Desventuras de Um Estudante

3 O Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13


Hoje é sexta-feira, e tenho que contar para vocês que um milagre aconteceu na minha vida. Como vocês bem sabem, esto... estava de castigo devido à um pequeno acidente. E como vocês bem sabem também, a situação só se agravou quando eu, por legítima defesa, tampei uma pedra no Cachorro de Satanás da Rua 13.

A primeira coisa a se dizer é que o Cachorro de Satanás da Rua 13 agora se chama Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13. Okay, vou explicar melhor; quando mamãe ficou sabendo que tampei uma pedra no Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13, que até então se chamava Cachorro de Satanás da Rua 13, ela me mandou levar um brinquedinho para ele.

Lá estava eu, indo para a escola quando me deparo com um grupo de moradores zangados e um cachorro se fazendo de vítima me esperando.

Meu grande plano era demorar um século pra entregar o osso de brinquedo pra ele e acabar perdendo a aula. Obviamente a culpa seria da minha mãe, porque ela quem mandou que eu entregasse aquele osso pro Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13. Era o plano perfeito, nada poderia estraga-lo! Mas não contei com a chatice em pessoa do senhor Wilson.

Senhor Wilson é todo preocupado com a vida, vive preocupado com a educação das crianças. Como se não bastasse tudo isso, ele é o pai mais babão da história da face da terra. Vocês acreditam que ele brigou com os garotos do bairro só porque eles fizeram o Tiago, filho dele, comer terra? O pior é que os meninos estavam certos, os termos da aposta estavam bem claros; eles apostaram que o Tiago não conseguia comer uma mão cheia de terra, caso ele perdesse, teria que comer uma segunda mão cheia de terra.

Óbvio que ele não conseguiu comer a primeira mão, então ele tinha que comer terra de novo! Nada mais do que justo, foi o combinado. Mas não, o chatolino do senhor Wilson veio cheio de discurso moral sobre como é errado fazer isso, que não se pode comer terra e blá blá blá. Enfim.

O senhor Wilson acabou com os meus planos tão rápido quanto o filho dele vomitou a terra que tinha comido na aposta. Ele falou que era para eu brincar com o “cãozinho” quando voltasse da aula, que já estava em cima da hora e que acabaria me atrasando. Tentei falar pra ele que na minha escola não existia esse tipo de problema, mas ele nem me ouviu. Em um pensamento rápido e estratégico, tirei rapidamente o osso da mochila para tentar o Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13.

Não sou bom com estratégias. Essa tática deu muito errado. Muito mesmo.

Meu plano era atrasar tanto para a escola que não daria para assistir a aula, o que faria com que eu ficasse em casa em uma sexta-feira com o dia todo para pensar em como fazer minha mãe me tirar do castigo. O que aconteceu foi que quando o Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13 viu o osso, ele começou a correr na direção dele. NA MINHA DIREÇÃO. Comecei a correr o mais rápido que podia, o cachorro já não gostava de mim antes, imagina agora, que estava correndo com o osso dele na minha mochila!?

Aquela aberração de 4 patas me fez correr feito doido pelo morro a fora na direção da minha escola. Resultado: cheguei antes do professor.

Chegar na escola cedo teve duas coisas legais. A primeira foi que descobri que a Korra chega cedo também. A única coisa capaz de tornar a chatice da escola um pouco mais aceitável, sem dúvidas, são os amigos. Só não entendo o porquê, já que ela mora umas 3 casas da escola, chegar cedo era bem... improvável.

A segunda coisa não foi apenas legal, foi fantasticamente incrivelmente magnificamente surpreendente; a Alice também chega cedo. “Mas quem é Alice?” vocês podem estarem se perguntando. E eu respondo: Alice é a menina mais bonita de toda a escola, é a garota que até para sonhar com ela você deve ter um certo nível de popularidade. O que não é o meu caso, então só posso vê-la durante as aulas mesmo.

E não poder sonhar com ela me dói muito o coração, já que gosto dela a tanto tempo. Deve ter, tipo, uns 2 meses. Tudo começou quando ela cuspiu em mim. Foi tão romântico. Ela estava bebendo água quando aconteceu, uma de suas amigas a fez ri com um comentário sobre achar o Jorge fofo. Ela riu tanto a ponto de cuspir a água na minha cara. Mas isso não é tudo. Agora vem o tcham da história: eu nem estava na frente dela. Ela virou para a esquerda e deu uns dez passos até minha direção, aí sim que ela cuspiu na minha cara e começou a rir. Tinha milhões de pessoas no pátio, ela cuspiu logo na minha cara! Se isso não é um sinal claro que ela está apaixonado por mim, não sei mais o que vai ser.

Sentei do lado da Korra e fiquei dividindo a atenção entre as coisas que ela falava e entre a Alice, que estava sentada do outro lado da sala mexendo no celular. A atenção estava quase toda na Alice, quando a Korra fez a atenção voltar pra ela como num passe de mágica. Foi só ela citar os três trogloditas e o Maicon.

Eu havia esquecido completamente que fui jurado de uns tabefes no dia anterior. Fiquei completamente desesperado! Convenci Korra a responder por mim na chamada, o que não ia ser tão estranho devido sua voz meio grossa, e saí correndo para sair da escola.

Korra achou muito estranho quando voltei e sentei do lado dela. Aposto que ela não acharia isso se tivesse visto o olhar desafiador do Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13 no portão. O cachorro estava sentado no portão me esperando. Ótimo, além de apanhar na escola, ainda teria que voltar correndo para casa. Perfeito.

