Destino
4 Capítulo três. — O mundo é cruel.
Notas iniciais
NOS PERDOEM POR TANTO TEMPO SEM ATUALIZAR! A Luf e eu tivemos uns problemas, mas NUNCA que iríamos abandonar esta fanfiction, nem se demorássemos um ano para postar, podem ter certeza disso! ;)
Quero agradecer de coração á Mellorine, Luisa Elric Uzumaki Eucliffe e Kaira por terem recomendado a fic, muito obrigada lindas, eu e a Luf estamos muito felizes pelas suas palavras, e esperamos melhorar a cada capítulo para impressioná-las ainda mais ♥
Aqui está o capítulo que foi mais escrito pela Luf do que eu, esperamos que gostem! :D
Sem mais delongas, boa leitura!
Três anos depois.
Solitária, assustada, temerosa e triste. Esses eram os sentimentos que povoavam a menina de apenas dez anos; ela era bem madura para idade, porém, limites existem, e os seus haviam sido quebrados rudemente. Estar em casa, sem fazer nada, enquanto sua avó definhava, não era uma atitude da qual se orgulhava. O fato de obedecer às ordens da senhora, que considerava uma mãe, não se aplicava no momento. Era uma guerra entre a obediência, o respeito e a necessidade. Ela sabia que se não fizesse nada, perderia tudo o que lhe restava.
Foi até o quarto da avó, sem olhar para os inúmeros porta-retratos que existiam pelo caminho, e a encontrou na mesma posição de ontem – e da semana toda. Quase chorou, no entanto precisava ser forte, por ela e pela Claire. Tocou-lhe a testa, sentindo a temperatura: estava queimando. Sacudiu-a levemente, acordando-a do sono turbulento.
— Vó... —chamou, mordendo os lábios — Vó, você tem de levantar.
Ela lhe olhou, com os olhos inchados circundados por olheiras imensas, como se não a reconhecesse. Virou de lado, fazendo com que o lençol escorregasse, revelando a magreza excessiva. Claire gemeu e tossiu fortemente, enquanto seu corpo tremia.
— Não... — murmurou em um fio de voz, roucamente — Paul não está aí. Por que Paul não está aí? Eu queria... Queria tanto...
E chorou. Chorou mais uma vez. E Lucy não aguentava mais vê-la chorar.
Com lágrimas nos olhos, agarrou sua boneca Michelle, e saiu depressa da mansão em que morava. Descumprira a promessa com o avô, não cuidara dela como havia prometido, caso sim a situação não teria chego a tanto. Paul; sentia tanta falta dele, de uma maneira que só ela sabia, sentia falta dos conselhos sábios, das vezes em que ele cantava para ela dormir, de quando ele e a avó se juntavam para lhe contar histórias de terror... Sentia falta de tudo.
Enquanto corria, sua mente teimava em repassar todos os momentos bons com Claire, com Paul, com Jude. Pensava em como havia perdido os dois últimos sem poder fazer nada e como estava prestes a perder sua querida avó também.
Enquanto corria, o aperto em seu coração era dolorido e parecia sufocá-la lentamente. Sua vista começava a embaçar, suas pernas sedentárias doíam pelo esforço. Seu objetivo era chegar à casa da enfermeira que morava algumas quadras depois de sua casa. E ficaria tudo bem. Todavia foi a vizinha que lhe encontrou. Esbarrara em Lucy, que já estava com os olhos e o rosto vermelhos. Até tentara tirar-lhe alguma informação, porém a garota parecia quase insana, querendo desesperadamente lhe contar algo. Lucy não achava sua voz, toda vez que abriu a boca para lhe contar a situação, apenas soluços saiam. Começou a se desesperar, e puxou a mulher de meia-idade até sua casa. Lucy estava tão desesperada que apertava o braço da enfermeira cada vez mais forte, chegando a deixá-lo dolorido, mas mesmo assim deixou a garotinha lhe guiar. Tinha um bom coração, no final.
