Desventuras de Um Estudante
2 A Prova de Matemática
Definitivamente hoje não é meu dia. A começar pela prova de matemática, que com toda certeza do mundo, posso dizer que não foi de Deus. Você pode estar se perguntando o porquê deu não ter falado nada da prova ontem, já que ontem foi o dia em que comecei a escrever. A resposta é simples; porque eu não sabia. Nunca anoto nada sobre provas, essa é a função da Korra, ela que é a inteligente do grupo. Só que como você bem deve saber, estou de castigo, sem internet, sem comunicação, sem vida, sem amor, sem amizade, sem talento, sem vida de novo, adeus meu pai.
Antes mesmo de saber a nota, gostaria de dizer que tem uma justificativa muito plausível para eu ter ido mal. Tenho um estômago muito sensível de manhã, não consigo comer nada a não ser um misto-quente. Só que, infelizmente, por culpa da minha escola, a minha sanduicheira pegou fogo e não tem como fazer um misto-quente. Minha mãe até tentou me convencer que misto e misto-quente eram a mesma coisa, mas não deu muito certo. Eu estava no meio de um discurso sobre a importância das duas fatias de queijo derretidas e como elas molhavam suavemente o pão, quando ela decidiu que não queria ouvir e me mandou ir para a aula com fome.
O caminho da minha casa para a escola não tem erro, se mate e suba para o céu, quando estiver bem lá em cima, pegue a primeira a esquerda e pronto, é lá. São 3 morros muito inclinados, muito inclinados mesmo. Geralmente saio bem disposto para ir para a escola e enfrentar aqueles bandos de retardados, só que hoje não comi meu misto-quente. Sabe o que isso significa? Significa que não cumpri meu ritual espiritual padrão infalível que não pode ser quebrado que ativa o sétimo chakra da energia para subir morros. Sem o ritual espiritual padrão infalível que não pode ser quebrado que ativa o sétimo chakra da energia para subir morros, me cansei muito e tive que sentar para descansar algumas vezes.
As paradas foram poucas, umas 2 ou 13 vezes, o que foi de suma importância, já que minhas pernas são muito finas para conseguirem subir 3 morros sem meu café-da-manhã. O inimaginável aconteceu: cheguei atrasado! A minha mãe me paga! Lógico que cheguei atrasado por causa dela, se ela não tivesse tentado me convencer que misto e misto-quente são as mesmas coisas, não teria perdido meu precioso tempo explicando que não é e teria chegado a tempo.
Talvez vocês não saibam, mas chegar atrasado na minha escola é um problema sério. Se o aluno se atrasar ele passa o primeiro horário todo na sala da diretoria ajudando a Sr. Carla a arrumar todas as papeladas de diretora. O único problema é que a Sr. Carla tem um problema sério com flatulência. O pior de tudo é que ela não admiti, ela jura que o fedor é do banheiro masculino, que é um problema com os canos de esgoto. Eu até acreditava nela, mas depois da quinta reforma no banheiro passei a desconfiar seriamente que o problema vinha da sala dela mesmo.
Tentei argumentar de todo jeito com o porteiro para que não tivesse de ir para a sala da diretora Pum, tentei falar que a culpa não era minha, que era da minha mãe. Contei o que minha mãe disse sobre o misto, contei sobre toda a importância das duas fatias de queijo derretido molhando suavemente o pão e contei um pouco sobre o episódio de ontem da novela também. Essa última parte foi por impulso, mas foi a parte que ele mais prestou atenção.
Para a minha sorte, o ator principal bonitão beijou a irmã da empregada da tia do avó dele, casal que o porteiro torcia a favor desde o início da novela. Isso deixou o porteiro feliz e ele decidiu me deixar ir para a sala de aula.
Quando cheguei na sala me deparo com a cena mais assustadora da minha vida: a Sr. Clarisse. Depois de reparar no grande bigode dela, me deparei com a segunda cena mais assustadora da minha vida: a turma toda em silêncio fazendo uma prova de matemática que não fazia a mínima ideia que existia. Tentei de todo jeito chamar o porteiro de volta para ele me levar para a diretora Carl... diretora Pum, mas ele não me escutou devido estar cantando a música tema do ator principal bonitão e da irmã da empregada da tia do avó dele.
A Sr. Clarisse me mandou sentar e fazer a prova que sequer sabia da existência. Eu até poderia sair correndo dali, mas o bigode assustador dela exerce um poder muito grande sobre mim, não consigo desacata-lo. Durante a prova me bateu um desespero muito grande; a sala estava toda fechada, o que abafou bastante o ambiente e fez com que o bigode da Sr. Clarisse começasse a suar. Isso me tirou ainda mais a concentração.
