Devour

7 Entregue


O dia estava mais claro do que de costume quando, de café da manhã tomado e já vestindo minhas roupas habituais, preparei-me para voltar a Port Haven. Aparecer por lá usando um vestido e um par de sapatos altos seria, no mínimo, algo inapropriado – e extremamente suspeito. Hannibal disse que os guardaria até que eu tivesse nova oportunidade de usá-los.

Franzi a testa. A noite anterior, de repente, pareceu-me um grande e estranho sonho... Que se desfez ao raiar do dia, sufocado pela dura e impassível realidade.

Desci as escadas. Com um casaco dobrado sobre o braço e um molho de chaves na mão, ele me esperava na sala de estar.

— Vamos? — Hannibal esboçou um sorriso.

— Vamos — retribuí o sorriso, mas evitei seu olhar.

Eu me sentia estranha. Não estava tensa, mas, por outro lado, estava muito longe de me sentir calma. Fechei os botões do casaco e ajeitei a echarpe ao redor do pescoço. A sensação de estar deixando um lar se abatia novamente sobre mim. Era difícil voltar para a solidão vigiada de Port Haven quando, ali, eu tinha a oportunidade de experimentar uma vida tão... Normal.

Exceto sob alguns aspectos.

E então, quase que por reflexo, meus olhos correram para a lareira. O que viram ali me despertou um misto de emoções: aturdimento, admiração... Conforto. As flores secas estavam novamente ali, mas não dentro de um vaso como da última vez em que eu as vi. Elas tinham sido cuidadosamente dispostas – de forma a lembrar o arranjo original – entre dois retângulos de vidro que eram unidos por uma fina moldura preta.

As flores pereceram, sim, mas o quadro no qual foram transformadas lhes possibilitou a continuidade de seu propósito. Elas agora adornavam o ambiente numa espécie de imortalidade que, apesar de um tanto triste e desoladora, era extremamente bela.

Morreram, mas foram honradas.

***

Ouvi duas batidas na porta do meu quarto antes que ela se abrisse e, com um sorriso no rosto, Alana Bloom entrasse.

— Como vai, Abigail?

— Bem — respondi rápido demais.

Sentando-se na borda da cama, ela me observou. Eu detestava aquele tipo de olhar. Em geral, olhares assim eram sucedidos por alguma observação a respeito da minha saúde mental.

— O que achou do livro?

Franzi a testa. Eu não estava preparada para uma questão despretensiosa como aquela.

— Ótimo — considerando que eu não havia passado da página seis.

— Fico feliz — seus lábios sorriam, mas seus olhos continuavam a me avaliar — Abigail, precisamos conversar a respeito de...

— Hannibal — quando pensei em ficar calada e apenas ouvir, já era tarde demais. Não sei de onde veio o nome dele, mas, naquele momento, inseri-lo na conversa parecia fazer todo o sentido do mundo.

Alana estreitou minimamente os olhos.

— Sim, Hannibal — ela cruzou as pernas e apoiou um braço sobre elas num gesto que me pareceu profundamente masculino — Acho que você deve parar de frequentar a casa dele, Abigail.

A informalidade daquelas palavras me surpreendeu. Ela não falava como “Doutora Bloom”, falava apenas como quem dá um conselho a alguém que está fazendo algo errado. Muito errado.

— Por quê? — soei grosseira, embora não fosse minha intenção.

Ela hesitou por um momento.

— Porque — quando finalmente encontrou as palavras certas, seu tom era absolutamente sério — desconfio que Hannibal não seja quem aparenta ser.

Arqueei as sobrancelhas.

— O que quer dizer? — consegui deixar minha voz mais neutra, mas um resquício de aspereza ainda podia ser ouvido nela.

Hesitando novamente, Alana se levantou.

— Por ora, não posso lhe dar maiores informações — era novamente a “Doutora Bloom” falando. Ela me olhava de cima com uma expressão que beirava a comiseração enquanto, estendendo a mão à maçaneta, preparava-se para me deixar — Prometa-me que vai se manter longe de Hannibal Lecter, Abigail.

Sustentei seu olhar. Eu detestava a subestimação que havia nele. Franzi os lábios e, com uma expressão resignada, balancei a cabeça num sinal afirmativo.

— Tudo bem — falei.

