Deus Salve A Todos
5 Os Caminhos Do Destino
Notas iniciais

Vinte anos depois...
Muitas coisas aconteceram, em Lastrilha todos acreditaram que a rainha Cecília havia se suicidado por causa da filha, Otávio se tornou um homem frio e impiedoso. O príncipe Henry foi criado para assumir o reino, assim como Eleanor tinha planejado.
Em Artena, o Rei Augusto se tornou cada vez mais ambicioso e tirano, afundando o povo em uma crise, enquanto, o reino ficava cada vez mais rico e poderoso.
Montemor sofreu com a escassez da água, tendo que firmar um acordo com Artena. Água em troca de minério, além da junção dos dois reinos com o casamento entre o príncipe Afonso e a princesa Catarina.
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Montemor
A rainha Crisélia está na sacada de seu quarto admirando a vista do povoado de Montemor, quando seu neto e futuro rei Afonso entra.
— Incomodo minha avó? – Pergunta ele sorrindo.
Afonso é um homem muito elegante e bonito, alto, de cabelos soltos na altura do ombro, charmoso e dono de um sorriso verdadeiro e encantador. Crisélia criou os dois netos após a morte de seu filho Valentim e sua esposa a Condessa de French. Afonso por ser o primogênito foi preparado desde a infância para assumir o trono, já Rodolfo foi criado sem grandes supervisões.
— Você nunca me incomoda meu neto!! – Diz ela estendendo a mão para que ele se aproxime.
— Eu preciso falar com a senhora, sairei em uma expedição em busca de água...
— Alguma novidade sobre isso? – Ele ganha a atenção da rainha.
— Nada concreto, talvez, haja alguma fonte próximo ao monte de Óbidos, irei com pequeno grupo de soldados verificar, mas logo estarei de volta.
A rainha volta a olhar a paisagem e diz:
— Veja que vista linda de Montemor. – Ela aponta para que ele olhe para o povoado.
Afonso olha para Montemor e seus olhos brilham.
— Quando você regressar, quero que assuma seu lugar no trono. – Crisélia olha para o neto.
— Minha vó, acho que ainda é muito cedo, seu reinado tem sido bom para todos e a senhora...
Antes que ele pudesse terminar, ela o interrompe.
— Já é hora de você assumir Valentim!!
Afonso estranha sua vó o chamar pelo nome de seu pai, mas ela continua como se estivesse falando com seu filho Valentim.
— Sua mãe já está ficando velha, hoje eu confundi Rodolfo com Afonso, imagine, já sou aquele tipo de avó que confunde os netos.... Você precisa Valen---
Ela olha para Afonso parado em frente a ela e fica sem palavras, Afonso então diz:
— Afonso, Afonso minha vó!!
— Ah, claro! É que você se parece tanto com seu pai, que por um momento achei que era ele aqui.
— Ele teria sido um grande rei... – Diz Afonso ao tentar deixa-la mais confortável.
Os olhos de ambos se enchem de lágrimas.
— Você também será meu neto!! Você é o futuro de Montemor, e eu não poderia ter criado um sucessor mais digno e preparado.
Crisélia segura nas mãos do neto e sai, deixando Afonso sozinho olhando para o povoado preocupado.
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Afonso chama a Dama de Companhia da Rainha Crisélia para conversar.
— Rebeca, como vai?
— Alteza! Em que posso ajudá-lo?
— Hoje estive com minha avó e ela trocou novamente meu nome pelo de meu pai... Só que dessa vez, ela realmente parecia acreditar estar falando com ele.
Rebeca abaixa a cabeça. E Afonso percebe que algo está errado.
— O que foi Rebeca?
— Isso tem acontecido com frequência, outro dia ela me confundiu com vossa mãe.
— Eu irei partir hoje em uma expedição, mas conversarei com Rodolfo para que ele chame o doutor Lupércio para examiná-la. Quero que você esteja presente e que se certifique que tudo seja feito conforme as orientações do doutor. (Ela assentiu com a cabeça), é só isso, pode se retirar.
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No quarto de Rodolfo.
Rodolfo está dormindo quando acorda com um pé do seu lado direito, ele ainda sonolento olha para o pé e vira para o outro lado onde se encontra outro pé. Rodolfo então desperta e olha para as duas lindas mulheres que estão dormindo em sua cama, ele respira fundo e ao esticar os braços para cima, bate em uma terceira mulher que está deitada sobre sua cabeça. Ele levanta, mas as mulheres continuam a dormir.
