Destined Souls
6 Novo Amanhã
Lizzie acordou cedo, o trabalho de liderar uma Nação era praticamente sem fim. Tudo ou quase tudo teria que passar por sua supervisão e o sono a essa altura era uma regalia a qual a Rainha da Luz não tinha direito algum. Eram tempos de paz, é verdade, já haviam se passado 12 anos desde que Lizzie acabara com o conflito que perdurara por cem dias, empreitada que ficou conhecida como a Batalha da Redenção. Logo após, se tornou o pivô da aprovação do tratado de paz com Neol Nikish, o Sábio das Trevas, trazendo prosperidade para seu povo. Esses dias poderiam estar fadados a acabar.
Em suas mãos segurava uma carta com o emblema das sombras, assinada pelo próprio líder de Midtreno, dizendo que tomaria todas as providências para que o assassinato de um de seus Mestres não ficasse impune. Ainda relatava, de maneira implícita, haver provas circunstanciais que incriminavam diretamente alguém do alto escalão da Luz. Se isso fosse confirmado através de uma investigação do Conselho da Magia, o tratado de paz perderia o efeito e um novo embate poderia iniciar-se. Esse era um de seus maiores receios.
Aloe entrou no salão real com uma pilha de papéis nos braços. Dona de uma beleza peculiar, seus grandes olhos castanhos exprimiam uma admiração indescritível pelos seus líderes, principalmente por Lizzie, representante máxima de sua Deusa Freya. A Rainha Iluminada não só venceu a guerra, como criou um plano monetário eficaz que fez seu país crescer em um período de vacas magras, sem contar seus esforços para manter a paz. A vida de seu povo era sua maior riqueza e Aloe era testemunha de tudo isso.
— Com licença, senhorita Lizzie.
— Quantos documentos mais você vai trazer pra mim, hein, Aloe? — reclamou a governante.
— Sinto muito, mas entre eles trago a lista atualizada de recompensas, o processo escrito e assinado pelo Conselho da Magia sobre o assassinato do Mestre de Midtreno e uma infinidade de outros processos de prioridade A.
— E quanto a reunião que convoquei com a guarda Real, onde estão todos?
— Está tudo sendo providenciado, mas nem todos poderão comparecer. O Primeiro Mestre Roamn Jonassoad chegará de viagem ainda hoje e a outra ausência confirmada é a do Especialista Alexander Magnum, que também está em uma missão e não tem previsão de chegada.
— Entendo. Por favor, cancele todos os meus compromissos e peça para o terceiro em comando avaliar o restante dos documentos, preciso dar uma saída.
— Quer que eu chame alguém para acompanhar-lhe?
— Não será necessário, Aloe. Muito obrigada. Não devo demorar. — Lizzie se levantou e caminhou até a saída. — Aloe, você está com a documentação de Roy pronta?
— Sim, a tenho aqui em mãos.
— Ótimo, precisarei dela agora. — Lizzie tomou o documento, que tinha todos os dados de Roy Hector, das mãos de Aloe e se dirigiu à saída.
A Sábia desceu vários lances de escada até alcançar um pátio esverdeado, a oeste de uma das torres principais. Lá mantinha um estábulo pessoal afastado dos outros, no qual cuidava de algumas criaturas mágicas exóticas, entre elas um belíssimo exemplar de Corcel Cinza. A Soberana da Nação cultivava o hobby de cavalgar e o fazia sempre que possível, lhe dava a sensação de liberdade e de que havia uma vida fora do castelo. Podia facilmente atravessar a extensão daquela Cidade Capital em um curto período de tempo, graças a sua grande velocidade, mas não seria nenhum pouco proveitoso gastar uma enorme quantidade de F.E. para isso. Encostou no local onde o animal era alimentado e cuidado por um Criador especializado e passou a mão pela a crina volumosa do equino.
— Vamos, Solaris, vamos dar um passeio.
O servo que cuidava das criaturas abriu caminho e o animal trotou com a sábia montada elegantemente em seu lombo, seguindo por um caminho que interligava o interior do castelo ao pátio externo. De lá, Lizzie e Solaris se perderam em meio a multidão que abarrotava as ruas da Cidade do Alvorecer.
