Destino?
9 Capítulo 9
Notas iniciais
20/09/2011 – Recreio, Rio de Janeiro.
Eu nunca poderia imaginar isso. Minha avó e o Gustavo conversando escondido sobre mim. Isso é no mínimo, desconcertante.
Tento escutar a conversa sem sair do quarto, mas é praticamente impossível. Só escuto algumas palavras soltas como “verdade”, “escola”, “perigo” e “vai cuidar dos seus problemas pirralho”.
Quando o burburinho da conversa acaba, eu escuto passos em direção ao meu quarto. Corro para a cama e finjo estar lendo algum livro. O Gustavo dá uma risada.
— Eu acho que fica mais fácil de ler se o livro não estiver de cabeça para baixo.
Coro levemente e reviro os olhos.
— Estava treinando o cérebro, algum problema com isso? – resmungo, e ele senta na beira da cama com um meio sorriso no rosto, mas o mesmo desaparece quando ele começa a falar.
— Olha, eu sei que você deve estar meio irritada e curiosa com tudo o que está acontecendo e o fato de que não estamos te colocando a par da situação só piora tudo, mas eu realmente não posso te contar.
Bufo e reviro os olhos. Eu fui perseguida e torturada, passei por coisas que nunca pensei que passaria, ainda tenho cicatrizes espalhadas por todo o meu corpo para me lembrarem do que aconteceu comigo, e os dois continuam relutantes em me contar a história toda. Aí um fica falando que não pode me contar, e outro fica falando que quer muito me contar, mas é melhor se eu continuar ignorante. Já estou é de saco cheio deles, isso sim.
— Para de bufar e revirar os olhos, falou? Eu sei que você deve estar muito puta com a gente, mas você precisa entender que não podemos te contar agora.
— Por que não? – retruco com raiva apertando o travesseiro mais forte.
Ele respira fundo e se levanta da cama. Mais agitado do que uma pessoa hiperativa, o Gus começa a andar pelo quarto.
— É muito complicado, sabe, essa intriga era entre seus pais e os meus, sua avó de nada sabia até aquele dia que meu pai veio aqui, e eu só posso te contar até a parte em que nossas famílias são inimigas.
Impossível. Eu me recuso a acreditar que isso seja verdade. Ele mesmo já começou a me contar a história toda, mas teve que parar, e mesmo assim, eu me lembro de que ele falou que ia me contar o resto depois.
— E nem vem revirando os olhos, eu tô falando serio. Mas enfim, eu não vim aqui para discutir com você sobre isso. Esses dias em que eu fiquei por aqui é porque estou convencendo a sua avó de deixar você voltar para a escola, porque ali em dia de semana ninguém entra e ninguém sai, então é praticamente seguro, e vai ser um dos últimos lugares que eles vão procurar por você, porque ninguém vai para a escola depois do que aconteceu.
— Mas eu fiquei quanto tempo fora? Três meses, quatro? Eu não vou poder voltar agora. Perdi muita matéria.
— Bem, na verdade, tem como.
— É, se eu estudar vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, eu consigo recuperar nos testes do quarto bimestre, mas só com magia eu conseguirei nota para passar de ano, porque eu pedi o terceiro bimestre todo. – resmungo.
— Bem, mais ou menos. Na verdade, a sua avó tem como fazer com que nós dois fazermos as provas do terceiro bimestre e se for acima da média, a gente continua no colégio.
Na real, que contatos a minha avó tem? Puta que pariu, ela pode conseguir tudo, e isso é meio que estranho. Pra mim, as avós são velhinhas, alienadas, boas cozinheiras e acham que a tecnologia é coisa de experts.
Por que infernos a minha avó tem que ter contatos que podem fazer qualquer coisa, ser uma péssima cozinheira, e ser o oposto de alienada, na verdade, ela sabe de tudo e todos, e provavelmente sabe mais dessas coisas tecnológicas do que eu.
— Então, você topa? A gente inventa alguma desculpa para o Nico e o Lipe, e para o colégio, esse é o de menos. É isso ou você perde um ano inteiro, de novo.
Eu realmente não quero perder mais um ano de escola. Mas dá preguiça estudar todas as matérias em o que, uma semana? Para fazer umas dez provas e alguns dias depois, fazer os testes. Mas será que vale a pena repetir novamente?
Não.
— Mas e os meus machucados? Tipo assim, eles vão perceber que eu estou machucada, e que tem alguma coisa acontecendo com a gente, porque saímos juntos e tal.
Ele cora levemente.
— Tem alguma coisa acontecendo com a gente?
Minha bochecha tá pegando fogo? Merda.
— Não! – minha voz fica aguda demais e eu me controlo. – Não tem nada acontecendo com a gente, nesse sentido. Mas é isso que eles vão pensar, já que devem pensar que eu sou gay e tal.
— Bem, tecnicamente, como João, você é gay sim.
Reviro os olhos e ele ri baixinho.
