Destined Souls
5 Verdade
A ventania lhe atingiu com força e a pele do corpo ameaçou rasgar-se a medida em que pairava sob os ares. Sentiu então uma forte dor na altura da nuca enquanto a escuridão lhe acometia ferozmente. Abriu os olhos com dificuldade ao ouvir os gritos de desespero daqueles que amava, ao mesmo tempo em que uma voz ecoava em sua mente, dizendo sempre as mesmas malditas palavras, “Você sempre estará sozinho.” Voltou a si somente quando sentiu a lâmina mágica perpassar-lhe o peito em busca de seu órgão vital.
Vergil despertou abruptamente. “Um pesadelo”, constatou o jovem após limpar o suor da testa. Sentou-se na cama e organizou os pensamentos, colocou em ordem tudo que havia acontecido. Após o ataque, ele foi tratado no Hospital Geral e, quando obteve alta, foi realocado para um novo quarto pela diretora Martha em uma ala especial no orfanato. Era procedimento padrão permanecer alguns dias em um quarto único após uma enfermidade ou ferimento de batalha, a fim de descansar um pouco mais, contudo não queria descansar. Lavou o rosto rapidamente e vestiu suas roupas casuais, um calção na altura dos joelhos acompanhado de uma camiseta preta, por cima colocou uma blusa xadrez de mangas compridas e, por último, calçou os tênis pretos com detalhes brancos. Dirigiu-se até a porta e notou um envelope no chão marcado com o selo da Diretora. “Boletim Bimestral e Certificado da Primeira Provação já disponíveis, por favor compareça a diretoria.”
Ao sair, pensou em procurar por Cassyeg e Roy, mas não podia encontrá-los ainda. Quando acordou no Hospital Geral foi atualizado de tudo que havia acontecido nos mínimos detalhes, a identidade do seu agressor, o estado de seus amigos, a sua salvadora e uma infinidade de outras coisas. Vergil não estava em paz com a situação. Não se sentia à vontade para encarar seus amigos, estava envergonhado devido a sua derrota rápida no campo de batalha. Era o mais experiente dos três e, mesmo assim, foi inútil perante a investida surpresa. “Você sempre estará sozinho.” Aquelas palavras o atormentavam constantemente.
Vergil saiu do prédio, atravessou o jardim e se dirigiu ao bloco das salas de aula. Passou pelos corredores das aulas teóricas, que logicamente estavam vazios naquele horário da manhã, pois as aulas estavam em andamento, cruzou com o zelador, que esfregava veementemente o chão para deixá-lo brilhando, e então galgou alguns lances de escadas, chegando finalmente a área dos professores, um hall que continha as salas que os magistrados usavam para corrigir as provas e onde passavam a parte do dia em que não estavam ministrando as disciplinas.
Caminhou até que ficou em frente a uma porta de marfim, onde uma placa dourada mostrava o nome de Martha Rosworth. Olhou para o lado e cogitou sentar-se em um banco acolchoado com lugar para duas pessoas, mas resolveu acabar logo com aquilo. Ergueu o braço e cerrou o punho para bater na porta e anunciar a sua entrada, mas foi surpreendido. A porta foi aberta e por esta passou Cassyeg, acompanhada por um homem de cabelos já grisalhos.
— Cassyeg… — balbuciou enquanto sorria timidamente.
— Pense bem, senhorita Cassyeg, é uma decisão muito importante. Sua resposta é crucial para seu futuro como Guerreira Elemental, principalmente se desejar seguir carreira militar — interrompeu o homem com tom sério.
— Tudo bem. Decidirei o mais rápido possível e comunicarei a resposta a Diretora Martha. Tenha um bom dia, Ancião Dulaham.
Cassyeg abraçou Vergil ternamente, numa atitude inesperada para o garoto.
— Que bom que você está bem. Tenho que resolver alguns assuntos agora, mas nos encontramos mais tarde, tudo bem? Já encontrei com Roy e combinei tudo. Não se atrase, nos vemos no jantar.
Vergil assentiu com um balançar de cabeça e fez menção de continuar a pequena conversa, mas foi em vão, Dulaham interveio uma vez mais.
— Vamos, Vergil, não tenho o dia todo. Tenho outros alunos para atender.
