Devour
6 Delicie-se
Notas iniciais

Levei uma garfada de carne à boca. Ela era suave e levemente adocicada. Levantei o olhar. Hannibal tinha os olhos fixos em mim como quem esperava um veredito.
— Nunca comi algo tão... — “assombroso” foi a primeira palavra que me veio à mente. Contive-a — Saboroso.
Ele me presenteou com um meio sorriso e iniciou o próprio jantar.
Meus pés nus estavam em contato com o chão frio. Meu corpo começava, muito discretamente, a estremecer. Bebi um gole de suco de laranja. Como tudo ali, ele também estava gelado.
— Dormiu bem, Abigail?
Olhei-o. Ele tinha os olhos cravados no próprio prato. A faca ia e vinha lentamente sobre uma fatia de carne generosamente coberta com molho.
— Sim — a desconfiança era quase visível em meu tom de voz.
Hannibal pousou a faca sobre o prato e me olhou. Era como se ele pudesse ver através de mim, como se pudesse enxergar com facilidade tudo aquilo que eu – desesperada e inutilmente – tentava esconder.
— Sonhou?
Meus dedos se fecharam ao redor do cabo da faca. Franzi os lábios.
— Eu... — se mentisse, ele saberia. Sempre. — Não tenho certeza.
Aquela resposta era digna de uma pessoa desequilibrada, insana... E, talvez justamente por isso, tenha-o agradado tanto.
Hannibal parecia satisfeito como eu nunca o vira antes. Levando uma garfada generosa de carne à boca, ele a mastigou como se aquilo fosse uma espécie de alimento sagrado, dotado de propriedades capazes de lhe conferir algum tipo de poder especial. Estremeci. Um deus que, regozijando-se ante seu próprio poder, devora a mais recente de suas oferendas.
O jantar chegou ao fim sem que mais perguntas fossem feitas, o que me deixou profundamente aliviada. Levantando-me, peguei meu prato e meu copo com a intenção de levá-los até a cozinha. Antes que o fizesse, no entanto, Hannibal chamou minha atenção:
— Não lavaremos louça hoje, Abigail.
Parei. Devolvendo o prato e o copo à mesa, deixei que Hannibal me conduzisse à sala de estar.
O abajur era a única fonte de luz ali. Estreitei os olhos. Apesar da penumbra que dominava os cantos mais distantes do cômodo, pude ver que as flores já não estavam sobre a lareira. Perguntei-me o que lhes teria acontecido. Talvez tivessem simplesmente ido parar na lata de lixo depois que, uma vez esgotada sua vitalidade, deixaram de ser esteticamente úteis.
Meus pés saíram do assoalho frio para ganhar a temperatura mais agradável do tapete. O sofá me foi indicado e, sem questionar, sentei-me. Ao meu lado havia uma caixa cor de creme. Uma caixa de sapatos. Entrelacei as mãos e esperei.
Hannibal se abaixou, apoiando-se sobre um joelho. Sua expressão era muito pouco sugestiva quando, pegando a caixa e pousando-a sobre o tapete, ele puxou a tampa e revelou um par de sapatos pretos de verniz. Tinham saltos médios e bicos arredondados.
Sapatos de boneca.
Segurando meu pé direito, então, ele o conduziu cuidadosamente ao seu respectivo calçado. A palmilha se mostrou macia quando meus dedos deslizaram sobre ela. Suspirei. Meu pé esquerdo teve o mesmo destino. Olhei para baixo.
O verniz brilhava suavemente à luz do abajur. O tecido do vestido também cintilava, porém muito mais discretamente. Azul e preto. Uma combinação incomum.
Hannibal recolocou a tampa na caixa, levou-a ao sofá e se pôs de pé. Com um meio sorriso, então, ele me estendeu a mão.
— Gostaria de dançar comigo, Abigail?
Congelei.
— Mas não há música — foi tudo o que consegui dizer.
— Haverá — o sorriso dele se alargou quase que imperceptivelmente —, se você imaginá-la.
Estupefata, deixei que minha mão escorregasse para a de Hannibal. Ele imediatamente a acomodou sobre seu ombro e, cingindo minha cintura, aproximou meu corpo do dele. Fixei meus olhos na gravata azul. Ela tinha um padrão floral que muito me evocava as flores mortas que, um dia, enfeitaram aquela sala.
— Eu imagino muitas coisas que não existem — minha voz era um sussurro trêmulo — Se imaginar mais uma, serei oficialmente louca.
Aproximando ainda mais meu corpo do seu, Hannibal me conduziu num balanço lento e cadenciado. Ergui o rosto. Eu não saberia descrever o que vi em seus olhos, mas, de uma forma estranha e insana, tive certeza de que muito daquilo se refletia nos meus.
— Somos todos loucos aqui, Abigail — sua voz foi profunda, rouca e quente ao ir de encontro ao meu rosto.
Eu já ouvira aquela frase antes, só não saberia dizer onde... E, naquele momento, ela soou como a mais absoluta das verdades.
Sorri. Por um instante, senti que não precisaria mais fingir. Que, louca ou não, poderia simplesmente ser eu mesma. Ali não havia julgamentos ou condenações. Eu era compreendida, acolhida e amada. Talvez tudo não passasse de uma ilusão, assim como a música que começava a tocar em minha mente...
E, se assim fosse, eu gostaria que ela durasse para sempre.
Estremeci ao sentir a mão de Hannibal sob meu queixo. Ele o ergueu lentamente. Eu me sentia vibrante e, ao mesmo tempo, completamente entorpecida. Seus dedos, então, correram até minha nuca e a envolveram. Entreabri meus lábios.
Seus olhos eram cheios de certezas ao encontrar os meus. Quais eram elas? Eu jamais saberia dizer.
E seus dedos afundaram vagarosamente em meus cabelos. A música que ecoava em minha mente era cada vez mais alta, mais aguda... Até que, de repente, se transformou em silêncio. Então eu finalmente pude ouvir nossas respirações com mais clareza: a dele era calma, a minha era fraca e ansiosa.
Minhas mãos se agarraram ao colete escuro. Àquela altura, ele podia muito bem ser preto ou azul marinho. Distinguir cores se tornou uma tarefa pesada demais, difícil demais.
Hannibal parou. Seus lábios estavam tão próximos dos meus que, inclinando a cabeça e vencendo uns poucos centímetros, eu conseguiria tocá-los com a maior facilidade do mundo.
Foi ele, no entanto, quem diminuiu essa distância. Fechei os olhos. Foi uma reação instintiva, não planejada. Eu não estava raciocinando... Estava apenas me deixando levar.
E, com um arrepio que percorreu meu corpo inteiro, senti seus lábios sobre minha bochecha direita. Imediatamente abri os olhos. Por um breve segundo, sua boca foi macia, quente e levemente úmida sobre minha pele. Suspirei.
— Está tarde. Vou levá-la para a cama — Hannibal não sorria, mas, de alguma forma, consegui enxergar o quanto o duplo sentido daquelas palavras o divertia.
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