Destino Das Fadas
7 Capítulo 07 — Ponto final?
Notas iniciais
Capítulo 07 — Ponto Final?
— É Lucy, o que eu sou para você?
Fico paralisada diante sua pergunta brusca e com seu tom frio. Natsu é tão caloroso que vê-lo me olhar com tamanha repulsa, me desequilibra. As lágrimas não param de cair. O sentimento de destruição dentro de mim apenas aumenta. Como deixei as coisas chegarem a esse ponto? Estava tão hipnotizada vivendo meu conto de fadas que esqueci completamente da realidade?
— Você... você... — tento iniciar alguma frase, mas minha voz está fraca e gaguejada.
Ele sorri sarcasticamente.
— Seu silêncio responde minha pergunta — fala com desdém — Obrigada por brincar novamente comigo — termina e se vira.
Sua voz atravessa meu peito, me apunhalando. As lágrimas descem ainda mais rápidas, enquanto vejo Natsu se afastar de mim, como da outra vez. Suas costas sendo encobertas pelas sombras cada vez mais.
Loki vê minha situação e passa seus braços por mim. Levo um susto ao senti-lo tão perto. A aversão ao seu toque é tanto que me sinto me pânico. Não, não é ao seu toque, é a mim mesma.
— Lucy, não chore — diz calmamente — Vamos conversar.
Isso me fez chorar ainda mais. A culpa invade cada nervo de meu corpo.
É a segunda vez. A segunda vez que Natsu me diz adeus e eu não faço nada. Apenas vejo ele se afastar, saindo de minha vida e sabe-se lá quando voltará.
Penso da última vez, penso em nossos dois anos distantes e em como senti falta de cada parte dele. Em como já quis me jogar do vigésimo andar por não tê-lo impedido de me deixar. Ainda pior sua fala soa em meus ouvidos.
“Se eu fosse... você me impediria?”
Eu impediria.
Enxugo as lágrimas e me recomponho. Ah, isso não vai acontecer de novo. Respiro fundo, determinada e Loki me olha confuso. Solto-me de seus braços e o olho, finalmente, nos olhos. É assim tão ruim lutar por minha felicidade?
— Loki — sussurro, fitando meus pés por alguns segundos, pensando nas palavras certas até olhá-lo de novo — Desculpe — digo com um suspiro — Tenho que ir atrás dele.
Ele continua me olhando, sem entender.
— Desculpe — repito e me viro.
Com minha energia renovada começo a correr. Ele vai me pagar por fazer e correr tanto hoje. Não olho para trás. Não penso no coração partido que deixei ali. Perdão Loki, mas eu realmente... não posso perde-lo de novo. As lágrimas voltam a descer a medida que penso sobre isso. Faz quatro dias que reencontrei Natsu. Quatro dias que me fizeram sentir como nunca me senti nesses dois anos.
Não posso perder isso de novo.
Meus pulmões falham e paro ao vê-lo pronto para entrar em seu carro. Corri ao máximo, ele acendeu os faróis e eu me joguei na frente de seu carro. Eu diria algo mágico se tivesse ar para isso.
Ele me olha como se eu fosse louca. Vejo seus olhos avermelhados e me pergunto se ele também chorou por mim. Se ele realmente me ama tanto a esse ponto e como deve estar decepcionado. Meu coração está pronto para explodir, explodir de medo.
— Natsu, me escuta! — grito para que ele possa ouvir de dentro do carro.
Natsu suspira, olhando para os lados e então desliga o carro. Ele abriu a porta, apoiando-se nela e me olhou. Abro um sorriso por ver que irá me escutar.
— Foi tudo um mal entendido e...
— Lucy, me esquece, por favor — corta minha frase ao meio com seu tom frio. Meu sorriso se desfaz em segundos ao ouvi-lo dizer isso — Cara... — continua, sorrindo ironicamente, mas com os olhos tristes — Não é para a gente ficar junto. Por que somos tão teimosos?