— Então isso é um “sim, Gustavo meu amor, eu vou voltar para o colégio e fazer amor com você aqui e agora”? – porra, eu pensei que isso tinha acabado alguns anos atrás.
— Isso é um “sim, eu volto para o colégio. E não, eu não vou transar com você nem agora nem nunca”.
— Tá, veremos. – ele lança aquele sorriso estilo eu-sei-que-você-me-acha-gostoso e sai do meu quarto.
Eu posso ter inventado uma mentirinha de nada, mas isso não afeta em porra nenhuma.
Quando anoitece, eu escuto o Gustavo entrando no quarto de hospedes – que é o quarto ao lado do meu – e o som de Three Days Grace invade o meu quarto silencioso, mas como eu gosto dessa banda, não reclamo.
O Gustavo está morando aqui temporariamente, porque ele ficou preso aquele tempo todo, sendo que o pai dele podia ter libertado e tal. Ele está com medo do pai, ou raiva, ou os dois. E, como ele contou alguma coisa para a minha avó sobre sua parceria comigo, ela deixou o ficar aqui. Eu não me importo – muito – desde que ele não fique fazendo aquelas suposições de que eu quero transar com ele, e de que eu o amo, porque ambas não são verdades.
Deito na cama e faço uma careta devido à dor. Já se passaram alguns dias, mas mesmo assim, meu corpo ainda dói. Respiro fundo e fecho os olhos. Quando eu fico sozinha, relembro todos os momentos por quais passei sendo torturada naquele lugar. Os pesadelos são nítidos e toda noite. De vez em quando eu ainda consigo escutar a voz deles, aquela voz grossa e amedrontadora me ameaçando, ou rindo do meu choro.
Meus olhos se encharcam e eu me permito chorar, abraçada com o travesseiro, eu desabo. Nem minha avó nem o Gustavo sabem que eu não estou conseguindo superar isso. Para eles, eu estou lidando bem com isso, como se o tempo que eu fiquei lá pode ser facilmente esquecido. Será que eles realmente sabem pelo o que eu passei?
— Eu não estou de acordo com a ideia maluca do Gustavo, mas eu não acho que ele queira machuca-la depois de tudo o que aconteceu. Então eu estou liberando, com uma condição. – minha avó começa o sermão sobre os prós e contra de eu voltar para a escola. Não posso negar, estou um pouco feliz por poder voltar para lá, ver novamente o Lipe e o Nico, estudar, me distrair... – Não quero que a Joana fique sozinha nem um segundo, e se vocês se sentirem vigiados ou em perigo, liguem para esse número – ela entrega para nós um cartão branco com um número no meio, em negrito. E um nome em cima. Então, se eu estiver em perigo, ligo para o Jasper Korecek. – Ele é de confiança, um antigo amigo de seu avô, e ele pode mantê-la segura se algo acontecer. – assentimos com as nossas cabeças e escutamos em silencio o resto do sermão da vovó, que parece interminável.
Meus ouvidos estão doendo de tanto que essa velhinha falou. Não sei como ela não ficou com sede, ou com câimbra na língua. Porra, nem as garotas fofoqueiras do meu antigo colégio falavam tanto na aula de química – mais conhecida como aula da soneca – do que a minha avó agora.
Ela nos leva de carro até a escola, e o Gustavo não larga a minha mão até o ultimo segundo. Chegando lá, nos despedimos e caminhamos lado a lado até a secretaria.
A vovó planejou tudo mesmo, foi como nem tivéssemos saído do colégio. Nossas provas começam semana que vem, e os testes, daqui a duas semanas e meia. Ô delicia.
— Eu não acredito! Nico, diz que eu estou vendo coisas! – o Lipe, discreto que nem a peste, berra no meio da secretaria, e corre para me abraçar. Eu o abraço de volta e sorrio. Que saudade desse meu viado fofo.
— Ai meu Deus, onde vocês dois se meteram, seus filhos da puta? – o Nico, outro muito discreto, por pouco não berra na nossa frente. Ele me abraça forte enquanto rimos e dá aquele abraço de homem no Gus.
Por que com ele deram aquele abraço de homem com direito a tapinha nas costas, e comigo eles me abraçaram e quase me levantaram do chão? Eu tô vestida de homem agora, eles ainda acham que eu sou gay?!
— Onde vocês estavam? Por que sumiram sem avisar? Vocês não tem ideia do que aconteceu com o nosso apartamento! Foram vocês que fizeram aquilo? Ah, não vão acreditar, eu e o Nico temos uma surpresinha no quarto pra vocês! – o Lipe bebeu muito café, ou comeu muito açúcar, porque está falando tão rápido que mal respirou.
— Minha avó ficou doente, e eu tive que sair por uns tempos para cuidar dela. – falo meio nervosa, e sinto que estou corando. Odeio inventar mentiras para as pessoas que eu gosto.