O garoto concordou e adentrou na sala, enquanto Cassyeg seguiu caminho pelas escadas para resolver suas pendências. A sala era ampla, possuía duas enormes estantes abarrotadas de livros e pergaminhos muito bem organizados, aparentemente em ordem alfabética, uma escrivaninha, que também se encontrava lotada de papéis e, em cima desta, uma pena alocada em um tinteiro ao lado de um grande livro de capa dura, que imediatamente chamou a atenção de Vergil.
— A Cisão do Mundo: O Marco Zero e a Muralha de Ferro — falou Dulaham enquanto puxava uma cadeira. Fez gesto para o garoto sentar-se, fazendo o mesmo logo em seguida.
— É uma ótima leitura, embora exista um exemplar publicado por Alexis Nechima que refute todos os argumentos deste que o senhor está lendo.
— Não sabia que você se interessava por geopolítica — o Ancião riu descontraidamente, mas logo continuou. — Você sabe quem eu sou, não é mesmo?
— Claro que sim. O senhor é Christopher Dulaham IV, tetraneto do fundador deste orfanato. Toda a escola o conhece e admira — respondeu Vergil prontamente.
— Não estranhe a pergunta. Eu estive ausente nos últimos anos enquanto fazia pesquisas de campo, sua geração praticamente não me viu pelos corredores. É bom saber que vocês sabem quem eu sou. — O homem abriu uma gaveta e puxou um envelope amarelo. — Chega de papo furado, certo? Viemos aqui para discutir suas notas e é isso que vamos fazer — continuou o discurso enquanto abria o envelope. — Vejo que suas notas continuam excelentes, o seu décimo ano é promissor. Entretanto, vejo que está cursando apenas 8 disciplinas, ao invés das 10. O que ocorreu?
— Senhor, viajei até a Cidade Capital de Midtreno, Nação das Trevas, para treinamento básico específico de Manipulação e Materialização Elemental, devido a minha natureza elemental. Por isso o período atual não se encontra regular. — respondeu o garoto rapidamente.
— Ora… Que cabeça a minha, havia esquecido esse detalhe. Bom, vamos passar pelas suas notas antes de continuar. — O homem coçou a cabeça e em seguida mostrou o esperado boletim ao garoto de cabelos negros.
História e Geografia Continental — A
Estratégias Bélicas — A
Forja da Alma I — S
Teologia Avançada — A
Geopolítica — A
Artes das Sombras — SS
Combate Intermediário — S
Análise de Combate Avançado — S
Vergil verificou as notas e ficou aliviado. Levantou a cabeça e viu Dulaham sorrindo. Antes que perguntasse o porquê, o ancião continuou seu discurso.
— Das disciplinas escolhidas neste semestre, vejo quatro direcionadas exclusivamente a combate, nas quais você conseguiu excelentes notas, e mesmo assim não foi capaz de conter um ataque desajeitado de um Arrebatador iniciante? — o tom do velho se encrespou e o discurso, que até há pouco elogiava, começou a tomar um formato nitidamente crítico. O diplomata prosseguiu. — Diga-me, Vergil, o que exatamente ocorreu?
O garoto viajou em suas memórias instantaneamente e respondeu.
— Foi um ataque surpresa e…
— Não quero desculpas, garoto. Eu sei muito bem o que aconteceu. Recebi um relatório escrito pela própria Sábia, assim como de dois peritos que indicaram como tudo ocorreu, nos mínimos detalhes. Uma parte do relatório em questão menciona o primeiro ataque, onde uma magia foi lançada na direção de Roy e Cassyeg. Você interveio e os empurrou, recebendo o golpe de maneira crítica.
— O que eu deveria fazer? Quem sabe o que poderia ter acontecido se…! — o garoto vociferou, mas o som de sua voz logo sumiu ao pensar na possibilidade de perder seus amigos.
— Vergil, o dano daquela magia não seria capaz de levá-los a óbito. Sua decisão foi equivocada e isso acarretou uma série de acontecimentos. Então vocês tiveram que contar com pura sorte para sobreviver. Agora lhe pergunto, já parou pra pensar se você os tivesse deixado de lado? Como eles não seriam abatidos, a força dos três juntos seria mais do que suficiente para acabar com uma ameaça de nível tão inferior.