No Orfanato, Roy acordou com os músculos doloridos, não se lembrava da última vez em que havia se esforçado tanto em um treinamento de combate. Virou para o lado e fitou o relógio solar que marcava onze horas em sua mesa de cabeceira. Saltou abruptamente e verificou que seus amigos não se encontravam mais no dormitório, como de costume.
— Vou matar aqueles dois! — praguejou enquanto corria em direção ao banheiro. Pensou apenas em lavar o rosto, mas constatou que não seria suficiente. Seu corpo estava todo coberto de poeira e sujeira, resultado da peleja secreta com as Vidas Verdejantes na noite passada. Despiu-se rapidamente e jogou alguns vasilhames de água sobre o corpo, pegou o sabão e percorreu a mão sobre abdômen, procurando algum hematoma, mas não encontrou nada. Sua recuperação era invejável, considerada uma ótima qualidade para um Guerreiro Elemental. Saiu apressado do cubículo, molhando todo o piso do quarto sem remorso. A aposta da noite anterior garantia que Cassyeg limparia toda a bagunça sem reclamação alguma. Vestiu-se anormalmente rápido e, antes de sair, viu que havia perdido mais dez minutos. “Com uma boa desculpa, talvez eu ainda possa assistir a aula”, pensou, saindo em disparada.
Desceu as escadas velozmente, quase esbarrando em um colega que subia pelo sentido contrário ao dele.
— Olha por onde anda! — brigou o garoto. Roy o ignorou ao ponto de sequer discernir quem era o borrão que quase havia atropelado.
“O Professor Adonis sempre inicia a aula com um resumo da anterior, isso deve me dar algum tempo extra e…”. O jovem parou a corrida desenfreada ao lembrar que a aula de hoje seria no bloco prático, tornando seu atraso ainda maior.
Já tinha avançado vários corredores, todos vazios devido às aulas em curso, imaginou ele. Saiu do bloco onde se encontrava e atravessou os jardins, chegando ao setor das aulas práticas completamente ofegante. Desejou não ter ultrapassado a marca de vinte minutos de atraso. Respirou fundo e tentou abrir a porta do bloco, mas não obteve sucesso. Vislumbrou um aviso em letras maiúsculas estampado na parede.
AULAS CANCELADAS DEVIDO AO ADIANTAMENTO DO FESTIVAL DE FREI. RETOMAREMOS AS ATIVIDADES EM DUAS SEMANAS.
DIRETORA MARTHA ROSWORTH
“Corri tanto pra nada…”, lamentou o jovem Auror enquanto recuperava o fôlego. Deu-se conta, então, que seu desafio havia sido adiantado. Deveria correr e inscrever-se no Festival, para ganhar o direito de participar das mais variadas competições. Todos os anos, a Cidade do Alvorecer e seus territórios adjacentes recebiam uma enorme quantidade de turistas, Guerreiros Elementais, comerciantes e uma infinidade de pessoas ávidas a dar sua contribuição àquela celebração, que tinha propósitos religiosos e monetários.
O Festival ocorria no início do mês de março, anunciando a chegada da primavera no hemisfério norte. Era comum a comemoração ser adiantada devido a posição geográfica privilegiada do território da Luz, que contava com um inverno menos rigoroso e, consequentemente, com mais dias de sol do que a grande maioria das nações.
“Tudo bem, não devo perder nenhum segundo a mais! Devo inscrever-me na Batalha do Coliseu”, a odisseia contra o tempo se iniciou novamente. O Auror, que tinha como marca registrada o atraso, partiu em direção a saída do Orfanato, cumprimentou alguns Sentinelas e rumou ao seu novo destino.
As ruas estavam completamente abarrotadas de gente. Roy era acostumado a viver na capital e já presenciara dezenas de Festivais, mas aquilo ainda o assustava um pouco. Perguntava-se como as ruas de sua amada cidade comportavam todo aquele povo. Percebeu que continuar na direção central só o faria perder-se em meio a multidão. Desejava chegar o mais rápido possível à uma das várias Estações de Atendimento, que funcionavam como pontos para conseguir informações e missões e, em épocas de festivais, funcionava também como centro de inscrições para as competições.
