Destino?
3 Capítulo 3
19/03/2008 – Bariloche, Argentina.
Ele estava bêbado. Brigou com a esposa. Entrou em um carro. Ficou em aproximadamente 100km/h. Ele saiu da estrada e caiu em um lago. Morreu afogado. O corpo foi descoberto no dia seguinte, dia 18 de março. Hoje, dia 19, é o enterro do meu pai.
As pessoas que comparecerão está resumida a mim e minha mãe, porque o estúpido trabalho do meu pai o fez sair do Brasil, onde nossa família mora.
Enterramos o corpo meio dia em ponto e fomos tomar um sorvete para congelar a dor.
— Uma casquinha de Choco Chips e outra de Choco Brownie, por favor. – peço ao atendente que está de costas, provavelmente comendo escondido.
— Ah, claro.
Ele se vira. Ai caralho, eu acho que conheço aqueles olhos azuis e aquele cabelo loiro escuro, que agora está mais curto.
— Sabe, é feio perseguir pessoas, Joaninha.
Sabia!
— Ah, dá um tempo, Gustavo, eu não estou muito bem hoje. Só me dá o sorvete e pronto.
Ele percebe que não estou mentindo e faz o que eu pedi. Pago e sento ao lado da minha mãe melancólica. Tomamos nosso sorvete silenciosamente.
— Ei, Joaninha, o que houve? – ele me pergunta assim que eu levanto da mesa e me distancio da minha mãe.
— Meu pai morreu ontem. – falo controlando as lágrimas.
— Puta merda. Eu sinto muito.
Foi a primeira vez que eu ouvi um sinto muito real. Quando as outras pessoas falam, parece uma coisa falsa e automática.
— Bem, eu tenho que ir. Minha mãe está se sentindo culpada pela morte e eu não estou muito bem também.
— Eu entendo. Onde você está morando?
Meio insegura, dou a ele meu endereço e me despeço. Anoitece, tomo um banho, coloco meu pijama e deito na cama. Estou morando em um apartamento, no quinto andar. E, como é um prédio antigo, as escadas também são externas. Escuto as pessoas subindo e descendo as escadas, que como são antigas, fazem barulho. E as pessoas, como são educadas, pisam forte e não me deixam dormir direito. Cubro minha cabeça com meu travesseiro para abafar o som.
E então, quando estou quase dormindo, sinto alguém me chamando.
Tiro o travesseiro do rosto e olho ao meu redor. Encontro o idiota do Gustavo batendo na janela, completamente encharcado. Está chovendo muito, com direito a trovoadas e relâmpagos.
— Ô Joaninha, se abrir a janela facilita.
Reviro os olhos. Quando foi que o garoto que eu mais odeio virou meu amigo?
Abro a janela mesmo assim, e ele entra, molhando um pouco o chão.
— Você tem uma toalha ou alguma coisa assim?
— O que você está fazendo aqui?
Ele olha pra mim de um jeito diferente e dá um sorriso meio triste.
— Vim oferecer um ombro amigo. Perdi minha velha no ano passado e tive que aguentar as barras, sozinho porque meu pai se fechou para o mundo e só prestava atenção no trabalho... Não quero que você passe pelo mesmo que eu.
E com essas palavras ele derruba meus escudos e meu autocontrole. Choro desesperadamente e ele me abraça forte e de modo tão acolhedor...
Quando finalmente paro de chorar e tento controlar os soluços, percebo que estamos ambos molhados. Dou um passo para trás e seco as lágrimas que ainda escorriam em meu rosto. Ele me olha com aquele olhar estranho que deixa meu estômago esquisito.
Levemente corados, nos afastamos mais e eu separo uma roupa seca para mim e para ele. A minha é uma calça de moletom de uma regata preta. A dele é uma das blusas que eu roubei do meu pai antes dele morrer, assim como uma de suas bermudas – sim, eu gosto de usar as roupas do meu pai.
Vou para o banheiro me trocar e, quando saio, dou de cara com o Gustavo de cueca, de costas. Uma linda cueca box azul marinho que marca sua bunda deliciosa e... Merda, o que eu estou pensando?
— Opa, desculpa. – fecho os olhos e me viro. Escuto a risada baixa dele e então, sinto sua respiração em meu pescoço, por trás.
— Pode abrir os olhos agora, Joaninha. Sabia que você está toda vermelha de vergonha?
Isso não ajuda nada a acabar com a vermelhidão em meu rosto. Fuzilo-o com os olhos e olho para sua roupa. A roupa do papai.
Meu pai nunca deu muita atenção para mim, mas eu o amava. Dói saber que não tenho mais motivos para não socializar. Antes, eu ficava em casa porque sabia que o emprego dele me nos obrigaria a sair e viajar a outro lugar desconhecido. Agora, eu sinto que falta alguma coisa. Falta o barulho da televisão narrando o jogo de futebol. Falta o barulho dele conversando com a mamãe. Falta o cheiro de loção pós-barba dele empesteando o corredor. Falta ele brigando comigo por causa das minhas notas. Falta o barulho de seus passos no assoalho de madeira enquanto ele volta de madrugada de uma noite de bebedeira e putas. Falta ele minha mãe se beijando. Falta eles discutindo e se reconciliando. Falta ele.
