Notas iniciais
deixem preview pf, e recomendem se gostarem *-*

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– Então quer dizer que aquelas lendas todas eram reais? — perguntou Fahd, confuso. — Todas aquelas lendas do deserto eram de verdade?

De lendas do deserto, Fahd entendia. Pelo tempo em que estava com beduínos, antigos amigos de seu pai, de quem recebera o babuíno que estava a seu lado, ouvira muitas delas. Mas descobrir que era tudo real... Era bem diferente.

– Nem todas. — diz Tutmosis, aquele mago que até pouco tempo foi chamado apenas de rato de biblioteca. — Algumas espalhadas pelos beduínos são verdadeiras, e, todas as dos egípcios são verdade. Também uma ou outra de Grécia ou Roma.

– E vocês são magos como os egípcios antigos. — disse Fahd, em busca de algum sentido no meio daquilo tudo.

– Exatamente. — confirma Tutmosis. — Nós somos os Magos de Isis, porque essa deusa da magia é quem nos dá nossos poderes.

– Então é como se Isis te emprestasse os poderes dela. — diz Fahd, tentando entender.

– Sim. Mas não é só ela. Cada iniciado também é Escolhido por outro deus. No dia da iniciação, a gente simplesmente procura um deus que te queira — fala Tutmosis.

– Quem te escolheu? — pergunta Fahd.

– Thot. — responde o mago, sem esconder o orgulho. — O deus da escrita. Eu consigo invocar coisas ao escrever seus nomes. Por isso tenho tantos livros. Em alguns eu escrevi feitiços úteis, que não queria jogar fora, outros são manuais e tutoriais para hieróglifos mais avançados.

– Ahn — Fahd estava impressionado. Tutmosis conseguia usar um papel e sua caneta(segundo o próprio Tutmosis, era do tipo fine-pen, mas com um feitiço de tinta infinita feito por ele mesmo.) para fazer magia, ao passo que o garoto nem podia escrever seu próprio nome, pois era analfabeto. O mago também tinha poderes sobre a fala, e podia falar qualquer idioma, além de entendê-lo. Enquanto isso, Fahd falava apenas árabe, e olhe lá.

– Hoje você será iniciado, para poder vir conosco. — Fahd pareceu surpreso. — Não se preocupe. É simples. É só um teste para ver se algum deus quer te escolher.

– E se nenhum me quiser? — Fahd pergunta.

– Isso nunca acontece. — assegura o Escolhido de Thot. — O pior que pode acontecer é você ser escolhido por Sutekh ou Hórus.

– Quem? — pergunta o garoto.

– Sutekh e Hórus. — repete Tutmosis — Sutekh é o deus do deserto e do caos, também chamado de Set. Hórus é o deus da guerra, patrono dos Faraós. Antigamente eles estavam em guerra pelo poder, e Hórus ganhou, passando o trono ganho aos seus afilhados, os Faraós. Agora, que acabaram os Faraós, a guerra estava ameaçando recomeçar a muito tempo. E agora ela está começando. Por isso estamos procurando o corpo de Nebet Hekate Trivia.

– Quem é ela e o que ela tem a ver com isso? — pergunta Fahd, que já queria saber há um tempo por que eles queriam esse corpo.

– Nebet significa Lady, em egípcio. Hekate é como a deusa é chamada na Grécia, e Trivia é como ela é chamada em Roma. Mas nós podemos chamá-la apenas de Hekate, é claro. Ela é uma deusa menor da magia. — explica Tutmosis. — A deusa, porém, foi capturada por alguém, que não sabemos quem é, e a pessoa a forçou a entrar em um sono profundo, do qual só pode sair se outra pessoa fizer um ritual apropriado. E a madrinha do nosso grupo, Isis(chamada carinhosamente de Tia Isis por alguns de nós) quer que nós a encontremos e façamos os rituais, para trazer Hekate para nosso lado. Isso acabaria com a guerra, pois com a benção dela sobre os exércitos de Hórus, Sutekh seria logo destruido.

