça natural de seu rosto.

Eu me perguntava que tipo de relação os dois teriam quando, ao chegarmos a um sedan preto (de um modelo muito semelhante ao que fora deixado em Baltimore), ela tirou um molho de chaves do bolso esquerdo do casaco e o entregou a ele.

— A casa está preparada, tenham uma boa estada — o “tenham” foi dirigido somente a Hannibal.

— Obrigado, Chiyoh.

Um nome estranho para uma garota estranha.

E, com um aceno de cabeça, ela nos deixou. Hannibal guardou a bagagem no porta-malas antes de dar a volta e abrir a porta do carona para mim. Entrei no carro e assim iniciamos uma viagem que, aparentemente, seria quase tão longa e silenciosa quanto fora a aérea.

A chuva fina que castigava o para-brisa estava começando a me deixar sonolenta. Anoitecia. As curvas eram intermináveis e eu desistira havia muito de ler as placas à margem da rodovia. Estava espacialmente perdida, desorientada por conta do fuso horário, entediada e cansada.

Fechei os olhos por um momento até que, ao perceber que deixávamos o asfalto para ganhar uma estrada de paralelepípedos, forcei-me a abri-los.

— Estamos chegando — olhando-me de esguelha e esboçando um meio sorriso, Hannibal forneceu uma resposta à pergunta que dançava em minha mente.

A estradinha era íngreme e não muito regular. Fora esculpida numa encosta de onde se via um mar cinzento, revolto e infinito. Aquele era realmente um lugar lindo, embora um tanto... Ermo para o meu gosto.

Passamos, então, por uma fonte. Era redonda, talhada em rocha cinza-escura que, aqui e ali, tornara-se verde por conta do limo. A garoa agitava levemente a água que preenchia a base enquanto, sobre um pedestal de pedra carcomida, a imagem de um anjo vertia lágrimas contínuas e abundantes.

Arrepiei-me. Quando abri a boca para tecer um comentário, no entanto, uma casa enorme (ou, ao menos, essa foi minha primeira impressão) e extremamente bela se ergueu diante de meus olhos. Ela tinha dois andares e era de um tom muito suave de cor-de-rosa que, à luz do crepúsculo, parecia um tanto violáceo. Observei os arcos das janelas e os parapeitos das sacadas. Segundo meus conhecimentos arquitetônicos quase nulos, aquela construção seguia o estilo neobarroco.

Estacionando diante da porta principal, Hannibal desligou o motor, saltou do carro e abriu minha porta.

— A casa é sua? — a pergunta escorregou de meus lábios ao mesmo tempo em que minha mão escorregava para a dele.

— Comprei-a há alguns meses, logo após o falecimento do antigo dono — ele esboçou um pequeno sorriso torto — Esperava trazê-la aqui apenas no verão, mas, apesar do frio, tenho certeza de que o lugar será agradável.

— Sim — meus olhos se perderam no mar escuro e agitado. Toda aquela imensidão seria feita de lágrimas de anjo? —, muito agradável.

***

Com os cabelos ainda úmidos e a toalha de banho a envolver meu corpo, comecei a desfazer minha mala. Hannibal me indicara um dos quartos do segundo andar que, além de espaçoso e arejado, tinha uma cama grande e confortável e uma bela vista para o mar.

Tudo estava bom demais, perfeito demais... E eu me perguntava em que momento algo finalmente daria errado.

Franzi a testa. A mala não continha apenas o livro e as roupas que eram meus “pertences de Port Haven”. Havia ali alguns vestidos que não eram meus.

Ou melhor... Não eram meus até então.

Além daquele azul claro que eu conhecia tão bem, um modelo marfim me chamou a atenção. Desdobrei-o e o suspendi pelas alças finas que se mostraram absolutamente sedosas ao toque. Delas pendia um corpete de corte reto que, pouco estruturado, era inteiramente trabalhado em renda guipure. A saia era leve e vaporosa, não muito ampla, e presumi que terminasse na altura dos joelhos. Arqueei as sobrancelhas. Eu simplesmente não tinha palavras para definir a beleza daquela peça.

Relaxei as sobrancelhas e estreitei o olhar. Eu era habituada a calças e suéteres... Quando começara a gostar tanto de vestidos?

Não importava. Eu precisava de uma roupa limpa, e aquela parecia ideal para minha primeira noite na Itália: clara, suave e fluida.

Suspirei.

