Desventuras de Um Estudante
4 A Festa Bombástica
Tenho duas notícias para contar; uma boa e uma ruim. A boa é que aprendi a criar o blog e postei tudo lá. A ruim é que ninguém leu. Tenho que confessar que fiquei muito surpreso quando fui ver o número de visualizações e lá estava um zero bem redondo. Na verdade o zero da internet é meio oval, mas enfim. E isso me faz acreditar fielmente que aquele site onde criei o blog está estragado, já que eu mesmo li o que postei umas vinte vezes. Definitivamente não tinha como estar zero.
O grande problema de se escrever anonimamente é que você não pode divulgar as coisas que escreve. Até pensei em mandar para o Jorge e pedir para ele divulgar o blog que “achei acidentalmente enquanto procurava um vídeo do Sonic lutando contra o Mario e digitei, sem querer, o link certinho do blog na caixa de pesquisa”, mas acho que ele não iria gostar de compartilhar um blog que fala tanto mal dele. Cara mais egoísta.
Bom, hoje foi a grande festa. A primeira coisa que fiz ao acordar foi ligar o computador e combinar tudo com o Jack e a Korra, tudo tinha que sair perfeito! Eles responderam na mesma hora, estavam super ansiosos para irem também, afinal de contas, ir em uma festa muito chata onde adolescentes maiores e mais fortes do que nós vão para dançar e enxerem a cara é o ápice da popularidade. Depois de combinar tudo, fui tomar café e deixei o computador ligado. Foi aí que tudo começou a dar errado.
Não sei o porquê nem o pra que, mas só sei que enquanto me deleitava com um glorioso misto-quente com duas fatias de queijo derretidas molhando suavemente o pão, meu irmão estava fuçando no meu computador. Sempre que isso acontece, alguma coisa dá errado para o meu lado. A última vez que ele fez isso, tive que ficar duas longas semanas explicando o porquê do meu plano de fundo da área de trabalho ser a foto da Barbie. Ele entendeu tudo errado, e como se já não bastasse isso, ele mandou uma foto para todos os amigos dele.
Em minha defesa gostaria de falar que a Barbie é uma boneca muito bonita! Fiquei dos 11 aos 13 anos apaixonado por ela. Minha mãe até tentou me convencer que ela não era real, mas o perfil oficial dela no facebook não ajudou muito nos argumentos. Eu escrevia poemas e músicas para ela, me dediquei muito para que a relação desse certo, mas quando abri meu coração para o perfil na rede social e ela respondeu que seria para sempre minha se a comprasse na loja mais próxima, desisti. Quer dizer, isso é um absurdo, onde já se viu um amor vendido por esse preço? Ela é uma boneca muito cara! Desde esse dia voltei um pouco da minha atenção para minha amante, a Polly.
Mas a verdade é que nunca esqueci aquela linda boneca loira que tem mais profissões do que tons de rosa na sua embalagem. E olha que são muitos rosas para uma única embalagem! Aí, para matar a saudade que tinha dela, coloquei uma foto sua como plano de fundo da área de trabalho. A justificativa é perfeitamente entendível, mas isso adianta alguma coisa para o meu irmão? Não! Claro que não! Aposto que a Hello Kitty já feriu o coração dele!
Quando acabei de tomar café fui ver um pouco de televisão, mas assistir televisão sábado de manhã na minha casa é muito difícil, ela tem que ficar praticamente no mudo para não acordar meu pai. Assistir TV tão baixo assim não seria nem um pouco necessário se não fosse minha mãe. Teve um dia que eu estava assistindo televisão bem baixinho, lá pelo vol. 57, quando meu pai acordou. Mas vocês acham que ela aceitou o fato de que ela quem tinha acordado o papai com o barulho dela varrendo a casa? Lógico que não!
Eu estava, literalmente, vendo TV, já que não tinha como escutar, quando vi meu irmão saindo do meu quarto. Não podia confronta-lo de frente, já que se fizesse isso ele me daria um belo cuecão. Fiz então o que qualquer irmão mais novo faz: ativei o modo guerra. Esperei ele sair para ir fuçar no computador dele também. Só que, infelizmente, mamãe teve a mesma ideia, porém ela foi mais rápida. Quando entrei no quarto dele e fechei a porta, dei de cara com ela me encarando. Tentei explicar que tinha confundido os quartos e que entrei no do meu irmão sem querer, mas o adesivo escrito “Fora Atlas” na porta do quarto dele não ajudou muito na minha história.
Contei pra ela, então, que ele entrou no meu quarto também, e que fui ali apenas para pegar de volta meu precioso e adorável caderno que ele tinha roubado. O problema é que para você fazer alguém acreditar em uma história, você mesmo tem que acreditar nessa história, e depois que me dei conta que tinha dito que meu irmão havia roubado um caderno, eu mesmo desacreditei totalmente. Meu irmão roubar tudo bem, mas um caderno? Não, definitivamente ele não faria isso.
Mamãe deu um grito irritada e falou sobre como detesta mentiras, tentando tirar toda a atenção do fato que ela também estava errada na história. Não tive outra escolha a não ser falar a verdade, que ele havia entrado no meu quarto e que queria me vingar, que queria entrar e sair do quarto dele também. Estava indo super bem, já tinha saído do quarto e a porta já estava fechada, mas ela insistiu em gritar e me mandar ir até lá.
