Destined Souls
7 Sinais
Relutou a abrir os olhos. Vislumbrou o terreno completamente destruído, resultado da batalha de outrora, se ergueu sobre as pernas trêmulas e pôs a mão esquerda sobre um ferimento aberto na barriga. Não conseguiu dar dois passos em linha reta antes de cair novamente. A visão continuou embaçada, mas, com esforço, conseguiu convergir os sentidos para vasculhar o recinto. Ficou de pé mais uma vez e usou todo o vigor que lhe restava para girar o torso. Piscou rapidamente, para tentar enxergar melhor, concentrou o olfato e sentiu a fetidez invadir-lhe as narinas. O estômago embrulhou quando discerniu que o fedor era originário de vísceras espalhadas pelo chão.
“Impossível…”, a palavra martelou o pensamento. Inúmeros corpos jaziam empilhados pelo cenário caótico. Cabeças e membros separados dos corpos, o sangue formava uma piscina escarlate que parecia não ter fim. Em meio a isso, uma única figura se ergueu em meio à carnificina.
— Quem é você? — a voz saiu sem força, quase totalmente abafada pelos ventos. Procurou endireitar-se, já prevendo que a figura seria inimiga e de força magnânima, responsável por toda aquela destruição. Cuspiu sangue e sentiu um frio desumano percorrer-lhe a espinha, como se a morte a sondasse.
— Onde está aquela fúria, Cassyeg? — O semblante era masculino e a voz era conhecida, mas Cassyeg não conseguiu discernir quem a confrontava. Buscou entender o que aquelas palavras significavam, já que sequer tinha lembranças de como havia chegado ali, tampouco de como a peleja se iniciara. Sem sucesso em obter tais respostas, tentou identificá-lo em última instância através do seu tipo de Fôlego Espiritual, uma vez que os Conjuradores eram especializados em sentir e gravar presenças, jamais esqueciam os resquício de seu F.E. Infelizmente, mas a garota não o reconheceu.
— O que quer de mim? Quem é você? — A garganta rasgou com o líquido viscoso que lhe invadiu a boca.
— Não importa! Afinal, nem Odin, o Pai de Todos, conseguiria salvar-lhe agora. O mais recompensador de tudo é saber que terei o prazer de privar todos esses tolos de sua sublime presença. Você deveria me agradecer. — O demônio se aproximou lentamente, materializando a arma que ceifaria mais uma vida. Uma adaga curta e curva, dotada da mais nefasta energia que Cassyeg já tinha sentido. Fechou os olhos e colheu o conforto necessário em suas lembranças ao abraçar aqueles a quem mais amava. Segurou as mãos de Roy e Vergil e pôde jurar que os sentiu uma última vez. Em seguida, não sentiu mais nada, o corte seco e rápido lhe decepou a cabeça, sua essência se esvaiu ao tombar do corpo inanimado no chão saturado de sangue. Devido aos estímulos nervosos, a garota reabriu os olhos um instante antes, apenas para vislumbrar o largo sorriso que exprimia a felicidade no semblante frio de seu algoz.
A jovem abriu os olhos calmamente, o batimento cardíaco acelerado e o suor frio eram os mais amenos dos sintomas após esse estranho sonho.
“Um, dois, três…”, respirou fundo e iniciou a contagem em seu pensamento, procedimento que tinha sido instruída a executar quando fosse acometida por tais sonhos. Havia passado por um tratamento psicológico na ala médica do orfanato e hoje os terríveis ataques de pânico originados pelos pesadelos eram apenas distantes lembranças. Enfim se acalmou, a barriga roncou ferozmente, avisando que já não se alimentava há horas. Cassyeg se encontrava em uma sala de treinamento, tinha passado a noite inteira praticando algumas magias para utilizar durante as Olímpiadas de Aesir e acabou adormecendo quando parou para descansar. Tateou o chão à procura de uma bolsa de couro, onde guardava algumas frutas, um cantil de água, meio pão de aveia, um punhal afiado, um pequeno embrulho e um livro de médio porte em ótimo estado, Bestiário Base de Criaturas Mágicas — Volume I.
