Devour

10 Honre


Toquei meu lábio inferior com o indicador. A claridade da manhã começava a se infiltrar no quarto através das cortinas semitransparentes. Continuava a chover. Cobri-me até o queixo com o lençol. Se fechasse os olhos, eu ainda podia sentir os lábios úmidos e quentes de Hannibal sobre os meus.

O beijo fora suave e, ao terminar, deixara em seu lugar certas vontades às quais eu era alheia até então. Levei a mão ao meu pescoço.

O que Hannibal queria de mim? Ou melhor... Quem ele queria que eu fosse?

Meus dedos correram, então, até um seio. O mamilo estava rígido sob o tecido fino da camisola (eu a encontrara na mala; mais um dos belos, refinados e instigantes presentes de Hannibal Lecter). Suspirei.

Uma filha?

Deslizei a mão livre até a barra rendada. Suspendendo-a até os quadris, deixei que meus dedos se perdessem sob a calcinha.

Uma amante?

O indicador mergulhou na umidade quente, tentando aplacar em movimentos lentos e circulares os anseios que, apesar de um tanto amedrontadores, eram urgentes e infinitamente mais fortes do que qualquer pudor que eu pudesse ter.

Meus lábios secos se entreabriram para permitir que a língua os umedecesse. O suspiro que estava preso em minha garganta se transformou em gemido ao deixá-la.

Ambas?

***

Passei boa parte do dia com o exemplar de “Jane Eyre” em mãos... O que, no entanto, não queria dizer que eu estivesse realmente lendo.

Hannibal me deixou logo após o almoço para retornar somente na hora do jantar. Não o questionei. No fundo, eu me sentia aliviada por não ter de encará-lo naquele intervalo de tempo. Ele continuava a agir normalmente, com a cortesia e a delicadeza que lhe eram habituais... Mas eu não dispunha da mesma frieza. Olhá-lo nos olhos estava começando a se tornar um desafio.

Eu não saberia dizer o que realmente me constrangia: seu olhar ou os pensamentos que me acometiam quando ele o dirigia a mim. Torci os dedos. Ambas as coisas, muito provavelmente.

Anoitecia e, com isso, a hora de encará-lo novamente se aproximava. Abri o guarda-roupa e avaliei as poucas peças que jaziam penduradas ali. Eu fora informada de que o jantar daquela noite seria “especial”.

Suspirei. A ocasião exigia um traje à altura.

***

Eu tinha os olhos fixos no prato, mas sabia que os de Hannibal estavam sobre mim. Cortei um pequeno pedaço de carne, levei-o à boca e o mastiguei vagarosamente. O vestido começava a parecer um tanto desconfortável. Os sapatos, altos demais.

Destinei minha atenção à decoração da sala de jantar. Eu estava na segunda garfada quando, de repente, uma pergunta – que, aliás, eu devia ter feito havia muito – surgiu em meus lábios para quebrar o silêncio:

— Qual o motivo desta viagem? — franzi a testa e o encarei. Subitamente, todo o meu constrangimento tinha se esvaído.

Hannibal pousou os talheres sobre o prato e me observou.

— É melhor que estejamos longe de Baltimore quando Alana Bloom for noticiada como desaparecida — ele cruzou os dedos sobre a mesa num movimento lento e casual.

Larguei meu garfo e o olhei de esguelha.

Desaparecida?

Meu coração começava a acelerar. “Um jantar especial”. Baixei os olhos para o prato e, no mesmo instante, uma onda de náusea me dominou. Cerrei os punhos. Quando finalmente consegui encarar Hannibal outra vez, o que vi em seu rosto foi a confirmação de todos os meus temores.

— Meu Deus — minha voz foi um murmúrio quase inaudível.

Lágrimas começaram a arder em meus olhos. Engoli em seco. Sim, eu sabia quem realmente era Hannibal Lecter. Sempre soube. Mas o fato era que, até então, ele nunca fizera aquilo a uma pessoa tão próxima a mim.

Eu estava absolutamente horrorizada, sentia-me como se estivesse prestes a sufocar. O ar entrava e saía ruidosamente por meus lábios entreabertos. Alana morrera por minha culpa. Baixei as pálpebras por um momento enquanto sentia todo o meu corpo estremecer.

Entreguei-a a Hannibal assim como, um dia, entregara aquelas garotas ao meu pai.

Levantei-me num impulso, derrubando a cadeira com estrondo. Deixei-a lá, com o espaldar sobre o chão, enquanto ia até a sala de estar com o passo mais longo que os saltos permitiam. Eu sentia o gosto salgado das lágrimas quando, alcançando a porta principal, girei a chave e a abri.

Tropeçando no cascalho que rodeava a casa, cheguei à beira do rochedo. Lá embaixo, um mar negro, espumoso e violento ia de encontro às pedras da base.

Eu tremia da cabeça aos pés. A sensação de sufocamento era crescente. Naquele instante, só não tomei impulso e pulei por um motivo: faltou-me coragem. O choque de realidade, afinal, não fora capaz de amortecer meu instinto primário de autopreservação.

Minha respiração formava nuvens no ar gelado enquanto, arrancando o sapato do meu pé esquerdo, atirei-o ao mar. Eu experimentava uma agonia que nunca havia sentido antes. Joguei o outro sapato. Ela era potencializada pelo desespero de saber que eu simplesmente não tinha para onde fugir.

Eu podia correr de Hannibal Lecter, mas não de minha própria consciência.

Levando as mãos às costas do vestido, arranquei os botões de suas casas. No instante seguinte, ele era um amontoado de tecido azul que escorregava por minhas pernas. Peguei-o e torci entre meus dedos o adamascado que, de imediato, virou um bolo amassado e disforme.

Arremessei-o ao vento. O borrão azul claro cortou o ar por um segundo e, no seguinte, desapareceu de vista.

Levei as mãos à boca e fechei os olhos na tentativa de conter o grito que me subia à garganta. As lágrimas continuavam a escorrer, era impossível contê-las. Respirei fundo. Minha pele estava completamente arrepiada. As roupas íntimas eram finas demais para conter o vento frio que se infiltrava em meus ossos. Não me importei. Apenas chorei e deixei que os minutos passassem.

Só abri os olhos quando ouvi passos sobre o cascalho às minhas costas. Eu tremia violentamente e já não conseguia raciocinar de forma coerente.

Encolhi-me ao sentir que algo cobria meus ombros. Olhei para baixo. Era um roupão. As lágrimas correram, então, com mais intensidade do que nunca... E eu não tive forças para contestar quando Hannibal me envolveu em seus braços.

Não sei quanto tempo durou aquele abraço. Talvez minutos, talvez segundos... Mas, quando ele finalmente chegou ao fim e me permiti ser conduzida ao interior da casa, eu já não chorava mais.

Apertei o roupão ao redor da cintura enquanto me deixava levar à sala de jantar. A cadeira fora posta novamente de pé. Ele a puxou para que eu me sentasse diante do prato que, àquela altura, já estava gelado. Trinquei os dentes.

— Termine seu jantar, Abigail — com um aperto suave em meus ombros, Hannibal me deixou sozinha.

Mirei a comida enquanto sentia as lágrimas voltando aos meus olhos. Eu era responsável pela morte de Alana Bloom.

Cabia-me, então, a tarefa de honrá-la.

Notas finais
Não deixem de me dizer o que estão achando da fic! O número de reviews não é importante para mim, mas a opinião dos leitores ~inclusive os fantasminhas~ é (e muito)! :**