A Cidade Capital do Alvorecer crescia a cada ano. Como sua extensão territorial estava comprometida, Lizzie sancionou uma lei que proibia a construção de casas muito próximas ao oceano de Leviathos, assim como nos arredores das florestas, com o intuito de preservar o máximo de área verde possível. Como saída, a capital começou a crescer verticalmente. As casas estavam tornando-se grandes construções empilhadas, passando a assemelhar-se cada vez mais com os prédios governamentais projetados por grandes magos e arquitetos. Com isso, escadas de incêndio foram alocadas nas laterais das construções e seu acesso era demasiadamente prático e fácil, principalmente para quem tinha treinamento militar como Guerreiro Elemental.
Roy passou apertando-se por entre a multidão até encontrar uma ruela entre duas construções. Tomou fôlego e correu, tomando impulso para alcançar o degrau de uma das escadas, fez força com os braços e conseguiu escalar o obstáculo. Disparou por entre os telhados das casas e construções, assemelhando-se a uma fera em busca de sua presa, sempre atento para não distanciar-se de seu objetivo final. Antes de seguir, parou para observar a banda e os bardos que cantarolavam, animando toda a população. Uma comitiva de Aurores os acompanhava, disparando flechas que explodiam nos ares formando um festival de cores. Tornou a si quando dezenas de balões fluíram até os céus, até que alguns ficaram presos em um grande relógio solar. Era um belíssimo espetáculo, mas deveria continuar.
Aproximou-se de um dos prédios das Estações de Atendimento e diminuiu a passada para não adentrar no recinto completamente exausto. Desceu os lances de escada, que agora pareciam infinitos, e caminhou procurando a saída de mais uma ruela escondida entre as milhares de casas da grande capital. Deu de cara com a multidão que estava tentando evitar e percebeu que não havia outra maneira de atravessar a grande avenida a não ser vencendo o aglomerado de pessoas.
Roy marchou vagarosamente, tentando não esbarrar de forma desastrada em alguém, já havia acontecido imprevistos demais e uma confusão por causa de sua falta de atenção era a última coisa que precisava. Lembrou-se, então, que em eventos daquela magnitude o Sistema de Transporte Intracomunitário ganhava uma linha extra e por isso aquele ponto central estava transitoriamente caótico. A linha turística tinha o intuito de levar o enorme contingente de pessoas aos pontos comerciais ferventes, assim como ao máximo de atrações possíveis da cidade, impulsionando o setor comercial.
Por isso, era normal encontrar vendedores ambulantes pelas ruas com os mais variados produtos, desde peças de vestuário a utensílios mágicos. Avistou um homem com barba pontiaguda e olhos esbugalhados oferecer algumas quinquilharias à todos por quem cruzava, sua voz rouca e alta se destacou em meio aquela torrente de falas misturadas, provocando em Roy um desconforto imediato. Nesse momento, trombou em uma garota, deixando alguns papéis voarem. Roy se apressou a agarrá-los, tentando reparar seu erro. Teve um pouco de dificuldade, mas conseguiu apanhar todos.
— Deveria prestar mais atenção, moço. Você quase me fez perder as minhas preciosidades. — comentou a garotinha orgulhosa, retirando os papéis das mãos do rapaz. A pequenina exibia algumas cartas de um jogo mundialmente famoso. Cartas e Almas fazia uso de estratégias de batalhas simuladas em um tabuleiro, as artes estampadas exibiam uma infinidade de acessórios, monstros e heróis que, misturados a um conjunto de regras, logo tornou-se popular, sem restrição de idade. — Eu não tenho obrigação de fazer isso, afinal você seria o responsável pela perda das minhas preciosas cartas, mas você me ajudou a recuperá-las. Onde está, onde está? Achei! Tome, esse é o seu prêmio! — Procurou uma entre as várias que segurava e a entregou ao menino, que não entendeu nada.
— Não posso aceitar, são suas preciosidades — replicou o Auror admirado. Presumiu que era melhor tratar as cartas como a garota as tratava ou poderia ter problemas.