Devorou o pão e as frutas enquanto sorvia de um só gole toda a água do cantil, folheando as páginas do livro. Deu uma última olhada nas características da besta mágica Luminarious, que teria de capturar caso quisesse vencer a competição, na qual tinha se inscrito um dia antes, e receber o prêmio em moedas de ouro. A Olimpíada de Aesir era uma competição de alto nível intelectual e mágico que acontecia no arquipélago de Balão Aquático. Sete provas ocorriam em sete dias, obrigando os competidores a otimizar seu tempo em meio a situações extremas. As despesas da viagem seriam pagas pelo orfanato, mas uma prova de corte, ainda sem local definido, decidiria aqueles que participariam da Olimpíada e a garota desejava o dinheiro extra para comprar alguns materiais de pesquisa. Além disso, participar da pequena contenda durante o Festival de Frei seria um ótimo exercício, por isso optou por inscrever-se na competição Procure a Luz.
Calculou que já estava quase na hora do início da disputa, então acelerou o passo. A medida em que caminhava pelos corredores, repassava mentalmente a parte principal do plano que havia traçado.
“Luminarious são criaturas bioluminescentes. De acordo com uma pesquisa recentemente publicada pelos Alquimistas, esse bichos usam seus pigmentos luminosos para atrair presas ou para rituais de acasalamento. Tudo que preciso fazer é achar a rota mais acessível e vazia. Assim que eu liberar um composto químico repleto de feromônios tenho reais chances de capturá-lo, pois ele virá até mim. Para finalizar, basta acertar uma de suas patas com o punhal e a sua locomoção rápida não mais será um problema, permitindo a sua captura.” O plano era coeso e, graças ao empenho de Cassyeg em conseguir os materiais, também era possível. Já que o uso de F.E. era vetado, a jovem usaria sua inteligência e planejamento para atingir seu objetivo.
Foco era uma das principais características da aprendiz de Conjurador. Desde cedo, pela manipulação da magia das águas, a jovem acreditava que esse era o principal segredo do sucesso e, por isso, dava atenção redobrada aos detalhes. Já havia analisado toda a planta da cidade e memorizado os principais pontos, cruzando-os com dados estatísticos das edições anteriores para verificar qual era o local mais vazio. Chegou a conclusão que as ruas e avenidas interditadas para a caça do animal possuíam um conjunto de ruelas paralelas, que levavam ao mais famoso ponto turístico da capital dos últimos anos e, durante a caçada, era acessível apenas aos desafiantes. O Fruto de Yggdrasil, uma das Marcas Divinas.
Há centenas de anos, antes da obliteração de quase toda a história conhecida, Odin e todos os Deuses caminhavam no plano dos homens sem precisar de um avatar, como nos dias de hoje. Conta-se que, naquela época, a longínqua Bifrost era acessada sem quaisquer restrições. A energia dissipada pela ponte divina era tão intensa que era capaz de fazer nascer imensos jardins vívidos em seu ponto de chegada. Os mais estudiosos no assunto explicam que, a cada encarnação, o tecido entre o plano dos homens e a própria Asgard ficava mais espesso, prejudicando seu acesso. Com sua passagem debilitada, os Deuses escolhiam seus avatares em tempos de dificuldade e concediam a eles uma fração de seu poder e sua experiência, que aumentavam de forma gradativa com o passar do tempo, para assim liderar a humanidade. Esses avatares estavam fadados a se tornarem os Grandes Sábios.