Lucy ainda chorava, porém estava feliz. Feliz porque finalmente iria dar um jeito de tirar sua avó daquela situação, caso fosse possível. Ela tinha total certeza que Polyushka ajudaria de alguma forma e depois elas voltariam à rotina de sempre. Seria difícil no começo, pois o avô faria muita falta, no entanto se ela conseguiu se habituar a viver sem o pai, Claire também conseguiria.
“—Lucy, cuide sempre de sua avó. Se um dia, algo acontecer comigo, sempre proteja a felicidade de vocês duas, o que mais quero neste mundo é que sejam felizes. Me promete isso, pequenina? — pediu limpando as lágrimas da menina.”
“—Eu prometo vovô. Mas... — abraçou-o — Nunca nos deixe.”
Mas ele se foi. Um ataque cardíaco o levara das mulheres de sua vida. E foi assim que Claire começou a ficar estranha. Chorava o tempo todo, não comia, dormia o dia inteiro, não conversava mais com a neta..
Até que ela não vivia mais. Parecia que não tinha alma, ali apenas possuía um corpo oco, sem futuro e objetivos. E a avó teve de ser obrigada por Lucy e pela empregada a comer, a tomar banho...
“—Vó... Por que você não vai ao médico?”
“—Já disse que não quero Lucy. Me deixe em paz.”
Certo dia a governanta da casa voltara de uma reunião de pais na escola de Lucy e encontrou a senhora ajoelhada no chão do jardim, pegando chuva e gritando. Entrou em pânico ao ver a patroa em tal estado e, na tentativa de ajudar, chegou a levar algumas mordidas de Claire. Um mês passou desde este ocorrido até agora.
Lucy estava sentada na beira da cama da avó, chorando silenciosamente. Passou a mão pelo pé esquerdo dela, enquanto Polyushka— a vizinha — se aproximava.
— É a Claire? — disse temerosa. Sua amiga estava irreconhecível, o rosto fundo, a aparência esquelética; parecia frágil. — O que aconteceu, Lucy? — sussurrou, como se fosse um pecado falar alto naquele quarto.
A menina virou-se para encarar Polyushka. Seus orbes chocolates prenderam os olhos rosa da mesma. A confusão no rosto da criança alertou-a da real situação. De súbito compreendeu o desespero anterior dela. Lucy desviou o olhar para o rosto da avó inconsciente, fitando-a tristemente.
— Eu não sei ao certo... —começou, sussurrando também — Quando meu avô morreu, ela não queria fazer nada no início... Eu a ouvi dizer que queria morrer... Mas então ela conversou com um médico, eu acho... E eu achei que ficaria tudo certo, achei que ela estava apenas triste, como eu fiquei quando meu pai se foi. As coisas estavam bem, mas depois do enterro do vovô ela voltou a ficar esquisita. Ela adoeceu... Não tinha vontade de fazer mais nada.. Eu não sei... Me ajude... Eu não sei — repetiu, escondendo seu rosto nas mãos.
Polyushka tirou um aparelho celular do bolso, disposta a ajudar sua amiga de longa data; a óbvia tristeza de Lucy pareceu tocá-la de uma maneira inexplicável e, sabia que mesmo se não conseguisse ajudar Claire, faria de tudo para deixar Lucy feliz.
Discando o número de um geriatra conhecido, abraçou a menina pelos ombros, deixando-a chorar em seu peito. Palavras não eram necessárias.
Dez meses depois. — Lucy Heartfilia.
Natal. A época mais esperada pela população mundial, por diversos motivos. Como já passavam de meia-noite, os comerciantes deviam estar comemorando o sucesso nas vendas, e os consumidores deviam estar, mentalmente, se repreendendo pelo exagero nas compras. Ninguém mais se lembrava do verdadeiro significado da época. Naturalmente, eu não fazia parte de nenhum dos dois grupos.
Terminei de enxugar as louças que, estranhamente, sobraram para mim — eu nem tinha jantado. Parei brevemente para admirar a neve que caia em pequenos flocos na rua, eu adorava a neve, adorava o frio. Adorava passar esta data com minha família, ansiava ganhar presentes e comer coisas gostosas que minha vó preparava. Ano passado, tinha feito um boneco de neve com minha avó, mas não tínhamos nos divertido muito, graças à falta que, eternamente sentiríamos, do meu avô.
