Destinos Incertos
2 You're a Vampire
Notas iniciais
─── Ashley on ───
Quando acordei, estava em um quarto estranho, usando o mesmo vestido negro e cintilante que usei na balada há...
Quanto tempo se passou? Um dia ou uma semana? Enfim, me sentei na cama para pensar, tentando lembrar, mas sem nada sólido para me agarrar. Lembro-me de estar dançando na pista da boate lotada; forcei meu cérebro a se lembrar dos detalhes. Eu estava dançando e algo me interrompeu. Erik! Ele me interrompeu e ele... Ele... Ele me beijou!
Coloquei a mão na boca e inconscientemente ela escorregou para o pescoço. Sentia uma marca, algo como picadas, dois furos começavam e terminavam a cicatriz em forma de meia-lua. Se isso fosse um filme, essa cicatriz poderia ser de um vampiro. Ri com essa ideia, ora, vampiros não existem! Ou será que... Não, que ideia ridícula, isso não poderia acontecer, não é real!
Tentei me convencer disso enquanto, estando completamente acordada, me colocava a observar o quarto. Nele, havia duas camas, uma ao lado da outra, com mesinhas de cabeceira e abajures, um criado-mudo ao lado de cada cama, um armário grande e duas escrivaninhas ao lado dele. As paredes grossas, brancas como a neve, traziam um ar clean ao ambiente, combinando quase que perfeitamente com o piso de bétula. Ao lado da cama estavam meus pertences, como a mochila laranja que sempre gostei de usar, minha colcha verde, o despertador horroroso que odiava chamar de meu e uma pilha de papéis encima da escrivaninha. Havia um símbolo em comum neles, um lírio amarelo muito belo.
Me levantei, tomando coragem, e coloquei meus pés no chão. Nesse mesmo segundo, entra uma mulher alta com cabelos azuis chamativos, vestida com roupas estranhas feitas de folhas e o mais estranho de tudo é que ela tinha asas. Altas, brilhantes e verdes asas a erguiam do chão, batendo num ritmo constante enquanto ela flutuava até mim, carregando uma bandeja com algo que parecia um café-da-manhã. Largou-a na escrivaninha com os papéis, empurrando-os um pouco para o lado, parecendo nem perceber minha presença, mas assim que seus olhos focaram em mim, ela veio me colocar de volta na cama.
– Menina, o que você está fazendo fora da cama? — ela me deitou de volta, e eu não estava entendendo nada. Quem era ela? O que ela estava fazendo aqui? Ou melhor: o que eu fazia aqui? Como se pudesse ler minha mente, ela falou:
– Não acredito que ela está aqui, e que eu vou cuidar dela! Deuses, que honra. — Ela ajeitava o lençol da cama que eu estava usando enquanto falava, mas sua boca não se movia.
– O que disse? — perguntei.
– Eu não disse nada querida — disse ela — Mas, afinal, qual o seu nome? — ao mesmo tempo em que ela me perguntava, eu a ouvi dizendo “Que garota maluca, será que ainda está sob o efeito da transformação?”.
Resolvi responde-la, afinal era claro que eu estava delirando, não existem fadas e ela parecia uma perfeita fada. E como ela poderia estar voando? Que tolice! Mas o que seria essa 'transformação'?
– Me chamo Ashley — respondi relutante, enquanto ela pegava a bandeja de volta e me oferecia. Peguei o que parecia ser um pão — E você?
– Sou a Lucy — respondeu-me. Quando dei uma dentada no pão, senti um gosto estranhamente amargo na boca. Deixei-o de lado e resolvi tentar o suco. Esse tinha um gosto um pouco melhor, mas não era de nenhum sabor que eu já tivesse experimentado.
– Que lugar é esse? — perguntei. Mesmo ela sendo uma completa estranha, senti que podia confiar nela — E por que estou aqui? E há quanto tempo cheguei?
– Esse é o lugar mais incrível em que se pode estar. — ela disse sem mexer os lábios pintados de cor de rosa. Me perguntei como ela fazia isso, mas resolvi não falar nada, já que a boca dela estava mexendo quando disse: — Você está na Academia de Iniciação de Londres, sua nova casa por seus próximos 5 anos!