Assim, a divindade era transportada pela energia de Bifrost e, ao atingir o solo, acabava por criar uma árvore de tronco robusto e copa frondosa, com folhas de uma cor verde intensa, capaz de resistir a qualquer desastre natural, o que deu origem ao termo Marca Divina. A última vez que tal força atingiu o plano dos homens foi no continente de Gaia. Mais precisamente, doze anos antes, na cidade capital de Alvorecer, durante mais um conflito entre as nações da Luz e das Trevas. Lizzie Leamak era uma jovem prodígio, gênio na arte das estratégias bélicas. A garota foi alvejada pelo imenso poder de Freya, transportada diretamente de Asgard pela Bifrost.
Naqueles dias, o conflito entre as nações culminava para uma vitória de Midtreno, liderada pelo Sábio Neol Nikish, que havia derrotado Hrizie Ametista, antiga Sábia da Luz, em um combate singular. No entanto, a chegada da divindade Freya deu novos ânimos aos exércitos dos Aurores. Sob o comando de Lizzie, foi organizada uma meticulosa investida, que derrotou a principal horda combatente inimiga, diminuindo consideravelmente o poderio de Neol. Dessa maneira, o Sábio das Trevas não teve outra escolha além de aceitar a pressão de seus aliados e do Conselho da Magia a cessar a guerra e assinar o tratado de paz, vigente até os dias de hoje.
Os detalhes do plano estavam gravados e eram repassados periodicamente nos pensamentos da desafiante. Estava tão concentrada que quase passou direto pelo ponto de início da competição. A Avenida Ametista era predominantemente residencial, um dos principais motivos para o veto do uso da magia durante tal competição, além de dificultar a captura da esperta criatura. Por sinal, a besta era exibida para a multidão, acompanhada por um experiente criador e outros cinco homens uniformizados. O bicho tinha a pelagem densa em duas cores, marrom da cintura para baixo e esbranquiçada do tronco para cima. As garras eram afiadas, provavelmente rasgariam uma pele sem proteção mágica ou de armaduras sem dificuldade, o pescoço era longo e a cabeça afilada. As maiores particularidade ficavam por conta dos apertados olhos cinzas e do bico semelhante ao de uma águia gigante.
— ATENÇÃO, SENHORAS E SENHORES! — Um dos cinco homens deu um passo à frente e iniciou o discurso aos berros. Os outros quatro materializaram seus arcos de luz e atiraram suas flechas para os céus, chamando a atenção dos competidores. — Chegamos a mais uma edição de Procure a Luz. Neste ano, 1364 competidores de todo o continente irão participar e disputar o prêmio de dez mil moedas de ouro!
“Dez mil?!” A quantia era mais do que suficiente para a garota. Na verdade, era uma pequena fortuna para alguém de origem tão humilde. Seria capaz de viajar por quase todo o continente, comprar seus utensílios para pesquisa e, com a administração correta dos gastos, com certeza ainda sobrariam algumas moedas. Espremeu-se entre as pessoas, pedindo licença a dois brutamontes que lhe tapavam a visão, caminhou alguns passos até chegar na frente da multidão e, enquanto o homem fazia seu discurso, adiantou sua estratégia.
Verificou a posição de todos as saídas à sua frente, contou dezoito rotas de fuga por entre ruas e por cima dos prédios, sem contar aquelas às suas costas. Constatou, então, que haveria pelo menos trinta rotas para os competidores usarem quando o animal fosse solto. Tudo que ela precisava era tomar o caminho menos tumultuado e de lá partiria em direção a Marca Divina, o Fruto de Yggdrasil. Com mais uma espiada, vislumbrou Olívia Baltez, William Parier e os famosos gêmeos Niguh e Ninum Crow, todos residentes do Orfanato Dulaham.
“Merda! Os gêmeos estão aqui”, praguejou a menina, quase deixando escapar as palavras. Entretanto, não teve tempo para encarar o problema, o examinador chegou em uma parte importante do discurso.
— Lembro-lhes que a criatura está vinculada a uma série de encantamentos para evitar trapaças, incluindo o uso de magias. A vitória será garantida no momento em que um único competidor alcançar a marca do teletransporte nas costas do Luminarious — falou enquanto apontava o dedo para as costas da criatura.
