Devour

3 Saboreie


Eu mal havia fechado os olhos quando, tocados pela claridade do dia, eles se abriram novamente. Meu corpo estava completamente rígido, tenso. Se eu conseguira dormir por duas horas inteiras, fora muito.

Devia me levantar e descer? Devia continuar na cama e fingir que dormia? Sem saber o que fazer, olhei para o teto e esperei.

Aproximadamente quinze minutos se passaram antes que eu ouvisse duas batidas suaves na porta. “Toc, toc”. Congelei. Era como se eu temesse que um estranho estivesse do outro lado, como se não soubesse que era apenas Hannibal e ninguém mais.

Porque, no fim das contas, eu não sabia quem realmente era Hannibal Lecter.

— Entre — minha voz soou vacilante.

Ele trazia uma pequena bandeja nos braços e um meio sorriso no rosto. Usava um roupão muito semelhante ao que me emprestara, só que, ao invés de verde, o que ele vestia era de um tom profundo e levemente cintilante de azul.

— Dormiu bem? — Hannibal esperou que eu me recostasse nos travesseiros para depositar a bandeja sobre minhas pernas. Com grande alívio, vi que ela continha apenas uma torrada com manteiga, dois pequenos bolinhos de centeio, meia maçã e uma xícara do que me pareceu ser chá preto com leite. Nada de carne.

— Sim — respondi —, muito bem.

Esperei que ele me deixasse sozinha, mas, ao invés disso, Hannibal se sentou na beirada da cama. Tentei pegar um bolinho, mas ele se esfarelou sob meus dedos. Fui, então, à xicara de chá.

Seus olhos me perscrutavam com um interesse tão deliberado que a xícara começou a tremer em minhas mãos. Era como se ele tentasse ler meus pensamentos, como se quisesse descobrir o que – velada e intimamente – eu achava daquilo tudo... E, principalmente, o que achava dele.

— Que tipo de sonhos vem tendo, Abigail?

A torrada parou a meio caminho da minha boca.

— Nenhum — quem não dorme não tem como sonhar.

Ele refletiu por um momento, como que para avaliar se o que eu tinha dito era verdade ou não.

— Gostaria de tê-los?

Franzi a testa. Não compreendi aquela pergunta, não fui capaz de alcançar o que ela sugeria – se é que realmente sugeria alguma coisa.

— Depende — eu não estava disposta a ter pesadelos. Não mais.

Bons sonhos — com um breve sorriso, ele transformou em palavras o receio que dominava minha mente — Vamos providenciá-los para você.

E, prendendo meu queixo num aperto suave entre seu indicador e polegar, ele se levantou e me deixou sozinha.

***

Peguei a bandeja e me preparei para deixar o quarto. O roupão ficara dobrado sobre a cama que, não com muito sucesso, eu tentara arrumar. Reproduzir a arrumação tal qual eu a havia encontrado era algo que estava totalmente além das minhas habilidades.

Lançando um último olhar ao cômodo, fechei a porta e ganhei o corredor. Antes que meus pés tocassem a escadaria, no entanto, as vozes que chegaram aos meus ouvidos me fizeram diminuir o passo.

Elas vinham da sala de estar e eram baixas demais para que eu pudesse discernir o que era dito. Pé ante pé, aproximei-me do corrimão e estiquei o pescoço para ver o que se passava no andar de baixo.

— Posso garantir que ela está perfeitamente bem — foi tudo o que consegui ouvir dos lábios de Hannibal antes que ele olhasse para cima e esboçasse um sorriso.

Pisquei algumas vezes. Will estava ali. Uma espécie de surpresa mesclada a alívio começou, então, a me dominar. Era bom ver um rosto conhecido... Ou, talvez, simplesmente fosse bom ver alguém além de Hannibal.

Quando desci o último degrau, ele tomou a bandeja de minhas mãos para que eu pudesse cumprimentar Will. Ele estava com uma expressão horrível, parecia alguém que não dormia havia semanas. As olheiras e a barba por fazer o deixavam com um ar ainda mais exausto... E, por um momento, perguntei-me o que ele andava fazendo.

Ou o que Hannibal andava fazendo a ele.

— Foi bom deixar Port Haven por uma noite? — ele tentou parecer entusiasmado, mas o cansaço o impediu de soar convincente.

— Foi ótimo — sorri, soando ainda menos convincente.

— Mas, com toda a certeza, também será bom voltar — Hannibal pousou a bandeja sobre a mesinha de mogno que ladeava o sofá e, vindo até mim, puxou um molho de chaves do bolso de seu terno azul marinho — Vamos, Abigail?

— Eu a levo.

Hannibal e eu nos voltamos para Will.

De repente, foi como se uma bomba tivesse explodido na sala e devastado tudo em quilômetros e quilômetros ao redor. Talvez eu fosse a única a perceber essa súbita mudança na atmosfera, mas o fato era que, a partir daí, o ambiente não foi mais o mesmo. Uma tensão invisível – e incômoda – começou a pairar no ar.

Virei-me para Hannibal. Por trás daquela máscara de polidez, muito bem escondido no fundo dos olhos opacos e parados, eu podia enxergar um desconforto que, em muitos aspectos, podia ser comparado a uma onda de ira.

Ele assentiu. Um movimento rígido, porém extremamente cortês.

— Adeus, Abigail.

Mas o sorriso de canto que me foi dirigido dizia que aquilo era um “até breve”... Que eu temia o quão breve pudesse ser.

Ao pisar fora da casa, a claridade do dia logo fez com que eu estreitasse meus olhos. Era estranho pertencer novamente ao mundo real, era estranho me livrar da sensação de sufocamento que já começava a me parecer tão natural. A companhia de Hannibal era tão pungente, tão intensa... Que era como se, no curto período de tempo em que eu desfrutara dela, ele tivesse se tornado parte de mim.

Olhei de esguelha para Will enquanto ele dava partida no carro. Minha expressão estaria tão esgotada quanto a dele?

Entrelacei meus dedos e, enquanto o carro fazia a curva, lancei um último olhar àquele que fora meu lar por uma noite. Era como se eu estivesse partindo de minha verdadeira casa; deixando para trás meu quarto, minha cama... Meu pai.

Torci os dedos entrelaçados, acomodando-os entre minhas pernas enquanto Will tentava iniciar uma conversa que, eu bem sabia, invariavelmente terminaria no assunto “Hannibal Lecter”. Suspirei. Qual seria o destino das pessoas que o rodeavam, afinal?

Talvez o mesmo das flores que adornavam sua sala de estar: definhar, definhar, definhar... E, por fim, morrer.

Notas finais
Algumas pessoas ficam na mão, Hanni ficou na bandeja. E aí, que tal o cap? *-*