Mais uma vez o garoto mergulhou em seus pensamentos. Desta vez, simulou o que o Ancião acabara de falar. Vislumbrou o momento em que Roy e Cassyeg seriam apanhados pela magia dos ventos no seu lugar e constatou o óbvio. Em sua mente, materializou sua adaga abençoada pela natureza das trevas e, num rápido movimento, estocou seu inimigo pelas costas. Mas esse seria um dos muitos cenários, imaginou ainda situações onde os três trabalhariam em conjunto para derrotar o Arrebatador. Vendo que o garoto entendeu a mensagem e estava perdido demais naquele momento, Dulaham reiniciou a enxurrada de palavras.
— Veja bem, garoto, tudo que estou dizendo é unicamente para abrir-lhe os olhos. Você tem um dos índices de aprendizado mais altos da última década. Sua fama está espalhando-se por toda a cidade, um episódio como esse não pode voltar a acontecer.
— Não acontecerá novamente — falou o garoto decidido.
— Eu sei que não. Sabe, você já está chegando na idade de decidir que tipo de cidadão irá tornar-se e é minha obrigação orientá-lo para que tome a decisão correta. — O Ancião se levantou e andou em direção a uma janela com vista para o centro da cidade. — Você tem um potencial estupendo e seu tipo de Fôlego Espiritual é único. Dentro de algum tempo, com o treinamento certo, você poderá tornar-se realmente um grande guerreiro.
— Será uma honra servir a minha Nação, senhor.
— Sim, com certeza, agora escute com atenção. Você não será capaz de atingir seu potencial máximo se continuar cursando essas disciplinas. Você precisa de treinamento intensivo em campo.
“Onde ele quer chegar?”, pensou o jovem.
— Vou recomendar que você passe um período maior na Cidade Capital de Midtreno para aperfeiçoar suas habilidades de combate. Dessa vez terá um tutor de nome, um Mestre de minha preferência, e em um ano você estará em um nível completamente diferente.
A notícia pegou o jovem de surpresa. Não esperava voltar a Capital dos Pecadores tão cedo, mas sabia que seria muito difícil resistir a uma recomendação direta de alguém grande como Dulaham, ainda mais com um Mestre de tutor.
— Agradeço, senhor. É realmente uma oportunidade única.
O homem voltou a sentar-se e, depois de um pigarro, concluiu.
— Por hora é apenas isso, Vergil. Lembre-se que é seu futuro que está em jogo. Tenha um bom dia. — Entregou o boletim ao garoto e o acompanhou até a porta.
Vergil caminhou em silêncio, buscando organizar as ideias. Desceu as escadas e saiu do hall dos professores, tinha de tomar uma decisão, rápido. Aceitaria a oportunidade de treinar com um Mestre ou tentaria não sair da Cidade do Alvorecer?
As horas passaram rapidamente. Os jovens não tinham aulas em comum naquele dia, o que quebrava o ritmo do encontro deles. Vergil estaria em Artes das Sombras, Cassyeg em Controle de F.E. III e Roy em Teorias de Manipulação. Contudo, uma coisa era certa. O jantar, que era servido às 19 horas, seria o ponto onde se encontrariam e de lá iriam para seu dormitório.
Muito havia para ser dito, por todos eles. Roy e Cassyeg se sentaram juntos em uma grande mesa retangular. A mesa de jantar era longa e comportava pelo menos duas dezenas de alunos em cada lado. A reunião na grande sala de jantar era um momento único do dia. Diferentemente do café da manhã ou do almoço, os alunos em sua maioria não teriam atividades curriculares posteriores, com isso as conversas e picuinhas entre os colegas eram inevitáveis. A sala de jantar era carinhosamente chamada de Coração de Freya, pelo seu tom alegre, amoroso e descontraído.
Ao sentar, Roy apertou Cassyeg contra outra colega que estava ao seu lado, provocando logo um desconforto inicial. Essas situações eram corriqueiras, as fazia quase que instintivamente.
— Não aperta muito, garoto, ainda estou um pouco dolorida.
— Fico feliz em ver que continua ranzinza. — Brincou o jovem enquanto deixava escapar um sorriso descontraído.