— Vamos logo! Isso tudo não passa de um simples pega-pega, não é mesmo? — gritou um dos competidores, inflamando uma parte da multidão com o comentário.
— Aos desavisados, terei de lembrar o porquê da competição ser considerada de nível intermediário — o homem bravejou, lutando para sobressair-se entre as muitas vozes. Aproximou-se, do criador que acariciava a pelagem da besta mágica, e lhe falou calmamente. — Vamos, Jester, libere a diversão.
Com um sutil toque, o criador ordenou ao seu servo. A besta entendeu o comando e iniciou a reação que fazia justiça a seu nome. A F.E. liberada pelos poros entrou em contato com o oxigênio, fazendo com que sua pelagem emitisse luz própria. O bicho saltitou três vezes sem sair do espaço que ocupava, como se estivesse se aquecendo. Na quarta vez, Cassyeg percebeu a energia concentrar-se nas pernas do monstro, que saiu em disparada. O vento provocado por sua arrancada espalhou poeira por todos os lados. Metade da multidão se dispersou, já esperando esse acontecimento.
— O que estão esperando? Vocês têm o prazo de nove dias. — Sorriu descaradamente para os desafiantes restantes.
Cassyeg observou o homem que há pouco debochava da competição dar de ombros, percebendo que não conseguiria sequer rastrear a criatura, e muitos outros seguiram seu exemplo. Os competidores, que haviam ficado parados durante a arrancada da besta, acordaram e partiram atrás de pistas de seu paradeiro. Mas Cassyeg agora tinha outra coisa em mente, os gêmeos Crow.
Niguh e Ninum Crow eram os irmãos mais famosos do Orfanato. Eram baderneiros natos, mas sua origem nobre e notas exemplares sempre os mantiveram longe de problemas. Havia boatos que o próprio Ancião Dulaham dava ordens para que fizessem vista grossa para os garotos. Os Crow eram um clã de estudiosos de origem do território da Natureza, dos arredores da Capital Florygdrasil, que migraram para o Alvorecer durante o surto das máquinas, cerca de trezentos anos antes. Fizeram sua fortuna com a publicação de obras de respaldo literário e mapas cartográficos, que mostravam rotas do continente de Gaia até ilhas relativamente próximas ao continente anão de Motsongir, a noroeste, o mais longe que qualquer embarcação ou montaria alada poderia chegar. Sua família fez parte do grande batalhão que foi dizimado durante a guerra por Isaac Idrochi, o Especialista das Trevas. Com isso, os gêmeros acabaram sendo acolhidos pelo Orfanato.
Niguh havia herdado um poderoso F.E. do tipo Luz e usufruia de um discernimento estratégico excelente, apesar de ter um emocional facilmente abalável, que beirava a irracionalidade. Já Ninum era dono de uma memória fotográfica impecável, aliada a um grande entendimento dos mais diversos tópicos, desde política e evolução até máquinas e manipulações elementais, além de ter herdado um poderosíssimo F.E. do tipo Trevas. Formavam um time perfeito, um sempre cobrindo o ponto fraco do outro. Os garotos eram donos de inúmeros troféus de competições e esse ano tinham colocado os olhos no prêmio de Procure a Luz.
Cassyeg percorreu uma das ruas, cujo caminho havia gravado, enquanto martelava a dúvida se os gêmeos tinham descoberto quem roubou os ingredientes para a fabricação do composto químico similar aos feromônios expelidos por um Luminarious. Se tivessem, provavelmente estaria em apuros. Os garotos tinham um temperamento vingativo e ela sabia que não poderia enfrentar os dois de uma só vez. Além do mais, poderiam existir olheiros dispostos a desclassificar qualquer um que usasse magia durante a competição. Continuou a corrida até entrar em uma travessa estreita, que levava à uma das ruas paralelas, peça chave para alcançar o Fruto de Yggdrasil.