Tempos atrás, eu ansiaria pelo natal desde outubro, mas agora eu nem sentira a diferença do dia de natal para os dias comuns. Os dias, semanas e meses, se arrastavam, dando-me a impressão de que um segundo era um século.
Eu sentia falta dos dias curtos e felizes, aqueles que no qual mesmo sendo pequenos, faziam toda a diferença.
O Lar só para meninas era bom, mas não chegava nem perto de me fazer feliz. De qualquer forma, era bem melhor que o abrigo para menores em que eu estava antes. Após a morte de todos os meus familiares, me encontrei pobre, solitária, e sem as instruções necessárias para uma situação do gênero. Eu sabia que existia um circo, em meu nome, que fazia muito sucesso, mas sabia também que, até eu fazer dezoito anos, todos os direitos sobre a propriedade e o dinheiro que meu pai me deixara, eram de seu antigo sócio; um velho que eu não sabia o nome. Se não fosse pela Polyushka, provavelmente, eu estaria nas ruas agora, ou em algum abrigo do estado.
Era estranho saber que, agora, eu confiava tanto em uma pessoa que, até pouco tempo atrás, me era uma completa desconhecida.
Eu sabia que, caso a burocracia permitisse, estaria morando com ela neste momento. Contudo, me consolava em saber que todas as sextas, no único horário de visita, ela viria me ver.
Mesmo com tanto tempo, a lembrança de quando a conheci ainda era vívida, assim como a maneira quase brutal que a vida retirou de mim a última integrante, conhecida por mim, da minha família. Definitivamente, eu odiava doenças.
— Perdida no passado novamente, Lucy?
Sobressaltada, virei-me de imediato para a porta da cozinha, onde Ultear estava encostada no batente, automaticamente levando minha mão para o peito em uma tentativa inútil de acalmar meus batimentos cardíacos. Ela soltou uma risada estrondosa ao perceber que me assustara — o que provavelmente era o seu objetivo.
— Mais um pouco disso e eu juro que você vai acabar me matando! — exclamei, sentando na cadeira mais próxima.
Ela riu mais um pouco e foi sentar do meu lado, largando seu peso preguiçosamente na cadeira; seus lábios ostentando um sorriso debochado. Antes de falar, percorreu o olhar pela cozinha tentando definir o que eu fazia lá tão tarde. O silêncio se prolongou por alguns minutos. Um silêncio agradável.
— Acordei no meio da noite e senti sua falta no quarto. —disse por fim.
Assim como eu, ela não jantou com as outras garotas, e permaneceu no quarto comigo. Nós duas dormimos cedo, mas Karen me acordou para vir lavar a louça. Segundo ela, foi uma ordem de Mavis e, mesmo que eu duvidasse disso, desci para completar a tarefa.
Sorri docemente para Ultear. Mesmo com seu comportamento quase hostil, ela era minha única e melhor amiga. Saber que ela se preocupara comigo, a ponto de descer do terceiro andar para me encontrar, me emocionou.
— Tudo bem. Eu já vou. Apenas... Vim lavar a louça.
— Você que sabe. Agora vi que você não foi morta por uma das nossas doces colegas e posso ir dormir. —resmungou, e levantou se arrastando até sumir na escuridão do corredor.
Ri sozinha do mau humor dela, e continuei a enxugar os talheres. Voltando a fazer o que eu mais gostava: relembrar.
~*~
—Polyushka! Você não vai fazer nada? — gritei, indignada.
Mavis, Markarov, Polyushka, um advogado e eu, estávamos reunidos na sala de estar. Markarov, era um estranho, ele dizia ser amigo do meu pai, na verdade o seu ex-sócio, e segundo o testamento do meu pai deveria cuidar de mim até eu atingir a maioridade; um documento oficial, com assinatura validada em cartório, comprovava o dito. Aparentemente, seu advogado havia cuidado de tudo e eu já estava sob a tutela dele, como se ele tivesse me adotado. Se eu podia ser adotada tão facilmente, por que não pude ser adotada pela Polyushka?
