Destination

3 O Dono Dos Olhos Azuis Tempestuosos


Trevas. Choro. Sofrimento. Dor.

Eu ainda estava na escuridão, mas eu podia sentir no ar tudo isso. Também havia medo. E... E uma voz maléfica que vinha de algum ponto abaixo de meus pés. Sua risada tenebrosa ressoava aguda em meus tímpanos e o chão tremia com sua gargalhada. Encolhi-me no canto da parede, tampando meus ouvidos com força, tentando acordar daquele pesadelo.

Mas, não era um pesadelo. Eu tinha total consciência de cada parte do meu corpo, e aquele medo era tão real que não podia ser apenas uma ilusão.

Medo do que? Eu não sabia exatamente. Eu só sabia que estava assustada.

"Você precisa ajudar."

Eu não sabia quem sussurrava para mim, mas eu sabia que, quem quer que fosse, tinha uma aura diferente. Eu nada via, mas de alguma forma eu sabia que o ar a sua volta deveria ter um brilho perolado. Ouvir sua voz me lembrava praia e... Bolinhos de amora da minha mãe.

"Faça isso por eles. Ajude-o!"

Eu não sabia como, mas eu tinha certeza de que a pessoa falava de meus pais. Senti um aperto em meu coração e uma lágrima quente rolou por meus olhos.

"Eles iam querer que você ajudasse. É o seu destino, você precisa ajudar Percy!"

"Mas quem é Percy? O-o que eu tenho de fazer? Não entendo!"

"Doze badaladas... É o começo do fim. Ajude Percy, ajude Percy!"

- Annabeth?! Annabeth querida, fale comigo!

Mãos gélidas e trêmulas davam leves palmadas em minhas bochechas e aos poucos fui voltando à realidade. Atordoada, apertei fortemente minhas pálpebras, sentindo meu cérebro dar giros de 360 graus dentro de minha cabeça.

- Outch.

- Graças a Deus, ela acordou!

Reconheci, ainda de olhos fechados e cabeça girando, a voz de minha avó. Suas mãos pequeninas passaram a afastar os cabelos que grudavam em meu rosto, e ela cochichava aliviada com outra pessoa, que logo depois descobri ser Charles.

- O que foi que houve? — Perguntei, rouca. Parecia que havia um deserto inteiro dentro de minha boca. — Onde estou?

- Você desmaiou, Anna. Lilá te encontrou caída no corredor e veio me avisar, então te trouxe para sua casa. — Charles respondeu com seu sotaque quasebrasileiro. — Você devia ter me avisado que estava cansada, eu teria te liberado antes! Ficamos preocupados com você.

- Há quanto tempo estou apagada?

- Uma hora, querida. — Vovó apertou minhas mãos entre as suas, e aquele ato me refrescou brevemente. Um dia eu ainda vou desvendar o mistério das mãos sempre geladinhas dos avós.

- A garotinha... — Lembrei-me de supetão, praticamente pulando na cama. — Charles! Tinha uma garotinha perdida lá no aquário! Meu Deus! Eu, eu...

- Que garotinha, Anna? Não tinha ninguém lá, apenas você. — Meu chefe me olhou com um semblante confuso, e eu ficara ainda mais atordoada. Como assim não tinha nenhuma garotinha? Eu a tinha visto!

- Mas... Eu...

- Aposto que você está delirando de fome. Que tal aquela torta de maçã que você adora? Você fica também, senhor Charles?

Minha avó e meu patrão saíram de meu quarto, falando sobre o susto que eu havia pregado neles e sobre como os jovens de hoje em dia não se alimentam bem.

Só minha avó mesmo para resolver fazer um chá da tarde em plena meia noite.

Meia noite.

Isso me fez lembrar do sonho estranho que estava tendo antes de acordar. Um calafrio percorreu minha espinha, e uma sensação desagradável me assolou. Estupidamente, esperei que as paredes do meu quarto desabassem ou um meteoro caísse bem no meu quintal, mas nada disso aconteceu. Por longos cinco minutos, eu fiquei sentada estaticamente na minha cama, movendo apenas meus olhos em todas as direções possíveis. Mas nada mudou.

