Devour
4 Engula
Notas iniciais

Um dia após voltar da casa de Hannibal, recebi a visita de Alana Bloom. Ela me deixou um livro antes de ir embora. Eu gostava da doutora Bloom. Era, afinal, uma das poucas pessoas que, na medida do possível, tratavam-me como alguém normal – alguém que não sofrera um trauma, que não apresentava algum tipo de distúrbio mental.
Tratava-me assim. O que não queria dizer que eu não estivesse traumatizada e, muito menos, que não estivesse começando a ficar louca.
Abri o livro. Era uma edição de capa dura de “Jane Eyre”. Pareceu-me interessante, apesar de a literatura de época nunca ter sido minha favorita. Algo com mais ação teria me prendido mais. Entre zumbis e saias bufantes, sempre preferi a primeira opção.
Ainda assim, tentei ler. Tentei. Mal havia lido seis páginas quando, sem que eu pudesse contê-los, meus pensamentos começaram a se dispersar. As palavras se reagrupavam numa dança que era rápida demais para que eu pudesse acompanhar, mas, em meio à confusão de frases e sinais gráficos, algumas letras se destacavam para formar um nome.
Lecter. Hannibal Lecter.
***
Uma semana se passou antes que ele viesse me buscar para um novo jantar. Surpreendentemente, eu não estava tensa. Os dias que se passaram foram mais do que suficientes para que, aproveitando a solidão ociosa do meu quarto, eu tecesse algumas linhas de raciocínio.
Temê-lo seria pior do que enfrentá-lo. Essa passou, então, a ser minha conclusão número um.
— O que teremos para o jantar? — perguntei enquanto estacionávamos na frente de sua casa.
Hannibal me olhou de esguelha enquanto desligava os faróis. O fino sorriso que brotou em seus lábios me obrigou, um tanto cedo demais, a lembrar da “conclusão número um”. Ter medo só tornaria tudo... Pior. Muito pior.
— Porco — ele respondeu antes de saltar do carro. Esperei que desse a volta e abrisse minha porta como sempre fazia. Abrindo-a, ele me ofereceu a mão. Fazia frio, seus dedos estavam absolutamente gelados quando envolveram os meus.
Porco. Ótimo.
Saltei do carro e deixei que nossas mãos se soltassem. Indo até a porta de entrada, esperei que Hannibal a abrisse e me permitisse entrar primeiro.
Quando pisei no tapete do hall, meus olhos logo voaram para o arranjo sobre a lareira. As flores ainda estavam lá, exatamente como alguns dias atrás... Só que mais secas, mais mortas.
Passando por elas, tomamos o caminho da cozinha. Quando me virei para entrar, no entanto, Hannibal me deteve. Cingindo meu braço, ele me conduziu até a sala de jantar.
A luz estava acesa e, sobre a mesa, havia uma maleta preta.
Aquilo tudo estava começando a ficar estranho.
Muito estranho.
Soltando meu braço, sua mão deslizou até a gola do meu casaco e a puxou para baixo. Quando dei por mim, estava sem casaco e sem saber o que pensar. A “conclusão número um” era, a essa altura, uma centelha fraca que brilhava no fundo da minha mente...
E, antes que eu pudesse protestar, suas mãos envolveram minha cintura. Soltei o ar (que eu sequer me dera conta de estar prendendo) num suspiro audível e irregular. Num segundo eu estava suspensa e, no seguinte, estava sentada sobre a mesa. Ele era muito mais forte – e ágil – do que eu julgara até então.
Busquei seus olhos numa indagação muda, mas eles não encontraram os meus. Hannibal parecia absorto, novamente perdido naquele universo particular que era só seu, que era invisível e impenetrável para mim ou qualquer outra pessoa.
Estremeci ao ver que ele tirava o terno e pendurava-o numa cadeira. Sua mão direita foi até a manga esquerda da camisa e a dobrou três vezes. Trinquei os dentes. A mão esquerda fez o mesmo à manga direita. Sua expressão era compenetrada, impassível.