– Tia Isis pediu para a gente ir acordar Lady Hekate. — repete Fahd. Ele até gostou do apelido de Tia Isis.

Mais tarde, uma hora antes do anoitecer, o Mestre foi com o garoto até fora da tenda onde o grupo estava há pouco tempo, e mostrou-lhe como seria feita a Escolha de algum deus. Haviam quatro mesas com itens variados sobre elas. A primeira continha vestes. A segunda continha frascos de perfume. A terceira tinha pedras, algumas cristalinas, outras opacas. A última continha amuletos, vários deles, alguns de animais, outros de símbolos antigos.

– Você vai pegar um item de cada mesa. — disse o Mestre. Não foi dito ainda aqui, mas o Mestre é um Escolhido de Rá, o deus do sol. Outra característica sua é que ninguém sabe seu nome. Mais tarde Fahd entenderia o motivo. — Pode cheirar os perfumes antes de escolher, olhar as vestes, etc. O deus que te escolher vai tentar te mandar um sinal sobre qual item ele quer que você pegue. Ao fim, nós interpretaremos tudo. A combinação do aroma tal, com uma outra cor de vestes, com um amuleto e uma pedra específica simboliza um deus, o que te escolheu. Já pode começar.

Fahd foi até as mesas e observou. Na dos amuletos, nem esperou nenhum sinal, já decidiu o que levaria. Um colar que tinha como pingente um babuíno de ébano envernizado. Aquilo o lembrava Sish, o único amigo que tivera por anos. Pegou o item e o pôs no pescoço.

Na mesa dos perfumes, viu que três frascos tinham conteúdos brilhantes. Ao cheirá-los, ouviu algo similar a vozes, indicando-o os nomes dos perfumes.

"Patchouli", disse a primeira.

"Sândalo", disse a segunda.

"Mirra", disse a última.

Fahd estava indesciso. Pegou o primeiro aroma, que parecia com papel velho, passou no corpo e decidiu passar para a mesa das pedras. Novamente, três itens brilharam, mas nenhum deles disse nada. Fahd ficou nervoso. Decidiu pegar aleatoriamente. O item que foi pego era uma pedra azul que Fahd não conhecia. Era turquesa.

Agora a última mesa, a das vestes. Não Fahd não ligou para as três roupas que brilhavam, e procurou simplesmente a mais confortável. Um blusão de mangas compridas, bem leve, feito de seda prateada com hieróglifos negros.

Fahd olhou para cima, e viu o sol abaixando-se, escondendo-se atrás das dunas. Era a hora.

Ao fim, ficou olhando para o Mestre, que já chamara o resto do grupo(e isso inclui até Sish, o babuíno). A pedra azul quase escorregou de sua mão, pois o nervosismo a fazia suar. O babuíno já estava em seu pescoço. A veste estava bagunçada, mal-colocada. O perfume era tanto que ardia os olhos de Fahd, mas ninguém pode culpá-lo, pois ele nunca passara perfume na vida. Não sabia que não se devia despejar metade do frasco nos braços e no pescoço.

– Turquesa. — começou Rhe, o Escolhido de Isis que traduzia as frases do Mestre. — Talvez seja Hórus.

O comentário deixa Fahd nervoso. Tutmosis se sentiu mal por ter contado que seria ruim ser Escolhido pelo deus da guerra.

– Não. — diz Miukhet. Ah, vale a pena explicar já o motivo de seu apreço por gatos: ele foi escolhido por Bastet, a deusa dos gatos. Não subestime nem Miukhet nem Bastet, eles são mais poderosos do que parece. — Talvez seja Sutekh. Você não sente o aroma do Patchouli?

"Ótimo", pensou Fahd. "Os dois deuses que Tutmosis diz que estão em guerra me escolheram."