Ahn? Casa? Essa tal de Lucy devia estar enlouquecendo; aqui, Londres, minha casa? Nunca! Minha casa, meu lar é com meus pais e meu irmão, e não num lugar desconhecido e que está me deixando apavorada ao invés de confortável, como é de se esperar.
– Espere — eu disse, rindo de nervoso — Aqui não é a minha casa, mas sim em Boston! — Ri, com lágrimas de confusão nos olhos — Preciso sair daqui, desculpe, mas preciso voltar.
– Meu bem — falou ela me acalmando e me colocando sentada na cama — Você é uma vampira, foi transformada a 1:30 a.m. na boate Dark Horse pelo vampiro rebelde Erik Knight — ela parou e me encarou. Eu não podia acreditar no que ela dizia, tinha que ser mentira, eu só posso estar sonhando.
– Não, não, não! Isso não é verdade, vampiros não existem. — ri, sentindo as lágrimas borrarem o meu rosto — Eu tenho que sair daqui! — falei decidida, me livrando dela e quando estava saindo a ouvir dizer:
– Pobre Ashley, acontece isso com todas as novatas.
Assim que eu estava no corredor, muitas vozes encheram a minha mente, tantas que mal podia ouvir meus próprios pensamentos. Parei no meio do corredor, não aguentando aquele barulho todo, então tampei meus ouvidos, e me agachei, junto à parede.
Alguém se aproximou de mim e me levantou pelo braço. Era um garoto alto, moreno com cabelos longos, até os ombros, com profundos e penetrantes olhos vermelhos. Sua expressão era de preocupação, mesmo assim o pânico me invadiu, dizendo que eu tinha que fugir que não poderia ficar ali com ele a me segurar. Sua boca se mexeu, mas não pude ouvi-lo, eram muitas vozes. Pedi pra ele repetir, mas mesmo assim não consegui escutar. Pedi desculpas e disse que não podia ouvi-lo com todo aquele barulho. Assentindo, o garoto me levou por outro corredor, que eu não tinha percebido. Ele fechou a porta duma sala e acendeu as luzes.
– Eu perguntei se você precisava de ajuda. — disse ele numa voz suave, mas preocupada, enquanto me lançava um pequeno sorriso para me acalmar. No momento em que ele fechou a porta, a maior parte do barulho se calou.
– Não — digo, tentando clarear a mente — Mas obrigada.
Vou em direção à porta, mas quando a abro de volta, os zumbidos e sussurros voltam a encher minha cabeça e me fazendo tapar os ouvidos de novo. O garoto se aproximou e fechou a porta.
– Ei você está bem? — ele perguntou enquanto me colocava numa cadeira, me analisando e dizendo coisas relacionadas à preocupação.
Assenti com a cabeça, que estava quase explodindo de tantas vozes de uma só vez, como se estivessem atirando repetidas vezes num mesmo ponto da minha testa.
– Qual o seu nome? — perguntou ele se sentando numa cadeira ao meu lado.
– Ashley — digo meio embasbacada — Ashley Reynolds. E o teu?
– Zenon — disse ele me estendendo a mão num aperto a qual eu apertei, sentindo sua força — Zenon Friccs. Muito prazer.
– Então, já é aluna há quanto tempo? — pergunta ele.
– Aluna? Isso é uma escola? — pergunto confusa.
"Como assim, ela ainda não sabe?" Ouvi ele dizer — Sim, essa é a Academia e se você está aqui é por ser uma aluna. — disse ele. Isso estava sendo estranho, não era a primeira pessoa que me respondia duas vezes uma pergunta...
– Ai que confusão. — digo, colocando as mãos na cabeça, onde eu supunha ser o alvo dos tiros constantes — Desculpa, mas por que todos aqui me respondem duas vezes?
"Do que ela está falando?" Disse ele — Como assim? Não estou entendendo. — ele respondeu dessa vez mexendo os lábios.
– Duas vezes! Você falou: "Do que ela está falando", e depois me perguntou: Como assim! — digo agitada.