Com medo de entrar em uma fria, acabei contando o que fui fazer lá e ela me explicou o que ele foi fazer em meu quarto. Acontece que agora, por algum motivo, minha mãe decidiu que quer ter o controle dos sites que acesso. Pensei seriamente em falar pra ela que não tem muito sentido você colocar um controle de sites com “12345” como senha, mas acho que isso não me ajudaria muito. Então fiquei quieto deixando mamãe acreditar que ela estava a um passo de ser chamada pra ser a mais nova hacker do CSI.
Papai e mamãe já tinham me deixado ir na festa, tudo o que tinha que fazer era não estragar tudo durante o dia. Como quase coloquei tudo a perder antes mesmo do almoço, tive que adotar a técnica do hibernamento para evitar encrenca. Essa técnica consiste em, basicamente, você ficar dentro do seu quarto com a porta trancada e sair só para ir ao banheiro, mas mesmo assim, só se for de extrema necessidade. Essa técnica quase sempre funciona, ela só me trouxe problemas uma única vez, quando fui ensinar ela para o meu primo e ele não entendeu muito bem o que era “extrema necessidade”. O resultado foi um garoto de castigo e um baú de brinquedos mais molhado do que deveria. O estranho foi que o garoto que foi castigado fui eu. Meu primo foi só um inocente que não sabia o que estava fazendo.
A técnica de hibernar deu muito certo hoje. A festa estava marcada para começar 20:00h, então comecei me arrumar um pouquinho antes, tipo umas 15:00h. Quando deu 19:20h saí de casa para encontrar com Jack e Korra. Quase tive um ataque quando vi a roupa do Jack. Ele teve a coragem de ir para uma festa com uma camiseta do Super-Homem. Fiz de tudo para ele voltar e trocar de roupa, mas ele não quis. Por fim a Korra conseguiu convencer ele a usar o casaco dela, um xadrez rosa, que, devo admitir, ficou bem mais legal.
Fomos quase que correndo para o lugar da festa, estava muito preocupado em chegar atrasado. Chegamos lá 20:10h e descobrimos uma coisa muito importante sobre festas que ninguém tinha me ensinado antes: uma festa que está marcada para começar 20:00h DEFINITIVAMENTE não vai começar 20:00h. Chegamos tão cedo na festa que nem o som estava arrumado ainda. E sabe como sei disso? Porque o Dj pediu nossa ajuda para montar! Negociei com ele de ajudarmos se ele desse um salve pra gente durante o show, ele aceitou. Até aí tudo bem, estávamos ajudando em uma parte fundamental para se ter uma festa, no som. Mas a sacanagem começou quando o Dj foi para a parte de trás do salão para conversar com duas garotas e deixou eu, Jack e Korra montando o som sozinhos!
Por volta de 21:00h as pessoas estavam começando a chegar, o problema é que nós tínhamos que estar em casa as 22:00h. Começamos a tirar algumas sutis fotos para provar que estávamos na festa, e quando deu 21:30h o Dj resolveu ligar o som. Ele começou a falar e a falar, até que se lembrou do nosso salve. Ficamos super animados quando ele falou que queria agradecer a três pessoas que o ajudou. Mas só ficamos animados porque não sabíamos o que viria depois.
O que veio depois foi ele falando “Gostaria de agradecer à três pessoas que me ajudaram hoje com o som, que são o casal gay e a lésbica logo ali” enquanto apontava para gente. O único problema era o fato daquela festa estar cheio de pessoas da minha escola. Só. Isso.
A gente tentou falar que não éramos gays, mas o casaco que Jack estava usando não ajudou muito. Falei pra ele tirar o casaco, mas ele começou a brigar comigo falando que sempre reclamo das roupas que ele usa, que nada está bom para mim, que nunca estou satisfeito com ele. Isso também não ajudou muita coisa.
Então o Dj falou que se existia um som montado naquela noite era graças a gente, e ligou a primeira música. Ligou a única música. Pelo que parece, acidentalmente, Korra e Jack ligaram alguns fios errados. Eles ainda falam que quem mexeu com os fios da caixa de som fui eu, mas não lembro disso. Só sei que o Dj não devia ter falado que a gente que montou o som, porque foi só a caixa explodir e a festa começar a pegar fogo que todo mundo olhou pra gente com um olhar furioso.
Gostaria de ressaltar que a caixa explodir até que não foi de todo ruim, porque ninguém estava aguentando mais aquela música horrível que estava tocando. Estava tão ruim que tinha uns adolescentes dançando de uma maneira estranha para alertar o Dj que a dança estava tão ruim quanto a música, mas ele não entendeu.
A gente saiu correndo da festa o mais rápido que podíamos, e as outras pessoas vieram logo atrás. Não sabíamos se eles estavam correndo do fogo ou atrás da gente, mas resolvemos não parar para perguntar.
O que mais me chateou nessa história toda foi descobrir que a Korra é a mais rápida de nós três, porque enquanto corríamos ela disparou na frente. Isso me deixou meio triste.
Decidimos não contar nada da festa bombástica para nossos pais, afinal de contas, acho que mamãe não iria gostar nem um pouco da história. Imagina quando ela descobrir que montei o som de uma festa inteira, mas não montei o daqui de casa? Com toda certeza do mundo, ela não vai gostar nem um pouco.
As fotos que tiramos ainda estão salvas no celular, mas alguma coisa me diz que não devemos posta-las. Agora é só esperar para ver os danos que o Dj causou na nossa reputação na escola. Nem acredito que ele falou que e Jack éramos um casal gay. Fala sério, se ele ao menos estivesse usando uma camisa do homem-aranha tudo bem, okay, todos gostam do homem-aranha, aceitaria numa boa. Mas do Super-Homem? Não, com toda certeza isso me ofendeu muito!
Termino os relatos de hoje com a minha indignação. E como me ofendeu!
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