Um impulso de me pôr de pé e correr se abateu sobre mim. Contive-o. Correr seria um esforço vão; se tentasse fugir, Hannibal me alcançaria antes que eu percorresse metade do caminho que levava à porta.
Minhas mãos se agarraram à borda da mesa.
Esperei.
Abrindo a maleta, ele tirou dela uma ampola que continha um líquido transparente e uma seringa. Virou o vidrinho de ponta-cabeça, espetou a agulha, puxou o êmbolo e deixou que meu terror começasse a preencher o ambiente de maneira quase tangível.
Arregaçando a manga do meu suéter, então, ele posicionou – muito calmamente – a ponta da agulha sobre a pele do meu braço. Eu queria puxá-lo, saltar da mesa e ir embora, mesmo sabendo que Hannibal me alcançaria no terceiro passo dado. Não consegui. Era como se uma força maior me mantivesse sentada, impossibilitando-me de realizar qualquer tipo de movimento mais brusco. Pisquei.
Imóvel, passiva, desprovida de vontade própria.
E, com um arrepio que percorreu meu corpo da cabeça aos pés, vi a linha fina e prateada desaparecendo sob minha pele. Ela deixou um rastro cáustico que era acentuado na medida em que, com uma lentidão torturante, a seringa se esvaziava. Entreabri os lábios. Eles estavam tensos e absurdamente secos.
— O que é isso? — minha voz foi nada mais do que um sussurro aflito.
E Hannibal finalmente me olhou.
— Sonhos.
***
Quando dei por mim, eu descia escadas estreitas no interior de um tubo de penumbra. Tropecei, mas as mãos que me agarraram impediram-me de cair. Era difícil manter os olhos abertos. Minha boca estava seca e minhas pernas levemente dormentes.
Tudo era muito escuro, incerto. Tateei. As escadas de repente terminaram. Eu estava no chão.
As mesmas mãos que me ajudaram, agora, conduziam-me pela escuridão. Dez passos. Talvez mais, talvez menos. Paramos.
Eu ouvia uma respiração que não era minha. Era alta, ruidosa, aflita. Tentei umedecer os lábios com a ponta da língua, mas não tive sucesso. Ela também estava seca. Pisquei algumas vezes para o vazio negro que dominava meu campo de visão.
Então a luz foi acesa.
Eu estava num porão. Das vigas do teto pendiam ganchos como aqueles usados no abate de animais. Instrumentos diversos jaziam pendurados numa parede à minha frente. Consegui identificar um cutelo e alguma coisa que lembrava um serrote. Um cutelo e um serrote. Era estranho que ferramentas destinadas a usos tão distintos fossem penduradas juntas.
Pisquei algumas vezes. Manter os olhos abertos era realmente um desafio e tanto.
E um homem se materializou diante de mim. Como eu não o vira antes? Ele era gordo e usava trajes sociais. Podia, perfeitamente, ter acabado de sair de um escritório ou algo assim. A sobriedade das roupas só era quebrada pelas várias voltas da corda escura e grossa que o atava a uma cadeira.
Uma fita adesiva larga fora-lhe colada sobre a boca. Gotículas de suor brotavam de sua testa e um pedido de socorro gritava em seus olhos.
Foi então que uma mão – uma daquelas que haviam me ajudado a descer as escadas – me estendeu um objeto. Peguei-o.
Era uma faca de caça.
— Mate-o, Abigail — a voz de Hannibal se fez ouvir ao meu lado; não tão perto, tampouco distante — Mate-o como seu pai a matou naquele dia.
Franzi a testa, estranhando a frase. Passaram-se uns bons segundos – ou minutos, ou horas, ou dias, eu já não tinha mais noção de tempo, já não tinha mais noção alguma – até que eu compreendesse que, num certo sentido, meu pai realmente havia me matado.
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