Destino Das Fadas

59 Capítulo 56 — Culpa


Notas iniciais
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOI GENTE! *---* Que saudade de vocês! (Também né Fairy, você demora anos para postar). Sim, eu leio mentes. HUDHASUIDHSAUIDHUASIDA. Bom galera, eu demorei, mas aqui estou como sempre. Queria dizer umas palavrinhas (Ah! Não brinca.). Pois é, serei breve, como sempre sou, certo? HUDISAHUIDHASUIDHASUIDHAUSIDHA É sobre o último capítulo. Ou melhor, sobre os comentários que tive com o último capítulo. Os incriveis e divos 34 comentários. É comentário pra caramba e eu me apaixonei por cada um deles. Já li comentários de todas as formas, mas esses foram campeões. Eu li, reli, e me apaixonei todas as vezes. Para os preocupados, sim, estou bem. Mas nossa, realmente, foi surpreendente a forma como vocês me fizeram mudar a visão sobre o último capítulo, que por acaso eu havia dito que não gostei. Passei a gostar. Vocês são perfeitos demais, aiai, como não amar? *000* Enrolei um monte já... Quero agradecer de todo o coração, pelos comentários, pelos consolos, pelas broncas, pelas risadas e pela emoção que vocês me arrancaram. Estão tentando fazer um autora ficar sentimental? Hunf. Conseguiram, seus malditos T_T Eu amo vocês ♥ Deixando meu drama cotidiano de lado, quero agradecer a Michelle Cipriano pela recomendação a Com você Eternamente ♥ São 9 agora. Enche meu coração de alegria ao saber que pude conquistar leitores com um capítulo, sério *-*. Obrigada amore, eu amei ♥ Sobre o capítulo de hoje... Vejam por vocês mesmo, certo? Boa leitura ♥

Capítulo 56Culpa

Pensei ter dado um passo em sua direção
Mas apenas me perdi em vão
A culpa me leva para longe de você
Enquanto fujo de mim mesma
Buscando significados de uma existência mal vivida.

Abro os olhos de maneira semicerrada, como se houvesse uma pressão monstruosa sobre eles para mantê-los fechados. Olho vagamente ao redor, tudo tão branco e sereno, mas sei que é tudo uma ilusão. Meu corpo dói e meus olhos estão inchados. Queria não me recordar do que me levou a isso, mas infelizmente, me recordo. Está tão vivo em minha mente, que me assombra.

Lembro-me de ter saído correndo e de sentir fortes contrações repentinamente, me desesperei, gritei por ajuda, mas sabia que todos estavam longe o bastante para não ouvir nada. Apoiei em uma árvore, uma tontura intensa tomou conta de mim. Então entrei em pânico quando olhei para baixo e vi sangue manchando meu vestido claro, eu sabia o que significava, e tentei com todas minhas forças impedir, mas a escuridão me engoliu antes.

Acordei no hospital, com enfermeiras gritando ao meu redor. Não tive forças para perguntar o que estava acontecendo, e tive medo também de ter a resposta. Nem ao menos me lembro como cheguei aqui. Alguém me encontrou? Havia um hospital por perto? Tanto faz. Logo após, tudo se acalmou e as enfermeiras passaram a me olhar com pena. Eu sabia o que tinha acontecido e não aceitei.

“Eu sinto muito”, foi o que o médico disse.

Não, não sente. Eu sinto muito.

As lágrimas vieram tão automaticamente quanto o sol que emerge toda manhã e não cessaram. Agitei-me, debati-me contra todos.

“FAÇAM ALGUMA COISA PARA SALVÁ-LO” gritei repetidas vezes.

Então, minha voz foi cedendo e a escuridão voltou a me engolir novamente.

A vontade de me debater passou. A calma apareceu, mas a conformidade não. Ainda não posso acreditar. Sinto como se minha alma tivesse sido roubada de mim, e tudo o que restou é um corpo vago, sem nada, sem sonhos, sem objetivos, sem sentimentos. Não sobrou nada para mim.

