Devour

8 Questione


Notas iniciais
Capítulo bem ~vermelho~, espero que gostem. *-*

O suco vibrava dentro do copo quando o levei à boca. Hannibal me servia uma fatia do assado que, segundo ele, era de “um kobe especialmente dócil”. O molho escuro escorreu lentamente sobre a carne numa visão que, ao invés de abrir meu apetite, deixou-me nauseada.

Eu estava absurdamente nervosa... Mesmo que, aparentemente, não tivesse motivos para isso.

Cortei um pequeno pedaço de carne e estava prestes a levá-lo à boca quando, sobressaltando-me, a campainha tocou. Pousei o garfo em meu prato ao mesmo tempo em que, muito lentamente, Hannibal pousava a faca e o garfo de carnes sobre a bandeja do assado.

— Leve seu jantar para o quarto, Abigail — a voz dele era totalmente inexpressiva — Feche a porta e não a abra até que eu diga que pode fazer isso.

Apesar de eu não compreender a razão de tudo aquilo, tratei de obedecer rapidamente. Pegando meu prato, meus talheres e meu copo, deixei a sala de jantar. A sala de estar jazia imersa em escuridão, o que requeria cuidado dobrado com as escadas. Antes de subi-las, no entanto, lancei um olhar à porta de entrada.

Quem estaria atrás dela?

Crispei os lábios e, com cuidado, subi degrau por degrau.

Talvez fosse melhor não saber.

***

Eu começava a ficar impaciente. Terminara meu jantar havia um bom tempo... E nada. A porta permanecia fechada.

A casa era envolvida por um silêncio absoluto. Eu não ouvia sequer um ruído vindo do corredor ou do andar de baixo. Mirei a louça que jazia sobre a cômoda. Talvez, com a desculpa de levá-la até a cozinha, eu pudesse descobrir o que estava acontecendo – se é que realmente acontecia algo.

Levantei-me e comecei a andar de um lado ao outro. Hannibal fora muito específico: eu não deveria abrir a porta. Indo até a janela e afastando a cortina, observei a rua. Estava escura e completamente deserta.

A aflição ia começando, muito lentamente, a me dominar. Torci a cortina entre meus dedos. Se ficasse ali, eu acabaria enlouquecendo (isso, é claro, partindo do princípio de que já não estivesse louca).

E, soltando a cortina, caminhei vagarosamente até a porta e encostei o ouvido nela. Nada, como era de se esperar. Meus dedos se demoraram um pouco sobre a maçaneta antes que, soltando o ar que estava preso em meus pulmões, eu decidisse girá-la.

O corredor era escuridão e silêncio, nada mais. A partir do momento em que pus os pés nele, soube que não haveria como voltar atrás. Deixei a porta aberta, para que a faixa de luz pudesse iluminar, ao menos em parte, o trajeto até as escadas.

Eu podia ouvir dois sons: minha própria respiração e o arrastar de meus sapatos sobre o tapete.

Pé ante pé, cheguei ao corrimão e me apoiei nele. Olhei para baixo. A sala estava tão escura e deserta quanto no momento em que subi as escadas.

Desci um degrau. A luz do corredor que levava à cozinha estava aparentemente acesa. Lentamente, então, desci todos os degraus restantes. Meu coração estava acelerado como nunca antes. Eu sabia que permanecer no quarto teria sido uma escolha infinitamente melhor, mas já era tarde demais para voltar.

Uma escolha precipitada e impensada... Como quase todas as que eu fizera até então.

Trinquei os dentes. Lamentar só pioraria a situação. Virei-me para o corredor e, em alguns passos rápidos, eu entrava nele. Estava tão vazio quanto todas as outras dependências. As luzes da cozinha e da sala de jantar estavam apagadas. Franzi a testa. Eu fora deixada sozinha naquela casa?

Quando me virei para voltar à sala, no entanto, a porta que levava ao porão se abriu. Imediatamente suprimi um grito. Meu corpo começou, então, a tremer convulsivamente enquanto eu sentia meu estômago embrulhar. “Chocada” não seria a palavra certa. Eu estava horrorizada.

— Eu lhe disse para permanecer no quarto — Hannibal estava coberto de sangue da cabeça aos pés. Seu rosto, sua camisa, suas mãos, suas calças, seus sapatos... Em maior ou menor intensidade, tudo estava ensanguentado.

O que mais me amedrontou, porém, foi o objeto que ele segurava. Era a faca do jantar, aquela que fora usada para fatiar o assado. Estava vermelha da lâmina ao cabo. Perguntei-me qual outro kobe ela teria acabado de fatiar.

Cerrei os punhos.

E meus lábios se abriram num pavor mudo quando, desesperada, vi que Hannibal vinha até mim. Correr não adiantaria; eu tinha consciência disso até mesmo naquele momento de pleno terror. O máximo que pude fazer foi dar um passo para trás, grudar minhas costas à parede e esperar.

Fechar os olhos foi uma reação instintiva. Esperar pelo pior foi outra.

— Como posso confiar em você, Abigail, se não é capaz de fazer o que eu peço? — sua voz era neutra. Apesar do teor daquelas palavras, não havia surpresa ou decepção em seu tom. Era quase como se ele esperasse que eu o desobedecesse, como se tivesse previsto que era exatamente isso o que eu faria.

Abri os olhos.

— Você estava me testando, não é? Queria saber se eu realmente o obedeceria — eu não conseguiria dizer se aquilo me deixava mais calma ou infinitamente mais aterrorizada.

O sangue que escorria pelo rosto de Hannibal o deixava com as feições ainda mais duras... E o mais perturbador de tudo aquilo era sua aparente tranquilidade. Ele não parecia alterado, aflito ou enojado. Parecia tão calmo quanto estaria se, em vez de uma faca ensanguentada, estivesse segurando uma xícara de chá.

— Queria saber em que momento desobedeceria — sua voz era fria e calculada quando ele levou a mão livre ao meu queixo. Eu não saberia dizer se aquela aura morna emanava de seus dedos ou do sangue que os envolvia — Agora trate de dormir, Abigail. A viagem de amanhã será longa e cansativa.

Viagem? — arregalei os olhos — Aonde vamos?

— Itália — e um brilho muito sutil dançou em seus olhos.

Olhei-o de esguelha. Eu não sabia se ficava contente por estar viva ou boquiaberta com tudo aquilo.

— Não fui dispensada de Port Haven.

— Foi dispensada para uma viagem — ele intensificou o aperto em meu queixo — No tapete aos pés da lareira há uma mala. Ela contém seus pertences de Port Haven e seu passaporte. Agora lave o rosto, deite-se e durma.

Seus lábios desceram até minha testa para um beijo breve, quente e pegajoso. Soltando-me e dando meia-volta, Hannibal foi até a cozinha e acendeu a luz. Voltou, então, à porta do porão, abriu-a e desapareceu atrás dela... Provavelmente para continuar o que estava fazendo.

Suspirei. Itália?