Suas pesquisas se provaram corretas a medida em que se aproximava da Marca Divina. A maioria esmagadora dos competidores havia se espalhado pelos setore a oeste do centro da cidade, onde as ruas ficavam mais estreitas, mais propícias para o bicho esconder-se. O comportamento de Luminarious indicava que ele não usaria sua velocidade total a não ser que fosse ordenado por seu Criador ou que se sentisse extremamente acuado. Caso isso acontecesse, a criatura alcançaria cerca de 80 quilômetros por hora, velocidade que nenhum humano poderia atingir sem utilizar F.E., por isso todos esperavam encurralar o bicho de uma maneira que não o fizesse sentir-se em total perigo e isso poderia levar os famosos nove dias de prova.
Cassyeg avistou o tronco robusto do Fruto de Yggdrasil enquanto movia-se para o leste, lado oposto de onde todos os outros estavam. A grandiosa árvore, símbolo da chegada de Freya ao plano humano, era circundada por uma área verde e florida, as casas se encontravam a uma boa distância, cerca de 80 metros a frente. Esse espaço era perfeito para a garota, que poderia ver o movimento de estranhos aproximando-se a sua frente, assim como o provável animal desenfreado. Olhou para trás uma última vez, para ter certeza de que não vinha ninguém, abriu a bolsa calmamente e retirou o pequeno embrulho.
“Vamos, Luminarious, apareça…”. Antes de conseguir abrir o embrulho, escutou o barulho de rápidos passos e se virou a tempo de ver o rosto de Niguh ao fechar o punho e atingir-lhe o rosto. A jovem rolou pelo chão coberto de flores e deixou cair o composto químico, que Ninum apanhou imediatamente, tomando cuidado para não liberá-lo. A jovem se ergueu com dificuldades, havia sido pega totalmente de surpresa.
“Mas como foi que eles…?”
Quando conseguiu levantar-se, Niguh segurou sua face com força, arrastando-a em meio ao pequeno jardim. O jovem corpulento arrastou-a por alguns metros, jogando-a contra o tronco da Marca Divina. O golpe foi duro, sentiu uma forte dor nas costas acompanhada de leve tontura, talvez ainda não tivesse se recuperado totalmente do último ataque.
— Pensou que ia safar-se, não foi, Cassy? — Niguh aproximou-se de seu irmão enquanto debochava da garota.
— Sua fama de mãos leves é verdadeira. Foi capaz de roubar o composto com certa eficiência. Infelizmente, você se meteu com as pessoas erradas — emendou o outro garoto.
“Ele possuía a marca da Runa do Silêncio desenhada na palma de sua mão, por isso não pude sentí-lo.” As Runas eram inscrições antigas que serviam como selamentos mágicos para os mais diversos propósitos. Todavia, era improvável que os garotos tivessem algo mais daquele naipe, já que o estudo das Runas era de difícil entendimento e aprendizado. Analisou a situação rapidamente para deduzir o nível de perigo, já havia presumido que não poderia derrotar os dois, mas defender-se era a única saída. Vagarosamente, abriu sua bolsa e retirou o pequeno punhal, pôs-se em posição de batalha com a arma à frente do rosto enquanto pensava em uma solução.
— Vocês deveriam ir embora, com certeza existem olheiros por todas as ruas. Se vocês forem pegos usando magia, estarão com problemas — alertou a garota, mas os jovens não deram ouvidos.
— E quem disse que precisamos de magia para dar-lhe uma lição?
— Você é apenas uma inútil, Cassy. Toda essa pose de intelectuial que você tem é apenas uma fachada para esconder o que realmente é, uma pequena ladra — Ninum continuou o discurso pejorativo de seu irmão, tentando atingir seu psicológico, enquanto amarrava o pequeno embrulho contendo os feromônios do Luminarious a um barbante no cinturão da calça.