Magna, uma colega de sala de Roy que estava sentada à sua esquerda, se levantou para repetir a sobremesa pela terceira vez. O garoto deu de ombros, nada mais normal que alguém repetir o pudim de camapu, fruta cítrica encontrada nas regiões ao sul do Arquipélago de Balão Aquático, no inicio do território da Nação das Águas. Fez menção de iniciar uma conversa com Cassyeg, mas, antes que o fizesse, alguém esbarrou em seu braço, fazendo-o derrubar um talher. Imaginou ser a estabanada Magna com pressa em devorar a guloseima, mas teve uma surpresa ao dar de cara com Israel.
— Foi mal aí, Roy. Deixa que eu apanho.
O garoto se abaixou e pegou o talher caído, devolvendo-o ao seu dono.
— Tá ficando maluco?
Roy achou aquilo estranho. Israel era um colega de sala de Vergil em uma das suas zilhões de disciplinas de combate, raramente Israel sequer o cumprimentava, ser educado daquele jeito não era uma atitude normal. Ao menos não com Roy. Israel se levantou rapidamente e acenou para um conhecido do outro lado da grande sala de jantar. Antes de partir, tocou no ombro de Cassyeg e deixou cair quase imperceptivelmente um pequeno embrulho em seu colo. Ao agarrar o talher, Roy percebeu que algo mais pesado estava em sua mão. Um papel envolvia uma insígnia octogonal com o símbolo dos aurores cravado nela, o pequeno bilhete trazia uma mensagem.
“Encontrem-me no Hall de Treinamento Prático na sala 2. V.”
Roy cutucou sua jovem amiga e mostrou recatadamente o que Israel havia lhe entregado.
— Ótimo. Vamos, Roy, já está quase na hora de irmos pro dormitório — falou enquanto bocejava repentinamente. Tomou o garoto pelo braço e partiu em direção a saída do refeitório, mas antes parou ao lado de Magna e lhe deu um tapinha nas costas. — Te vejo amanhã na aula de herbologia. — A garota nem se deu ao trabalho de responder, entretida com outro prato de sobremesa.
“O que eu tenho que fazer para ganhar um pouco de sossego e comer em paz?”, pensou a moça. Passou a mão por cima da mesa procurando seu cantil de água, mas nada encontrou.
— Continua com as mãos leves — murmurou o garoto, que já não estranhava quando sua amiga fazia esse tipo de mágica. Cassyeg o ignorou, seguindo a caminho da saída do refeitório. Passou pela porta e verificou o relógio lunar no braço de um dos professores, que tomava um café descontraidamente enquanto jogava conversa fora em companhia de outros magistrados.
— São quase oito horas, temos que apressar-nos. Vamos usar o sistema — cochichou para o pobre garoto, que nada fez além de lamentar e acompanhar seus passos.
O Orfanato Dulaham era uma instituição riquíssima, fundada por Christopher Dulaham I no chamado Período da Umbra, cerca de 400 anos antes. Recebia incentivo monetário de milhares de moedas de ouro por ano e tinha dois grandes doadores atualmente, Lizzie Leamak e os grandes Senhores Feudais do território da luz. Ao final do ano, era comum que ao menos duas dúzias de guerreiros formados na instituição fossem cedidos para vagarem por toda a extensão do território do Grande Continente fazendo tarefas para estes senhores feudais. As doações, na verdade, eram um tipo de investimento. Assim eles não teriam o ônus de contratar guerreiros elementais para tais tarefas, poupando uma enorme quantidade de moedas de ouro e passando uma boa imagem a sociedade.
Por conta disso, o Orfanato era demasiadamente grande. Dentro de suas delimitações, a instituição contava com um prédio secundário para aulas teóricas com 5 andares, dois imensos salões onde eram ministradas as aulas práticas, uma grande área de lazer, um prédio unicamente para a instalação dos professores e convidados de outras nações, assim como uma ala especial para enfermos. Por último, existia o prédio principal onde os alunos dormiam e se alimentavam nos andares de cima e tinham algumas aulas nos de baixo. Todos esses prédios se interligavam por longos corredores e jardins. Para Roy e Cassyeg chegarem até o Hall de Treinamento precisariam vencer dois largos corredores. Não seria tão difícil, mas teriam que se apressar, pois o toque de recolher estava bem próximo.