As lágrimas voltam rapidamente. Ele não pode estar falando sério.
— Natsu — digo com pesar — Eu te amo.
Minha voz sai tão fraca e humilhada que me contenho para não desabar ali mesmo. Natsu olha para mim, escondendo qualquer emoção que esteja sentindo. Ele sempre foi bom nisso.
— Talvez isso não seja suficiente — fala, encostando-se em seu carro e suspirando — Só... — continuou sem me encarar, parecendo perdido em pensamentos que não posso entender — Cansei disso. Sério, vamos acabar logo com isso — afirma, finalmente voltando seu olhar para mim.
Balanço a cabeça, indignada. Esses dias não foram nada para ele?
— Você... só pode estar brincando.
Dou passos em sua direção, mas ele entende a mão para que eu pare.
— Não torne tudo pior. É melhor para nós, colocarmos um ponto final na nossa história.
Não posso acreditar. As lágrimas não cessam, e minhas mãos antes cerradas, agora estão jogadas e sem forças. Mesmo com suas frases frias, seu olhar nunca mentia. Ele estava se contendo. Por que?
— Natsu, o Loki não é nada para mim — tento explicar do mesmo jeito.
Ele bate a porta do carro e me olha.
— Então caras que não são nada para você, podem te beijar? — explode — Eu achei que fosse minha, Lucy — fala mais calmo — Porque eu fui seu esse tempo todo!
Eu não sei se choro, grito, ou simplesmente voo em sua direção para fazê-lo acordar. Aqui estou eu, na frente de seu carro, implorando para ficarmos juntos e ele colocando barreiras e barreiras na minha frente. Eu sei que agi errado! Mesmo assim, meu orgulho sempre falou mais alto.
— Por que está tão irritado? — começo a gritar — Que eu me lembre, você me traiu com a Lisanna, se lembra?
Natsu me olha e depois ri, me deixando ainda pior.
— É nisso que acredita? — pergunta em um misto de mágoa e irritação, como se fosse dois sentimentos que pudessem se unir. Depois apenas sorriu ironicamente — É Lucy, acabou.
Então ele simplesmente abriu a porta do carro, entrou e se foi. Olhei seu carro sair e me contornar com facilidade, tratando minhas lágrimas com indiferença, fazendo com que eu perca a única coisa que me parece importante.
Tento me controlar, mas as lágrimas não querem parar. Meu maior medo se tornou realidade. Eu o perdi... outra vez.
—♥—
Natsu
Ah, eu não posso chorar. Não mesmo. Não por ela. Não de novo. Nunca me senti tão mal, isso é para provar que a dor do passado, do qual achei que não existiria pior, pode sim ser muito pior. Maldito elo com as pessoas erradas! Bato no volante, tentando inutilmente esvaziar a raiva dentro de mim. Mas que droga! Por que isso Lucy? Outro cara? Que porra foi essa? Passamos vários dias juntos e ela nem ao menos citou esse mero detalhe?
Estou com raiva até de mim! Que grande merda você fez Natsu. A razão gritando com você para ficar longe e você faz essa burrada! Isso idiota, vai lá, entrega seu coração de novo para ela pisar em cima. Puta merda. Burro pra caralho. Chego até a entender a vida do Gray, pelo menos transando com qualquer uma, eu não iria sentir como se alguém atravessasse uma lança no meio do meu peito.
Chego em casa, e estaciono o carro. Olho para a casa ao lado e tenho vontade de... Meu Deus. Preciso me acalmar. Ser bonzinho só se fode mesmo. Eu devia ter escutado Gray de não me apegar a ninguém. Eu devia ter escutado eu mesmo. Abro a porta com força e logo minha expressão se altera.
— Nat-kun! — Lis grita e vem me abraçar com um sorriso.
— Onii-san! — Wendy cumprimenta da sala.