Eu não queria ir com ele, uma pessoa que eu nem conhecia. Tudo bem, eu teria uma vida melhor, mas de que vale isso? Eu tinha tudo o que precisava. E se ele fosse um maluco que gosta de abusar de garotinhas? E se ele fosse alguém ruim? E se ele me explorasse?
Por que eu tinha de ir com ele?
Por que o pai que endeusei por anos afinco fizera isso comigo?
Por que ninguém fazia nada?
Olhei agoniada para Mavis, pedindo silenciosamente pelo fim daquela reunião. Eu sentia meu coração aos pulos, minha vontade era de correr para fora e continuar a correr por muito tempo. Ao contrário do esperado, Ultear aceitou minha partida solenemente, fazendo-me pensar o pior: ela não gostava de mim. Polyushka agiu indiferente. Causando-me uma confusão indescritível.
— O que você quer que ela faça, querida? Você vem comigo, não adianta gritar! Era o que seu pai queria! Não vai desrespeitar os desejos de quem te amou tanto, não é? — declarou Markarov, sorrindo para mim.
Ele sorria o tempo todo, isso era quase bizarro.
— Ele está certo, você tem de ir. Markarov, poderia deixar-nos à sós um pouco? — pediu Mavis.
Ele assentiu rapidamente e, levando consigo o advogado saiu pela porta. Continuei a olhar para a porta, mesmo depois de fechada, enquanto aguardava a bronca que levaria de Mavis. Até agora só fui estúpida, mal educada, grossa e sarcástica; fizera de propósito para Markarov desistir de me levar, mas não pude fazê-lo parar de resistir, apenas consegui a insatisfação de Mavis.
— Tem de parar com isso. —disse ela. Concordei silenciosamente enquanto olhava para a porta—Olhe para mim quando estou falando! — brigou. Fazendo com que eu a encarasse, mesmo contra a minha vontade. Ela me olhava desgostosa.
— O que foi? — questionei, chateada.
— Lucy, entenda, ele pode nos processar se não permitimos que você vá com ele. — ela suspirou cansada. — Não encontrei brechas na lei e, acredite, eu tentei muito. Sei que você deve estar assustada, mas vai ser bom para você.
Ela rodeou a mesa e ficou de frente para mim; mesmo estando sentada nossas alturas eram iguais. Como não respondi, ela continuou:
— Você lembra-se do Jude?
Claro que lembro. Lembro todos os dias, de uma maneira quase doentia.
— Um pouco. Apenas lembranças vagas.
Eu não podia falar para ela do meu passatempo favorito e, muito menos, de como eu me agarrava a meras sensações que comprovavam a existência de um passado feliz. Era verdade que eu não conseguia manter todos os meus momentos com ele e eu me arrependia amargamente de não ter prestado mais atenção à ele, de não ter dito mais vezes que eu o amava, de não ter demonstrado o quanto ele era importante para mim, mas... Meu tempo com ele foi tão curto, era tão injusto... Eu não conseguia pensar muito nisso sem ter um acesso de choro. Por isso tentei me concentrar ali, na realidade, e no rosto preocupado da Mavis.
— Você está bem? — assenti — Tenho certeza que Jude te amou muito mesmo que eu nunca tenha conhecido-o, e ele nunca iria deixar a filha dele nas mãos de alguém incapacitado. Markarov deve ser digno de confiança, e vamos ser sinceras, ele parece ser um homem muito bom! — fiz uma careta de reprovação. — Ah, Lucy! Dê um sorriso! Pior que aquele abrigo do qual te tirei não vai ser!
Acabei rindo. Da intenção, e não do que ela disse. Mavis disse que sentiria minha falta e acabamos por nos abraçar, depois, me despedi de Polyushka com a promessa de nos encontrarmos em breve.
Logo em seguida, marchei em direção do meu novo futuro. Aquele no qual achei que poderia pelo menos ser feliz, nem que seja um pouco, mas me enganei profundamente.
Dois anos depois.
