Deuses em Guerra - Fahd El-amin
1 Magos no Saara
Notas iniciais
Sorte foi algo que Fahd nunca teve a oportunidade de conhecer. Desde seu nascimento, em algum lugar no Saara, só lhe ocorreram desastres.
Aos 2 anos, seu pai sumira no deserto.
Aos 4, sua mãe morrera de fome.
Aos 7, encontrou alguns beduínos, que disseram ter conhecido seu pai. Segundo eles, porém, ele morrera ao ser picado por um escorpião. Fahd esperava alguma comida, pelo menos, em honra ao seu pai, porém tudo que ganhou foi um babuíno velho que eles tinham. Disseram-lhe que o batizaram como Sish.
Aos 14, por fim, chegou algo que, se não era bom para compensar os anos anteriores, era bom o suficiente para encher sua barriga por um tempo.
Era um grupo de oito viajantes, tecnicamente eram beduínos, mas eram totalmente diferentes destes. Primeiros pela produção estética, cara demais para viajantes nômades: amuletos egípcios prateados(bebuínos usam imitações com metais menos nobres); as longas vestes de linho prateado, negro e branco(não os trapos que beduínos usam, quando estão ali no meio do deserto); e a maquiagem ao redor dos olhos, lembrando alguns sinais egípcios.
O líder do grupo, com o tecido das roupas negras cheio de símbolos faz uma pergunta em alguma língua estrangeira.
– Iw r en ke — repete outro, com roupas brancas. — O mestre perguntou seu nome.
– Fahd. Fahd El-Amin. — diz o garoto, quase em um sussurro.
Mais uma frase estrangeira do mestre deles. Outros respondem, parecendo tentar argumentar. O Mestre levanta a mão e todos calam-se.
– Fahd, meu nome é Rhe. Nós somos um grupo de egípcios, e procuramos uma relíquia perdida no deserto. Não deve estar muito longe daqui. — explica ele. — Mestre vai nos tirar do deserto depois disso. Ele vai nos mandar para o Ocidente, e vai nos dar dinheiro. Não vamos mais passar fome. Mestre está convidando você para ir conosco procurar a relíquia.
Fahd se aproxima mais de Rhe, do Mestre e dos outros, interessado. "Não vamos mais passar fome." De repente, um arrepio percorre suas costas. Ele já ouvira essa frase. Seu pai, Abbas, a dissera. Aalyah, sua mãe, a repetira. Os dois morreram, deixando o garoto sozinho. Obviamente ele não os culpava, mas ainda assim... a frase causava um grande impacto.
Mas agora era diferente. A promessa não vinha de uma pessoa que morava no deserto, sem ter o que comer. Vinha de um grupo de pessoas ricas, e aparentemente muito bem alimentadas. Além do mais, Fahd, apesar da idade, já foi arqueólogo. Não desses cheios de cursos, faculdades, mestrados, doutorades e MBAs — simplesmente um garoto que achava coisas velhas na areia e vendia por pão.
– O que vocês vão querer de mim, caso eu aceite? — pergunto.
– Te daremos um... curso expresso. — responde outro membro do grupo, com tatuagens de sinais egípcios e de alguns desenhos no rosto que lembravam felinos. Gatos, para ser mais específico. — Você precisa saber o básico. Vai ganhar roupas como as nossas, também. Você tem que ir conosco e fazer o que nós pedirmos. Não será nada absurdo.
Fahd sentiu o medo invadí-lo. Como assim? O que eles o pediriam?
– E se eu negar? — diz ele, nervoso e apressado. — E se eu não obedecer?
– Não lhe faremos mal, de qualquer forma. — garante Rhe. — Apenas não lhe daremos o dinheiro e não o mandaremos pro Ocidente, se não nos obedecer. Você fica na mesma situação de agora.
– Como sei que vocês não estão mentindo?
– Fahd, — começa o homem-felino — nós não mentimos. É proibido, se o fizermos perdemos nossos poderes por um dia.
– Poderes? — pergunta Fahd, confuso.
O Mestre se abaixou e pegou um punhado de areia com as mãos e jogou-o para o alto. E, ao cair no chão, a areia jogada começou a se unir, cada grão grudando-se a um próximo, formando 8 conjuntos com um formato complexo. E então ocorre algo que , pelo menos para Fahd, era inédito: os montinhos se tornaram transparentes. Tinham um brilho maravilhoso, do qual o garoto vira uma única vez na vida e jamais esquecera: era o brilho de um diamante.
Não, um não. 8 diamantes.
Fahd abaixou-se imediatamente, mas não para pegar as pedras e fugir(o que, considerando sua situação, também seria perdoável), mas para admirá-las. Diamantes.