— MEU DEUS O QUE EU FIZ? E quantas vezes eu fiz?
Alguém bate à porta. Rodolfo acorda as mulheres.
— Anda, levantem, acordem... Deixem de ser preguiçosas, andem...
Ainda muito sonolentas, Rodolfo expulsa de forma um tanto atrapalhada as mulheres de seu quarto, as levando até uma porta que contém uma saída secreta.
— Por aqui, esse corredor as levará até o jardim do castelo. – Ele deposita um beijo nos lábios de cada uma, enquanto as batidas na porta continuam.
Uma das mulheres volta, mas Rodolfo a impede.
— Não meu anjo, você não entendeu.... Essa é a parte em que você vai embora e não volta, sim?
— Mas... Ma---
Rodolfo não deixa que ela termine de falar e a leva novamente a saída secreta. Depois de se livrar definitivamente das mulheres, Rodolfo se veste e abre a porta. Afonso está parado do outro lado balançando sua cabeça negativamente.
— Por que demorou tanto meu irmão? – Pergunta Afonso já imaginando o motivo.
— Eu.... Eu.... Estava me exercitando? Mas o que te traz tão cedo nos meus aposentos meu querido irmão? – Rodolfo se senta em uma cadeira e procura um copo limpo sobre a mesa.
— Já está na hora do almoço Rodolfo. – Afonso ri.
— Que seja... – Diz Rodolfo ao se levantar.
Afonso anda pelo quarto olhando para a bagunça enquanto conversa com Rodolfo.
— Eu sairei em uma nova expedição em busca de água e quer—
— Não sei para que isso.... Você já não vai se casar com a princesa Catarina, futura Rainha de Artena? Reino com o qual temos um acordo de água em troca de minério...
— Não é porque irei me casar com Catarina que Montemor precisa depender de Artena para sempre, ainda mais em uma questão tão importante como água...
Rodolfo dá de ombros.
— Por falar em Catarina, será que ela continua sendo aquela menina magra e dentuça? Por Deus, que lastima ser casado com uma mulher sem, sem (respira fundo), sem grandes atributos... Quem sabe você teria dado mais sorte com a outra lá que desapareceu... Uma pena meu irmão... Uma pena!!
— Faz muitos anos que não vejo Catarina, mas tenho certeza de que ela se tornou uma grande mulher...
— Se eu fosse você não teria tanta certeza...
Afonso acha caído no chão uma roupa íntima de mulher.
— Seria esse o vosso treinamento meu irmão? – Segurando a peça de roupa entre os dedos.
Rodolfo pega a peça sem graça.
— (Fala baixo). Então foi por isso que ela voltou..., mas, então meu irmão, você não veio aqui só para me comunicar da sua expedição, imagino.
— Não! Eu quero lhe pedir para cuidar de nossa avó. Ela não anda muito bem, tem esquecido muitas coisas...
— Ah, não se preocupe, não é a primeira vez que isso acontece.... Outro dia ela me confundiu com o vovô. Foi uma situação digamos bem estranha...
— Rodolfo, dessa vez as coisas me parecem mais graves, quero que você chame o doutor Lupércio imediatamente. Temo que nossa avó esteja realmente muito doente.
Rodolfo percebendo que Afonso falava seriamente, começou a levar as palavras do irmão a sério.
— Pode ir tranquilo meu irmão, na sua ausência eu cumprirei o seu papel, cuidarei da nossa avó, do povo e toda Montemor!!!
Afonso sorri e abraça o irmão mais novo.
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Naquela mesma tarde Afonso partiu acompanhado de Cássio, chefe do exército e também seu melhor amigo, e mais meia dúzia de soldados rumo ao Monte de Óbidos.
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Ao cair da noite, Afonso achou melhor parar para descansar na floresta, era muito perigoso viajar durante a noite, essa região era conhecida por assaltantes e todo cuidado era pouco.
— Não gosto que fiquemos parados por aqui Alteza! Essa região é muito perigosa. – Alerta Cássio a Afonso.
— Eu também não gosto, mas não podemos continuar, os homens e os cavalos precisam descansar e também chamaríamos mais atenção na estrada do que aqui parados.
Cássio concorda e todos se preparam para dormir.