– Não. — diz o Escolhido de Thot que deixou o garoto tão nervoso. — Os dois sinais juntos... Simbolizam Thot. Assim como essa veste prateada. Assim como o babuíno. Apesar de que Hórus e Sutekh talvez também tenham-no disputado também. Eu vi como ele olhou para os símbolos deles também.

Então, provavelmente, Fahd seria Escolhido por Thot. E... Tutmosis também era Escolhido do mesmo deus. Seria ele o professor de Fahd? Fahd gostaria muito disso. Tutmosis passava a impressão de ser muito confiável.

Uma frase em egípcio é dita pelo Mestre.

– Considere-se iniciado, Fahd El-Amin, Escolhido de Thot, Deus da Escrita! — traduz Rhe, o tradutor do Mestre, um seguidor de Isis

Fahd arregala os olhos. Só agora se lembra de um detalhe: ele é analfabeto. Um analfabeto escolhido pelo deus da escrita!

Tutmosis o leva até a tenda, e separa de sua mochila uns livros modernos e um papiro, além de sua caneta fine-pen enfeitiçada.

– Fahd, vamos escrever seu nome. — diz Tutmosis, que é quatro anos mais velho do que o novo iniciado, em um tom solene.

– Meu nome é Fahd El-Amin. — diz Fahd, tentando ver o que há de tão solene nisso.

– Não, estou falando do seu nome egípcio, também chamado de Ren. — explica Tutmosis — Usamos ele para alguns feitiços. Com ele dá para fazer coisas como te abençoar ou invocar você para outro lugar. Mas também dá para te amaldiçoar. Por isso, preferimos que poucas pessoas o saibam.

– E qual é o meu nome, então? — pergunta o iniciado

– Vamos descobrir. — responde o mais velho. — É assim: nós escrevemos em poucas palavras tudo o que for relevante na sua vida. Depois, você vai ver a mágica acontecer.

E, assim, Fahd contou sobre sua vida.

Contou sobre quando nasceu em um vilarejo perto da nascente do Nilo. Quando ele era recém-nascido, seus pais contavam, o vilarejo fora invadido por beduínos vândalos, que tomaram posse do lugar e saquearam-no. Visto que a casa deles ficava relativamente longe do rio, eles não tinham tempo para correrem para ele, então se exilaram no deserto. Pelo resto da vida de Abbas. Pelo resto da vida de Aalyah. Mas não pelo resto da vida de Fahd.

Mas, até o presente momento, ele não passara um único dia fora do Saara, depois do exílio. O máximo de luxo do qual se lembrava era da época do episódio dos diamantes, quando podiam passar até três dias sem tentar arranjar comida. Aliás, bem lembrado. Fahd despejou para Tutmosis também o episódio dos diamantes.

Em seguida falou do dia em que um crocodilo quase o matou ao tentar pescar no lago. Falou de quando seu pai sumiu, procurando o caminho de volta ao Nilo. Falou de quando ele e sua mãe definharam por meses, com pouquíssima comida, e ela morreu. Falou de quando encontrou uns beduínos que o ajudaram em sua expedição sem volta, e sobre como eles o deram Sish, o babuíno. Falou sobre como ele e seu macaco viveram anos no deserto, às custas de relíquias egípcias que eles encontravam por aí e vendiam para arqueólogos de sucesso. Falou até sobre coisas menos importantes, como o hábito de Sish de ir para as dunas mais altas enquanto ele procura algum animal com carne consumível, como um chacal distraído, ou de como ele e seu pai tentaram ter um feneco de estimação, mas ele fugiu.

– Está ótimo. — disse Tutmosis. — Mais alguma coisa?

– Não. — disse Fahd, um pouco decepcionado. Eram treze anos, e apenas aquilo ocorrera em sua vida. — É só isso.