Uma lágrima escorre por meu rosto, mas não sinto dor. Ela age sozinha, como se apenas precisasse sair para algum lugar fora desse vácuo terrível que eu sou. Eu sou uma pessoa horrível e a vida me mostra isso a cada dia. Foi minha culpa. O médico já havia avisado que eu devia me cuidar melhor, mas fui teimosa. Não me cuidei nem por um segundo. Nem fisicamente, nem psicologicamente. Agora é tarde demais para pensar nisso.

O som da porta range, fazendo-me olhar para ela. Cabelos azuis surgem em sua fresta. Olhos marejados. Expressão triste. Não a encaro. Olho para minhas próprias mãos um pouco sujas, não sei como elas ficaram assim, imagino que seja da floresta.

— Lu-chan? — chama-me tranquilamente. Sei que quer ajudar, mas também sei que não vai conseguir. Nem mesmo ela.

Não respondo.

Levy-chan vem ao meu lado e se senta. Não diz mais nada, apenas segura uma das minhas mãos, que estou mexendo sem rumo algum. No momento que ela me toca, as lágrimas descem.

— Não vou perguntar se você está bem — fala de maneira suave — Só quero que saiba que estou ao seu lado, como sempre estive.

Arrisquei um olhar, mas nem a enxerguei direito, a barreira de lágrimas impediu. Ela começou a chorar também, então me abraçou, apoiando minha cabeça em seu peito. Chorei igual a uma criança em seu primeiro “Não”. Chorei igual como imaginei que meu bebê faria um dia. Em minha vida acumulei tantos motivos para chorar, e esse era o máximo que eu aguentei. Minha mãe. Meu pai. Natsu. Meu bebê. Perdi a todos. Realmente não devo ser alguém que deve ser amada.

Sempre pensei o quão triste deve ser a vida das pessoas que são fechadas em seu próprio mundo, que não dão a chance para que os outros entrem. Agora as entendo. O vazio é um consolo. É um silêncio confortável e sem ameaças. Sem dor.

Perdi a noção do tempo em que fiquei aos consolos de Levy. Ela permaneceu ali, em seu consolo silencioso o tempo todo. Não julgou, não perguntou, nada. Somos amigas a muito tempo, ela sabe que não quero conversar. Sua amizade me faz respirar novamente, não o bastante para querer viver, mas o suficiente para descarregar todas minhas lágrimas. Queria poder secar. E então sumir.

— Lu-chan?

— Hm?

— Sinto muito — sussurrou, mexendo em meus cabelos.

— Eu também.

—♥—

Olhares de pena. O maior mal existente na face da terra. Típico olhar da qual as pessoas dão, pensando que estão te consolando, mas no final, estão apenas te lembrando, o tempo todo, do ocorrido.

Enfermeiras vieram e foram, fazendo isso. Parece que entravam no meu quarto só para me angustiar ainda mais. Criei até um roteiro que elas seguem: Entrar no quarto, olhar de pena, fazer o que devem fazer, olhar de pena, perguntar se estou melhor, olhar de pena, andar até a porta e fechá-la me olhando com pena. Não encontrei uma que não seguisse tal roteiro.

Levy passou novamente pela porta e me olhou. Claro, com pena.

— Está melhor?

— Por favor, não faça isso — pedi ao seu olhar e a pergunta do dia. Porque é simplesmente ridículo como as pessoas ficam te perguntando se você está melhor no mesmo dia em que sua vida desmoronou.

— Desculpe — disse cabisbaixa, sentando-se em uma poltrona ao meu lado.

— Também não faça isso — repeti, olhando fixamente para a parede à minha frente.

— Isso o que?

— Pedir desculpas por tudo — respondi bruscamente — Não quero ninguém se preocupando o tempo todo. Passei por muita coisa e vou passar por essa também. Então chega disso!

Ela apenas balançou a cabeça. Claramente sem concordar com nada que eu disse. Sei que não tem culpa. É lógico que ela está preocupada comigo. Depois de minha crise de choro, nenhuma lágrima a mais deixou meus olhos e permaneci em silêncio por um longo tempo, apenas respondendo com gestos.

— Estamos em Magnólia, certo? Vi pelo uniforme das enfermeiras.

Levy balançou a cabeça novamente, observando meus movimentos.

— Como... — Hesitei — Como vim parar aqui?