Que tudo o que era escuro e pesado ficasse em Baltimore, a um oceano de distância.

***

Fazia frio lá fora, mas a calefação deixava a temperatura interior tão agradável que, ao deixar o quarto, eu poderia jurar que estávamos em pleno verão. Agasalhos se mostraram dispensáveis... Mas o que mais me deixava satisfeita era poder deixar a echarpe de lado.

Ali eu não precisava me dar ao trabalho de usá-la. Não havia necessidade, afinal, de tentar esconder – tanto de outros olhos quanto dos meus – a história que estava gravada em minha pele.

Hannibal me esperava na sala de estar. Estava de costas, aparentemente perdido na escuridão além dos limites da janela, mas se virou assim que comecei a descer as escadas. Ele usava uma camisa branca e um colete preto. Sem gravata... E, pelo que deduzi, sem formalidades.

Antes que meus pés descalços alcançassem o último degrau, suas mãos já se estendiam para receber as minhas. Naquele momento, o que vi em seus olhos foi satisfação. Agradava-o que eu estivesse usando aquele vestido.

E, acima de tudo, agradava-o que eu fizesse suas vontades.

— O jantar demorará um pouco a ficar pronto — e, soltando minha mão direita, ele me conduziu pela esquerda até a biblioteca — Quero lhe mostrar algo enquanto isso.

O assoalho de madeira era tão perfeitamente encerado que, por um momento, quase tive receio de pisar nele. Lancei um breve olhar às estantes. Do chão ao teto, elas cobriam as paredes com livros – de roídos por traças a novos com aspecto de recém-comprados – dos mais variados temas. Mas eu sabia que não estávamos ali para olhá-los.

Levando-me ao instrumento que marcava o centro do cômodo, Hannibal me indicou o pequeno banco que o acompanhava. Sentei-me.

— Um cravo alemão do século XIX — observei as teclas enquanto ele pousava minha mão sobre elas — Além do excelente estado de conservação, ele dispõe de cordas afinadas duas oitavas acima do conjunto primário.

Arqueei as sobrancelhas. Eu ainda me perguntava o que aquilo queria dizer quando, abrindo um botão do colete, Hannibal se sentou ao meu lado.

— Os cravistas modernos tendem a preferir os modelos franceses a este — ele me olhou e sorriu —; mas não eu.

Retribuí o sorriso. Claro que não. Hannibal tinha uma fortíssima tendência a preferir tudo o que era distinto, incomum... Único.

E, passando um braço por minhas costas, ele se inclinou e tomou novamente minhas mãos entre as dele. Deslizando meus dedos desajeitados de tecla em tecla, logo fez com que algumas notas ganhassem o ar. Num primeiro momento eu mal soube diferenciá-las, mas, ao ouvir mais atentamente, pude perceber que elas formavam – ou tentavam formar – uma melodia.

Crispei os lábios e fixei o olhar num ponto indefinido à minha frente.

— Eu teria esta cicatriz se, ao invés de caçar, meu pai tivesse me ensinado a tocar? — a pergunta foi feita mais para os meus ouvidos do que para os dele. Aquele era, afinal, um questionamento que me acompanharia pelo resto da vida.

Hannibal parou. Seus dedos, então, deixaram os meus para alcançar os fios de cabelo que ocultavam parcialmente meu pescoço. Afastando-os, ele traçou com o polegar aquela marca que fora capaz de definir tantas coisas... E, entre elas, estava aquele exato momento.

— Talvez. Não podemos dizer como as coisas teriam sido se as circunstâncias fossem outras... Só sabemos que, se não tivesse essa cicatriz, você não seria a mesma pessoa — seu tom era baixo, sereno — Ela faz parte de quem você é, Abigail.

— E o que eu sou? Louca? — minhas palavras não passaram de um sussurro.

Senti seus olhos em mim por um momento.

E seus lábios foram ao meu pescoço para um beijo que, apesar de inesperado, foi absolutamente confortador. Fechei os olhos.

— Única — sua voz foi tão vibrante ao meu ouvido quanto a nota grave que permanecia no ar.

Talvez a música só existisse em minha cabeça... Mas o fato era que, quando os lábios de Hannibal deslizaram vagarosamente para encontrar os meus, ela se tornou mais audível do que nunca.

Notas finais
Capítulo dedicado ao flighttime-calculator.com, que me salvou de cometer umas gafes cabeludas por aqui. :v