Cassyeg avaliou suas opções. Os gêmeos não a deixariam fugir, eram pretensiosos demais para isso. Seu cantil estava vazio e não tinha nenhuma Runa da Água preparada, o que a impossibilitava de realizar manobras mágicas rápidas. O único obstáculo do terreno era a grandiosa árvore e isso era ruim, já que um dos gêmeos era muito bom com o arco e flecha e seu campo de visão estava quase totalmente aberto. A maga já conhecia bem a estratégia de batalha dos dois. Para abater os alvos mais rapidamente, o gêmeo com F.E. das Trevas entrava em combate corpo a corpo, impedindo que visse seu irmão, que permanecia a uma distância segura atirando flechas. Eles possuíam ótima sincronia, levando a uma grande taxa de eficiência em seus embates.
A jovem aprendiz de Conjurador deu o primeiro passo, tentando pegá-los de surpresa. Arrancou rapidamente na direção de Niguh, para impedir que este puxasse o arco em suas costas ou mesmo que o materializasse. Cassyeg desejava manter o embate sem o uso de magias, já que sua desvantagem era óbvia. Ninum bloqueou sua passagem, desferindo um cruzado de direita. Cassyeg freou enquanto erguia o braço esquerdo, defendendo-se da investida, mas o golpe seguinte ela não teve chances de bloquear. Ninum a chutou com a planta do pé, acertando-lhe o estômago e fazendo-a cambalear. Sem tempo de respirar, observou Niguh empunhar seu arco e alvejar-lhe com flechas de aço.
“Eu consigo desviar!” — Saltitou para trás dando cambalhotas com esse intuito, mas durante a manobra percebeu o pior. O brilho do sol reluziu em uma das flechas que a garota evitou revelando a manobra estratégica de Niguh. Na parte final da flecha, conhecida como rabeira, estava amarrado um fio metálico maleável usado para amarrar fortes bestas e impedir sua locomoção. O intuito de Niguh nunca foi acertar Cassyeg, mas sim fazê-la pensar isso. Ninum avançou velozmente segurando os fios e entrelaçando o corpo da garota que caiu inerte.
— Finalmente pegamos a pequena ladra — o guerreiro elemental comemorou. — Sabe, Cassy, você deve conhecer uma história parecida, já que é uma leitora assídua. — Ninum socava o rosto da garota. — Há muito tempo, aqueles que eram pegos roubando eram condenados aos mais diversos castigos, sabia? O meu predileto era quando os ladrões tinham os olhos arrancados. Afinal, não se pode roubar aquilo que não se vê, não concorda? — Os golpes abriram cortes no rosto da jovem, que estava totalmente indefesa. Lutava para desvencilhar-se das amarras, mas sendo atacada daquele jeito seria impossível.
— Isso a ensinará a nunca mais se meter com os Crow. — Niguh aproximou-se, guardando o arco nas costas.
— Tive uma ideia melhor. — Ninum agarrou a garota pelas pernas e começou a arrastá-la em direção à árvore. — Existia também um castigo onde o ladrãozinho era amarrado de ponta cabeça à uma grande estaca na frente de todos aqueles a quem havia roubado. Sabe, essa competição irá perdurar nove dias, Niguh e eu faremos de tudo pra isso. Até lá, você estará condenada a pagar pelo seu pecado, aqui mesmo. Não se preocupe, não a mataremos. Inclusive a deixaremos informada de tudo que acontecerá no festival, principalmente a derrota do seu amiguinho idiota. Você saberá de tudo, não é ótimo?
O garoto estancou ao lado do Fruto de Yggdrasil, mas, antes de iniciar a escalada, sentiu o crânio chacoalhar e apagou imediatamente. Ninum despencou sem aviso prévio, sem chance alguma de revide. Cassyeg sentiu um F.E. latente e ouviu o berro do outro garoto a alguns metros. Concentrou sua energia e fez força para soltar-se das amarras. Colocou-se de pé com dificuldades e viu Vergil socar Niguh continuamente, que já estava quase desacordado devido a ferocidade dos ataques.