Percebi seu corpo tremer com a pergunta, me revelando que eu provavelmente ficarei louca com a resposta.

— Natsu te encontrou...

Eu sabia.

— ... e voou para cá.

Ele sempre me encontra até mesmo quando eu insisto em me esconder dele.

Então uma culpa súbita tomou posse de mim e reagi olhando rapidamente para Levy, perguntando silenciosamente, o que ela provavelmente já sabe.

Minhas mãos começam a suar e meu coração acelerar.

Ela assentiu com a cabeça.

— Sim, ele já sabe, Lu-chan.

Nesse momento senti como se uma grande massa de ar gélido tivesse me atingido, causando um impacto assombrador.

Natsu sabe. Ele sabe sobre nosso filho.

Senti falta de ar, e uma dor insuportável no peito, comecei a tossir incontrolavelmente. Levy agitou-se ao meu lado, querendo chamar as enfermeiras, mas a impedi, pegando em seu braço. Respirei um tanto ofegante, tentando me acalmar.

— Estou bem, estou bem — repeti, ainda sentindo algo entalado em minha garganta.

— Lu-chan, eu acho me...

— Não! Eu estou bem, sério — interrompi. Respirei fundo — Ele está aqui?

— Está.

Senti uma falha em meu coração. Ele não quer me ver. Eu também não iria querer se estivesse em seu lugar. Eu menti, o enganei o tempo todo. Ele tem razão em se cansar disso tudo. Tem sim. Eu sou uma idiota. Uma fraca indesejada que não lutou por nada, nem mesmo pelo próprio bebê.

— Ele disse para eu vir antes...

Olhei para ela, petrificada.

— Ele... Ele... vai vir aqui?

— Daqui a pouco... — sussurrou.

Entrei em desespero.

— Não pode deixar ele vir aqui! — Agitei-me — Levy-chan! Ele me odeia! — gritei, aflita só de pensar em ter que encará-lo agora.

— Lu-chan...

— Quem te odeia?

Meu coração parou.

E acho que minha respiração também.

O dono dessa voz, o conheço muito bem. No momento, estou com tanto medo de encontrá-lo que ainda não acredito que ele está na minha frente. Os mesmos cabelos rosas, ombros largos e olhos intensos. Na porta, sem nem direcionar o olhar para mim.

— Natsu — Levy murmura ao vê-lo — Vou... na cafeteria com Gajeel.

Levantou-se e saiu.

Neste momento, era apenas eu, Natsu e a distância quilométrica entre nós.

Ele esperou Levy sair para então fechar a porta, e deixar tudo ainda mais estranho. Não me olhou nem por um segundo e eu apenas sigo seus movimentos, com medo de cada passo. Natsu respirou fundo encostado na porta, depois andou até a janela a sua frente, que fica a uns 5 metros de mim. Não diz nada, mas apoia suas mãos nos cantos da janela, pensativo.

Sua expressão é séria, porém serena. Não sei o que pensar. Paro de olhá-lo, essa tortura constante de não saber como ele irá reagir, me consome. Olho para o lençol que me cobre e para minhas mãos acima dele. Fico debatendo um dedo contra o outro, até sentir uma lasca em minha unha, e querer arrancá-la. Meus nervos estão a flor da pele. Um suco denso de maracujá com sonífero não me acalmaria no momento.

Suspiro fundo, tomando coragem de quebrar esse silêncio insuportável.

— Natsu... eu...

— Eu não te odeio — cortou-me, fazendo com que eu olhe diretamente para ele com meu coração em mãos.

Ele ainda não me olha, chego a pensar que imaginei essa frase saindo de seus lábios. Seu olhar ainda continua intacto, observando alguma coisa lá fora, ou simplesmente apenas focando o olhar em qualquer outra coisa que não seja eu. Meu coração saltou ao ouvir sua voz novamente. Lembro-me da última vez que a escutei. Brigamos loucamente até ele dizer que acabou tudo. Nem parece tão real quanto foi no momento que ocorreu, mas sei que é verdade.

— Como...? — murmuro mais para mim do que para ele.

— Estou com raiva — confessou, ainda com o olhar fixo na janela — Estou frustrado, chateado, confuso e sentindo milhares de sentimentos distintos... Mas não sinto ódio. Admito que eu gostaria de sentir, mas não é uma escolha minha.