Tutmosis, que vinha tomando notas do que era dito, começou a escrever tudo em hieróglifos em um papiro. Em seguida, fez um círculo ao redor da inscrição e um risco nos limites do círculo. Em seguida, como ele garantira, a mágica aconteceu: tudo dentro do círculo foi sumindo aos poucos, como se o papiro sugasse a tinta que foi usada para escrever, e outra inscrição surgiu: um pequeno hieróglifo desenhado não em preto, mas em dourado.

"Filho do Deserto, Filho da Magia", dizia a inscrição.

- Agora você pode escolher qualquer um desses nomes para você. — disse Tutmosis. — Pode continuar sendo chamado de Fahd El-amin; pode ser chamado de Smit-Mose, o Filho do Deserto; ou Heka-mose, o filho da magia.

- Continuo com Fahd El-amin. — disse o garoto.

Então Fahd arregalou os olhos. Olhou para Tutmosis.

– Tut, eu consigo ler isso. — disse ele.

– É normal. — explica Tut. — Você foi Escolhido por Thot, ou seja, aprende a ler egípcio antigo. Agora só falta aprender a escrever, e vai poder ser até um Sish!

– Vou poder ser um babuíno? — pergunta Fahd, confuso

– Não. Sish quer dizer escriba. Mas sim, é daí que os beduínos tiraram o nome dele. — Fahd quase pergunta como ele sabe que os foram beduínos que o deram Sish, mas então se lembra de que despejou toda a sua vida para ele em troca de seu próprio nome. Pensando bem, era uma certa invasão de privacidade... — Aliás, ainda bem que falou no macaco. Ele é um dos símbolos de Thot. Agora que você é um Escolhido desse deus, ele lhe trará muita boa sorte. Leve-o com você sempre.

– Eu sempre o levei comigo. — falou Fahd. — Não vai ser nenhuma novidade para mim.

– E eu vou tentar ficar perto de você. O seu babuíno também vai trazer sorte para mim, pois também fui Escolhido de Thot. Ah, e quando digo sorte, quero dizer que melhora a magia, ok? Não é só superstição.

Fahd imaginou se daqui a um tempo, quando fosse para o Ocidente, estaria, além de andando com um babuíno, tentando não pisar em rachaduras e procurando trevos de quatro folhas. Ele rezava para que isso não acontecesse.

– Já temos seu patrono. — enumera Tut. — Já temos seu nome. O que mais falta... — ele pensa um pouco. — Ah, é claro. Agora vamos desenvolver seus poderes.

O que Fahd esperava? Uma sala ampla onde ele aprenderia a estalar os dedos para fazer coisas explodirem. O que realmente aconteceu? Uma aula extremamente chata de hieróglifos e palavras em egípcio. Por mais que agora tivesse sua dádiva de ler qualquer coisa apenas ao olhar para ela, isso facilitava no entendimento, mas não no desenho dos símbolos. Para Fahd, aquela foi uma péssima primeira experiência escolar. Era como ensinar álgebra do 8º ano para uma criança.

Mas, depois que ele começou a ver lógica nos símbolos, algo que o garoto achou que fosse demorar para acontecer: ele escrevia rapidamente alguns hieróglifos, bastante úteis, por sinal. Fogo, casa, proteger e seguir.

O primeiro, chamado Khet, ao ser escrito e depois lido em voz alta, ateou fogo ao papiro. O segundo, chamado Per, ao receber o mesmo procedimento, fez alguns livros se moverem, levitando mesmo, até formarem o mais próximo de uma casa ao redor dos dois magos: três pilhas de livros, como se fossem paredes. Havia também o terceiro hieróglifo, chamado Nida, que criava um campo de força tremeluzente ao redor de Fahd, e se alguém olhasse através dele veria apenas uma figura meio psicodélica, composta de magenta, preto e ciano. O último símbolo, Sames, fazia o objeto mais próximo flutuar e ir até o próximo lugar que o mago que o enfeitiçou disser.

Assim eles passaram a tarde, estudando, como todo bom Escolhido de Thot faria.

Como todo Escolhido de Thot com um mínimo de bom senso faria, considerando as circunstâncias.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.