Exausta. Meu corpo parecia quebrado, minhas mãos doíam ao menor movimento; eu estava suada e suja. Circo Fairy Tail: onde seus sonhos se realizam. Ok, aquilo estava mais para pesadelo. Depois que o gentil Markarov — ou velho, como eu gostava de chamar aquele anão — me levou do Lar da Mavis-sama, descobri que ele só me queria porquê, logicamente, os documentos alegando que o circo era seu, só seriam oficiais se ele me tivesse sob sua tutela. E, como eu não servia para nada, fui transformada em sua escrava. Ele não permitia que os funcionários do circo conversassem comigo; todos eles pareciam me odiar, menos três: Virgo, Chelia e Wendy.
Elas eram vários anos mais velhas do que eu, mas mesmo assim se interessaram em serem minhas amigas. Talvez eu despertasse nelas algum instinto materno, sei lá.
O único lado bom de fazer parte do circo era que viajávamos muito e eu conheci muitos lugares. Com a ajuda da Virgo e da Wendy — Chelia era medrosa demais para isso —, eu fugia das loucuras do velho e me aventurava pela nova cidade. Às vezes eu já conhecia o local, mas mesmo assim eu não perdia a oportunidade de me sentir livre. De me sentir eu mesma novamente. E não uma criada.
Ultimamente eu também treinava junto com os artistas, talvez o Markarov quisesse me prender no circo. Eu não podia entender o motivo de ninguém ir embora dali, ou o porquê de pessoas tão talentosas aceitarem as ordens cruéis dele.
Certa vez, questionei Chelia sobre isso:
— Ora Lucy, você ainda é muito nova para entender, mas esta é minha casa, meu lar, meus sonhos estão aqui. Tudo que eu mais quis fazer na vida, tudo que eu sonhei um dia, pude realizar somente aqui, e farei de tudo para continuar a concretizá-los, por que não há prazer maior do que ver o público satisfeito com seu número, com sua técnica e com sua forma de apresentar. Os sonhos Lucy, são o que definem o ser humano, com certeza deve ter os seus, e são eles que vão te fazer caminhar no mundo em busca de como realizá-los.
Concluí que meu pai deveria ter dado á eles alguma esperança de poder seguirem seus sonhos. Para poderem acreditar em seu próprio talento e levarem alegria ás pessoas. Talvez por causa desses sonhos sejam capazes de suportar tudo, até as ordens mais cruéis de Makarov. Como devem ter se sentido quando meu pai se foi? Com certeza sofreram mais do que eu, ele era a esperança deles!
Eu daria tudo para ser como eles, terem um sonho a seguir, algo a buscar. Nunca tive isso, acho que por que foi me tirado tudo que era mais precioso na minha vida, a minha felicidade foi tirada de mim.. Talvez meus sonhos sejam voltar aquele tempo em que minha casa era um ambiente familiar repleto de amor e acima de tudo, felicidade.
— Vamos lá, Lucy! Nunca pensei que seria tão fraca! — reclamou Wendy, franzindo o cenho para a minha figura jogada no chão.
— Ela acabou de arrumar todos os cômodos do alojamento, dê um descanso para ela. — retrucou Chelia, que estava sentada em uma cadeira lendo uma revista qualquer de moda.
— Isso, dê um descanso para a Lucy! — implorei.
Wendy fez uma careta.
— Sério, não fale assim, Lu. Você fica parecendo uma retardada. Não que você não seja.
— Ei! Não fale assim da Princesa! — gritou Virgo ao meu favor.
Logo todas elas estavam discutindo, enquanto eu morria no chão. Wendy queria me ensinar a equilibrar meu corpo em uma corda, só que eu não estava em meu melhor estado.
Parecia que era uma briga de verdade, pois Wendy começou a chorar, enquanto Virgo virou de costas para elas.
— ELA TAMBÉM ERA UMA MÃE PARA MIM! VOCÊ NÃO TEM DIREITO DE FALAR ISSO! — berrou Wendy transtornada.
— A Lucy não é uma reencarnação da Layla, você nem sabe se ela está morta. Ela nos abandonou. Por que você não aceita de uma vez? — disse-lhe friamente, Chelia.
Antes que eu pudesse entender a conversa, ou perguntar de quem elas estavam falando, Laxus — o neto arrogante e prepotente do Markarov — entrou na sala, com suas roupas de marca e olhar debochado.