Fico paralisada enquanto escuto suas palavras tão carregadas, mas em um tom calmo. Uma contradição que não compreendo. Sinto meu coração se partir ao ouvi-lo dizer que gostaria de me odiar. Entendo seu lado completamente e me sinto chateada do mesmo jeito.

Volto a olhar para minhas mãos.

— Anteontem na pousada, quando eu disse que... a maior mentira que você já tinha dito na vida era que me amava. Cara, como eu estava errado. Não cheguei nem perto. Que idiota — continuou a dizer.

Cada frase, uma facada em mim.

Sei que mereço cada uma delas. Mas ouvir dele mesmo, dói mil vezes mais.

Fico calada, apenas absorvendo suas rudes, porém verdadeiras palavras. Ele está desabafando. Imagino que se fosse eu em seu lugar, não estaria sendo tão prudente quanto ele. Natsu sempre foi mais sensato do que eu de qualquer forma.

Pude ver seu vulto se movimentando ao meu lado e não olhei com medo de ver sua expressão, qualquer que seja ela. Busco observar seus movimentos apenas de lado, ele ainda não está me olhando, mas ficou de costas para a janela, ainda apoiado na mesma.

— Você... — sussurrou — Como pôde? — indagou em um tom completamente indignado — Sério... minta sobre você, sobre seus sentimentos, sobre seus pensamentos, sobre qualquer coisa, mas não esconda um filho de mim, porra! — revoltou-se.

Abaixei a cabeça, sentindo que as lágrimas viriam novamente. Não posso retrucar. Ele tem razão. Sou mesmo tudo o que ele pensa. As lágrimas escorrem silenciosamente. Estou tão... deprimida. Sei que é tudo consequência de minhas más escolhas. Mas perder um filho... isso foi demais até para mim.

— Desculpe... — murmurou após um longo suspiro.

Olhei para ele, e dessa vez seu olhar estava em mim. Senti um arrepio instantâneo. Desculpa? Pelo o que exatamente ele está se desculpando? Pelas minhas mentiras?

— Sei que não é uma boa hora para discutir com você. Sei que deve estar tão triste quanto eu. É só que... não acredito que tudo isso aconteceu.

Desviou o olhar novamente.

— Nunca imaginei como seria ser pai... — disse vagamente, focando seu olhar no chão — Já imaginei milhares de vezes em estar com você, me casando com você, mas ser pai? — sorriu fracamente — Acho que agora sei. Porque mesmo sem nunca ter conhecimento de sua existência, mesmo sem ter tido o direito de abraçá-lo ou ter cantado alguma canção desafinada para fazê-lo dormir, caramba, a dor é a mesma.

Queria poder ter o direito de dizer que o entendia. Porque é exatamente assim que me sinto. A única diferença é que eu sempre soube de sua existência, e que carrego a imensa culpa de não ter contado ao pai e por tê-lo matado. Eu não me cuidei. Fui idiota e imprudente. Não pude abraçá-lo, nem vê-lo crescer forte e saudável. E nossa... realmente dói. Não desejo essa dor a ninguém. A dor de perder alguém que tanto ama e ao mesmo tempo, perder a si mesmo.

Poderia haver uma máquina do tempo, algum feitiço ou bruxaria que me fizesse voltar para o momento antes de minhas escolhas ridículas. Eu mudaria tudo. Cada detalhe desta vida que criei. Passaria uma borracha imensa e recomeçaria do zero. Pergunto-me se mesmo assim os caminhos me levariam à ele. E se fosse assim, se as coisas aconteceriam exatamente da mesma maneira.

As lágrimas ainda não pararam. Elas descem lentamente por meu rosto, em silêncio, como se apenas quisessem que eu sinta-as ali, que me lembre do porquê estarem ali.

— Lucy...

Ouvi sua voz sussurrar e virei-me em sua direção vagarosamente.

Seu olhar estava novamente em mim. Tão fixos quanto nunca os vi. Estão lendo minha alma, procurando respostas para sua dor, procurando alguém que não sou mais. Sinto como se ele estivesse olhando-me e enxergando a garota de alguns anos atrás, doce e desengonçada. A garota que provavelmente se apaixonou de forma errônea. A garota que dizia ser destinada a ele. E que agora se transformou na mulher que destruiu sua vida e de seu filho.