— Não, não se preocupe, eu tenho outra dessa. Além do mais, a cor do sol lembra a cor do seu cabelo. Essa carta é perfeita para você. — A garotinha partiu saltitando, deixando-o sem reação com o novo presente. Enfiou a carta no bolso e continuou sem dar muita importância àquilo.
Roy entrou pelos portões abertos da Estação de Atendimento, onde foi recepcionado por uma moça simpática de largo sorriso.
— Seja bem vindo. Tenha um bom dia! — Entregou-lhe um pergaminho rapidamente, não dando espaço para a recusa do jovem. Era um anúncio de uma famosa competição do festival, o Procure a Luz.
Procure a Luz era basicamente a caça à uma criatura mágica que poderia ser encontrada por quase toda a extensão no território da Luz e também no outro lado do continente, nas proximidades da Cidade Capital de Flor de Yggdrasil, no território da Natureza. A Luminarious era uma besta mágica bastante astuta e de notável inteligência, sendo assim de difícil captura. Aos competidores dessa atividade era vetado o uso de F.E., o que tornava a contenda justa para os não usuários de magia ou, como eram chamados, Descrentes. Os envolvidos corriam de um lado para outro da capital com estratégias mirabolantes a fim de prender a criatura e ganhar um ótimo prêmio em moedas de ouro, infelizmente não era incomum a competição sair sem vencedor algum.
O jovem Auror observou a grande quantidade de pessoas que faziam filas pelo espaço da estação a fim de participar do Festival. Procurou rostos conhecidos e, sem demora, avistou alguns colegas do Orfanato. Magna se inscrevia na competição de degustação de pratos exóticos, que contava com as mais variadas iguarias de todo o continente, enquanto Olívia e William esperavam ansiosos na fila de Procure a Luz, já discutindo aos berros suas estratégias. A maior fila estava tão confusa que ele não identificou onde era o seu final, já circundava quase todo o espaço retangular da estação. Cartas e Almas teria uma quantidade exorbitante de participantes naquele ano, o espetáculo estava garantido. Roy percorreu todo o local e avistou o estande de inscrição para a batalha no Coliseu dos Grandiosos. Correu idealizando toda a sua ambição, o primeiro desafio para tornar-se Aposta era tangível.
Aproximou-se inquieto e estranhou o estande completamente vazio, a exceção da atendente responsável. Antes mesmo de alcançar o balcão, a funcionária do governo logo fez seu papel.
— Bom dia, Roy, vejo que veio confirmar sua inscrição na competição do Coliseu dos Grandiosos — falou aceleradamente enquanto folheava as páginas de um grande livro de capa marrom.
— Quê? Como você sabe meu nome? Eu nunca vim aqui antes. — O jovem estranhou a atitude.
— Seus documentos já foram entregues e todas as Estações de Atendimento receberam ordens para orientá-lo sobre a competição de combate que acontecerá no coliseu. Afinal, é uma tradição da nossa cidade a Aposta lutar no Festival de Frei — sussurrou o final da frase, já que Lizzie não havia dito que essa informação poderia ser disseminada. — Então, será que poderia assinar aqui? — persistiu a atendente.
— Vamos, fedelho, o que está esperando?
Roy escutou o som de passos firmes, até que cessaram bem atrás dele.
— Senhor Roamn, seja bem vindo.
— Obrigado, Tristana.
“Roamn? Roamn Jonassoad?” Roy jamais havia ficado tão próximo assim do alto escalão da magia. Os membros da Guarda Real se revezavam para manter as defesas da capital firmes contra ataques e geralmente estavam dentro de seus portões. Contudo, como viviam tempos pacatos, era bastante raro encontrá-los, já que agora passavam a maior parte do tempo em missões diplomáticas e em busca de riquezas como forma de contribuição para o governo. Roamn Jonassoad era particularmente famoso por ser um dos sobreviventes do Duelo das Apostas de seis anos atrás. Herdou na pugna em questão uma cicatriz na altura da sobrancelha esquerda, que se tornou sua marca registrada.