— Ô sujinha, o vovó está te chamando. — anunciou, e se retirou do quarto rapidamente, provavelmente temendo pegar alguma doença.
Revirei os olhos, e lancei um olhar de: conversamos depois, para elas, saindo do quarto para saber qual era minha nova tarefa.
~*~
Eu esperava muitas coisas, menos aquilo. Aparentemente, um dos funcionários se demitiu e agora, Markarov queria que eu inventasse um número para mim. Ele disse que eu podia treinar com os outros e, quando estivesse pronta, iria para os palcos. Claro, que eu não receberia remuneração, mas eu já esperava por aquilo. O que eu podia fazer? Mais alguns anos e o lugar seria meu. Apenas meu. Podia parecer pouco, mas aquilo acendia uma chama em mim; quem sabe eu poderia enfim seguir os sonhos de meu pai, limpando seu nome com sua herança mais preciosa; sentia-me feliz, tão feliz quanto me era permitido.
~*~
Após muito treino árduo, quedas, ossos quebrados, quase desistências, foi determinado que eu fizesse de tudo um pouco; eu tinha talento. Eu subi em motos — mesmo sendo menor de idade —, fiz acrobacias artísticas, me equilibrei em lugares bambos, me atirei de longas distâncias, só não pude ser palhaça. Tenho de admitir, eu sou péssima com piadas. Meu humor negro e distorcido intimida as pessoas e não as diverte.
Mesmo ainda tendo de servir de empregada, muita coisa mudou, eu me sentia... Respeitada. Estava sentindo o que o elenco sentia ao apresentar seus números, era como se eu pudesse ficar ali por toda a minha vida, todavia parecia que aqueles não eram os planos para a minha vida.
Parecia que cada vez que eu estivesse feliz, o mundo não permitisse tamanha felicidade e me colocaria em meu lugar num piscar de olhos. Talvez, essa fosse a lei do universo.
Markarov estava bêbado, tudo aconteceu muito rápido, eu mal tivera tempo de respirar. Lembro dos insultos, e de quando ele avançou sobre mim, Virgo se colocou à minha frente, levando um tapa na cara que deixou marcas em sua pele branca. Lembro de palavras difusas e transtornadas. Do caos tomando conta do lugar que outrora me parecera quase um lar.
Mãos e braços me agarraram, levando-me para longe; para fora. Wendy me entregou uma mochila pesada, eu não estava entendendo nada, apenas fui sendo empurrada. Virgo apareceu de repente, com o rosto vermelho, quase me sufocando com um abraço apertado. Ela chorava e murmurava coisas indefinidas.
—Você não pode ficar aqui — guinchou.
— O quê? Por quê?
— Escute-me, nós nunca, nunca iremos deixar que nada aconteça com você! Você tem de ir! Vá! — gritou, empurrando meus ombros, fazendo-me cair no chão.
Ela fechou o portão antes que eu pudesse me recuperar. Markarov apareceu logo em seguida, agarrando Virgo e puxando-a pelos braços com um olhar maníaco. Pude ver Wendy brigando para ir atrás dela, mas então as luzes foram apagadas e eu fiquei sozinha.
~*~
Eu não sabia o nome do lugar onde eu estava. Continuei a andar pelas ruas frias e vazias, vestindo apenas shorts de dormir e uma blusa de alça. Devia ter algum casaco na mochila, porém, eu não me atrevia a olhar. Alguns homens mal encarados passavam por perto de mim; eu fingia não vê-los. Por algum motivo, eu achava aquele caminho familiar, como se eu tivesse passado por ali muitas vezes, em um tempo distante.
Já convencida que teria de passar a noite na rua, encontrei uma pessoa: Ultear.
Descrente, admirei suas feições graciosas de longe, e só então reparei que ela não estava só: uma garota mais nova de cabelos rosa estava com ela.
Me aproximei das duas — que estavam caladas —, e tentei ver melhor no escuro. Para ver se era quem eu pensava. Ela havia mudado; ganhado curvas e seios maiores. Mesmo sendo mais nova que ela, mas antes não era tão visível. Mas agora, ela parecia ser maior de idade.
— Ur? — chamei incerta. Temendo que aquilo fosse um sonho.