“Vergil sabe bem os problemas que essa saída pode causar, por que arriscar-nos em um encontro no hall das aulas práticas se poderíamos muito bem conversar no dormitório?”, aquilo incomodou Cassyeg profundamente. Vergil não era impulsivo, essa não era uma de suas várias características. Mesmo assim, liderou o caminho, lealdade era uma particularidade que marcava a amizade dos três, ela tinha certeza que eles fariam o mesmo se os papéis estivessem invertidos.
Os garotos correram pelos corredores a passadas largas, em busca de se encontrarem com Vergil. O Orfanato tinha regras específicas sobre alunos perambulando pelos corredores fora do horário de atividades, se os garotos fossem pegos seriam sumariamente castigados. Trabalhos literários sem fim, tarefas na cozinha e nos jardins, além de sérias subtrações nas notas semestrais. Roy quebrou o silêncio que já perdurava alguns minutos.
— Os corredores estão ficando totalmente vazios, os farejadores começarão a ronda em breve e isso não é nenhum pouco interessante.
— Não tem problema garoto, nós já cansamos de fazer isso. O sistema é eficaz.
“Eu detesto o sistema… Esse é o problema!”, lamentou o Auror aprendiz.
O sino da ala soou em alto e bom som, aquele era o último chamado para os alunos. A partir dali, Roy e Cassyeg diminuíram as passadas e começaram a esgueirar-se pelos cantos das paredes, com receio de serem descobertos. Atravessaram um dos blocos que os separava de seu destino final sem problemas, contudo a sorte não os ajudaria para sempre. Encontraram, por fim, um obstáculo. Ao caminhar pela infinidade de corredores, avistaram a porta que ligava os blocos e, além desta, estavam um guarda noturno e um farejador.
Este era um animal quadrúpede, que variava de pequeno a médio porte. Era bastante veloz e podia caçar presas que tinham duas vezes o seu tamanho e três vezes o seu peso. Era encontrado em canyons e cavernas no território das trevas, pertencente à família dos caninos, o que explicava a sua “fácil” domesticação. Uma vez treinados, poderiam rastrear os odores que não lhe fossem familiares, identificando os invasores. Poderiam também serem treinados para atacar, mas esse não era o caso. Era uma besta mágica fiel ao seu treinador, mas existia uma coisa a qual os farejadores dificilmente resistiam. Um roedor nativo da região era sua comida favorita e era isso que os garotos usariam.
Cassyeg tirou do bolso o embrulho que Israel havia lhe entregado na sala de jantar e o passou para Roy. Dentro dele havia minúsculos pedaços da carne do roedor, o suficiente para enlouquecer o olfato do farejador e fazê-lo abandonar o guarda.
— Está pronto?
O rapaz engoliu em seco. O sistema ao qual sua parceira se referia não era de seu agrado, já haviam feito aquilo algumas vezes e sempre era o mesmo procedimento. Mesmo com o olfato concentrado na comida, a criatura mágica ainda poderia identificar o cheiro deles se ficassem no seu raio de ação por muito tempo. Era nesse momento que a garota usava suas habilidades. Cassyeg, que era uma manipuladora da água promissora, podia usar seu F.E. para expandir as moléculas de água presentes na umidade do ar ou usar o próprio suor como gatilho de suas magias. Claro que, assim como qualquer elemento, quanto maior fosse o seu acesso ao elemento específico, mais eficaz seria o seu controle. O cantil que afanou de Magna na sala de jantar tinha a quantidade de líquido que ela precisava. Utilizaria a pressão da água para impulsioná-los em alta velocidade na direção do guarda, enquanto a besta faminta viria em igual rapidez na direção da guloseima, dando assim o toque final ao seu plano, impedindo que a besta ficasse com chances de sentir seus cheiros. Então eles utilizaram o sistema.
O garoto abriu o pacote e o arremessou para trás com toda a força. A fera se ouriçou ao sentir o odor de sua comida predileta e arrancou velozmente, ignorando o guarda que o segurava e arrastando-o pelo corredor lustrado, ávido a abocanhar o lanche inesperado.