— Olá Natsu — Mira acena com seu sorriso singelo.
Olho para todas aquelas pessoas ali na pior hora possível e ainda tento sorrir.
— Ah, oi gente — digo sem graça, com Lis ainda agarrada a mim.
Ela se afasta um pouco e me olha de perto, enquanto vejo as outras duas também me encarando. O que está acontecendo? Tem um bicho na minha cara agora?
— Você estava chorando? — Lis pergunta diretamente, passando a mão por meus olhos.
Tiro sua mão de mim, fingindo-me de ofendido.
— Claro que não — respondo rapidamente.
— NII-SAN É UMA MOCINHA! — Wendy grita, me fazendo lhe lançar um olhar mortal para que se calasse.
Suspiro cansado.
— Vou me trocar, e já desço.
Era só o que me faltava. Brotando pessoas em casa justo hoje. Eu só queria ficar de boa no meu canto. Mas é claro que sempre pode piorar. Entro no meu quarto, buscando uma camiseta e uma bermuda para tomar banho.
Lucy disse que me ama. Eu lembro que no Ensino Médio quanto corri atrás dela feito louco, demorei para poder finalmente ouvir da sua voz seus sentimentos por mim. Então talvez seja verdade? Ou ela apenas se tornou aquelas garotas que se apaixonam facilmente por qualquer um? Queria quebrar a cara daquele idiota que a beijou. Ao mesmo tempo que... bom, talvez tenha que ser assim.
Saio do banheiro e logo me deparo com Lis sentada em minha cama. Ah, isso me lembra coisas.
— O que foi Lis? — pergunto, mantendo uma distância de segurança.
Ela me olha com um sorriso fraco.
— Vim te perguntar isso — fala simplesmente e eu não entendo — O que aconteceu com você?
Coloco a toalha na maçaneta da porta e encosto no guarda roupa para olhá-la.
— Do que está falando? — questiono com as sobrancelhas arqueadas — Nada aconteceu.
Lis revira os olhos e cruza os braços.
— Você é um péssimo mentiroso, Nat-kun. Achei que já soubesse — afirma, levantando-se — Somos amigos, certo? Pode me contar o que quiser.
Continuo a fita-la, sem entender sua insistência. Claro que somos amigos e de longa data. Mas nunca fui de ficar por aí pedindo consolo e desabafando sobre meus sentimentos. Isso é coisa de mulher.
— Não tenho nada a te contar — falo, desviando o olhar.
— Brigou com a Lucy?
Meu olhar rapidamente voltou-se para ela, espantado. Mas o que? Repreendo-me por ficar tão paralisado diante seu julgamento. Como ela poderia saber de qualquer coisa? Voltei a alguns dias, ninguém nos viu junto. Ela nem sabe do que rolou a tantos anos atrás. Terreno perigoso.
— Deixa isso para lá — digo abanando minha mão, disfarçando a tristeza e minha voz — Vamos descer? — sorri de leve.
Lis olha para os lados, contrariada por eu não lhe contar nada. Depois respira fundo e passa a andar até a porta que seguro para que passe.
— Tudo bem...
Posso ter imaginado. Posso estar ficando realmente louco, mas... quando ela passa por mim, pude ouvir um sussurro “Desculpa”. Olho para seus cabelos de trás para verificar se ela está falando comigo, mas ela simplesmente desce as escadas. Será que foi coisa da minha cabeça?
Desço logo atrás dela e vemos Wendy e Mira assistindo filme. Ficamos todos juntos, vendo um desenho qualquer para agradar minha irmã. Depois jogamos cartas e diversos outros jogos, como sempre fazíamos quando menores. Parece fazer tanto tempo agora. Tudo isso foi ótimo para esquecer os problemas.
— Parece que Gray sairá essa semana do hospital — falo, arrumando minhas cartas.
— Sério? — Lis fala animada — Podíamos fazer uma festa para ele! É um milagre estar vivo.