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Um pouco distante dali três jovens estão escondidos atrás de uma moita. Eles usam capuz e máscaras.
— Tem certeza Virgílio, de que a carroça com o pagamento passará por essa estrada? – Pergunta Thiago cético.
— Você já me viu errar Thiago? Se eu disse que eles irão passar por aqui essa noite, é porque irão passar!!
— Shiuu!!! Vocês dois... Nossa intenção aqui é surpreender os soldados do rei e não o contrário. – Diz Amália sentada entre os dois.
— Amália, você nem deveria estar aqui... – Diz Virgílio ao tirar a máscara.
— O que você vai fazer Virgílio? – Pergunta ela preocupada.
Virgílio se levanta e vai até o meio da estrada, estica os braços enquanto diz:
— Venham soldados do rei Augusto, VENHAM!!! Venham direto para nós com todo o ouro do rei!!! – Virgílio ri alto, está muito frio e por isso é possível ver a fumaça sair de sua boca.
Ao longe vem uma carroça do reino de Artena, escoltada por alguns soldados em seus cavalos. Os olhos de Virgílio brilham, ele então olha para Thiago e ri com deboche.
— Ei ali a carroça com o ouro real, Thiago...
Thiago puxa sua espada e se esconde atrás de uma árvore. Amália pega seu arco e flecha e permanece onde está. Virgílio se ajoelha no chão de cabeça baixa. A carroça e os soldados param e um deles diz:
— Quem é você? E o que faz aqui? Em nome do Rei de Artena, lhe ordeno que se identifique.
Virgílio levanta a cabeça já com a máscara e diz com uma voz assustadora:
— Em nome do povo de Artena, eu lhe ordeno que me entregue o que é do povo por direito!!!
Os soldados retiram suas espadas. Amália solta uma flecha que passa raspando pela cabeça de um dos soldados, chamando a atenção dos outros. Aproveitando a distração Thiago e Virgílio atacam, outros homens mascarados surgem das árvores caindo em cima dos soldados e os derrubando no chão. Amália, os ajuda, lançando flechas a distância. Quando ela percebe que a carroça está sozinha, sai de seu esconderijo e toma o controle da carroça com o ouro. Thiago espanta os cavalos e Virgílio mata um dos soldados, enquanto os outros já rendidos saem correndo.
Thiago sobe no cavalo que Amália está e saem conduzindo a carroça. Virgílio e os outros comemoram. Pegam os cavalos escondidos atrás das árvores e seguem pelo mesmo caminho de Amália e Thiago.
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Afonso e os outros dormem quando são surpreendidos por bandidos, que os acordam jogando água na cara. Sem armas e cercados pelos assaltantes, Cássio tenta dialogar.
— Calma, calma! Nossas armas, tudo o que temos está aí, peguem e vão embora.
— De que vale isso? Se eu posso ter o futuro rei de Montemor? Tenho certeza de que posso ganhar muito mais Alteza. – Diz o bandido apontando a espada para Afonso.
O assaltante reconheceu o rei pela vestimenta diferente dos demais. Cássio olhou para Afonso e depois para seus homens e disse:
— Pelo rei de Montemor, NÓS LUTAREMOS ATÉ A MORTE!!!
Os soldados e Cássio partiram para a luta, Afonso deu um soco no bandido que revidou. Cássio conseguiu recuperar as armas e jogou para Afonso sua espada. Era um combate muito injusto tendo em vista o número de assaltantes e o pequeno grupo de expedição de Montemor. A única opção plausível era fugir e manter Afonso a salvo.
— Afonso, precisamos sair daqui. Eu te dou cobertura. – Diz Cássio ao proteger o príncipe de uma flecha com seu escudo.
Afonso concorda com a cabeça, ele e Cássio já estavam conseguindo chegar perto dos cavalos quando o líder dos assaltantes que antes havia colocado a espada na cara de Afonso, pega o cavalo do príncipe. Para Afonso naquele momento, fugir estava fora de cogitação, ele então pega outro cavalo e vai atrás do bandido. Cássio tenta ir atrás do príncipe, mas é impedido por outro bandido. O número de bandidos aumenta, então, Cássio se vê obrigado a recuar sem Afonso.
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Amália e Thiago do outro lado da floresta, tiram da carroça um baú grande. Virgílio e os outros chegam.
— Deixe me ver essa belezinha. – Diz Virgílio ao abrir o baú com uma faca.
