Devour
2 Mastigue
Notas iniciais

Eu sentia meus músculos um tanto tensos enquanto, com um pano de pratos e um copo nas mãos, ajudava Hannibal a secar a louça usada no jantar. Comecei, então, a me perguntar se a ideia de passar a noite ali teria sido realmente boa. Olhei-o de esguelha. Talvez não fosse tão boa assim. Muito cuidadosamente, ele lavava uma tábua de carnes. Sangue escorria dela e se misturava à água corrente num tom enjoado de rosa antes de fluir pelo ralo da pia.
Talvez fosse uma péssima ideia.
O sabor da comida permanecia em minha boca. Deliciosa, sim, talvez a mais saborosa e bem preparada refeição que eu fizera em toda a minha vida... Mas aquilo não era cordeiro. Sequer lembrava-o vagamente – ou a qualquer outra carne que eu já tivera a oportunidade de experimentar.
Meus olhos se voltaram novamente para Hannibal que, calmamente, deixava a tábua de lado e começava a lavar uma faca. Estava engordurada, fora com ela que os cubos foram cortados. Franzi a testa. Eu quase podia sentir o fantasma macio e quente daquela carne rolando por entre meus dentes.
E, com um arrepio inexplicável, peguei-me temendo o que ela realmente pudesse ser.
— Um animal particularmente assustado — a voz de Hannibal me arrancou das divagações — Felizmente isso não influenciou o sabor da carne.
Pousei o copo na bancada e dobrei o pano. A echarpe enrolada em meu pescoço começava a parecer cada vez mais apertada. Sem saber o que dizer, apenas esbocei um sorriso.
Ele manteve os olhos fixos nos meus enquanto, deixando a faca recém-lavada perfeitamente alinhada à tábua e aos talheres limpos, secou as mãos no pano que repousava em seu ombro.
— Gostaria de um banho antes de dormir, Abigail?
Entreabri os lábios, mas a resposta não veio imediatamente. Eu não estava preparada para aquela pergunta. Encarei o padrão cor de vinho da gravata que começava num nó perfeito e terminava escondida sob o colete cinza-escuro. Definitivamente não estava preparada.
— Sim — o que mais eu poderia responder, afinal? Recusar seria tão... Rude.
E, quando dei por mim, subia as escadas com Hannibal. Ele me conduziu até uma porta no fim do corredor do segundo andar e, abrindo-a, permitiu que eu entrasse primeiro. O banheiro era duas vezes maior do que meu quarto em Port Haven (ou, ao menos, foi essa minha primeira impressão).
Indo até a banheira de mármore escuro, ele abriu o registro e deixou que a água corresse. Enquanto regulava a temperatura, meu olhar vagou pelos detalhes que, assim como os dos demais cômodos, eram de uma sobriedade quase lúgubre. Aquele banheiro parecia simplesmente a cena perfeita para um assassinato desses que se vê nos filmes: limpo, silencioso... E nunca descoberto.
— Morna. Não a deixe quente demais — Hannibal veio até o pequeno armário sob a pia e dali tirou uma toalha e um roupão. Deixando-os sobre a cuba, tomou a mão que eu apoiara ali entre as dele. Seus dedos eram suaves ao acariciar os meus num movimento que mais parecia uma espécie estranha e obscura de veneração —, não queremos que sua pele resseque.
E, soltando-me, ele me deixou a sós com meus pensamentos.
***
Olhei-me no espelho. O roupão de Hannibal, como era de se esperar, ficou absurdamente largo em mim. Amarrando a faixa ao redor da cintura, não pude deixar de reparar no quanto o tecido era macio em contato com minha pele. Aquele não era um roupão verde escuro qualquer. Era tão incomum, refinado e estranho quanto tudo ali.
Pelo reflexo, meus olhos correram até o corte em meu pescoço. Ele era um elemento agressivo na composição; algo que destoava, que simplesmente não devia estar ali. Inclinei a cabeça para o lado, deixando que a luz amarelada ressaltasse a linha fina e reta que, num sentido que ia muito além do físico, era minha mais profunda cicatriz.