— É mesmo — Mira concorda — Já sabem o que houve?
— Não todos os detalhes, deve ser algo pessoal — respondo, concentrando-me no jogo — Mas a ideia da festa é ótima, Lis.
— Ao estilo Fairy Tail? — Mira agita.
Começamos a rir. Até mesmo Wendy que não estava entendendo nada e quase dormindo sentada.
— Como faremos?
Lis parece pensar um pouco, olhando para o nada.
— Vamos nos separar para avisar os outros. Vou falar com Juvia para conseguir a chave da casa dele, então podíamos espera-lo lá, quando voltar do hospital. Tem que ser surpresa! — fala tudo mostrando seu entusiasmo.
— Partiu fazer, então — concordo com tudo o que ela falou, apesar de ter entendido uns 20%.
Depois disso todo jogo não fez mais sentido. Wendy dormiu em um dos sofás enquanto continuávamos a planejar tudo. Aliás, enquanto a Mira e a Lis planejavam tudo e eu fui um observador eficaz. Lis fez a lista de todos nossos amigos para separar as ligações. Ela pôs a Lucy em minha lista, e eu realmente não queria ser obrigado a ligar para ela, mas se eu dissesse algo, Lis iria querer saber mais.
Acho que está me testando.
Depois passaram a planejar a decoração, comida, e mais um monte de coisas desnecessárias que me fizeram encostar as costas no sofá e pegar no sono.
— Meu Deus! Temos que ir Lis, já são três da manhã! Tenho que estar no colégio cedinho — Ouço a voz de Mira agitada.
Abro os olhos, vendo Lis apenas balançando a cabeça para mim. Levanto as mãos como se não tivesse culpa de não entender nada sobre festas surpresas. Acordamos Wendy para todos nos despedirmos e elas se foram. Adoro elas, mas amém.
Assim que me viro, a pivete estava de braços cruzados me olhando com sua cara de zumbi.
— O que foi? — pergunto sem muito humor — Já era para você estar na cama — digo, passando por ela para ir ao meu quarto.
— Você não está bem! — ela grita no pé da escada — Eu aguentei por horas minha curiosidade, mereço explicações!
Como é que é? Eu paro e me viro para saber se isso realmente está acontecendo. E estava. Seus olhos preocupados me fitavam com uma expressão irritada. Como ela consegue?
— Está tudo bem, Wendy. Vá dormir — digo, dando espaço para que ela passe na escada.
— Me diga o que está acontecendo! — exige em súplica.
Suspiro, querendo simplesmente larga-la ali.
— Wendy, quando crescemos fazemos muitas escolhas. E tem certas escolhas que às vezes nos fazem mal, entende? — tento enrolar alguma coisa subentendida, colocando a mão em sua cabeça.
Suas sobrancelhas se arqueiam.
— Então não é só fazer outra que te deixe feliz?
Sua frase me espanta. O que essa pirralha está fazendo? Ela até sabe falar coisas interessantes. Abro um sorriso fraco.
— Não se preocupe, é o que farei. Vamos deitar.
Subo as escadas até meu quarto, quando Wendy volta a falar.
— Nii, o pai quer falar com você sobre alguma coisa que eu não devo saber. Pediu para você ir no escritório dele amanhã, assim que chegar.
Meu pai querendo falar comigo? Sobre algo que a Wendy não pode saber? Esfrego a mão na cara, cansado só de pensar. Deve ser algo da empresa para resolver.
— Tudo bem — respondo, cansado — Agora vá deitar.
Ela bufa e sobe a escada com passos pesados até seu quarto. Começo a rir de sua infantilidade. Vou até seu quarto e apago a luz.
— Boa noite, Wendy.
Depois pude finalmente me jogar na cama. E tentar não pensar em mais nada.
—♥—
Gray
LIBERDADE!