Thiago está segurando uma tocha acesa que ilumina precariamente o ambiente. Dentro do baú é possível ver muitas moedas de ouro. Virgílio passa a mão sobre as moedas, pega um punhado e joga para o alto.
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Afonso segue o bandido que está com seu cavalo. O homem para e desce do cavalo, Afonso também o faz. Eles começam a lutar usando suas espadas, mas o que Afonso não esperava era que tinha sido levado até uma armadilha. De repente Afonso senti uma flecha atingir sua barriga, ele cai de joelhos no chão. Irritado o assaltante diz:
— Eu disse que não era para acertá-lo em um lugar crítico.
O outro homem surge da mata.
— Os outros soldados conseguiram escapar...
— Não demora muito e toda a cavalaria de Montemor estará atrás de nós... O melhor é nos dispensarmos e deixarmos ele aí, não conseguiríamos ir muito longe com ele gravemente ferido.
O homem desiste de seu plano de sequestrar Afonso, então, para não sair de mãos vazias, tira o casaco de Afonso e todos seus pertences. E o deixa jogado no chão.
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Virgílio termina de dá instruções aos homens que levam a carroça e o ouro. Amália e Thiago aguardam ao longe. Ele se aproxima.
— Tudo certo! Eles irão comprar o resto das armas que faltam e o restante do ouro será distribuindo entre o povo de Montemor como o combinado.
— Então, missão cumprida? Já podemos ir embora? Antes que os soldados do rei cheguem aqui... – Diz Thiago preocupado.
— Até eles chegarem ao castelo e o rei mandar novos soldados atrás de nós, já estaremos em casa Thiago. – Diz Amália batendo no ombro de seu irmão.
— Eu não vou com vocês.... Eu preciso resolver algumas coisas para o plano de amanhã. – Diz Virgílio seriamente.
— Achei que estava tudo certo... – Amália solta o cabelo e o arruma.
Virgílio se aproxima dela.
— Sobre amanhã eu não queria que você participasse...
Amália dá alguns passos para trás e para quando encosta em uma árvore, Virgílio se aproxima ainda mais dela, pressionando seu corpo contra a árvore. Ele sorri e diz olhando para Thiago:
— Pode ser perigoso, não é Thiago? Diga a sua irmã...
— Não me envolva nisso, você já deveria saber que Amália é mais teimosa que uma mula, não sou eu ou você que vamos conseguir convencê-la a desistir... – Diz Thiago já cansado de toda aquela situação.
Virgílio então volta seu olhar para Amália, ele tem um olhar sedutor, sua boca se aproxima da boca dela e antes que ele conseguisse beijá-la, Amália consegue sair e diz:
— Eu sei que é perigoso Virgílio, como tudo o que fizemos até agora, não?
Ela sorri e encanta ainda mais Virgílio. Thiago se aproxima da irmã e diz:
— Vamos embora Amália.
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Afonso está muito mal, se levanta com certa dificuldade. A flecha ainda está em sua barriga. Temendo que outros bandidos passem por ali, ele caminha pela floresta. Mas não consegue andar muito e cai no chão, ele sabe que suas chances são mínimas e que serão ainda menores se ele não retirar aquela flecha. Em um ato de coragem e força, ele retira a flecha, mas desmaia de tanta dor.
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Amália e Thiago caminham pela floresta enquanto conversam.
— Você não deveria provocar o Virgílio, você sabe dos sentimentos dele por você.
— Eu sei..., mas eu não o provoquei... Ele me assusta, sempre querendo me controlar, me tratando como se eu fosse dele.
— Nem me fale, você viu o que ele fez? Parando no meio da estrada, provocando os soldados... Ele podia ter colocado tudo a perder...
De repente um vento forte e um barulho fez com que Amália parasse, ela faz um sinal interrompendo o irmão.
— Você ouviu isso? – Ela pega seu arco e flecha.
— Não? Mas temos que ir mais rápido, essa região é muito perigosa. Nossa carroça ainda está muito longe, do outro lado da floresta.
Um barulho atrás de um arbusto. Agora Thiago também percebeu. Amália faz um sinal para que Thiago vá pelo outro lado. Quando ela afasta as folhas se surpreende com o que vê. Um homem sentado no chão desacordado. Amália se aproxima de Afonso e percebe sua ferida na barriga. Thiago chega.
— É um homem Thiago e está muito ferido.
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