— Ela está bem? – o Lipe pergunta verdadeiramente preocupado com a minha avó.
— Tá sim, — dou o melhor sorriso que posso, mas tenho a sensação que foi aquele sorriso amarelo estilo “estou mentindo”.
— Mas você foi junto por que, Gus? – o Nico adotou o apelido que eu dei para o Gustavo, e olha para nós com um olhar desconfiado.
Não respondemos por alguns segundos, e o Lipe começa a sorrir e abraça a gente de novo. Esse menino tá bem?
— Eu não disse para você, Nico? – ele se vira para nós novamente. – Eu sabia que vocês estavam apaixonados, cara. Está tão na cara, e então, o que vocês fizerem nesses meses?
Meu queixo cai. O Gustavo gargalha do meu espanto. O Nico sorri vitorioso ao perceber que o Lipe estava errado. E o Lipe, coitado, olha para a gente como quem não está entendendo mais nada.
— Não estamos namorando! Eu não sou gay! O Gustavo, bem, ele deve ser, sei lá. Mas eu não sou! – resmungo e quase bato o pé e faço biquinho, mas me controlo a tempo.
— Serio? Serio mesmo? – fazemos que sim com a cabeça para o Lipe. – Desculpe, eu pensei que fosse verdade, vocês parecem bem apaixonados quando estão pertos um do outro.
— Não, não mesmo. Eu tive que sair para resolver um negócio da minha família, e acabou que isso demorou mais do que o esperado. Quando estava voltando para cá eu vi o João e viemos caminhando juntos. Só isso. – ele mente muito melhor que eu. Não que a mentira foi convincente, mas enfim. Os dois acreditaram.
Conversamos mais um pouco sobre as mudanças na escola até chegarmos a porta do nosso quarto.
— Por favor, não berrem. Nós estamos escondendo isso de todo mundo. – o Nico sussurra – Foi ideia do Lipe, e eu não consegui dizer não.
E então eles abrem a porta.
Escutamos o barulho de... Patinhas no chão? Olhamos para baixo e eu quase tenho um ataque. Tem um cachorrinho filhote lambendo o pé do Lipe! Ele é tão fofo, com olhos e pelo castanhos chocolate.
— Que coisinha mais fofa, qual o nome dele? – quase que a minha voz me entrega, mas consigo me controlar um pouco para que eu só pareça um pouquinho gay, e não uma garota. Pego o cachorrinho no colo. Ele é um labrador, deve ter dois meses no máximo. Ele me lambe a bochecha.
— Ele é o Hunter. – o Nico fala fechando a porta. – O encontramos umas semanas atrás, com uma senhora que andava perto da casa do Lipe. Ela o ofereceu para nós, porque ela disse que ia para um asilo, e lá eles não aceitam cachorros. Eu não ia aceitar, mas o Lipe ficou apaixonado pelo cachorro, então o adotamos.
O Lipe está sentado no chão, ao meu lado, brincando com o Hunter.
— E a gente não sabia como chama-lo, aquela velha senhora não tinha nos dito o nome dele. Então, teve um final de semana que o levamos para a minha casa, e ele caçou um rato no quintal. Foi tão fofo, João! Essa criaturinha tão pequenininha tropeçando enquanto corria para pegar um rato. Então o apelidamos de Hunter.
Sorrio ao imaginar a cena. Enquanto isso, o Nico e o Gus ficam revirando os olhos em nossa direção.
Como senti saudade desses dois fofos, caralho. Eles não perguntam mais nada durante o dia, e eu arrumo minhas coisas e começo a estudar – com a ajuda do Nico, meu nerd favorito.
Semanas se passam, testes são feitos, provas e trabalhos para nota igualmente. Certo cachorro quase é pego pelo inspetor de quartos, e certo cachorro caga na cama de certo casal gay que dorme no mesmo quarto que eu. Certa garota vestida de garoto consegue passar em todos os testes, por algum milagre, e certo garoto implicante também.
Acho que finalmente estou tendo um pouquinho de sorte depois de tudo o que aconteceu.
— Ei, Joana, para de moleza e me ajuda a limpar essa merda antes que o inspetor chegue. Aqueles dois viados nos deixaram na mão!
Rio e o ajudo. O Hunter é agitado, muito mais agitado do que um filhote normal, e o casalzinho sempre nos deixa com ele enquanto eles passeiam pelo colégio, ou saem nos finais de semana – coisa que nem eu nem o Gus fazemos, porque senão alguém pode nos ver.
Enfim, estamos tentando nos adaptar a essa nova rotina, minha avó nos liga todos os dias para saber se estamos bem, e eu minto todos os dias. De vez em quando eu consigo não chorar o dia inteiro, mas tem outros dias que eu não aguento. O Gustavo sabe quando eu choro, porque eu sempre fico meio quieta e isolada. Já o Lipe e o Nico, bem, se eles notaram, nunca perguntaram nada. E espero que continue assim.
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