A sensação mais bela e maravilhosa do mundo. Só não ganha de estar vivo. Não aguento mais ficar deitado nessa cama dura sem fazer nada, além de ver enfermeiros para lá e para cá. Até tirar as roupas era difícil com esse um monte de fio por meu corpo. Confesso que ainda dói. Só de lembrar que algo atravessou meu corpo, me dá um firo na espinha.
Eu não poderia estar indo para a casa hoje. Mas menti tão bem a semana inteira dizendo estar melhor que me deram alta. Graças a Deus. Estava enlouquecendo nesse lugar. Claro que a cada vez que vinham em meu quarto disseram que eu devia continuar de repouso.
Natsu veio aqui algumas vezes rir de minha situação, e tentar descobrir o que houve. Juvia também apareceu, mas não comentou mais nada sobre aquilo, apenas vinha acompanhar Lyon. Queria descobrir mais, mas não tenho certeza se ela contou ao Lyon. E eu prometi não dizer a ninguém. Isso é uma droga.
Troco-me com as roupas que Lyon trouxe de casa e arrumo as últimas coisas naquele quarto terrível. Respiro fundo, quando vejo Juvia entrar. Ela sorri para mim gentilmente como não faz a séculos.
— Tem certeza que está melhor? — pergunta ao reparar nas vezes que aperto meu estomago.
Dou uma risada irônica.
— Que homem pensa que sou, Juvia? Foi só uma bala. Pff.
Tento fazer uma piada ridícula para ver ela rir. E realmente ela ri. Lembro quando a vi rindo dessa forma verdadeira pela primeira vez. Quando a vi sendo ela mesma, e me assustei. Foi no mesmo dia que levei o esporro da minha vida.
Ainda estou preocupado com ela e toda a situação de seu pai. Quero te perguntar, mas não sei se tenho esse direito. Ela não pode querer lidar com isso sozinha. Abro a boca para dizer algo, quando Lyon entra no quarto e lhe dá um beijo.
— Oi amor — cumprimenta com um sorriso e me olha — E aí Gray, recuperado?
Não posso culpa-lo por isso. Ele é como meu irmão. Isso é o pior de tudo.
— Com certeza — digo determinado — Vamos embora antes que eles mudem de ideia.
Peguei minha mala e saímos do hospital. Eles me dariam carona até em casa. Lyon fica me olhando pelo retrovisor, enquanto Juvia não para de sorrir. Sinto que tem algo aí...
—♥—
Lucy
Aqui estou, trabalhando em fim de semana para resolver os problemas que ninguém consegue resolver e que por acaso meu pai não tem tempo. Tudo bem, eu resolvo. Também não tenho problemas a serem resolvidos, claro que não. E ninguém resolveria por mim.
Não durmo bem a dias. Às vezes olho de lado para minha janela para ver se ele está lá, e o que está fazendo, mas ela sempre está fechada com as luzes apagadas. Droga! Penso, batendo na mesa com força. E logo me arrependo por doer minha mão. Que burra Lucy! Estava tudo indo bem! Tudo! Trabalho, faculdade, amigos, quase namorado. Tudo! Mas você simplesmente jogou dois anos de terapia intensiva pela janela só de ver um cara! Imbecil.
Suspiro fundo.
Acho que ele tem razão. Por que somos tão teimosos em algo que não dará certo? Penso, vencida até sentir meu celular vibrar. Olho para ele ao lado na mesa e me espanto ao ver o nome na tela. Sinto meu coração acelerar e me odeio por isso. Ele me deixou no vácuo por dias e de repente me liga?
— Alô? — atendo ansiosa e com uma pitada, bem grande, de medo.
— Oi Lucy — Sua voz soa do outro lado, já me fazendo derreter.
— Oi — respondo sem graça.
Ficamos em silêncio e me pergunto qual a finalidade dessa ligação. Será que ele se arrependeu de me largar no estacionamento chorando por ele?