Mas o dia não estava de todo ruim. Por um motivo que eu ainda não sei qual é, quando voltei, a Korra estava sentado no meio da sala. Quando sentei do lado dela, sentei também do lado da Alice. Eu. Sentei. Do. Lado. Da. Alice.

Pouco a pouco a sala foi enchendo de alunos. Posso jurar que vi uns dois ou três olhares da Korra para a Alice, mas acho que isso se deve ao fato da Alice ter me olhado umas duas ou três vezes também. Acho que a Korra percebeu isso. Na verdade tenho quase certeza, já que ela deu uma risadinha meio sem graça depois da segunda olhada. O que é bom, porque quando eu começar a namorar a Alice não vai ter aquele lance de ciúme das amigas e tudo mais.

O professor chegou e a aula começou. Jack, como sempre foi mais esperto do que eu nas estratégias, conseguiu bolar uma muito boa para faltar a aula, e a dele deu certo. Deveria ter pedido uma ajuda ele com o plano, realmente é preciso fazer alguma coisa para não precisar assistir as aulas do Sr. Cubali, e qualquer coisa que funcione vale a pena.

Cubali é professor de história e amante do comunismo. Ele passa 80% do tempo da aula falando sobre como os EUA é podre, como detesta o capitalismo acima de qualquer coisa e sobre o carinho que os médicos cubanos tiveram ao operar a vesícula de sua tia Jussara. Os outros 20% da aula ele fica mexendo no seu iPhone e tomando Coca-Cola. Isso pra mim é a maior das incoerências! Quer dizer, todo mundo sabe que não se pode comer nada na sala de aula, deixar um professor fazer isso é injusto!

E a única coisa que eu conseguia pensar era nos 3 trogloditas da sala 5 e no cachorro sentado no portão da escola.

As horas foram passando, acabou a aula de história, começou a de português, acabou a de português, começou o intervalo, acabou o intervalo, começou a aula de física, começou a aula de física, começou de novo a aula de física, e a física continuou, continuou, continuou e continuou mais um pouco. Mas nada dela acabar.

Não aguentava mais ficar olhando para o quadro fazendo cara de quem estava entendendo a matéria toda. Ninguém mais aguentava! Mas ninguém fraquejava, todo mundo sabia que se a gente fizesse cara de dúvida o professor Darwinstein explicaria de novo até a gente “entender”. Fala sério, que professor mais chato! Pra que essa necessidade dos alunos entenderem a matéria? Eles não entendem nem mesmo porque estão ali!

E mesmo sem conseguir manter a cara de Pequeno Grande Gênio do Ano, estava torcendo para que aquela aula durasse mais um pouco. Não tinha mais aulas depois, era física e surra em seguida. Foi quando o professor Darwinstein anunciou o final da aula.

Nem pensei no que estava fazendo, só saí correndo para o banheiro e fiquei lá por um bom tempo. Só saí quando ouvi uma gritaria danada no portão principal, tinha uns alunos gritando que Maicon tinha perdido uma mão ou algo assim.

E se tem alguma coisa maior que meu medo, com certeza essa coisa é minha curiosidade.

Um pouco antes deu sair do banheiro entraram duas pessoas rindo e contando o que tinha acontecido. E se eu contar, ninguém vai acreditar! Saí com tanto medo da sala de aula que acabei deixando minha mochila lá. Por pura estratégia, é claro. Quando os três trogloditas bombados bobados foram lá para me bater e não me acharam, contentaram em roubar minha mochila e me bater no dia seguinte, quando eu fosse pedir ela de volta.

Mas eles não contavam com o Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13 no portão.

O cachorro me odeia tanto que ele até já decorou como que é minha mochila; a cor, a escrita, o chaveiro, o bolso que o osso estava, tudo. E quando ele a viu, nem conferiu se era eu mesmo que a estava carregando, saiu logo correndo atrás.

Os dois amigos que estavam acompanhando o portador da mochila saíram correndo, já que o alvo não eram eles. Mas kraken teve que subir na árvore centenária que tem na frente do colégio para não ser mordido.

Quando ouvi isso, saí correndo para ver o kraken chorando. E tenho que admitir que estava sendo muito engraçado mesmo, pena que durou pouco tempo. Parece que além de ter marcado a minha mochila, o Cachorro Milagreiro da Gula Abençoada da Rua 13 marcou meu cheiro e minha cara também, porque logo assim que saí da escola, ele virou, me viu, e saiu correndo atrás de mim. Até poderia ter corrido para dentro da escola, mas sei lá porque quis tentar a sorte de correr até chegar em casa.

Todos riram da minha cara, mas a notícia que chegou na minha casa, junto com a minha mochila, era que eu tinha salvado a vida de um monstro marinho que estava sendo atacado por um cachorro. Mamãe ficou tão orgulhosa da minha atitude que até me tirou do castigo.

E isso é ótimo, porque além de poder ir à festa de amanhã agora, ainda posso criar o blog hoje mesmo. Mal posso esperar para ver a cara daqueles derrotados da escola ao ver que tem um blog chamado osretardadosdaminhaescola.com falando super mal deles. Mal posso esperar.

Bom, deixa eu ir agora porque tenho muito trabalho pra fazer. Obrigado mundo, por finalmente reconhecer que sou o ser mais importante do planeta e conspirar ao meu favor. Já era hora!

Agora vamos lá; como se cria um blog?

Notas finais
Espero que tenham gostado, meu povo. Não esqueçam de comentarem o que acharam, seja pra elogiar, seja para xingar minha mãe. Favoritem se tiverem gostado. Fiquem com papai do céu, beijos seus lindos.