Destino?

10 Capítulo 10


Notas iniciais
gente, mil desculpas, eu realmente não consegui continuar essa história. então aqui está, depois de quase um mês sem atualizar, o ultimo capitulo. não sei se vou fazer uma continuação - mesmo que mereça - mas também não vou abandonar esse texto. enfim, espero que me desculpem, e que gostem desse cap. ^-^

31/12/2011 – Praia da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Eu desejo que tudo isso melhore, e que eu consiga esquecer tudo o que aconteceu esse ano.

— Feliz Ano Novo! – todos berraram em uníssono na beira da praia. Ao mesmo tempo, lançam os fogos e os mesmos me deixam quase surda. Eu nunca gostei dos fogos de artifício, é muito barulhento, e sem nexo. Por que explodir coisas no céu para comemorar alguma coisa? Isso é estupido e desnecessário.

Dou mais um gole na minha Coca e me afasto das pessoas e do barulho incessante. Observo uma ultima vez as pessoas – primeiramente para ver se tem alguém vendo minha saída discreta.

Minha avó está sorrindo, calma e serena, enquanto comemora com o Jasper Korecek, o tal cara que ela falou que é de confiança e que eu posso ligar para ele caso eu estivesse em perigo. Ele parece ter uns cinquenta anos, cabelo meio grisalho, e algumas rugas no rosto. Alto e forte, tem um olhar gentil, mas pode ser muito assustador quando quer.

O Gustavo está junto ao Lipe e o Nico – eles decidiram passar o ano novo aqui na praia, e minha avó concordou desde que ela e o Jasper estivessem presentes. Eu concordei, até porque é melhor passar o ano novo na praia, do que em casa só com a minha avó.

Estou sem sapato – estava usando chinelos junto com a calça jeans e a blusa azul, mas os perdi não sei como – então sinto a areia entre meus dedos, e sorrio. Eu sempre gostei da sensação da areia em meu pé. Passeio na beira da água, revezando entre pé congelando ou areia grudando. A festa fica para trás, e eu fico só admirando a lua.

Não sei por que, eu sempre gostei da lua. Solitária e bonita, esburacada porém com sua grandiosidade. Sento na areia e fico desenhando pequenas luas crescentes com um graveto qualquer na areia seca.

— Você não deveria estar aqui sozinha, Joaninha. – nem preciso virar o rosto para saber quem foi que sentou ao meu lado.

— Precisava de um pouco de ar fresco. – murmuro, abraçando-me para me esquentar.

— Toma, pode usar. – ele me dá seu casaco e eu não recuso. Está com um vento frio e forte, e eu estou realmente com frio.

O casaco tem seu cheiro, e eu disfarçadamente respiro fundo para senti-lo mais. Seu cheiro é suave, porém intenso, não sei explicar. Só sei que é o melhor cheiro do mundo, e eu gostaria de sempre poder usar as roupas dele, só para estar sempre envolta por esse aroma.

Ficamos em silencio por um tempo, mas não foi incomodo. Também não ficamos totalmente em silêncio, os fogos estavam explodindo ainda, e o barulho era intenso. As ondas quebravam alguns metros de distancia, e a água vira e mexe batia na ponta de nossos pés.

— Sabe, outro dia mesmo o Nico perguntou para mim se eu sabia o que estava acontecendo com você. – ele fala depois de alguns minutos constatando que eu não iria começar uma conversa. – O Nico disse que você estava meio triste e que tinha umas cicatrizes suspeitas nos seus pulsos.

O Gus olha para meus pulsos de relance, mas não sei se ele consegue ver as linhas esbranquiçadas em contraste com minha pele levemente bronzeada.

— O que você disse?

— Que não sabia de nada. E é verdade. Você nunca me disse o que aconteceu com você naqueles meses, e até hoje, não desabafou com ninguém, e posso contar nos dedos às vezes que eu vi você chorar. – ele faz uma pausa, e eu paro de brincar com a areia. – Eu sei que você deve estar puta comigo, porque eu não estou te contando o motivo de tudo isso, mas eu decidi que você merece saber. Já que você é forte para aguentar isso tudo e não querer contar a ninguém, acho que merece saber a verdade.

Surpresa, eu olho para ele e recebo seu olhar confiante em resposta.

— Achei os dois! – o Lipe chega cantarolando e eu fico um pouco, ok, muito, irritada. – Vem, Hunter lindo! – ele fala com aquela voz de retardado que qualquer ser humano normal tem ao conversar com cachorros ou outro animal fofo.

— Hum... O que vocês estão fazendo aqui? – o Gus pergunta assim que o Nico e o Lipe se sentam ao nosso lado, com o Hunter correndo entre a gente.

— Feliz Ano Novo pra vocês também! – o Lipe faz um biquinho e eu rio.

Ficamos conversando sobre bobagens e bebendo também – poxa, é Ano Novo, merecemos ficar bêbados.

Hoje estamos de ressaca, e juramos nunca mais bebermos tanto em nossas vidas. Claro que essas promessas foram feitas para serem quebradas, mas por hora, nós as manteremos intactas.