"Que?". — Ashley, acho que você não está falando coisa com coisa, fale mais devagar.
– Viu? De novo! Você disse "Que?" antes dessa ultima frase! — respondi, tentando soar o mais clara possível, mas a dor era tanta que coloquei a cabeça entre as pernas para tentar amenizar.
– Mas espera, eu não falei... — "Ah meu Deus, ela pode ler a minha mente!”.
– Espera! O que disse? — pergunto. Como eu não tinha pensado nisso, é claro que nessa alucinação isso ia acontecer! Eu sempre pensei que se magia existisse, eu ia aprender a ler mentes. Ri com isso internamente.
"Eu pensei que você pode ler a minha mente" Ouvi a voz dele dizer, mas sua boca nem se mexeu! Ele era esperto nesse ponto.
– Agora me diga: de que espécie você é? — ele me pergunta, mexendo os lábios de volta.
– Espécie? Como assim espécie? Sou humana, se é isso que quer saber. — digo agora desconfiada dele.
"Não, você não é." Ele diz/ pensa; a boca não se mexeu.
– Como assim? É claro que eu sou humana! — falo, encarando aqueles olhos vermelhos que estavam começando a me enraivecer.
"Não, pois eu sentiria seu cheiro se você fosse humana" Ele pensa e depois diz — E você não tem cheiro, pelo menos não para mim, o que diz que me diz que você é do submundo; e, se fosse uma humana, você não estaria aqui.
– Bom, eu não sei. Não sei como eu vim parar aqui, não sei por que estou aqui e não sei o que eu devo fazer aqui! — quase grito com ele, apesar de ser sem intenção.
Naquele momento, senti um cheiro estranho, doce e apetitoso. Me levantei da cadeira e segui o cheiro. Por sorte ele vinha de um armário no fundo do recinto. Quando o abri, havia várias caixinhas de suco enfileiradas uma ao lado da outra. Sem nem ler o que era, abri uma e despejei o conteúdo dentro da minha boca. Um delicioso sabor doce e metálico invadiu minha boca e tomou conta dos meus sentidos.
"Ela estava mesmo faminta" ele diz e sinto-o se aproximar de mim e tirar a caixinha que estou tomando. Sinto o líquido escorrer pelo meu rosto, pescoço e até meu vestido, mas não me importei, apenas precisava tomar mais daquele suco exótico; me viro e rosno pra ele o encarando com ódio por me tirar aquele líquido dos deuses.
– Calma menina, vamos com calma vampirinha!
Pisco meus olhos seguidamente para ele, não conseguia entender, como assim vampira? Repeti a pergunta para ele.
– Isso que você estava bebendo é sangue, da mais alta qualidade e fresquinho. Chegou hoje de tarde. — dizendo isso ele tomou um gole da caixa que estava segurando e se aproximando disse — Se você sentiu o cheiro do sangue e se sentiu atraída por ele, então você é uma vampira.
Quando percebi o que ele estava falando, senti nojo de mim mesma por ter atacado aquela caixa. Eu bebi sangue! Meu estômago estava dando voltas e eu sentia que poderia vomitar a qualquer instante se ele continuasse a falar sobre isso. Me afastei do armário e fui em direção à janela; eu precisava de ar fresco. Quando a abri, vi que o céu estava escuro e a luz da Lua estava mais brilhante do que antes. Não entendi por que, mas desviei meu olhar dela, como se seu brilho incomodasse meus olhos, do mesmo jeito que o Sol, quando está de dia.
Saí de perto da janela e vi Zenon com uma das caixas de... Urgh... Sangue nas mãos e me observava com o olhar fixo no meu, como se os olhos estivessem com cola. Desviei meu olhar do dele e olhei ao redor da sala. Na verdade parecia algo como uma despensa; havia uma mesa comprida de madeira e algumas cadeiras ao redor dela e também havia vários armários, provavelmente cheio de alimentos. Parecia uma despensa pra mim, pelo menos.
– O que é esse lugar? — perguntei, notando as texturas das paredes e achei graça dos quadros nas paredes, pois todas as pessoas (ou seres?!) estavam vestidos com um chapéu de cozinha diferente um do outro.
