Devour
5 Liberte-se
Notas iniciais

Os ruídos que ele emitia por trás da fita crepe me lembravam os guinchos de um porco no abate.
Apertei o cabo da faca entre meus dedos que começavam a tremer incontrolavelmente. Eu saía do estado de letargia para experimentar aquele que era justamente seu oposto: euforia.
Coração acelerado, boca seca.
Raciocinar era impossível. Eu pensava em todas as coisas do mundo e, simultaneamente, em nenhuma.
A imagem de meu pai e a de Hannibal Lecter eram uma só. Pisquei repetidas vezes. Eu puxava o ar com força pela boca. Não havia água ali, mas a sensação de afogamento que me dominou foi tão forte que, levando a mão livre à garganta, enterrei as unhas na curva sob o queixo e, quase arrancando a echarpe, arrastei-as até a base do pescoço. Luzes piscavam. Talvez só piscassem na minha cabeça.
Hannibal, de repente, tinha olhos claros como os meus. Estaria refletida nos meus toda a morte que brilhava nos dele?
Olhei para o porco. Ele guinchava e tentava espernear. Era uma cena lamentável.
E eu me vi ali, vi-me guinchando e lacrimejando em seu lugar. A faca de caça que rasgava meu pescoço pertencia ao meu próprio pai. Tudo virou um borrão. Eu estava sem ar, estava sem mãe, sem pai, sem forças para tentar estancar o sangue que jorrava do meu pescoço...
Mas estava viva.
Apertei a faca com tanta força que meus dedos começaram a doer.
Estava viva graças a Hannibal Lecter.
Sorri para ele. A sensação de afogamento foi, pouco a pouco, sendo substituída pela de imersão. Hannibal retribuiu o sorriso, encorajando-me. Eu tremia da cabeça aos pés, mas, ainda assim, consegui dar a volta e me posicionar atrás da cadeira. Meu coração subia à garganta. Pisquei.
Encostei a lâmina na pele mole e rosada do porco. Suspirei.
E foi o pescoço de meu pai que se abriu num jorro quente de sangue. Foi o terror dele que preencheu o ambiente em forma de ruídos porcinos que, um tanto desfigurados pelo abafamento da fita adesiva, espalharam-se pelo ar.
Foi a cabeça dele que pendeu para trás. Os olhos vidrados, o sangue formando poças pelo chão.
E tudo virou uma névoa rubra e extremamente úmida onde nada se via além da silhueta de Hannibal. Eu não podia enxergar seu rosto, mas, de alguma forma, tinha certeza de que ele sorria. Orgulhava-se de mim.
Estendi minhas mãos. Estavam totalmente vermelhas, pegajosas, mas já não tremiam... E estavam vazias, a faca de caça se perdera. Não lamentei, afinal, eu não precisaria mais dela.
Sorri enquanto sentia lágrimas grossas e quentes a escorrer por meu rosto. Meu pai estava morto, sim, mas aquilo estava longe de ser uma morte. Era um renascimento. Meu, daquelas garotas. Nosso.
Pisquei. E, de repente, meus olhos não se abriram mais.
***
Acordei numa cama macia e quente. Era a cama de Hannibal, só que não parecia dura como da primeira vez em que me deitei nela. Franzi a testa. O colchão estava mais confortável... Ou eu estava menos tensa?
Inspirei profundamente. Eu me sentia relaxada e absolutamente restaurada.
Espreguicei-me. Afastei os cobertores para me levantar e, com um choque, percebi que eu usava um vestido. Olhei em volta. Meu suéter e minhas calças jeans não estavam em parte alguma. Pus-me de pé quase aos tropeços e busquei meus sapatos. Eles também não estavam à vista.
Eu começava a ficar tensa. Realmente tensa.
Minhas mãos se agarraram ao tecido adamascado enquanto, descalça, me dirigi ao banheiro. O interruptor fez um “clec” muito audível quando o baixei. O piso era absurdamente gelado sob meus pés enquanto, pondo-me nas pontas deles, mirei-me no espelho.