Não tive, desde aquele momento a sós com o Gus na praia, nenhum outro momento para perguntar sobre o motivo do que aconteceu ano passado. Minha avó não nos deixou sozinhos nem por um segundo. Quando não era ela, era o Jasper que não largava do nosso pé. E quando não era um deles, era o Nico, ou o Lipe, que passaram mais tempo das férias na minha casa no que na casa deles.

— Ei, Luaninha, você tá acordada? – escuto a voz do Gus invadindo meu quarto e olho confusa para o celular.

Porra. São quatro e meia, o que diabos ele quer comigo há essa hora?

— Sua avó e o Jasper estão dormindo. Não juntos, mas você me entendeu, né? Finalmente eu posso vir aqui sem que eles me persigam.

Sento na cama e me cubro – meu pijama é nada mais nada menos do que uma camisa branca se alça e uma calcinha de zebra.

Ele parece bem desapontado quando percebe que escondi o meu pijama dele. Mas disfarça rapidamente.

— Você ainda quer saber sobre nossos pais?

Meu coração começa a bater rapidamente eu o escuto batendo. Minhas mãos ficam suadas, mas eu faço que ‘sim’ com a cabeça.

Ele se senta na beira da cama, e respira fundo.

— Joaninha, alguma vez você já olhou para seus pais e eles pareciam meio eufóricos, e de bem com a vida, e tipo, muito sociáveis? – ele fala com cautela, como se estivesse falando como uma criancinha de cinco anos. Ignoro essa parte e tento lembrar.

Quando eu era mais nova, meus pais eram muito alegres, e estavam sempre conversando com muitas pessoas, algumas assustadoras, e eles me ignoravam muito. Como se vivessem em seu próprio mundinho, e eu não fizesse parte dele. Aí, quando eu completei quatorze anos, eles começaram a mudar. Ficavam ranzinzas, ríspidos, a vida deles se resumiu a trabalho, pagar contas e brigarem. Aí meu pai morreu. Minha mãe entrou em depressão, e se matou.

Que linda e alegre história da minha família.

— Ei, Joaninha. Então? Sim ou não?

— Sim. – sussurro.

— Foi o que eu imaginava. – ele fala como se estivesse sendo derrotado. – Deita aqui. – ele bate de leve em sua coxa, e eu o olho confusa, mas seu olhar não demonstra segundas intenções, então eu apoio minha cabeça em sua coxa e olho para os olhos dele quando ele começa a brincar com meu cabelo. – Eu quero te avisar, antes de qualquer, que eu não sou como meus pais.

— Eu sei que você não é.

Vejo um pequeno sorriso formando em seu rosto, mas o mesmo some no segundo seguinte.

— Meus pais são traficantes. Cocaína, maconha, crack, essas merdas aí. – paralisada de surpresa é pouco para descrever como eu estou. Mas ele continua falando — Eu só soube disso ano passado, quando eles me pediram para juntar a eles, e vender aos meus amigos. Eu recusei, claro. Meus pais ficaram putos, e me colocaram nesse colégio, que é tipo uma prisão para mim. Eu não sabia que seus pais eram usuários, mas sua avó me disse que eles estavam estranhos antes de morrerem, e eu liguei os pontos.

— Mas porque seus pais matariam os meus? Meus pais não eram viciados!

— Por favor, não berre. – ele pede com a voz baixa.

— Tá. – resmungo. – Mas não quero você falando mal dos meus pais.

— Certo. – Fecho os olhos e ele volta a brincar com meu cabelo. Não tenho certeza se quero escutar o resto da história, mas ele continua a falar — Provavelmente seus pais estavam em divida com os meus, sei lá. Lembra-se das vezes que a gente se encontrou nesses anos? A desculpa que meus pais sempre davam era que estavam a trabalho, mas, por coincidência, estávamos sempre em cidades onde tinha compradores ou devedores. Ou saíamos da cidade com muita grana, ou com um cara armado e engravatado fazendo algum acordo com meus pais.

— Gus, sua família me assusta. – sussurro.

— Ela me assusta também. – ele assume, parecendo muito triste e vulnerável. – Eu realmente acredito que eles mataram seus pais, mas eu não sei por que. Sinto muito.

Ficamos presos em nossos próprios pensamentos e não conversamos mais. São tantas perguntas sem respostas que eu não sei nem o que pensar. Meus pais eram viciados, ou isso é apenas uma mentira para calar a minha boca? Se meus pais eram viciados, como é que eu nunca desconfiei disso? Nós tínhamos dinheiro, não éramos ricos, mas estávamos fazendo parte da classe média alta. Então porque eles não pagaram a tal divida que tinham com os pais do Gustavo?

Que merda, a cada minuto pensando nesse assunto, mais perguntas surgem. Por que meus pais não podiam ser pais normais que deixam a casa como herança, e não inimigos?

Bufo, irritada com os meus pais, e com toda essa situação, e então percebo que o Gus está brincando novamente com o meu cabelo.