— Por que escondeu isso de mim?

Sua voz é tão intensa e seu olhar tão expressamente triste que as palavras me abandonam como se eu nunca as tivesse aprendido. Minha boca se abre minimamente, pensando em alguma resposta que fizesse sentido. Mas essa resposta não existe. Nada faz sentido.

— Pensou que eu não seria capaz? Que eu não fosse aceitar? Que eu não largaria exatamente tudo que tenho na minha vida para ficar com vocês? — sua última frase sai como um grito.

Fico paralisada, com as lágrimas caindo mais rapidamente, e com algo entalado na minha garganta. Meu estômago se revira neste confronto emocional. Levo uma mão até minha boca, tentando me acalmar de alguma maneira desconhecida.

— Natsu... — minha voz sai gaguejada e completamente incompreensível — Eu... realmente... sinto muito. Eu... — Respiro fundo, percebendo o quão indecifrável eram as palavras que saiam de minha boca — Eu fiquei desesperada... Q-quando eu descobri... Você já estava noivo e eu... — soluço com minhas próprias frases entrecortadas — Eu não podia estragar sua vida... Eu... não queria te atrapalhar... Entrei em pânico e... — outro soluço grotesco que escapa entre as lágrimas — Sou uma idiota...

Escondo meu rosto com as mãos, para esconder as lágrimas, para me esconder disso tudo. Reparei que é a primeira vez que desabafo assim. Acho que nunca contei a ninguém o quão apavorada eu estava. Grávida de um ex-namorado, noivo? Nunca tive certeza de nada em minha vida, mas algo me dizia que ele era certo, apesar de errado. As semanas foram se passando e o desespero crescia dentro de mim. Sei que não é desculpa alguma, sei que é imperdoável, mas eu precisava dizer à alguém, e por mais tarde que seja, Natsu é a pessoa que deve saber. Agora eu sei. E isso não mudará nada. Não trará minha vida de volta, não trará meu bebê. Não vai apagar todas essas memórias conturbadas.

Sinto uma mão tirando as minhas de frente do rosto. Olho para o dono dela com meus olhos inchados de tanto chorar. Encontro seu olhar. Parece que o tempo pausou nesse cruzamento de olhares, porque minha respiração cessou. Dessa vez ele não desvia o olhar e continua segurando a minha mão. Seus olhos continuam os mesmos, encantadores e hipnotizadores. Faz parecer que toda essa dor não existe. Sua boca se abre um pouco hesitante.

— Não estou te perdoando — disse firme, apesar de sentir sua mão trêmula. Ou talvez seja a minha, não sei — Mas... — fez uma pausa breve, pensativo — Só dessa vez... Vamos passar por isso juntos. Certo?

Meus soluços foram substituídos por um coração acelerado. As lágrimas se tornaram silenciosas novamente. Minha dor se torna um pingo de esperança. Estou escutando isso? Continuo olhando para ele, esperando que esse sonho se vá. Esperando que eu acorde, de verdade, sozinha. Mas ele não se move, seu olhar não evita o meu e sua mão calorosa não solta a minha.

Balanço a cabeça, concordando lentamente.

— Certo... — murmuro com medo de que eu tenha imaginado.

Sua mão aperta a minha. É impossível controlar minhas lágrimas.

— E sim... Você é uma idiota.

Um sorriso frágil deixa meus lábios e sou eu quem desvia o olhar, envergonhada demais para isso.

Natsu senta-se no banco ao meu lado, descansa nossas mãos juntas na cama e leva a outra até meu rosto, limpando a umidade de forma carinhosa. Isso só faz com que eu queira chorar ainda mais.

Ele não me odeia.

Só vejo o quanto sou mesmo ridícula. Ele ficaria do meu lado até o fim. Essa sensação está tão palpável agora... Mesmo com todos meus defeitos, minhas palavras rudes e as tantas outras ocultas, minhas falhas, minhas mentiras, meus segredos, ele continua aqui, tendo que me confortar. Só posso pensar o quão sortuda sou, por tê-lo comigo.