— Manipulação Elemental da Água, Propulsão. — Cassyeg empurrou Roy e apontou o cantil na direção do garoto, que endireitou sua base e tomou um jato de água no peitoral, arremessando-o corredor a dentro. Em seguida, Cassyeg virou de costas e utilizou a mesma magia para também percorrer o caminho em alta velocidade. O guarda relutou para manter os olhos abertos, mas mal conseguia devido a rapidez com a qual era puxado. Viu duas sombras e praguejou em seus pensamentos a decisão que tinha tomado aquela noite. “Não deveria ter trocado o meu dia de folga…” E continuou a ser arrastado, até que sua figura se perdeu na penumbra dos corredores do Orfanato.
Roy foi o primeiro a atingir o chão quando a água perdeu a força. Rolou algumas vezes até finalmente recuperar o equilíbrio para ficar de pé, com as roupas encharcadas. Cassyeg, por sua vez, aterrissou suavemente após dar um rolamento seguido de uma pirueta. O rapaz observou e fez cara feia, invejando a aterrissagem de sua amiga.
— Vamos, Roy, você não foi tão mal assim.
— Juro por Freya que vou passar mais tempo nos treinamentos de equilíbrio — reclamou em tom sarcástico.
Os jovens já tinham superado mais da metade do caminho. Correram por alguns corredores a mais, tomando cuidado para não serem pegos de surpresa por algum outro farejador, mas era improvável que existisse mais algum naquele setor. Os farejadores eram bastante eficazes e apenas um bastava para uma grande área. Enxergaram, enfim, a porta que ligava a ala em que se encontravam ao hall das aulas práticas.
— Enfim chegamos, agora dê-me a insígnia.
O Orfanato contava com várias estratégias para certificar-se que os alunos permaneceriam na ala dos dormitórios, em seus respectivos quartos, ao invés de estarem aprontando por toda a extensão do recinto. Novas táticas eram inventadas a cada dia, principalmente por aqueles abençoados com o dom da manipulação. A Insígnia de Combate era um artefato mágico que funcionava como chave, mas só funcionava uma vez e após um certo horário, além de ser de difícil obtenção. Cassyeg procurou a fresta ao lado do portão e inseriu a chave. O hall das aulas práticas estava a sua espera.
Esse espaço era uma área demasiadamente extensa, que contava com diversos salões de prática corporal e mágica. As características das salas podiam ser alteradas para simular ambientes e preparar melhor os alunos para situações específicas. Os garotos visualizaram logo de cara a sala 2 e, sem cerimônias, adentraram; já haviam perdido tempo demais. A iluminação da sala estava baixa, com apenas algumas tochas espalhadas por todo seu âmbito, e o chão era de terra fofa. Os jovens não demoraram até encontrarem Vergil lutando contra três Vidas Verdejantes.
— Exibindo-se, como sempre. Porque não pensei nessa possibilidade antes? — resmungou o garoto de madeixas louras.
Vida Verdejante é uma magia elemental da Natureza, criada pelos inteligentíssimos Alquimistas através de seu F.E. aliado a seus vastos conhecimentos nas áreas de botânica, genética e herbologia. Esses magos tinham o costume de brincar com a convicção humana e sempre tinham uma maneira de fazer alguém desacreditar a realidade que presenciara. Vida Verdejante pertencia à um ramo específico de magias, o Jardim de Valhala que contava com uma extensa gama de Golens a sua disposição. Estes nasciam de sementes que, ao entrar em contato com a terra, absorviam seus nutrientes e cresciam desenfreadamente em um piscar de olhos. As Vidas, uma espécie de Golem, eram criaturas lerdas, mas possuíam bastante força bruta. Com certeza batalhar com uma delas era um bom exercício; três, então, era ainda melhor.
— Enfim chegaram… — gritou o jovem pecador enquanto se esquivava de um braço formado de galhos, que veio firmemente em sua direção. — Um minuto, já estou acabando. — O rapaz de cabelos negros como a noite arrancou velozmente, rolou pelo chão, esquivando-se de mais uma investida, e sacou uma adaga de aço do bolso interno de sua blusa xadrez. Cortou vários galhos que funcionavam como tendões do monstro desengonçado, fazendo-o cair de joelhos. Por fim, escalou as costas da monstruosidade de dois metros e meio e cravou sua adaga na parte posterior das costas da criatura. A força da gravidade fez o resto e o golpe partiu o bicho ao meio.
— Um já foi, só faltam dois. — Cassyeg sorriu enquanto observava friamente os movimentos de Vergil.
