Devour
1 Prove
Notas iniciais
Espero que gostem! *-*

— Vou cozinhar para você — Hannibal destrancou a porta de sua casa e, dando um passo para o lado, permitiu que eu entrasse primeiro.
Um tanto hesitante, entrei no hall mal iluminado. Silhuetas de móveis se destacavam na penumbra onde, aqui e ali, desenhavam-se formas retorcidas que poderiam muito bem ser plantas, estatuetas ou mãos humanas secas que brotavam da escuridão esboçando um último pedido mudo de socorro. Pisquei repetidamente na tentativa de acostumar meus olhos à meia luz.
Eu começava, desde o dia em que sentira a faca de caça de meu pai deslizando fundo em meu pescoço, a enxergar com mais clareza coisas que antes me pareciam tão difusas. Era como se lentes de aumento tivessem sido suturadas em meus cristalinos... Elas me proporcionavam não apenas um novo ângulo de visão – muito mais abrangente e nítido que o anterior – mas também uma nova interpretação de tudo o que existia e acontecia ao meu entorno.
Talvez tudo fosse apenas um sintoma de loucura. Talvez eu estivesse começando a ver o mundo através dos olhos de meu pai.
“Insanidade” pode ser, afinal, apenas uma maneira diferente (e repudiada pela sociedade civilizada) de se encarar tudo o que existe ao redor. Não pode?
E, de repente, a luz foi acesa. Uma sala de estar muito bem decorada surgiu à minha volta, onde se destacava uma lareira de mármore claro encimada por um arranjo de flores que não consegui identificar de imediato. Suas pétalas tinham um tom pálido de rosa e pareciam um tanto secas. Pareceu-me estranho que alguém como Hannibal se descuidasse de um detalhe como aquele... A menos que fosse sua intenção permitir que, espremidas dentro de um vaso onde não havia sequer uma gota d’água, as flores murchassem e morressem pouco a pouco.
— Prefere vitela ou cordeiro? — a pergunta foi de encontro aos fios de cabelo que brotavam das minhas têmporas, fazendo-os reverberar por uma mínima fração de segundo. O hálito quente, no entanto, permaneceu por muito mais tempo gravado em minha pele.
Soltei um suspiro quase inaudível.
Virando-me, encarei-o nos olhos. Ele era sempre tão cortês, tão gentil... Quase amoroso. Naquele instante eu poderia jurar que Hannibal Lecter realmente se importava com o que eu preferia ou deixava de preferir.
— Cordeiro — escolhi, embora fosse absolutamente indiferente ante as opções de engolir uma costeleta de cordeiro ou uma lasca de vitela. Àquela altura, um prato capaz de despertar meu apetite irremediavelmente perdido seria um verdadeiro milagre.
— Cordeiro — ele repetiu com um sorriso de canto que evidenciou algumas das rugas que se escondiam nos arredores de seus olhos —, uma excelente escolha.
Disso eu não tinha dúvida. Nada mais apropriado. Um cordeiro escolhendo outro.
Comendo outro.
Pisquei duas vezes e, quando me dei conta, Hannibal já me conduzia pela mão. Seus dedos eram um pouco frios a envolver os meus num aperto suave, porém firme. E então, por um instante tão breve quanto insano, era a mão de meu pai a segurar a minha. Era Garret Jacob Hobbs a me pôr sentada numa poltrona de couro escuro a um canto da cozinha, não Hannibal Lecter. Seus olhos eram claros como os meus. Seriam os meus tão desvairados quanto os dele?
Eu não queria aquilo para aquelas garotas. Não queria.
Mas se não fossem elas... Seria eu.
Pisquei repetidamente até que, como num caleidoscópio, várias peças se agruparam para formar um mosaico. A face encovada de Hannibal. Ele tinha um joelho apoiado no chão e meu rosto estava entre suas mãos.
Observando-me com uma espécie de interesse que eu não saberia classificar, suas íris opacas se fixaram nas minhas. Não consegui decifrar aquela expressão de forma precisa, mas lá no fundo da camada de curiosidade clínica havia uma espécie de zelo, de preocupação. Se genuína ou forjada, eu jamais saberia dizer.
Talvez ele mesmo não soubesse.
— Posso dormir aqui? — não sei de onde a pergunta veio, ela simplesmente saltou de minha boca antes mesmo que eu pensasse em fazê-la.
— Você deve dormir em sua cama, Abigail — a resposta foi imediata, quase automática, desprovida de ponderações ou considerações. Objetiva e categórica como tudo o que dizia respeito a Hannibal Lecter.
Crispei os lábios.
— Não tenho uma cama — assim como não tinha uma casa, uma família, uma vida.
Eu detestava Port Haven, abominava aquele cubículo mal iluminado que era meu “quarto”, a comida fria e insípida, as pessoas que insistiam em me tratar como se eu precisasse de algum tipo de atenção especial, as garotas estranhas com as quais, mais cedo ou mais tarde, seria obrigada a fazer terapia de grupo...
— Talvez eu possa dormir com Will — novamente as palavras fluíram por entre meus lábios antes que eu pudesse refletir sobre seu (duplo) sentido —, se você me der uma carona depois do jantar.
Subitamente alguma coisa mudou. O ar ficou mais denso, opressivo. Os dedos dele escorregaram por minhas bochechas, roçando o queixo num movimento lento para, por fim, abandonarem meu rosto. Franzi a testa e mantive meu olhar fixo naqueles lábios que endureceram quase imperceptivelmente. Dei-me conta de que eu o deixara desconfortável de alguma maneira. Tocara em algum ponto fraco, isso era certo, embora não soubesse dizer exatamente qual.
E, pondo-se de pé, Hannibal foi até a bancada. Nem em mil anos eu conseguiria decifrar o real significado do brilho que perpassou seus olhos enquanto, cuidadosamente, ele amarrou um avental branco ao redor da própria cintura.
***
— Navarin d’agneau — o prato que me foi apresentado era convidativo, apetitoso, muito diferente das coisas horrendas que serviam em Port Haven. Umedeci o lábio inferior com a ponta da língua. Pela primeira vez desde minha internação, realmente senti vontade de provar algo — Bon appétit.
Levantei os olhos. A decoração da sala de jantar era um tanto mórbida para o meu gosto, mas não me senti desconfortável. Muito pelo contrário. Na verdade, sentia-me bem como jamais me sentira antes. Por um instante, era como se tudo estivesse dentro da mais plena normalidade: eu tinha um lar; tinha um pai que acabara de cozinhar o jantar e, com um sorriso suave de canto, servia-me suco de laranja recém-preparado.
Sorri.
— Merci — minha resposta tardia soou levemente escarnecida, embora o deboche não fosse intencional. Não conscientemente intencional, pelo menos.
Espetei o garfo num cubo de cordeiro e o levei à boca. A carne praticamente derreteu sobre minha língua: quente, maravilhosamente bem temperada, de uma maciez úmida que instantaneamente dominou meu paladar... E me intrigou.
— Isto não é cordeiro — sussurrei, os olhos cravados no prato.
Hannibal ergueu a jarra, interrompendo o fluxo de suco. Meu copo ficou meio cheio, meio vazio. Engoli.
— Você dormirá aqui — seu tom não deixava transparecer qualquer resquício de emoção enquanto, muito lentamente, ele pousava a jarra na mesa e puxava uma cadeira para se sentar — Comigo.
Tentei me concentrar na comida enquanto sentia meu coração acelerar. Os legumes também pareciam deliciosos, afinal.
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