— O que... — escapa dos meus lábios antes que eu possa pensar a respeito — O que você vê em mim? — pergunto com certa repulsa de mim mesma — Fiz coisas horríveis para você, então... porque você continua aqui? Por que você não dá o fora da minha vida que tentei te tirar tantas vezes e tenta ser feliz, de verdade? — Tudo sai como uma revolta interna.

Não sei de onde surgiu tudo isso. Mas às vezes só quero que ele tenha certeza do que está fazendo. Não consigo compreender. Não mesmo. Essa era sua chance perfeita para jogar na minha cara tudo de ruim que já fiz e escapar disso tudo. Por que ele está aqui?

Natsu olha para mim, não de maneira confusa, mas de um jeito... como se a resposta fosse óbvia. Óbvia para o mundo todo, menos para mim. Ele olha para nossas mãos e suspira.

— É o que quer? Me ver fora da sua vida?

Sua pergunta me pega desprevenida.

— Você merece melhor que isso — respondo repreensiva.

— Esse é seu problema Lucy — afirma sem pensar duas vezes — Se você parasse para observar uma única vez, ao em vez de pensar nas inúmeras alternativas que nos cercam em cada escolha, veria como é simples.

Encaro-o tentando compreender suas palavras, enquanto sinto seu dedo acariciar minha mão.

Simples? Isso é tudo menos simples. Se fosse simples não passaríamos por tudo isso. Não sofreríamos tanto. Observar? Eu praticamente só fiz isso a minha vida inteira, observei o tempo passar, deixando sonhos para trás e...

Sua outra mão puxa meu rosto em sua direção, voltando-me a realidade.

— Você está fazendo de novo — repreendeu-me. Mordi o lábio inferior pelo alerta. Seus olhos se tornam intensos sobre os meus — Eu escolhi isso, Lucy.

— Isso o quê? — sussurro sem compreender.

Minha voz está falha, e a mão que ele segura está suando absurdamente.

— Isso tudo. As consequências de ir atrás de você. Tudo o que passei e vivi.

Nossos olhares se prendem outra vez em sua pausa.

— É simples dessa maneira. Eu escolhi você. Eu te disse isso invariáveis vezes e vou continuar repetindo. Não importa se você tentar me tirar da sua vida, porque você vai continuar na minha — ele sorri de forma irônica — E mesmo sem você perceber... neste exato momento... estou indo atrás da minha felicidade.

Outro sorriso escapa de mim.

— Então neste caso, o idiota é você.

Natsu ri e faz sua mágica de me hipnotizar novamente. Ele se aproxima.

É nessas horas em que ele faz tudo parecer diferente. Faz parecer que meus erros foram pequenos, porque apesar de terem sido gigantescos, ele continua aqui.

— Não me importo — sussurra, sem desviar seus olhos dos meus, e se aproximando cada vez mais — Sabemos... que eu sempre fui assim, e é tarde para mudar.

Sinto sua respiração se misturar a minha e essa sensação é tão nova que sinto meu coração falhar. Meu corpo ainda está frágil, mas sua proximidade faz todo o resto não importar. Estou com tanta saudade e falta dele. Foram tantos acontecimentos. Um atropelando o outro e nos distanciando cada vez mais. Só agora pude ver... o quanto preciso dele.

Sinto sua mão apertar a minha. Ele morde o lábio, revezando seu olhar lentamente dos meus olhos para minha boca.

— Não acredito nisso.

Hm?

Olho para porta, de onde vem a voz fina e claramente magoada.

Yukino.

Notas finais
Parabéns, você chegou ao final de mais um capítulo! HUDSHAUIDHASUIDA Natsu sendo Natsu. Lucy sendo dramática. Levy sendo fofa. Enfim, momentos críticos. Tretas virão? Acredito não demorar tanto para o próximo capítulo, pois tive que dividir esse para não ficar do tamanho do mundo. Apesar de vocês serem psicopatas por leitura e acho que nem ligariam para isso. HUDISHAUIDHASUIDHUIASDA. Reta final galera! Espero contar com vocês até o fim, assim como o Natsu e a Lucy! Obrigada por tudo! Beijãaaao ♥