"É uma despensa, cujas portas dão para a cozinha e pro refeitório.” pensou ele — Estamos na hora do intervalo dos vampiros, ou seja, uma péssima hora para uma vampira que sabe ler mentes sair do quarto. Afinal, o que você estava fazendo no meio do corredor? Você estava apavorada, meio sem ar...
– Eu não sei!- digo sincera. Estava começando a ficar nervosa, pra quê tantas perguntas? E como ele controla tão bem os pensamentos? Enfim respirei fundo e continuei — Eu não sei por que, mas eu tive que sair daquele quarto, na real nem sei por que ainda estou aqui com você.
"Eu sei" pensa ele e completa falando — Você não pode sair até que o sinal toque — ele consulta o relógio — O que vai acontecer em cinco minutos.
No momento em que ele fala isso a porta se abre. As vozes invadem a minha cabeça, mas isso até a porta se fechar com um pequeno ruído atrás de um homem. Ele era alto, sua postura era de líder; com certeza ele era um líder. Ashley se concentra! Seus cabelos eram escuros, tanto quanto a noite lá fora, seus olhos impunham respeito e brilhavam com uma intensidade que mostrava muitas experiências. Eu diria que ele tem os seus trinta e poucos anos, talvez um pouco mais, ou um pouco menos. Seus pensamentos eram numerosos e se dividiam em muitas perguntas, tantas que eu não consegui identifica-las. Sua voz era forte e penetrante, mas mostrava gentileza quando ele disse:
– Zenon, o que faz aqui?
"Ferrou" ele pensou e disse — Eu... Ahn... Estava ajudando... Ahn... A Ashley. Mas eu já vou indo.
Com isso ele saiu da sala fechando a porta. Agradeci ele mentalmente pela ajuda, mas o xinguei por ter me deixado aqui com ele. Engoli em seco enquanto ele me estudava; seus pensamentos continuavam girando enquanto ele me perguntava:
– Qual é o seu nome?- disse numa voz gentil, mas que me fez arrepiar os pelinhos do braço. Xingo Zenon por me deixar aqui sozinha com ele, mas o agradeço pela ajuda, mentalmente claro.
– Ashley Reynolds, senhor. — ao dizer meu nome, mais pensamentos surgiram na mente do homem, alguns eram até elogiadores.
– Certo. O que fazes aqui?
– Estou esperando o sinal bater.
– Mas por que não se junta aos demais vampiros? — nisso, ele se direciona para a porta e, ao chegar à maçaneta, reencontro minha voz.
– NÃO. Perdão, quero dizer, ahn, não, por favor. — disse, esperando levar uma bronca.
– Está bem — ele diz, fechando a porta — Mas por quê?
– Eu, ahn... — queria inventar uma mentira, mas resolvi contar a verdade — eu acabei de ser transformada. Mas, ahn, qual o nome do senhor mesmo?
– Eu sou Corey McCalister, fundador e diretor da Academia de Londres. — ele me respondeu com um ar sombrio e misterioso que me fez tremer — Já que você é uma novata, deveria estar na Enfermaria. Irei leva-la até lá.
Eu acreditava ter me preparado para enfrentar as vozes, mas estava tão despreparada que, assim que nos aproximamos do refeitório, senti de novo a sensação de tiros em minhas têmporas. Minhas pernas fraquejaram e eu me ajoelhei rente à parede, com as mãos na cabeça e implorando baixinho para aquilo acabar.
Escuto um prato e um copo quebrando, arrastares de cadeira, talheres e, principalmente, vozes e pensamentos misturados de tal maneira que fizeram minha respiração acelerar, minha visão escurecer e meu corpo ir para frente sem eu ordenar nada disso. Sussurro ao Diretor um fraco "Me tire daqui, por favor!" e sinto mãos e braços me segurando com projeção antes que eu pudesse bater no chão. Não chego a ver o rosto da pessoa que me salva, mas sinto-a suspirando levemente e dizendo qualquer coisa sem sentido pra mim.
Então, eu desmaio.
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