Devil inside
1 Primeiro dia
Notas iniciais
Soneto 30 — William Shakespeare
Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,
Afogo olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor já superara,
Deplorando o que desapareceu.
Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o já chorado e já sofrido,
Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso um momento,
Vão-se as perdas e acaba o sofrimento
{The First Day- parte 1}
— Do que você se lembra? Se lembra dos gostos, dos cheiros? Se lembra das pessoas e de seus rostos? Consegue sentir a brisa leve, e o gosto salgado do mar? Sente o toque e o amor?
— Eu... eu não me lembro de muito, você sabe, com o passar do tempo as lembranças se misturam, alguns detalhes são esquecidos e outros inventados, a mente nos prega peças, ainda mais de lembranças tão antigas, já fazem quase 1182 anos. – Suspiro –
— Você ao menos consegue lembrar de quem era?
— Sim, eu lembro, lembro de ser uma criança inocente, não entendia o que era ser órfã. O que era estar sozinha e não ter ninguém em quem pudesse confiar.
— Mas você tinha, não tinha?
— Eu acho... acredito que sim, mas eu descobri que não se pode confiar em ninguém totalmente, todos somos seres falhos, estamos fadados ao erro, mesmo que não seja por nossa culpa.
— Por que acha isso?
— Porque eu também já cometi muitos erros que não tive a intenção, e agora depois de muito tempo, eu consigo perceber isso.
— Você não acha que talvez isso seja subterfúgio para não admitirmos nossos erros?
—... Talvez.
— Quero que você me conte sobre aquele dia, o dia que você foi levada, como você se sentiu?
— Engulo a saliva, minha garganta havia ficado subitamente seca –
— Medo, eu senti medo. Mas antes de tudo acontecer eu sentia um medo trivial, sabe aquela sensação de quando você está sozinho em casa ou no seu quarto a noite, e então escuta algo, um barulho assustador. Você não sabe de onde ele vem, mas seu coração começa a disparar e o medo toma conta do seu corpo, todas as possibilidades passam pela sua cabeça, mas aí... Você cria coragem, e desce as escadas e ao invés de ser um maníaco, um monstro ou outra coisa qualquer, é só um galho ou algo do tipo batendo na janela. Ai você começa a rir e percebe que o medo é algo psicológico, e se esquece dele assim: – estalo os dedos – Mas eu não, eu conseguia pressentir que alguma coisa aconteceria, aquela sensação do começo... eu passei a sentir ela as 24Hrs do dia, semanas antes daquilo acontecer.
— Você ainda sente medo?
— Não por aquilo, se eu soubesse do que eu era capaz naquela época teria sido diferente, é claro, mas eu tinha apenas dez anos aproximadamente. Heimer confiava em minha palavra e sabia que eu corria perigo, ele sempre fora muito cuidadoso e atencioso, mas o destino é cruel, faz com que você haja de acordo com o que ele deseja. Escreveram muitas histórias sobre isso, algumas dizem que para me manter segura e protegida de todos os inimigos dos meus pais, que eram muitos, ele me colocou dentro de uma enorme harpa e viajou comigo escondida por todos os lugares. Até que um dia quando chegamos em um lugar da Noruega na casa de um casal de camponeses, eles acham que haviam preciosidades dentro da enorme harpa, assim ele foi assassinado enquanto dormia e me encontraram ao invés do ouro esperado, eu me tornei propriedade deles, que esconderam de todos minha identidade.
Mas não foi exatamente deste jeito que aconteceu, enquanto eu e Heimer nos escondíamos, fomos atacados durante a noite por um grupo de homens que achava que tinham itens valiosos conosco, ele lutou mas acabou sendo morto, e eu fui entregue ao homem que se denominava rei do condado, que ordenava os saqueamentos. Me lembro do sangue, e após isso perdi minha infância em todos os sentidos, perdi minha identidade, e demorei a encontrá-la e lembrar de quem eu era. Você deve saber que quando depois de várias torturas, mesmo que psicológicas e agressões, você acaba cedendo e incorporando aquilo, ainda mais depois que se passam quase seis anos... que pareceram uma eternidade. – Continuo depois de uma longa pausa refletindo – Sempre me enfurece, por naquela época chorar todas as noites e pensar que ele deveria ter se esforçado mais para me proteger, mas eu era apenas uma criança desejando culpar alguém por todas as desgraças que haviam acontecido, e principalmente desejando ser amada, desejando qualquer migalha de amor que pudessem me oferecer, eu as aceitaria de prontidão, como um cãozinho abandonado que deseja encontrar um lar.
— Você desejava apenas o amor?
— É uma pergunta falha você sabe disso, ninguém deseja apenas amor, apesar de todos o desejarem. Além do mais, depois de um tempo o amor e o afeto se tornam menos importantes, nesse sentimento toma lugar a amargura, rancor, e ao sentimento de vingança. Mas os deuses sempre estiveram ao meu favor, e assim sempre fui leal a eles, sempre soube que uma hora eu sairia dali, pois eu havia previsto parte do meu destino e sabia o que se seguiria, então eu só precisava esperar, aguardar pelo momento certo, a paciência é uma dádiva, ainda mais quando se é imortal. – Meu olhar se desviou ao horizonte, perdido em meio as lembranças do passado– .
Fale com o autor