Não o encantavam pelo dinheiro que valiam, mas sim por que lembravam-no do dia em que encontrou um destes e vendeu para uns caras para quem trabalhava com arqueólogo. Uma pedra transparente e brilhante rendera um mês de fartura.
"Você não sabe quanto isso vale." afirmou o cara.
"Sim, eu sei. E você vai me pagar absolutamente tudo o que isso vale." blefou o jovem arqueólogo.
Blefou por que, pelo olhar de Johnson, o arqueólogo mais velho que o contratara, valia uma fortuna. Johnson o deu um prato de refeição instantânea já pronta e alguma bebida que ele desconhecia.
"Só isso?" perguntou com a maior inocência que podia fingir. Ele não tinha valores exatos, mas sabia que aquilo valia um jantar dos deuses, não um prato de microondas.
"É o que tem." respondeu Johnson.
Olhares se cruzaram. Fahd El-Amin não era imbecil. Sabia que arqueólogos de verdade, como Johnson, têm sim mais comida para dar. E, na troca de olhares, Fahd parecia pronto para derrubar o homem e sair com o prato, a bebida e o diamante.
Johnson então suspirou e pegou para ele um latão de suprimentos.
"Grãos, farinha, arroz... coisas do tipo. É do meu estoque emergencial. Eu não saberia aproveitar esse troço aí mesmo, então... faça bom proveito."
Um tempo depois, Johnson partiu para outro lugar, com outras pessoas dando-o relíquias para não morrerem de fome. Fahd não viria a saber, mas Johnson nunca precisou usar seus latões de estoque emergencial. Nunca.
Ao passo que aquilo era só um trambolho para carregar para Johnson, para a família El-Amin era uma maravilha. Cada suprimento de lá de dentro podia ser usado para algo, haviam combinações que podiam ser criadas. Todas as invenções gastronômicas deles eram feitas dentro do latão. Um mês de fartura para Fahd, Aalyah e Abbas.
***
E toda essa história era vivida novamente por Fahd ao olhar para aqueles diamantes. Seus olhos brilhavam.
– Quer um? — perguntou o homem das tatuagens de gato.
– É tentador. — disse Fahd, mas não pegou.
O homem pegou uma das pedras e a pôs em minha mão esquerda, colocando minha mão direita sobre o diamante em seguida. Notei que haviam grossas linhas pretas em seus braços. Ele trazia um medalhão de âmbar, com uma fina placa dourada dentro. Ela tinha uma inscrição em egípcio dentro dela. Após guardar o diamante que ganhara, Fahd olhou para o medalhão, curioso.
– O que está escrito aí? — pergunta ele.
– Meu nome. — responde o homem. — Miukhem. O Felino Negro.
– Você parece ter um grande... apreço por gatos. — comenta Fahd.
– Claro, claro. — assente Miukhem — Tem a ver com a origem do nosso poder.
– A qual só poderá ser explicada após sua aceitação na nossa expedição. — intervem outro membro do grupo, que se destaca pela mochila prateada que traz nas costas, da qual saem pontas de papiros, pergaminhos, livros e papeis comuns. Sem conhecê-lo muito, a maioria diria que é um rato de bibilioteca, e esta maioria não estaria errada.
– Para onde? — pergunta Fahd, pois é uma das últimas perguntas a ser feita.
– Templo da Lua. Uma caminhada de mais uns 6 quilômetros ao norte, a partir daqui. — diz o rato de bibilioteca.
– Qual é a relíquia? — essa pergunta já fora feita pela mesma pessoa a Johnson, tempos atrás.
O grupo sorri, como se tivesse compartilhado uma piada particular.
– O corpo de Nebet Hekate Trivia. — diz o Mestre, em voz baixa.
Isso não assustava o garoto. Já fora atrás de múmias antes. Achava umas relíquias perto das tumbas dos procurados e conseguia o dinheiro necessários, mesmo não achando o corpo. O garoto pensou que ali fosse igual.
– Receberei poderes como os seus? — pergunta ele, mais por esperança, pois a resposta já havia sido formulada.
– Mas é claro. — responde o rato de biblioteca.
Fahd olha para a areia. Não a veria mais quando isso acabasse. Não precisaria. Diria adeus para alguém, antes de partir, mas não tinha nenhum parente ou amigo a quem dizer isso. Era só ele e Sish, o babuíno.
Ah. O babuíno.
– Posso levar meu babuíno comigo? — pergunta Fahd.
O mestre diz algo em outra língua, provavelmente um sim empolgado demais, e faz sinal positivo com a cabeça. O garoto vira-se para a região das dunas mais baixas, onde o babuíno gosta de ficar, e grita o nome de Sish e ele vem até ele(seu nome é a única palavra que ele reconhece, além do de Fahd.). Vira-se de volta para os oito homens bem-vestidos e diz uma frase que mudaria sua vida.
"Eu vou com vocês."
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