Meus cabelos estavam úmidos e minhas bochechas muito coradas. Linhas róseas se destacavam em meu pescoço, ele parecia um tanto irritado. Eu tinha a aparência de quem dormira por horas a fio. Apoiei as mãos na pia enquanto, muito lentamente, meus olhos deslizavam para o vestido.
O relevo do tecido foi o que mais chamou minha atenção; aquele padrão se assemelhava – e muito – ao das gravatas que Hannibal costumava usar. Ignorei o arrepio que subia por minha coluna e observei o corte da peça. Era um clássico: alças grossas, decote quadrado, corpete justo e uma saia levemente ampla que terminava a um palmo acima dos joelhos. Era lindo, eu não podia negar.
Mas o que mais me agradou foi a cor.
— A cor dos seus olhos.
Sobressaltei-me, esbarrando as mãos nos frascos de sais de banho que, por pouco, não foram ao chão. Arrumei-os às pressas e me virei para Hannibal. Parado na soleira da porta, ele tinha um pano nas mãos e um avental amarrado à cintura. Pisquei duas vezes. Meus lábios começavam a tremer.
— Que horas são? — de todas as perguntas que rodavam em minha mente, fiz logo a mais ridícula.
— Falta pouco para a meia-noite.
Franzi a testa.
— Por quanto tempo eu dormi?
— Quatro horas e meia — Hannibal esboçou um sorriso. Ele parecia realmente satisfeito... E o motivo de toda aquela satisfação era o que mais me deixava apreensiva.
— Por que estou com esta roupa? — meus dedos deslizaram sobre o tecido azul claro de forma quase involuntária.
Ele hesitou por um momento. Parecia escolher as palavras certas enquanto seu olhar se fixava na pouca pele do meu colo que o decote alto deixava à mostra. Os pelos da minha nuca imediatamente se eriçaram.
— Naquele dia, quando Will a levou de volta a Port Haven — começou —, julguei que, quando tivesse novamente o prazer de sua visita, seria meu dever lhe oferecer algo mais apropriado do que um roupão masculino.
Eu simplesmente não sabia mais o que pensar de tudo aquilo.
— Onde estão minhas calças e meu suéter? — perguntei.
— Secando — um brilho estranho podia ser visto no fundo dos olhos de Hannibal.
— Você os lavou? — virei o rosto e olhei-o de esguelha — Por quê?
— Para que você não cedesse à tentação de tirar esse vestido tão bonito — ele falava como se estivesse tentando explicar algo complexo a uma criança teimosa de cinco anos — que, como é evidente, caiu-lhe perfeitamente bem.
Ele estava certo. Era exatamente o que eu faria se minhas roupas não estivessem molhadas. Suspirei.
— Quando o vesti? — a pergunta tardia se desprendeu de meus lábios só para me fazer soar tão louca quanto eu me sentia intimamente.
Hannibal estreitou minimamente os olhos.
— Logo após o banho, eu presumo — e um sorriso quase invisível lhe iluminou o rosto.
Franzi a testa.
— Está com fome? O jantar está quase pronto — interrompendo minha linha de raciocínio, ele estendeu a mão livre.
Em três passos sobre o chão gelado, minha mão já escorregava para a dele. Seus dedos envolveram os meus num aperto quente e caloroso que, imediatamente, levou embora todo o frio que havia começado a subir por minhas pernas.
— Sim — falei a verdade porque, se mentisse, Hannibal simplesmente saberia —, muita. O que tem para o jantar?
— Lombo de porco ao molho de champanhe e passas.
Algo totalmente novo (e curiosamente festivo) para mim. Apesar de nunca tê-lo provado, pareceu-me delicioso...
E, se tratando de um prato preparado por Hannibal Lecter, eu definitivamente não tinha o direito de pensar o contrário.
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