Destino?
2 Capítulo 2
12/10/2006 – Itanhandu, Minas Gerais.
Hoje é meu aniversário. Meu pai está bebendo novamente, e minha mãe está ocupada com o trabalho. Estou fazendo treze anos, e meu presente dos meus pais é meio bife a parmegiana que sobrou do almoço deles. Eles nem sequer lembraram que hoje é meu aniversário. Tem horas que eu os odeio.
Saio de casa depois de um longo banho e vou para o shopping comprar alguma coisa para mim com o dinheiro que recebi das minhas avós por carta, já que elas moram no sul, e não podem vir até a minha cidade.
Chego à livraria e me surpreendo por ela ser tão vazia. Só tem duas pessoas. O vendedor idoso que está lendo uma revista de carros e um adolescente olhando a Playboy na estante. Pego um livro que me parece ser legal chamado “A Culpa é Das Estrelas”. Sento no sofá que tem ali, esbarrando sem querer no garoto.
— Joaninha? – uma voz grossa e sexy fala o estúpido apelido que o idiota de um garoto criou para mim quando eu era mais nova.
Reviro os olhos e olho para a pessoa.
Olhos azuis. Cabelo loiro escuro estilo surfista, ou seja, desarrumado. Sorrisinho irritante. Puta merda.
— Sabia que era você. Seu cabelo vermelho não é muito comum por aqui. E nem esses seus olhos verdes ou sua cara vermelha cheia de sardas.
— Pensei que tivesse me livrado de você anos atrás.
Ele se senta ao meu lado.
— Você continua bem meiga. Tá com quantos anos mesmo?
— Treze.
— Pensei que você fosse mais nova...
Reviro os olhos.
— Hoje é meu aniversário.
— Que?
— Hoje. É. Meu aniversário.
Ele fica com os olhos esbugalhados.
— Tá de zoa que seu aniversário é hoje e você tá aqui sozinha? – ele eleva a voz e o velho o manda calar a boca. — Vem. – ele segura minha mão e me puxa para fora da livraria.
— Ei, espera!
Ele não espera. Deixo o livro em uma prateleira qualquer enquanto o Gustavo me puxa até um restaurante que eu não conheço chamado “Waffle4ever”. Ele está cheio de adolescentes, e duas pessoas dão oi para o Gustavo.
— E aí, Guto. Quem é a garota? – uma garota com cabelo castanho alisado, olhos azuis vibrantes, estatura baixa e nível alto de “metidez”. Ela está abraçada com um cara alto de cabelo castanho encaracolado, olhos pretos, alargador, tatuagem e pirecing na sobrancelha e lábio. Ele é alto e parece bem perigoso.
— Patty, Rafa, essa é a Joana. Ela morou na mesma rua que eu alguns anos atrás, e eu reencontrei ela hoje.
— Oi, e aí. – o cara fala, abrindo um sorriso gentil.
— Saca só, hoje é o aniversário dela, então, quero que me façam um favor.
— Tava demorando. – a garota resmunga e o Gustavo dá um sorriso meio sapeca. Ele está usando aparelho fixo, como não reparei antes. Ok, ele tá bonitinho de aparelho. Ignoro esse pensamento e volto minha atenção para a conversa.
— Um waffle gigante com chocolate, sorvete e jujuba saindo. – a garota fala enquanto anota num caderninho.
Assim que eles saem de nossa vista para a cozinha, o Gustavo me explica tudo. Eles são os donos daqui. São primos. Bem, caso de incesto a parte, eles criaram esse restaurante e são amigos do Gustavo. E, como hoje é meu aniversário, ele quer me apresentar ao melhor restaurante de Minas Gerais. Depois do waffle, ele irá me mostrar o lugar que ele mais gosta daqui. Mal sabe ele que estou indo embora assim que acabarem minhas provas da escola, ou seja, daqui a uma semana. E sim, eu pedi para adiarem as provas para eu poder entrar de férias antes. E sim, é por causa do emprego do meu pai.
Quando o waffle chega, o dividimos e eu tive finalmente descobri o que é uma comida orgástica.