Meus olhos estão marejados e quando menos percebo, o Gustavo me abraça forte, derrubando todos os meus muros. Choro descontroladamente de novo, e ele fica em silencio, fazendo cafuné em mim, e esperando eu me acalmar.
Dói saber que não vou ter o meu pai ameaçando um futuro namorado. Nem mimando um neto – se eu tiver um filho. Nem me ensinando a dirigir. Só agora que ele morreu eu percebo que ele é mais do que um velho chato que traia a minha mãe. Mas agora é tarde demais para falar que eu o amava.
A última coisa que ele disse para mim foi “sai da frente”. Ele estava bufando, batendo o pé e com a chave do carro, bem irritado depois de uma briga feia com a mamãe. Não lembro a ultima vez que eu disse que o amava. E nem a ultima vez que ele disse isso para mim.
— Ei, hum... Joaninha? – ele murmura com uma careta de dor. – Ugh, você tá com o joelho no meu saco...
Céus! Ele está deitado na cama e eu estou praticamente ajoelhada entre suas pernas. Levanto da cama enquanto limpo minhas lágrimas – que continuam caindo como se eu tivesse um estoque ilimitado de água para lágrimas. Ele se senta na cama com as costas apoiadas na parede, as pernas juntas, esticadas a sua frente e olha para mim. Sento na cama ao seu lado, fungando e tentando secar as lágrimas. Ele passa um braço por cima do meu ombro e me puxa contra seu corpo. Apoio minha cabeça no vão entre seu pescoço e seu ombro, sentindo o cheiro dele e da camisa do meu pai.
— Quer que eu cante? – ele pergunta depois de longos minutos após minha ultima lágrima.
— Você nunca me disse que cantava.
— Você nunca perguntou.
Verdade. Fecho os olhos e me aconchego mais em seu corpo.
— When your day is long. And the night the night is yours alone. When you're sure you've had enough of this life. Hang on… — ele começa a cantar, com a voz calma e grave. R.E.M. é uma banda perfeita.
Enquanto ele canta a música, eu respiro fundo e relaxo. Tento me consolar pensando que ele não sentiu dor ao morrer, e que eu não vou ter que aguentar meus pais brigando e minha mãe sendo corna. Penso que eu ainda tenho minha mãe, e eu preciso ser forte por ela.
Quando abro os olhos, está tudo escuro, e eu estou deitada sozinha na cama. Olho para a janela e vejo a lua cheia escondida entre pequenas nuvens. Olho para o lado e vejo um papel em cima do travesseiro – eu tenho dois travesseiros na cama, um eu uso, o outro eu deixo de enfeite, ou para abraçar quando eu estiver triste.
Abro o bilhete e nele está escrito: “Pequena Joaninha Flamejante, não quis te acordar porque você dormindo fica encantadoramente linda, mesmo com o cabelo desarrumado, e roncando que nem uma porquinha. Provavelmente a hora que você estiver lendo isso, eu já estarei em um avião. O emprego idiota do meu pai está nos levando para o Japão, e não sei quando vou poder te encontrar novamente. Já é a segunda vez que nos encontramos desde 2003, espero que isso se repita mais vezes. Se cuida. E seja forte pela sua mãe. Gustavo Hales, o cara que você ama beijar.”.
Percebo que estou chorando quando minha visão fica embaçada e a palavra “cuida” fica borrada porque caiu uma lágrima em cima. Ele consegue mexer comigo de um jeito tão estranho. “Gustavo Hales, o cara que me beijou a força e gostou” penso, e solto uma risada em meio às lágrimas.
— Pelo menos dessa vez ele avisou que ia embora. – murmuro, tentando me conformar.
Eu vou sentir falta dele, o que é estranho para eu assumir, mas é verdade.
Escuto o barulho de vidro quebrando e corro para a cozinha. Minha mãe está chorando enquanto tenta catar os cacos de vidro de uma garrafa de vinho que meu pai amava. Ela bebeu o vinho todo! Puta merda.
— Mãe, mãe, deixa que eu arrumo isso, vai pro quarto e descansa.
— Nã-não precisa, filha. – ela gagueja, limpando as lagrimas e pega um caco grande, Corta o dedo, um pequeno corte, mas mesmo assim, começa a sangrar.
— Porra, mãe. Larga isso, eu arrumo. – seguro suas mãos e a levanto do chão. Ela me abraça e chora.
Assim que ela se acalma, coloco um curativo em seu dedo e então, ela vai para o quarto dela dormir – ela passou a noite em claro bebendo e chorando.
Enquanto ela dorme – verifiquei duas vezes para saber se ela estava dormindo mesmo – eu arrumo a cozinha. Limpo os cacos de vidro, jogo a outra garrafa de vinho no lixo, envolta por jornal e me sento na calçada. Respiro fundo.
A partir de hoje, eu vou ter que ser forte pela minha mãe. Eu a conheço bem e sei que ela não vai superar a morte do papai tão cedo, porque mesmo com as brigas, as traições, ela o amava. Meu pai não gostava mais dela, mas não pediu o divórcio por minha causa – coisa que eu descobri em uma de suas últimas brigas.
Limpo as lágrimas de meus olhos, levanto da calçada e caminho para dentro de casa. A partir de hoje, vou ser forte pela mamãe, e ajuda-la em tudo que eu puder.
Fale com o autor