Ela não era Hannibal. Não saberia distinguir minhas verdades de minhas mentiras.

***

Quando a porta do meu quarto se abriu novamente, oito dias após a visita de Alana Bloom (e nove desde minha última visita a Hannibal), foi Will Graham quem entrou por ela. Fiquei contente ao vê-lo. Eu gostava de Will; ele me compreendia...

Ou, talvez, simplesmente não estivesse em condições de me julgar.

— Como vai? — ele tentou sorrir. Estava com uma aparência ainda pior do que da última vez em que o vi.

— Bem — a resposta, de tão habitual, tornou-se quase automática.

Indo até a janela, ele a abriu e deixou que o ar circulasse pelo ambiente. Eu não havia me dado conta de que a atmosfera ali estava tão abafada, tão pesada. Aquele parecia o quarto de alguém doente... E, de certa forma, talvez ele fosse exatamente isso.

— Por que não damos uma volta? — Will parecia realmente desconfortável ali.

Assenti. Descemos, então, ao jardim de inverno. Eu gostava muito daquele jardim, embora a falta de uma companhia agradável me impedisse de frequentá-lo com mais frequência. A palavra “refúgio” era a primeira que me vinha à mente quando eu pensava naquele lugar; ele me proporcionava a sensação de deixar Port Haven sem que, para isso, eu precisasse escalar muros e fugir (no sentindo literal da palavra).

Sentamo-nos num banco.

Conversamos, então, sobre absolutamente tudo, e isso me deixou contente e relaxada. Era bom deixar o isolamento vicioso do meu quarto, era bom conversar com alguém que não avaliava minha sanidade (não de forma indisfarçada, pelo menos) a cada dois segundos.

— Tem planos para o futuro? — ele perguntou de repente, obrigando-me a refletir por um momento antes que a resposta surgisse em minha mente.

— Eu... — fixei o olhar nas plantas à minha frente — Eu pensei em entrar para o FBI.

Não o olhei, mas pude sentir que Will sorria.

— São grandes planos.

Sorri. Com “grandes”, muito provavelmente, ele queria dizer “irrealizáveis”.

— Estou traumatizada, não estou? — olhei-o — Eles nunca aceitariam alguém como eu.

Will hesitou por um instante.

— Farei o possível para que tenha uma vida tranquila, livre de traumas — e, sustentando meu olhar, tomou minhas mãos entre as dele — Eu me sinto responsável por você, Abigail.

Entreabri os lábios. Eu não sabia o que dizer; era muito difícil pensar rapidamente numa resposta adequada para aquilo.

— Boa tarde — até que Hannibal me poupou dela.

Sobressaltando-se, Will soltou minhas mãos e se levantou.

— Tenham uma boa tarde — ele se virou para ir embora.

— Fique mais um pouco — pedi.

Ele parou.

— Jack me espera — então fixou os olhos no chão como quem decide se deve dizer algo ou não — Há um novo caso... Um estripador. Precisam de mim para traçar o perfil psicológico.

Assenti e assim nos despedimos. Meus olhos voaram para Hannibal que, com um casaco dobrado sobre os braços, observou Will deixar o jardim e ganhar o corredor que levava à saída. Sua expressão era indecifrável quando, virando-se para mim, ele perguntou:

— Há algo que queira me contar, Abigail?

Os músculos do meu corpo imediatamente enrijeceram. Olhei para os lados. As plantas estavam imóveis como estátuas verdes, pareciam aguardar atenta – e acusadoramente – minha resposta. Torci os dedos e o encarei.

— Alana desconfia de você — não sei de onde veio aquela frase. Ela saiu de minha boca num jorro trêmulo e impensado antes que eu pudesse pesar seus efeitos e possíveis consequências.

Torci ainda mais os dedos. Eles começavam a tremer. Eu devia ter dito outra coisa ou simplesmente ter ficado calada... Mas já era tarde demais para ambas as opções.

Hannibal crispou os lábios muito sutilmente. Ele me encarava de cima com olhos que, apesar de opacos, deixavam transparecer uma espécie de fulgor que era incompreensível para mim.

— Você vai jantar comigo hoje, Abigail.

Não era um convite, era uma ordem.

Notas finais
Abby, ce precisa segurar essa boca, miga. Só acho.