Destino?

1 Capítulo 1


25/06/2003 – Jacarepaguá, Rio de Janeiro.

Eu odeio mudanças. Odeio o trabalho do meu pai. Odeio a minha nova casa. Odeio minha escola nova. Odeio minhas sardas. Odeio meu cabelo ruivo encaracolado. Mas nada disso vence o meu ódio por ele. Gustavo Hales.

Não sei se é por causa dos seus olhos azuis, ou seu cabelo loiro sempre desarrumado, ou se é seu sorrisinho metido, ou a maneira que ele sempre se sente superior a mim, ou que me trata como se eu fosse ingênua, ou do jeito que ele me irrita sem precisar falar nada, ou tudo isso junto. Só sei que eu o odeio muito.

Eu já estou nessa cidade por cinco meses e meio, e vou me mudar daqui a seis dias. Desde meus seis anos, eu nunca parei em uma cidade por mais de um ano. Culpa do emprego idiota do meu pai. Pelo menos não vou precisar mais aturar o Gustavo. Ele é meu vizinho de doze anos, e eu sou mais nova (só faço dez anos no dia doze de outubro), mas de vez em quando parece que eu sou a mais velha.

- Ei, Joana, arrume logo suas malas. – minha mãe pede enquanto arruma o cabelo. – Iremos viajar mais cedo por causa da reunião que seu pai vai ter no dia trinta. Quero suas coisas arrumadas para amanhã! – que chato...

Ela e o papai vão sair hoje à noite. Acho que é o aniversário de casamento deles. Vou ficar sozinha em casa.

Dobro minhas roupas e coloco nas malas. Pode-se dizer que sou bem organizada quando quero. Meus pais se despedem de mim e eu finalmente acabo de colocar as roupa na mala. Só faltam os sapatos, coisas de banheiro, brinquedos, livros, coisas de cama e toalhas. Já estou cansada só de pensar.

- Ei, Joaninha! – ah não, ele não!

Reviro os olhos e ignoro. Mas minha casa é de um andar só, e não tem tela na janela, então, infelizmente, dá para entrar aqui pela janela. E é o que ele faz.

- Joaninha, eu já te contei que adoro você de pijama? – Guto, eu te odeio.

Reviro os olhos e ele ri. Senta na minha cama e fica olhando para mim.

- Você parece um tomate, sabia? Seu cabelo vermelho, e suas sardas vermelhas, e com essa blusa vermelha então.

- Sai daqui, seu idiota!

Ele ri.

- Me obrigue.

Taco um travesseiro na direção dele, mas ele desvia e ri.

- Eu tô com tédio. O Bruno e a Tati estão ocupados, então só sobrou você. – O Bruno e a Tati são os amigos dele, e estão sempre juntos como se eles fossem um casal, então o Gustavo, para não ficar de vela, fica implicando comigo.

- Eu tô ocupada.

- Tá nada. Então, o que vamos fazer?

- Eu vou arrumar a minha mala, porque, ao contrário de certa pessoa, eu vou me mudar mês que vem.

- Ok, eu vou ficar vendo TV, se quiser ajuda com alguma coisa, não me chame.

Eu sei que eu poderia manda-lo ir pra casa dele, mas isso demoraria no mínimo duas horas. E eu estou sem paciência.

Meia hora depois, ele volta a falar.

- Ei, você já beijou na boca?

Não respondo.

- Só um selinho, já deu?

Continuo em silencio. Ele odeia isso.

- Vou aceitar isso como um não. Então, quer experimentar? Comigo...

Eu travo. Ele acabou de falar que quer me beijar?

- Sou muito nova para isso.

- Ah, vamos. Só um beijinho, não precisa nem ter língua no meio. Só para eu ver se é bom beijar você.

Reviro os olhos e não respondo. Por que eu beijaria alguém implicante e chato que nem ele? Eu o odeio. Nem que a vaca tussa eu iria beijá-lo.

- Ei, o que é aquilo ali? – ele aparece ao meu lado e aponta para a porta. Olho para lá e não vejo nada diferente.

- Não tem nada estranho ali, seu – falo enquanto viro o rosto para olhá-lo nos olhos e seus lábios me impedem de continuar a frase. Meus olhos ficam arregalados e dou-lhe um tapa na cara.

Ele se afasta sorrindo.

- Já beijei melhores.

- Ora seu idiota! – fico batendo nele até ele parar de rir e segurar meus pulsos. – Eu te odeio.

- Eu sei, Joaninha. – ele olha para mim de um jeito estranho, e então, escutamos o carro dos meus pais estacionando. – Tenho que ir, sonhe comigo.

- Nunca.

Ele ri baixinho e me dá um beijo. Faço uma careta de nojo e escuto a risada dele cada vez mais baixa à medida que ele vai correndo para a casa dele.

Como o odeio.

- Você vai se ver comigo amanha! – berro na esperança de que ele ouça.

Quando vou procura-lo para minha revanche, descubro que ele se mudou no dia 26. E que eu fui a ultima pessoa com quem ele falou.