— PARE! ASSIM VOCÊ VAI MATÁ-LO! — gritou a jovem Conjuradora. Os olhos do garoto brilhavam em um ódio ardente. Batalhou com todas as forças para não fazer o que seus instintos lhe mandavam. Ergueu o punho enquanto sussurrava a sentença do gêmeo.
— Escute com atenção, seu pedaço de merda, só vou falar uma vez. Caso eu sonhe que está respirando o mesmo ar que Cassyeg, irei certificar-me que você atinja o plano de Hela da maneira mais excruciante possível, entendeu? Não existirá lugar que você possa esconder essa sua presença fétida de mim. Os injustos não são dignos de Valhalla! E acredite, quando nos encontramos lá embaixo, eu farei você repensar o significado da palavra inferno. — Vergil o atingiu mais uma vez e Niguh caiu desacordado, com o rosto completamente inchado. Os punhos do pecador estavam envolvidos de F.E., o que causou alto dano aos gêmeos. O garoto correu para ajudar sua amiga, oferecendo-lhe o ombro como apoio.
O silêncio falava por si só. Vergil conhecia Cassyeg muito bem e sabia que aquilo para ela era humilhante. A Conjuradora era forte, mais do que ela mesmo pensava. Já havia derrotado Vergil muitas vezes em pelejas amistosas e ser salva duas vezes seguidas era uma afronta a seu ego. Sabia também que sua amiga estava profundamente agradecida, mas não esperou que dissesse uma só palavra.
— Estou partindo para Midtreno esta noite. — A notícia a pegou de surpresa. Ela enxugou o sangue do rosto, se desvencilhou do pecador e foi ao encontro de Ninum, que estava desacordado ao lado da árvore. Desamarrou o embrulho e o jogou a uma pequena distância, esperando a criatura aparecer. — Decidi que seria melhor continuar o meu treinamento na Nação das Trevas, quem sabe tornar-me um grande especialista — continuou, sorrindo retraidamente.
Cassyeg procurou o punhal que havia deixado cair e esperou alguns instantes. Luminarious apareceu rapidamente, os feromônios ensandeceram a criatura a ponto de ela sequer ligar para a presença dos dois guerreiros. Usou as garras afiadas para destroçar o embrulho, que cheirava como uma fêmea de sua espécie, e continuou até abrir um buraco no chão. A pelagem da criatura brilhava alucinadamente. Cassyeg correu, estocando o punhal na perna da criatura, que emitiu um grunhido agudo de dor. Mesmo assim, continuou a fuçar os restos embrulho em busca da origem daquele cheiro.
— Os filhos de Loki não são maus em sua essência, Vergil. Quando alguém referir-se a você como Filho da Serpente, lembre-se de hoje. Você poderia ter matado os gêmeos, mas não o fez. Você é a pessoa de coração mais bondoso que eu já conheci. Estou ansiosa para nos encontrarmos de novo. Até lá, não mude.
A garota tocou o símbolo nas costas da criatura e uma luz lhe acometeu, engolindo todo o seu ser. Havia se teletransportado através da magia preparada para reivindicar o prêmio da contenda. As palavras gentis tinham um significado especial para o Pecador, que já as havia falado para ela, em seu primeiro encontro quando crianças.
“Ninguém jamais estendeu a mão para mim, um dos Filhos da Serpente. Você é a pessoa de coração mais bondoso que eu já conheci.” O garoto se perdeu em lembranças enquanto apanhava os gêmeos do chão. Subitamente, a maldita voz dos seus sonhos o lembrou, “você sempre estará sozinho.”
— Seja lá quem for, talvez esteja errada — falou para si mesmo, finalmente partindo.
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