— Viu como eu sempre te proporciono prazer, Joaninha? – ele implica, com um sorriso no rosto, e um pouco de calda de chocolate no queixo.
— Ah, cala a boca, idiota. E só pra constar, você tem chocolate no rosto.
— Lambe pra tirar. – ele provoca, mordendo o lábio. Só que isso não funciona comigo.
— Idiota.
Ele ri. Voltamos a comer e ele paga. Senhora e senhores, temos um cavalheiro aqui!
— ‘Tava muito bom Rafa. Até mais tarde! – o Gustavo grita enquanto saímos do restaurante.
Caminhamos lado a lado, em silencio, enquanto ele me guia para o outro canto do shopping. É praticamente um parque. Tem algumas criancinhas também, mas não me importo. Tem balanço, escorrega, pula-pula... O que seria isso?
— Aqui, pequena Joaninha Flamejante, é o melhor lugar da cidade. E, como eu sou bonzinho, eu pago pra você.
Ele me entrega um cartão de credito com um dragão na frente, junto com “Hot Zone” escrito no canto.
— Isso aí tem cinquenta reais, pode aproveitar.
— Sério?
Ele sorri e dá de ombros.
— É. Hoje é seu aniversário, e pelo jeito que você estava naquela livraria, seus pais não fizeram nada, né?
— Nem sequer lembraram.
— Putz, pior do que eu pensava. Enfim, aproveite. – ele me dá um sorriso.
Sorrio de volta e num ímpeto de insanidade, eu o abraço. Ele também estranha, mas me abraça de volta. E do mesmo jeito que ele começou, ele terminou. Abruptamente.
Nós nos divertimos o dia inteiro nesse tal Hot Zone. Brincamos nos carrinhos de bate-bate. Nas simulações de montanha russa. Nos jogos estilo Street Fight. Naquela simulação do elevador maluco da Disney, que sobe, sobe, sobe e despenca.
Até que, infelizmente, a grana acaba.
Caminhamos até a minha casa lado a lado.
— Obrigada por hoje, Gustavo.
— Guto.
— Que?
— Me chama de Guto. Gustavo é meio formal.
— Ok, obrigada por hoje, Guto.
Ele sorri.
— De nada, Joaninha.
— Mas eu ainda te odeio.
Escuto a risada dele.
— Eu sei.
— Chegamos. – informo com uma pitada de tristeza.
— Essa é a sua casa? – ele olha espantado. – Por acaso a garota maluca que canta Legião urbana é você?
— Eu não sou maluca!
Ele ri tanto que fica vermelho.
Abro a porta de casa e dou um passo para dentro, mas ele me interrompe.
— Espera. Eu quero te dar uma coisa.
Olho para ele e espero com sorriso tímido no rosto. Ele é muito mais legal agora. Por isso que garotas gostam dos garotos mais velhos. Se isso fosse antigamente, meu aniversário continuaria sendo chato.
— Feche os olhos.
Eu fecho.
No instante seguinte, eu sinto seus lábios contra os meus. Tento me afastar, mas ele coloca sua mão atrás de minha cabeça, e a outra em minha cintura. E pede permissão para aprofundar o beijo. Fecho os olhos novamente e permito.
Eu nunca tive um beijo de língua, mas esse definitivamente é o melhor beijo que eu poderia ter. Meu coração palpita, minhas mãos vão para seu cabelo, o puxando para mim, e eu sorrio. Isso dura pouco, porque eu percebo que estou beijando o Gustavo Hales!
O empurro e fecho a porta em sua cara.
— Eu te odeio, Gustavo Hales!
— Tchau, Joaninha Flamejante.
Como eu o odeio. Durante o resto da semana, eu fiquei em casa para não precisar encontra-lo. No sétimo dia, eu encontro um embrulho na beira da janela, essa casa é de um andar também. Abro o embrulho e dou de cara com o livro “A Culpa é Das Estrelas” e um bilhete. No mesmo dizia: “Espero que goste do livro assim como amou os nossos beijos. Guto”.
Reviro os olhos e coloco o livro com o bilhete na minha bolsa. E entro no taxi. Próximo lugar: Canadá.
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