— O que você acha de espionarmos sua avó para ver o que ela sabe sobre os seus pais e os meus? – ele me pergunta, surrando, com um tom sapeca e ao mesmo tempo sério.

— Tá falando sério? – abro os olhos e encontro o rosto dele bem mais perto do meu do que eu imaginava.

— Sim. – sinto seu hálito de menta em meu rosto, e estremeço. Ele dá um meio sorriso ao perceber. – Quer um beijinho, Joaninha Flamejante?

— Nem morta, idiota.

Saio de perto dele e deito na minha cama, de costas para ele. Cubro-me com o cobertor e fecho os olhos, tudo isso em questão de segundos.

— Eu sei que você quer. Desde o nosso primeiro beijo, do qual você sempre sonha e revive, você quer me beijar cada dia mais e mais.

— Só que não.

— Assume logo que me quer e eu te beijo. – ele sussurra e mordisca o meu lóbulo direito, fazendo-me estremecer e ficar toda arrepiada, coisa que não passa despercebida dele.

— Vai se foder e me deixa em paz.

— Só se você vier comigo.

Bufo e o ignoro. Minutos se passam e ficamos em silencio. Sinto o colchão se movendo à medida que ele se mexe, e aparentemente ele não está pensando em sair do meu quarto tão cedo. Mas estou com muito sono para discutir.

Durmo em alguns minutos, e acordo com o lado direito da minha cama levemente aquecido – sendo que eu estava dormindo no lado esquerdo. Não vi o Gustavo durante o resto do dia, mas voltamos ao colégio juntos, no dia seguinte.

A semana se passa lentamente, o Nico e o Lipe estão começando a ter as brigas de casal, e os ciúmes exagerados. Tem horas que no meio da noite, escuto a cama sendo arrastada, e sussurros ríspidos se tornando pedidos de desculpa, e novamente camas sendo arrastadas.

— Ei, João, posso te perguntar uma coisa? – o Lipe pergunta, com uma cara meio triste. Estamos sozinhos no quarto. O Gustavo está tomando banho e o Nico está passeando por aí. Deixaram o Hunter dormindo, ainda bem, porque ele não para quieto.

— Pode.

— Você acha que o Nico está me traindo?

Meu queixo cai.

— É claro que não! Ele nunca faria isso, Lipe! Ele é completamente apaixonado por você!

— É, cara, desencana! – o Gus berra enquanto desliga o chuveiro.

— Vocês acham? Por que ele está tão distante e frio comigo ultimamente.

— Não estou te traindo, seu bobo inseguro. – o Nico aparece do nada, e o Gus sai do banheiro com apenas uma toalha amarrada na cintura. A água escorrendo em seu corpo. Presto atenção em uma única gota que está descendo por seu peito em direção ao sul. Por um mísero segundo, eu desejei ser essa gotícula de água.

Quando volto a realidade, o Nico está abraçando o Lipe, e o Gus está olhando para mim, com um olhar intenso e safado. É, acho que ele percebeu que eu estava olhando. Foda-se, olhar não diz nada.

— Que tal o casal parar de se pegar na minha frente antes que eu vomite? – Gustavo, sutil como um elefante.

Ambos coram e se beijam loucamente enquanto eu rio e o Gustavo faz som de vômito.

— Quer passear, Nico? Não quero limpar o vômito do Gustavo. – o Lipe brinca, e ambos vão passear.

O Hunter acorda e decide pular na minha cama. Brinco com ele enquanto o Gustavo troca de roupa praticamente ao meu lado, de modo que, se eu mover a minha cabeça, teria visão de seu corpo inteiro, nu. Coro com o pensamento.

— Hunter, você tá muito fedorento, garoto. É, tá sim. Vem, vou te dar um banho pra você ficar cheirosinho. – qualquer coisa para ficar longe do Gus, isso sim. Mas o Hunter está mesmo fedido.

Ligo a água do chuveiro e fico apenas de short de malha e uma blusinha azul de alça (sempre trago na mochila, caso precise dar banho no Hunter, pois é mais prático).

Passo sabão nesse cachorrinho inquieto e fofo e escuto a porta do banheiro abrindo. Não preciso nem olhar para trás para saber que é o Gustavo.

— Você é muito linda, sabia? – ele comenta, enquanto rio da cara do Hunter cheia de xampu.

— Você tá bêbado.

— Embriagado, sim. Mas não de álcool.

— Viu, tá bêbado. Vai dormir antes que fale mais merda. – gaguejo assim que percebo que ele está sentado ao meu lado, e não está nem um pouco bêbado.

— Eu preciso te dizer uma coisa, Joaninha.

Tiro o xampu do Hunter e o enrolo na toalha.

— O que foi? – estou suando de nervosismo.

Ele não fala nada, mas eu o olho nos olhos. O Hunter entre nós, calmo, quase imóvel. Parece que ele também está querendo saber. Só parece.

Os olhos dele brilham, e eu vejo que ele está um pouco vermelho. Será que ele está doente? E então, ele abre a boca.

— Eu acho que te amo, Joana.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!