— Aposto que ele vai tomar um golpe.
— O que você quer apostar? — Sentiu-se interessada com a proposta.
— Arrumarei o quarto por um mês seguido, se eu perder. Combinado?
— Vai ser a aposta mais fácil que já ganhei na minha vida. Vergil é veloz demais para esses colossos.
Roy se deitou no chão, usou as mãos para apoiar a cabeça e fechou os olhos.
— Não vai observar? Um mês limpando o nosso dormitório é uma aposta séria demais para você estar encarando assim.
Um alto estrondo chamou a atenção de Cassyeg, a poeira subiu e por dentro dela Vergil apareceu, mas não havia sido atingido.
— Não tem problema, Cassyeg, eu sei que vou ganhar — completou Roy confiante.
Os monstrengos continuaram a investida, os dois atacaram ao mesmo tempo, os movimentos desarticulados atingiam o chão com violência. Vergil esquivou para o lado, deixando a adaga cair, nesse momento seu F.E. emanou fortemente.
“Acabou”, Cassyeg discerniu.
O Fôlego das Trevas emergiu no formato de uma adaga curta de energia palpável. O garoto correu por entre as pernas de um inimigo e pegou impulso ao utilizar essa mesma perna como suporte, alcançando o pescoço da outra abominação. O corte seco arrancou o amontoado de galhos e folhas que se assemelhava a uma cabeça. Vergil aterrissou suavemente, mas não teve tempo para respirar, a última Vida Verdejante mergulhou seus braços na terra e convocou o seu elemento aliado. Em resposta, vários galhos pontiagudos emergiram em busca do garoto, que saltou mais uma vez para escapar do golpe. Quando estava prestes a ser alcançado, o pecador arremessou sua adaga entre os pés do golem.
“Manipulação Elemental das Trevas, Caminhar na Umbra.”
Instantaneamente, o usuário das sombras apareceu onde sua adaga estava e, arrancando-a do chão, desferiu um corte longitudinal, fazendo a criatura tombar partida em duas. O último golem havia caído. O garoto correu na direção de seus amigos e Roy nem se deu ao trabalho de cumprimentá-lo.
— Não acredito que fez a gente deslocar-se até aqui para ver você treinando — falou Roy com o tom ríspido.
— Sua blusa está rasgada… — Cassyeg apontou.
— Droga, deve ter sido durante o último ataque do golem, preciso aprender a usar essa magia corretamente.
Roy sorriu brevemente, Cassyeg desconversou.
— E então, vai dizer-nos o porquê dessa reuniãozinha repentina?
— Na verdade, acho que Roy deveria falar primeiro. Tenho certeza que ele tem as novidades mais interessantes dentre nós três. Não é, Roy?
Seu coração acelerou, uma torrente de acontecimentos havia culminado na possibilidade de Roy virar uma aposta e sua primeira prova seria em poucos dias. Explicou tudo nos mínimos detalhes e esperou a reação de seus amigos, eram as pessoas em que mais confiava e suas opiniões eram extremamente importantes. Após um breve momento de silêncio, Cassyeg tomou a dianteira.
— Isso sim é o que eu chamo de novidade. Entretanto, você já tomou sua decisão? Vai realmente aceitar? Afinal, não estamos falando de um simples cargo como Sentinela, estamos falando de se tornar uma Aposta. Quero dizer, é uma responsabilidade realmente grande.
— Ele tem que aceitar — interrompeu Vergil. Os garotos ficaram surpresos com aquela atitude. — Veja bem, Roy, você sempre está queixando-se de várias coisas, suas notas, seu desempenho como Auror... Sinceramente, não vejo oportunidade melhor para você evoluir como Guerreiro Elemental.
“Ele tem razão. Roy se esforça, mas parece não ter nascido com o dom de ser um bom manipulador. Para falar a verdade, é um milagre que ele consiga materializar o F.E.. Em todos esses anos, ele consegue disparar algumas magias bem básicas e só, além de ter um estilo de luta bem desajeitado”, pensou Cassyeg.
— Se você não aceitar, é provável que passe o resto da vida apanhando — cutucou Vergil em tom de deboche.