Ela estaria ali se Hannibal Lecter fosse meu pai?
Trinquei os dentes. Meu pai estava morto. Minha mãe estava morta. Aquelas garotas estavam mortas.
Estavam todos mortos... Menos quem deveria estar.
Peguei minhas roupas e meus sapatos e fui até o corredor. Eu começava a me sentir inquieta, ansiosa, sufocada... E a aflição dobrou quando me deparei com um corredor escuro e deserto. Olhei de um lado para o outro, mas tudo o que meus olhos viram foram as sombras que dançavam no ar parado. Pisquei algumas vezes.
Eu realmente devia estar em Port Haven, não ali.
Abri minha boca para gritar por Hannibal quando, lançando uma linha de luz sobre o tapete, uma porta à minha esquerda se abriu. Ele veio até mim, então, num passo lento e firme. Fechei a boca. E, nesse exato momento, uma reação instintiva incompreensível (e infundada) me dominou: retesei meus músculos ao ver que suas mãos se estendiam para apanhar o bolo que jazia sobre meus braços. Foi algo muito rápido, talvez sequer tenha durado meia fração de segundo. Prendi a respiração e olhei-o de esguelha. Se ele se deu conta, não demonstrou.
— A essência de flor de laranjeira é considerada ultra calmante — disse ele, referindo-se aos sais de banho que eu encontrara num dos frascos que ficavam sobre a pia. Franzi a testa. Eu não os usara; apenas tinha arrancado a rolha, despejado uma pitada sobre a palma da mão, sentido o perfume e devolvido os grãos ao vidro — Espero que o banho a tenha ajudado a relaxar.
Talvez ele tenha me deixado ainda mais tensa.
— Sim — sorri —, muito.
— Ótimo — com um breve sorriso, ele pousou a mão livre em meu ombro e me conduziu à porta entreaberta.
Presumi que aquele fosse seu quarto. Enquanto Hannibal depositava minhas roupas sobre uma cômoda e meus sapatos sobre o tapete aos pés dela, ative-me na cama grande e bem arrumada que era a peça central do cômodo. O lençol branco estava tão perfeitamente esticado que, por um momento, tive receio de me deitar ali.
Tudo o que dizia respeito a Hannibal Lecter era suave, harmônico, limpo... Tão “correto” que chegava a beirar a perfeição. Sentei-me na beirada da cama tomando o cuidado de amassar o mínimo possível aquele linho onde não se via uma ranhura sequer. Num movimento elegantemente calculado, ele se sentou ao meu lado.
Quando tudo está tão certo... Algo tem de estar errado.
— O que era... Aquilo? — a pergunta saiu vaga, mas, pela minha expressão, ele com certeza saberia que eu me referia ao jantar.
Seus olhos me fitaram por um breve instante antes de seus dedos alcançarem uma mecha dos meus cabelos e acomodarem-na atrás da minha orelha. Sua expressão de repente pareceu vazia, como se Hannibal tivesse entrado numa espécie de universo particular ao qual ninguém mais tinha acesso. Cerrei os punhos.
— Você sabe o que era, Abigail.
E, inclinando-se, ele levou os lábios à minha testa num beijo de “boa-noite”. Eles eram macios e quentes em contato com minha pele que, apesar disso, arrepiou-se como se tivesse sido tocada por uma barra de ferro.
Gelada, inflexível, inanimada.
— Durma — o sussurro persuasivo que me convidava a deitar era, na verdade, uma ordem.
Já sem me preocupar com o alinhamento do lençol, tratei de obedecer rapidamente. A cama pareceu dura demais quando me deitei sobre ela e, antes que eu pudesse mudar de posição, o cobertor veio quente e claustrofóbico sobre minhas pernas trêmulas.
A luz foi apagada. Eu podia ouvir minha própria respiração enquanto, tentando deixar a mente vazia, mirava o teto escuro do meu caixão de sonhos.
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