— Hoje o Gray sairá do hospital — introduz com a voz baixa — Planejamos uma festa surpresa na casa dele. Pode aparecer lá daqui meia hora?
Ah, é isso. Meu coração parece despedaçar só de ouvi-lo.
— Ok — digo simplesmente.
— Hm... tudo bem então. Nos vemos lá — fala um pouco hesitante e desliga.
Isso foi... estranho. Lembro-me da sensação de quando brigávamos na escola e ficávamos sem nos falar. É como aquilo, umas três vezes pior. Mesmo assim me sinto feliz porque irei vê-lo. E ao mesmo tempo me amaldiçoou por isso. Pego minha bolsa para partir, se eu sair agora, talvez eu chegue...
Assim que abro minha porta, bato em meu pai.
Claro que meu dia pode piorar ainda mais.
— Aonde está indo? — pergunta ainda irritado com a história de eu engravidar de algum vagabundo.
Isso mesmo, ele não esqueceu.
— Meu amigo vai sair do hospital, vou vê-lo — digo firme, e saio dali.
Não preciso de mais problemas. Passo pelos corredores da empresa correndo, porque na minha sorte, os problemas me perseguem. Vejo Taurus na calçada, que abre a porta do carro assim que me vê.
— Pode deixar, hoje eu vou dirigindo — falo ao me aproximar.
— Mas Lucy-sama, é meu dever... — começou a protestar, porém peguei a chave de sua mão e entrei no carro.
— Obrigada pelo trabalho, Taurus — agradeço com um sorriso e fecho a porta para dar partida.
Faz tempo que não dirijo, mas de alguma forma — sem destruir postes ou atropelar animais — eu consegui. Indo a 40 km/h finalmente cheguei a casa de Gray. Levy me viu e arqueando as sobrancelhas fez sinais para onde eu deveria deixar o carro. Ela sabe que sou um desastre. Estacionei e sai, vendo Levy já me esperando.
— Oi Levy-chan — digo com um sorriso.
— Lu-chan — veio me abraçar e olhou para o carro atrás de mim — Resolveu ter um dia de adrenalina? — brinca.
Dou-lhe um tapa no ombro.
— Eu sou uma ótima motorista! — rebato.
— E eu não disse o contrário — fala rindo — Temos muito o que conversar! — junta as mãos, animada.
— Com certeza — digo, quando vejo Natsu.
Ele me olha ao longe e depois desvia o olhar. Comprimo a boca, inconformada em como as coisas ficaram dessa forma. Maldição. Se era para ser assim que ficasse em Crocus!
Mas... pensar em perder esses dias preciosos... dói.
— Pelo jeito a coisa ferrou, hein? — Levy comenta ao ver meu olhar distante.
— Nada demais — murmuro e tento sorrir para ela.
Não que seja fácil enganar a melhor amiga. Levy arqueia a sobrancelha querendo saber mais. A espiã dentro dela nunca consegue deixar os detalhes de lado.
Fingi não estar afetada pela ignorada nada discreta de Natsu e andei até a entrada onde todos estavam. Cumprimentei um a um, todos bem animados para a volta de Gray. Não é sempre que um amigo sobrevive a um tiro, e todos ficaram bem abalados com a situação. Olhei para Natsu de perto e ele me olhou.
— Oi — digo sem jeito.
— Oi Lucy — responde olhando para os lados.
— Pessoal! — Lis grita, empurrando todos para dentro — O Gray está chegando! Todos nos seus lugares!
—♥—
Gray
Paramos na frente de casa, estacionando o carro na frente e passo a procurar as chaves de casa na minha mala hospitalar. Quando descubro que está em meu bolso. Ué, quando as coloquei aqui? Ignoro essa falha de memória e saio, carregando meus pertences.
— Valeu Lyon, fico te devendo essa — falo ao descer do carro.
— A gente te acompanha — Juvia diz rapidamente, descendo também.