— Na verdade, eu ia dizer que aceitarei a proposta. Meu primeiro desafio está bem próximo. O Festival Solar de Frei será anunciado nos próximos dias.
— Sabe, Roy, também tenho uma revelação a fazer. Fui convidada a participar das Olímpiadas de Aesir, no Arquipélago de Balão Aquático.
— O quê? Mas isso fica a milhares de quilômetros daqui, você vai pro outro lado do Velho Mundo.
— E este é o motivo de ter chamado vocês aqui hoje. Por acaso se esqueceram da nossa promessa?
Roy e Cassyeg foram pegos de surpresa. Vergil era o mais fechado dos três, mas seu apreço por eles era inestimável. Cada criança que entrava no orfanato sabia de onde tinham vindo, o que tinha acontecido com seus pais e as circunstâncias que os haviam colocado ali, mas os três companheiros de quarto não faziam ideia de suas origens. Estavam totalmente sozinhos no mundo, não possuíam sobrenome algum e esse vazio acabou unindo-os.
— Então é disso que se trata? — perguntou Roy enquanto coçava a cabeça, não imaginava que fosse esse o tópico da reunião secreta.
— Claro que é disso que se trata, por acaso vocês querem permanecer nesse mundo sem ter ideia de onde realmente vieram? Vocês mais do que ninguém sabem a sensação excruciante de ser literalmente um ninguém.
Roy baixou a cabeça e mergulhou em suas lembranças. Sua infância nas ruas mostrou desde cedo que as pessoas poderiam ser cruéis, perdeu as contas de quantas vezes dormiu com fome ou foi perseguido simplesmente por estar próximo à lugares movimentados por gente nobre. Quando entrou no Orfanato as coisas não foram tão diferentes como esperava, com exceção de alguns poucos e, claro, Cassyeg e Vergil, que deram a força da qual precisava e um novo motivo para acreditar no mundo. Contudo, era verdade que não saber de suas origens deixava um grande pedaço do quebra-cabeça faltando, ele sabia exatamente o que aquelas palavras de Vergil queriam dizer.
— É um grande passo que você está prestes a dar, Roy, para todos nós. Essa reunião se trata de não esquecermos quem realmente importa, de honrar o nosso compromisso. Eu também tenho uma coisa importante a dizer. Não posso simplesmente ficar parado aqui enquanto vocês evoluem, não posso ficar pra trás.
— O que pretende fazer? — perguntou Roy.
— Ainda não decidi, mas isso não é realmente importante. O que importa é que isso aqui não é um adeus.
“Não passa de um menino sentimental, afinal de contas”, Cassyeg riu enquanto lembrava que Vergil fazia o papel de irmão mais velho.
— O Torneio das Apostas acontecerá dentro de dois anos e meio, nesse meio tempo muito vai mudar, mas uma coisa não deve. A nossa amizade! Façamos, então, um juramento.
— Que perca de tempo. — O Auror deu as costas e fez menção de sair.
“Se fazendo de durão. Não adianta, pequeno arqueiro, você é um livro aberto para mim”, presumiu a garota.
— Dentro desse tempo, devemos evoluir o máximo possível e então nos encontraremos na abertura do Torneio das Apostas. Essa será a prova do comprometimento com a nossa causa. Esse é o juramento, não podemos sair desse mundo sem conhecermos a verdade sobre nosso passado. — O garoto estendeu o braço e cerrou o punho, seu olhar declarava o quão sérias eram suas palavras. Roy e Cassyeg se aproximaram e fizeram o mesmo, entendendo o quanto aquilo significava não só para Vergil, mas para todos eles.
— Muito bem, agora que esse momento de terapia acabou, o que acham de voltarmos ao dormitório? Não quero ter que explicar pra diretora Martha o que estamos fazendo aqui — comentou Roy, apressando-se para sair.
— Ainda não acabou, um juramento não é um juramento legítimo sem um contrato de sangue, não é mesmo? — Vergil pegou algumas sementes do bolso e as jogou na terra fofa do salão de treinamento. — Vamos, Roy e Cassyeg, um último treinamento de combate juntos. — Sorriu descaradamente.
Cerca de dez Vidas Verdejantes surgiram da terra e amontoaram-se a medida em que corriam na direção dos três garotos. Um juramento de sangue, afinal de contas. A noite estava apenas começando.
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