O Primeiro Mestre era alto, cerca de dois palmos mais alto que a aposta de Lizzie, totalizando 1,90m de altura. Possuía porte atlético, seus olhos eram castanhos escuros e suas madeixas eram crespas, deselegantemente penteadas para cima, a pele morena denunciava uma miscigenação de raças típica daquela região. Usava um robe vinho, calças longas e sandálias de combate; um vestuário bem leve e característico dos Guerreiros Elementais.
— Não me deixe esperando, Tristana, quantos já estão inscritos para o Coliseu? Dê-me as boas notícias — falou imponentemente enquanto esfregava as mãos a espera da informação.
— Sinto muito, senhor — suspirou a atendente. — Até agora poucos compareceram para efetuar as inscrições antecipadas.
— Poucos quantos? — O primeiro Mestre se aproximou, encrespando o cenho.
— Apenas dois, senhor.
— APENAS DOIS!? — Roamn vociferou, chamando a atenção de todos no local. — Lutar no Coliseu dos Grandiosos deveria ser honra, mas esses...
— Não aja que nem um velho idiota, Roamn. Onde estão seus modos?
— Só pode estar de brincadeira comigo, será que não posso ter um momento de sossego? — sussurrou o homenzarrão.
— Lizzie? O que está fazendo aqui?
— Vim ver se minha Aposta havia confirmado a presença no torneio.
O garoto sorriu internamente, Roy respondia bem a incentivos como aquele. Suas notas poderiam não ser as melhores, mas o apoio de Cassyeg e Vergil sempre o impulsionava. Quando isso acontecia, os resultados eram bem acima da média. Em pouco tempo, o jovem havia criado um apreço significativo pela Rainha da Luz, passou a vê-la não só como sua líder e encarnação de sua Deusa Freya, mas também como uma espécie de irmã mais velha, cujo respeito teria de merecer. Ele se esforçaria ao máximo para isso..
— Ótimo, finalmente alguém interessante! — exclamou Roamn. — Acabei de chegar, vim aqui apenas para ver o andamento dos preparativos para o torneio. Entretanto, apenas dois inscritos é decepcionante.
— Você sempre foi um péssimo mentiroso, Roamn. Os Quatro Mestres possuem maneiras diferenciadas de recompensar e avaliar os vencedores do Coliseu. No entanto, essas duas palavras se confundem na linha tênue da sua mente. Para você, não há recompensa sem uma avaliação e todos sabem qual a sua maneira de avaliar. Enfrentar um Mestre durante uma contenda bônus não é interessante para todos os competidores. Para você, poucos oponentes é sinônimo de diversão.
Era verdade, uma menor quantidade de competidores indicava que estes eram corajosos o bastante para enfrentar um oponente tão formidável. Era esse o método de avaliação de Roamn, embora não tenha havido alguém que tivesse chegado ao menos perto de vencê-lo. Nas três oportunidades que teve de enfrentar os vencedores do Coliseu, nenhum durou mais que 30 segundos. Só tinham tempo de confirmar o desnivel entre seus poderes e os do Primeiro Mestre.
— Tem toda razão, Lizzie, mas não deveria julgar-me. Afinal, aprendi esse método com você, minha tutora.
“Roamn foi treinado diretamente por ela? Não é à toa que é tão forte!”, o coração do aprendiz disparou. Aquela era uma informação valiosa, a prova de que tornar-se uma Aposta era sinônimo de força.
— Tristana, onde eu assino, por favor? — Roy deu dois passos, ficando na frente do balcão. Alcançou uma pena com tinta, ansioso para rubricar o papel.
— Han? Ele é a sua Aposta? — Incrédulo, Roamn observou o garoto dos pés a cabeça.
— E quem mais seria? — perguntou Lizzie, sorririndo debochadamente.
Tristana dava as instruções finais a Roy, falava do cronograma que deveria ser cumprido rigorosamente e sem atrasos, enquanto Roamn se aproximava de Lizzie, curvando-se para nivelar sua altura com a da Rainha da Luz.
— Isso é inadmissível. Não está sendo precipitada demais? Um sem garoto sem sobrenome? Não brinque com a esperança da nação.
— Nunca falei tão sério antes. Hoje mais cedo já encaminhei o comunicado ao Conselho da Magia, anunciando minha decisão, assim como fiz à todas as Nações. A esperança vive!