Olho para os dois, sem entender. Eu sei chegar até a porta, mas ok. Ignoro essa esquisitice também e ando até a casa. Coloco a chave na maçaneta e ao tentar girá-la, reparo que a casa está aberta. Ah, entendo. Eles estão aqui. Penso com um sorriso e abro a porta.
— SURPRESA! — gritam todos, cada um em um lado da minha sala.
Não deixo de ficar feliz pela recepção de todos, mas...
— Cara, vocês deixaram a porta aberta — afirmo, fazendo com que todos me olhem inconformados.
— Foda-se — Natsu fala se aproximando — Chega ae — bate em minhas costas para um abraço — Bem vindo a vida.
Dou risada de sua maneira de demonstrar sua felicidade por mim.
— Valeu — sorri, abraçando todos.
Bando de idiotas. Bando de bons amigos.
Estava tudo enfeitado, é bom estar de volta, cercado de boas pessoas. Comemos muito, brindamos a minha vida, bebemos, cantamos, dançamos. Tudo do jeito que sempre é. Todos vieram me perguntar o que houve, mas eu apenas disse que não me lembrava. Natsu arqueou a sobrancelha, sabendo que estou mentindo, mas como um bom amigo, não disse nada.
Procuro por Juvia na multidão e a vejo em um canto sentada com seu copo de batidinha. Respiro fundo e vou ao seu lado. Ela me olha, um pouco surpreendida por minha presença. Acho que não quer falar do assunto, mas sou um cara insistente.
— Olá — digo ao me sentar.
— Oi — responde sem me encarar.
Tomo mais um gole da minha cerveja, olhando para os outros da festa, enquanto Juvia também permanece em silêncio.
— Acho que você me deve explicações — falo diretamente, virando-me para ela.
Ela me olha, parecendo contrariada.
— Não, não devo — replica mais firme do que já a ouvi pronunciar qualquer frase.
Arqueio as sobrancelhas, ofendido.
— Está falando sério?
Tenho certeza que em minha testa está escrito “Eu arrisquei a minha vida para isso?”.
— Você entrou lá porque quis, não era para se intrometer — responde alterada.
Fico olhando para ela, tentando entender sua reação. Isso não pode estar acontecendo. Eu não a salvei? Aposto que minha demonstração de indignidade foi tamanha que a fez suspirar e afundar a cabeça entre as mãos.
— Desculpe — sussurra — Eu só não queria ninguém sabendo disso e justo você... — começa a falar, mas para.
— Por que justo eu? — pergunto e ela não responde.
Comprimo os lábios e tento não me abalar com essa frase sem sentido.
— O que houve com seu pai? — mudo de assunto para não criar um clima estranho entre nós.
Não agora que preciso saber mais sobre ela.
— Continua jogando, tentando recuperar o que perdeu... Provavelmente minha mãe pedirá o divórcio. A situação não está muito estável em casa — desabafa, mas não me encara.
— E o que vai acontecer com você?
Ela ri ironicamente.
— Não sei, talvez me esconder por aí.
— Isso não é engraçado.
Juvia me olha e eu a encaro de forma determinada. Como ela pode rir da própria segurança? O que teria acontecido se por acaso eu não estivesse passando por ali? Seus olhos começam a marejar.
— Estou me conformando — murmura com uma voz chorosa.
— Não se conforme com algo assim — rebato com o intuito de abraça-la.
— Se conformar com o que? — Lyon aparece, e meu corpo para antes que uma cena embaraçosa ocorra.
Ele olha de um para o outro, claramente fazendo uma ligação de fatos em sua mente. Olho para Juvia em seus olhos aflitos.
“Não conte a ninguém”
Algo assim não pode ficar oculto para sempre. Mas como posso quebrar uma promessa e olhá-la nos olhos de novo? Eu quero poder olhá-la! Droga. Por que me importo tanto com essa garota?
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