Devour
11 Flua

As lágrimas já estavam secas sobre minhas bochechas quando, levantando-me, fui até a cozinha e deixei a louça sobre a bancada.
Eu me sentia como quem entrava numa espécie de transe. Estava absolutamente apática ao subir as escadas e tomar o caminho do banheiro. Era como caminhar num pesadelo: meus sentidos não estavam aguçados como na vida real; as cores não eram tão nítidas, as sensações não pareciam tão verdadeiras.
Pisquei repetidas vezes. Eu tinha plena consciência, no entanto, de que aquela era a realidade.
Uma realidade muito semelhante a um sonho ruim.
Tranquei a porta e pendurei o roupão atrás dela. Não me lembro de ter aberto os registros ou de ter tirado a lingerie. Quando dei por mim, a banheira estava cheia e eu deslizava nua para dentro dela.
Minha pele se irritou em contato com a água quente. Não me importei. Afundando até o pescoço, deixei que meus poros se dilatassem. Entreabri os lábios. Eu não conseguia manter uma linha coerente de raciocínio, mas uma pergunta era muito clara em minha mente: eu teria o mesmo fim de Alana Bloom?
Sob a água, meus dedos correram para o ponto entre minhas pernas que, estimulado pelo calor, começava a latejar. Talvez Hannibal estivesse apenas aguardando o momento certo. Fechei os olhos enquanto minha mão livre ia até um mamilo. Talvez quisesse saborear – e prolongar – cada segundo do prazer que sentiria ao me matar.
Mordi o lábio inferior. Perguntei-me como ele faria, caso realmente planejasse aquilo. Os pelos de minha nuca se eriçaram. Cortaria minha garganta, tal qual meu pai, ou escolheria um método que me conservasse viva durante mais tempo?
Ele poderia me ver morrer aos poucos. Poderia contemplar minha agonia enquanto, inerte, eu definhava numa poça de sangue. Suspirei.
Meus dedos iam e vinham com mais rapidez por entre minhas pernas. O que faria comigo antes de finalmente me matar? Um gemido escapou de meus lábios e ecoou pelo banheiro.
Meu corpo estremecia, dominado por ondas torturantes de prazer. Peguei-me imaginando como seria ter Hannibal ali. Como seria se fossem os dedos dele ao invés dos meus.
Franzi a testa. Quanto haveria dele em mim, afinal?
Arfei.
A morte de Alana fora um choque. Eu ficara absolutamente assombrada, horrorizada... Mas os choques passam e nos permitem raciocinar com mais clareza. Refletindo, cheguei a uma conclusão: se tivesse a oportunidade de voltar no tempo e rever minhas palavras, não as desfaria. Mesmo conhecendo tão bem suas consequências, eu as escolheria e proferiria novamente sem titubear.
Por quê?
Crispei os lábios. Porque, apesar de amedrontada e apreensiva, ao entregar a doutora Bloom eu estivera pura, mórbida e extremamente curiosa pelo que aconteceria.
Assim como estava curiosa pelo que aconteceria comigo.
Eu seria morta?
Minhas costas se arquearam enquanto um gemido alto e prolongado ganhava o ar.
E, se fosse, Hannibal me honraria?
***
Enrolei a toalha em meu corpo úmido e, lentamente, caminhei até o quarto. Meus pensamentos se tornavam mais incoerentes a cada minuto. Fechei a porta e me deixei cair sobre a cama.
Talvez eu tivesse o mesmo fim de Alana Bloom. Talvez não.
Era impossível decifrar o que se passava pela cabeça de Hannibal, bem como antecipar seus planos e decisões. Ele parecia estar sempre um passo à frente de tudo e de todos. Crispei os lábios. Se, mesmo dispondo de toda a sua experiência no ramo da psicologia, a doutora Bloom não fora capaz de evitar o próprio destino, que poder eu teria sobre o meu?
Fechei os olhos por um momento. Poder algum. E, quando se abriram novamente, eles vislumbraram uma saída.
Levantei-me num salto e, tateando na penumbra que dominava o interior do armário, busquei minhas calças e meu suéter. Eu precisava fugir. Deixar aquela casa seria, afinal, a única forma de sair à frente dos objetivos de Hannibal – fossem eles quais fossem.
Ao menos até que ele me alcançasse novamente.
Deixei que a toalha escorregasse para o chão enquanto, às pressas, vestia o suéter de lã. Não havia tempo para fazer a mala e levá-la comigo. Vesti as calças. Se conseguisse correr até a rodovia, eu poderia conseguir uma carona. O destino seria o menos importante.
Naquele momento, o mais urgente de meus objetivos era sair dali, correr para tão longe quanto fosse possível. Deixar Hannibal Lecter para trás.
Calcei os sapatos. Minhas mãos agarraram a maçaneta e a giraram. Num segundo eu estava no corredor e, no outro, descia as escadas. A casa estava imersa em escuridão e silêncio. Senti-me imensamente grata por isso.
Quando alcancei a porta principal, no entanto, algo me fez hesitar. Olhei em volta. Nada se mexia e meus ouvidos não detectavam um som sequer... Mas, de uma forma estranha, talvez subconsciente, eu fui capaz de sentir que havia alguma coisa errada.
Virei a chave. Meus dedos, então, cingiram a maçaneta e a giraram.
O cascalho se esmagou sob meus pés quando deixei a casa correndo. O ar frio entrava e saía de minha boca em nuvens que cintilavam à luz do luar. Olhei para cima. A chuva cedera lugar a um céu limpo onde se via uma lua cheia gigantesca. Linda.
Corri o mais rápido que pude. Não diminuí o passo, não olhei para trás. Eu temia que, ao olhar, o impulso de dar meia-volta e buscar a parte de mim que ficara naquela casa fosse mais forte. Cerrei os punhos e segui em frente.
Eu chegava à fonte. O anjo me encarava, triste, enquanto vertia suas lágrimas silenciosas e incessantes. Estiquei o braço em sua direção.
Antes que eu pudesse tocá-lo, no entanto, uma mão firme se infiltrou em minha nuca e agarrou meus cabelos. Abri a boca, mas o grito ficou preso em minha garganta. Fui, então, arrastada até a base da fonte. Ao ser forçada a baixar a cabeça, meus olhos se depararam com o reflexo de Hannibal sobre a água fria e parada. Seu rosto era pálido e severo ao luar.
Suspirei.
A mão que estava em minha nuca deslizou até minha cintura, cingindo-a com força... E uma lâmina apareceu sobre minha garganta. Era tão fria que minha pele chegou a se arrepiar ao seu toque.
Tentei sorrir, mas meus lábios estavam trêmulos demais para isso.
— Você não me ama... — minha voz era baixa, aflita e vacilante — Como a uma filha?
Os olhos de Hannibal eram dois pontos escuros que brilhavam levemente no espelho d’água.
— É claro que a amo, Abigail — ele sussurrou ao meu ouvido ao mesmo tempo em que, muito lentamente, deixava que a faca deslizasse fundo em minha garganta — Cada família tem sua maneira de amar.
Arregalei os olhos para o sangue que jorrava sobre a água. Ele era negro à luz do luar. Observei-o se mesclar vagarosamente às lágrimas do anjo que, mais triste do que nunca, olhava-me de cima.
E a dor lancinante me cegou.
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