Tem uma coisa que me deixa feliz, fui o último a entregar a prova. A Sr. Clarisse disse que ia me dar um ponto extra por isso, ela viu que eu estava muito focado no que estava fazendo. O que é bem justo, afinal de contas me dediquei muito no desenho do dragão gorila das neves lutando contra o king-kong por uma maçã, mereço muito aquele ponto.
Quando a prova acabou, fui brigar com a Korra por ela não ter me falado da prova, mas me distrai no caminho vendo um garoto colocar o pé na frente do Jorge para ele cair. O pobre do menino machucou o pé. Parece que quando o Jorge tropeçou, ele girou o pé do garoto junto. O menino saiu mancando. E rindo. Mas mancando também.
Eu ri tanto por dentro do tombo do Jorge que esqueci que estava chateado com a Korra e com o Jack e acabei conversando com eles numa boa. Nós estávamos esperando o professor de história chegar, aí aproveitei o tempo para contar do incidente com a sanduicheira e do castigo. Mas a conversa perdeu o foco por culpa do Jack, que não tinha assistido ao filme “Confronto entre gigantes com braços musculosos” ainda, aí tive que contar o filme pra ele.
Cara, o braço voou por um campo de futebol inteiro. Isso é demais.
O restante das aulas foram como o esperado, tinha conseguido sobreviver a mais um dia insuportável de aula, estava indo embora me sentindo o maior dos vitoriosos. Mas nem tudo é o que parece. Lembra do garoto que colocou o pé na frente do Jorge e saiu mancando? Então, parece que ele se confundiu um pouco ao passar as características do garoto que tinha feito aquilo com ele para o seu grupo, porque quando eu estava indo embora tinha 3 trogloditas gigantes bombados bobados que vieram tirar satisfação comigo. Até tentei explicar que era tudo um mal entendido, que o garoto que fez aquilo com o amigo deles era outro, contei até sobre a importância das duas fatias de queijo derretido molhando suavemente o pão, mas nada funcionou.
Quando percebi que a situação estava saindo do controle, fiz a única coisa que podia; gritei “Ishi, olha alí, o Maicon acabou de machucar o outro pé!”. O plano de distração seria perfeito se naquele exato momento o Maicon realmente não tivesse acabado de machucar o outro pé. Idiota. Corri feito um louco até ter certeza que os trogloditas gigantes bombados bobados não estavam me seguindo mais. Fiquei muito feliz por eles realmente não estarem me seguindo. Mas fiquei muito triste por perceber que quem estava me seguindo era o Cachorro de Satanás da Rua 13.
Eu odeio qualquer tipo de pessoa que maltrata os animais, sou contra qualquer tipo de violência contra eles, excetos animais feios, animais com mais de 5 patas, animais com duas cabeças, animais com a voz do Darth Vader, animais metade cachorro metade gato, animais que podem se voltar contra a humanidade e dominar o mundo e animais da Rua 13.
Aquele cão definitivamente não é de Deus.
O problema é que existem outras pessoas iguais a mim, só que elas são contra violência contra animais da Rua 13. Isso ficou muito evidente quando eu, e em minha defesa digo que foi apenas porque estava muito desesperado, tampei uma pedra no cachorro. Os moradores começaram a gritar comigo e a falar que sabiam onde eu morava. O mais engraçado é que mesmo sabendo onde moro, nenhum deles me deu uma carona. Fiquei indignado.
O bom é que pelo menos eles seguraram o Cachorro de Satanás da Rua 13 com eles. O ruim, quer dizer, o pior de tudo, é que eles além deles saberem onde moro, eles sabem o telefone da minha casa também. Percebi isso quando cheguei em casa e minha mãe começou a fazer um discurso sobre como devemos amar os animais da Rua 13.
Conclusão: vou ter que passar na Rua 13 amanhã, pedir desculpas os moradores e levar um brinquedinho para o Cachorro de Satanás da Rua 13.
Eu acabei de almoçar exatamente agora, e como não tenho mais nada pra fazer, já que estou de castigo, decidi contar meu glorioso dia de uma vez. Não sei que tipo de poder a escrita tem, mas sei que quero invocar todo esse poder para que amanhã seja melhor do que hoje, porque vou precisar de muita ajuda para lidar com os 3 trogloditas gigantes bombados bobados.
Bom, até amanhã.
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