Destinos Inseparáveis
7 Não tão difícil
Notas iniciais
POV LUCY:
–Não acredito! Esqueci-me das chaves!- e de repente ouço um tilintar vindo da mão dele.
–São minhas?- perguntei, ainda com esperança.
–Nops...- respondeu ele, e apontou para a casa dele com a cabeça, do outro lado da rua.
–Nem penses. Vou ligar à minha melhor amiga!
Meti a mão no bolso e ele desatou a rir com a minha cara de desespero.
–O telemóvel também? Acho que não tens outra opção...
–Antes ficar na rua!- respondi revoltada.
–Ok, então vou para casa. Até depois!
–Xau!
E foi-se embora. Abandonou-me como todos sempre fazem. Sentei-me no chão, encostada à porta de minha casa. Não podia entrar pela janela graças à perna, e todas as outras portas estavam trancadas. Fiquei a pensar na minha vida durante várias horas, e acabei por adormecer.
Acordei com o pôr do sol, a tremer de frio. Então, a muito custo, levantei-me, engoli o orgulho e atravessei a estrada com as muletas.
Quando cheguei encarei a porta, e quase rezei para que alguém me abrisse a porta. Toquei a campainha, e quase pulei de alegria por ter sido a mãe dele a abri-la.
–Lucy! O que fazes aqui? O que aconteceu à tua perna?
–Olá Sra. Babi! Longa história. Resumindo, esqueci-me das chaves e do telemóvel no hospital, e o seu filho deixou-me aqui fora. Como não tenho outro sítio para ficar, vim perguntar se posso dormir aqui até a minha tia voltar da viagem.
–Querida, claro que podes! Entra, estás gelada!
Entrei e ela levou-me ao andar de cima, para tomar um banho quente. Atravessámos o corredor e ela levou-me ao quarto do fundo.
–Eu sabia que vinhas- disse ele sem tirar os olhos do jogo, mas eu não respondi, apenas fiquei ainda mais irritada com ele. Acreditem, se o olhar matasse, ele estaria mais que morto!
–Ryan! Que história é essa de deixar a menina lá fora ao frio?- perguntou a mãe dele chateada (claro, não tanto quando eu...)- Bem, depois explicas. Agora arranja-lhe uma camisola quente.
–Porquê?
–Porque ela está gelada! E tem de tomar um banho para aquecer antes que entre em hipotermia!- era um pouco exagerado, mas realmente eu estava a tremer e tinha os lábios roxos...
–Está bem...- concordou a revirar os olhos, mas só aí olhou para mim. Vendo o meu estado mudou logo de atitude:
–Oh desculpa! Vou já!- e saiu a correr.
Fui tomar banho, vesti a camisola que era larga o suficiente para servir de calções. Saí e desci, andei à procura até encontrar a cozinha, onde estava a mãe dele a preparar o jantar.
–Voltaste! Estás melhor?
–Sim. Foi difícil como o gesso, mas consegui...
–Imagino... O Ryan foi trocar de roupa e já volta.
"Sem pressas", pensei.
–Por acaso, não queria muito vê-lo agora...
–Querida, eu sei que estás chateada com ele, e com razão, mas já falei com ele e está arrependido.
–Mesmo assim, não há maneira de...
–Não, não há- interrompeu ele com um sorriso. Como é que ele é capaz de sorrir depois do que me fez??
–E a pergunta?- perguntei irritada e a olhá-lo com o pior olhar que consegui. Logo se calou e saiu dali.
–Vês? Consegues aguentá-lo...- disse ela a tentar acalmar-me.
–Não sei se consigo sem lhe bater...
–Acredito que não o terás de fazer muitas vezes.
Fomos até à sala, onde jantámos os três juntos.
–Mãe, onde é que ela vai dormir?- perguntou ele.
–No teu quarto.- apeteceu soltar a gargalhada mais alta do mundo! Vou "destroná-lo"?
–E eu??- perguntou indignado.
–Também...- nesse momento a pouca alegria que me restava desapareceu. Entalei-me com a massa, e por pouco não a deitei fora.
–Eu posso dormir no sofá.- voluntariei-me, assim que consegui falar.
–Nem pensar, dormem lá os dois, e ninguém refila!
–Bem, perdi a fome...- levei o prato para a cozinha, e fui para o quarto dele. Escondi-me debaixo da cama, para ninguém me chatear, e acabei por adormecer.
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POV RYAN:
Já eram 22h quando subi para o meu quarto, e não a encontrei. Fui ver nas casas de banho, no quarto da minha mãe, até no jardim! E não a encontrei. Chamei a minha mãe, que me ajudou a procura-la. Será que fugiu? Espero que não, nem imagino o que lhe poderia acontecer lá fora a esta hora da noite...
Após meia hora a procurar, encontrei-a a dormir debaixo da cama. Quase parecia um anjo, peguei nela com cuidado e deitei-a na minha cama. Como é possível alguém ser assim tão leve? Parecia uma pena fofinha. Cobri-a e deitei-me ao lado dela. Fiquei a observá-la durante um bocadinho, mas depois apaguei a luz e adormeci.
Comecei a sonhar, eu estava num parque, e vi-a sentada num banco a rir-se imenso com um... rapaz?!? Eles estavam de costas mas eu podia reconhecê-la nem que estivesse a quilómetros de distância. Fui até mais perto para ver quem era. Não acredito! Aquele é... aquele sou eu! Ela estava muito linda, e sempre a sorrir. Então ele, quer dizer, o outro "eu", começou a aproximar-se dela, e quando estava prestes a beijá-la... PUF! Acordei.
Ela estava fora da cama, a olhar pela janela. O seu rosto estava iluminado pela luz da lua. Em silêncio, aproximei-me dela.
–Estás bem?- perguntei em voz baixa.
–Desde quando é que te importas?
–Ainda estás chateada comigo?
–Eu não estou chateada contigo, mas sim comigo. Cheguei a pensar que tinhas mudado, e que estavas a ser simpático comigo por amizade, mas não...- os seus olhos estavam tão brilhantes, estava difícil prestar atenção ao que ela dizia...
–Não...
–E a culpa não é só tua, a culpa é minha por me ter iludido, agora sei que só me ajudaste por pena... e continuas a ser o mesmo egoísta de sempre! E eu estou farta de ser tratada assim por ti!- baixou a cabeça, e uma lágrima caiu dos seus olhos.- Só te peço que me deixes em paz, e pares de me fazer sofrer!- pegou nas muletas, saiu do quarto e fechou a porta. Esperei uns minutos para ela se acalmar, e fui procurá-la. Encontrei-a na sala, a dormir no sofá. Nota-se que esteve a chorar bastante, e o pior é que foi por minha causa. Mais uma vez, peguei nela e levei-a para a minha cama. Deixei a luz do candeeiro acesa, porque fiquei com a impressão que ela tem medo do escuro. E assim adormeci, outra vez.
[...]
Acordei abraçado a ela, com a luz do dia a entrar pela janela, mas ela ainda estava a dormir, então continuei ali, a observar aquela pessoa que eu sempre rebaixei, e que agora não consigo largar.
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