Roy estava empolgado. Assim que assinou, não demorou mais do que dez segundos para driblar as pessoas que impediam sua passagem dentro da Estação de Atendimento. Correu sem dar nenhuma satisfação a Roamn, tampouco a Lizzie.
“Cinco dias apenas. É todo o tempo que tenho para provar que sou capaz!”
Roamn ignorou o garoto e prosseguiu com seu discurso de reprovação.
— Elizabeth, tem certeza do que está fazendo? Esse garoto não tem a mínima chance de vencer uma batalha sequer.
— Só porque você perdeu as esperanças não quer dizer que eu deva fazer o mesmo, Roamn. Será que não percebe que ele tem algo de especial?
— Nem ele mesmo percebe — caçoou o Primeiro Mestre.
— Nós estamos esperando por esse momento há seis anos, não podemos esperar mais. Você é o mais apto à treiná-lo.
— Você me conhece, Lizzie, foi minha tutora durante o Torneio das Apostas de seis anos atrás, eu não teria sobrevivido sem a sua ajuda. Lembre-se que um voto no Conselho é algo muito valioso para apostar em um ninguém. É algo muito maior que um simples palpite, você está arriscando tudo sem garantia alguma. Acredito que pela primeira vez você perdeu a sua preciosa visão, Lizzie — falou em tom sério e direto. Roamn respeitava demais sua Sábia e tutora, mas ele tinha certa razão. Roy não era apto ao trabalho.
— Tenha um pouco de fé, Roamn, tenho certeza que ele vai surpreender-nos positivamente. Além do mais, já está feito. Creio que em, no máximo, uma semana todas as nações estarão sabendo de minha escolha.
— Você assinou a sentença de morte do garoto, Lizzie. Contudo, se é isso que planeja, não vejo outra saída a não ser aceitar. Agora, se Vossa Majestade me der licença, eu gostaria de ir aos meus aposentos, acabei de chegar de viagem.
— Sim, não tenho serventia para você. Pelo menos, não por enquanto.
Roy não presenciou aquela conversa. Fez todo o caminho de volta ao Orfanato em tempo recorde, seu coração estava acelerado e sua mente não conseguia focar em mais nada além do que acabara de acontecer. Roamn seria o comandante da peleja no Coliseu dos Grandiosos e, se ele de alguma maneira vencesse, teria a chance de enfrentá-lo e provar seu valor, dar respaldo à decisão e merecer a confiança de Lizzie, tudo de uma só vez.
Adentrou pelo portão principal e seguiu até a biblioteca. Juven, o senhor de testa oleosa e quase sem cabelos, deu permissão ao garoto para entrar, apesar de estranhar suas últimas visitas. Roy nunca foi muito chegado aos livros, mas nas últimas semanas vinha frequentando periodicamente o vasto acervo do Orfanato. O garoto seguiu caminhando a passadas largas até chegar ao corredor vinte e três, seção de magias. Correu a mão pelas estantes a procura de algo específico, até que puxou um pequeno livro de capa escurecida. Folheou o índice enquanto se dirigia a uma mesa, olhou fixamente até encontrar o que procurava.
Técnica da Luz de Rank S — Desmaterialização da Alma
Suou enquanto encarava a descrição da magia, mas não tinha outra escolha. Se existia alguma técnica que podia surpreender, era uma que ninguém mais poderia utilizar. Só isso seria suficiente e era por isso que tentaria. Esse era o seu verdadeiro primeiro desafio, vencer a própria inutilidade. Puxou a cadeira e se sentou para iniciar a leitura, parte mais desagradável para ele. Sentiu um desconforto no bolso de seu calção e retirou a carta que a garotinha havia lhe dado.
NOVO AMANHÃ — quando colocada em campo, inicia um novo turno, deixando de lado tudo que aconteceu anteriormente. Um recomeço o espera e ele vem acompanhando de esperança abençoada nupérrimo raiar do sol
Animou-se instantaneamente, o jovem Auror acreditava em sinais do destino e aquele com certeza era um. Colocou a carta de lado e, de ânimos renovados, iniciou o seu aprendizado.
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