Quando ela se virou com os olhos faiscando, soube que se tratava exatamente da minha melhor amiga. Com um sorriso de orelha a orelha, atirei-me em seus braços, quase automaticamente. Eu queria falar tantas coisas, admitir o quanto senti sua falta, mas nada saia da minha boca.
No entanto, meu abraço emocionado não foi correspondido, e rudemente, ela me afastou, olhando-me como se eu fosse um inconveniente.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou irritada.
— Como...? Quer dizer, eu nem sei. Onde estamos? Aliás, quem é ela? Ah, meu Deus, eu não posso acreditar! Eu senti tanto a sua falta...!
Ultear não sorriu nem uma vez. Encarava-me de maneira superior, com um brilho infeliz nos olhos. Deixei minha fala empolgada morrer aos poucos, enquanto o silêncio se instalava entre nós. Eu estava magoada com sua indiferença.
— Você não deveria estar aqui. Vá embora antes que se machuque. — disse e deu as costas para mim.
Permaneci quieta enquanto a via se afastar. A garota de cabelos rosa alternava seu olhar para as costas de Ultear e meu rosto. Parecia chateada. A olhei por meio segundo, vendo-a abrir a boca e sussurrar:
— Meu nome é Meredy, você...
— Vai ficar aí, ou vem comigo? — falou Ultear, de longe.
Meredy me olhou indecisa, como se eu pudesse lhe dizer o que fazer, mas então correu para longe, indo atrás da minha antiga companheira.
Poucas vezes me senti tão solitária.
~*~
Deitei em um banco de praça, com frio e com medo, magoada pela rejeição. Fechei os olhos e tentei adormecer, mas nem disso fui capaz. Aos poucos o dia clareou e de madrugada, não sei ao certo, uma garota de cabelos longos e brancos sentou no chão, na frente do banco em que eu estava. Ela era incrivelmente bonita.
— Puxa, você está péssima. — disse-me ela. — Fugiu de casa ou algo assim?
— Não.
— Então o quê?
— Fui expulsa. — expliquei, mesmo sem saber o porquê de estar fazendo isso.
— Ah. — disse simplesmente. Algum tempo depois acrescentou: — Pretende dormir neste banco para sempre?
— Foi o melhor que pude encontrar! — me defendi, ultrajada.
— Calma, não quis ofender! — respondeu. Fiquei em silêncio, sem entender aonde ela queria chegar. — Mas... Então, não quer vir morar comigo?
Olhei-a surpresa e sem compreender a proposta. Mas... O que eu tinha a perder? Eu era uma órfã jogada na rua que corria risco de ser seqüestrada, torturada ou até mesmo estuprada. Que caminho me era reservado? A garota de cabelos brancos parecia legal.
— Por quê? Você quer me molestar ou algo assim? — perguntei desconfiada.
Ela riu abertamente: — Se eu quisesse não iria te dizer, não é mesmo? Mas, devo dizer que você não é de se jogar fora — cantarolou dando-me uma piscadela.
Sentei; olhando-a de verdade, tentando ver traços de maldade no seu rosto impecável. Mas eu havia me enganado com Markarov, então não confiava muito em mim mesma.
— Devo considerar um elogio? — perguntei cautelosa.
— Mas é claro! Vem, eu sei que você não tem lugar para ficar e você precisa urgentemente de um banho. — avisou puxando para longe. — A propósito, meu nome é Mirajane — sussurrou, e falando mais alto, continuou: — Mas pode me chamar de Jane, tá? Qual é o seu nome, garota-que-foi-expulsa?
— Lucy. Mas pode me chamar de Lucy — falei imitando-a.
Ela sorriu com o canto da boca, seu olhar parecia me dizer algo como: "Essa foi boa".
Seria um novo começo ou eu ainda seria arrancada daquele caminho para seguir outro destino?
Eu não sabia.
Notas finais
Eaí, gostaram? Estou prevendo os leitores se rebelarem contra Makarov rs
Ah, e gostaria de avisar que vou responder os reviews do capítulo dois ainda nesta semana ;)
Beeijos!! ♥ ♥
Fale com o autor