Por fim, fui relaxando. Talvez, tenha sido tudo um sonho mesmo. Talvez, aquela garotinha nunca tenha estado perdida no aquário e tudo não passara de uma alucinação da minha cabeça fraca e cansada.

O doce aroma de maçã com canela foi ocupando todas as minhas preocupações e, quando cheguei à cozinha e dei a primeira garfada na minha torta favorita, tudo o que me afligia não passara de uma mera lembrança dispensável.

Afinal, eu sou jovem e tenho a imaginação fértil, não é mesmo?

Xx

- Eu ainda não acredito que você me convenceu a fazer isso!

Olhei para onde devia estar os olhos verdes de minha amiga, mas tudo o que consegui visualizar foi aquela terrível e grandiosa cabeça de abóbora. Não, não é nenhum tipo de apelido carinhoso, era literalmente uma cabeça de abóbora que havia sobre o tronco laranja da minha amiga.

Para te ajudar a entender, eu vou explicar o que está acontecendo. Hoje, depois que saímos do colégio e fomos para minha casa terminar as tarefas antes que eu fosse pro aquário, Lorena enfiou em sua cabeça a ideia de que seria ótimo se fôssemos para o baile a fantasia do colégio que aconteceria de noite. Eu tentei argumentar, dizendo que não daria tempo porque eu sairia muito em cima do meu serviço, mas eu deveria saber que, Lorena sendo persistente do jeito que era, ela conseguiria me enfiar naquela roubada de um jeito ou de outro. Dito e feito: aquela danada me arrastou até o escritório do meu chefe, onde implorou (em seu nome, é claro) que Charles me deixasse sair mais cedo para podermos comemorar o Halloween. Ainda pesaroso com o meu incidente, ele logo concordou com a ideia de Lorena e resultado: estou aqui fantasiada de boneca assassina enquanto Lorena usa uma fantasia realmente assombrosa de abóbora ambulante. É serio, isso causaria um enfarto em qualquer personal stylist.

A decoração até que estava razoável, nada que fosse realmente muito assustador. Papéis higiênicos cortavam o teto de uma ponta a outra e eu acho que aquilo era uma tentativa escrota de criar teias de aranha. Thriller de Michael Jackson tocava nos altos falantes e fora isso, acho que apenas o ponche se salvava. O diretor suspirava entediado com a conversa da professora Conceição; garotos idiotas tentavam me assustar com suas fantasias toscas e minha sandália me apertava o calcanhar. Você deve estar me achando uma chata, mas é porque você não convive cinco horas por dia, cinco dias por semana com as pessoas do meu colégio. Inclusive com meu namorado. Ricardo sequer se deu conta de que eu estava ali e também não havia comentado comigo que viria para a festa. Eu sei que deveria ir lá e pedir uma justificativa decente, mas eu realmente não estava com disposição para brigar. Não com tantas pessoas em volta. Se tem uma coisa que eu detesto, é chamar atenção. Deixando um suspiro cansado escapar de meus lábios, resolvi que era melhor dar as costas para a cena lastimável de meu namorado agarrado com uma garrafa de vinho tentando dançar o moonwalk fantasiado de lobisomem.

Acho que vou pegar trauma de halloween depois desse dia.

- Vem, vamos dançar! — Lorena puxou-me pelas mãos, jogando nossos corpos no meio da pista de dança. Tudo bem, era uma boa tática de permanecer longe dos olhos de Ricardo.

Sabe a estranha sensação de que te observam? Eu sei que eu tô no meio de uma festa e há um monte de gente à minha volta, mas... Era uma sensação forte. Pinicava minha nuca e arrepiava os pelos de meu corpo. Parei de dançar por alguns minutos, buscando em volta a razão daquele meu incômodo. Como um instinto natural, meus olhos seguiram direto para um garoto. Ele não usava fantasia alguma, mas trazia em mãos uma... Espada? Bom, deveriam avisá-lo que guerreiros não usavam camiseta laranja e calças jeans em época alguma.

Quando nossos olhares se cruzaram, um forte calafrio percorreu todo meu corpo. Eu estava suada de dançar e o ambiente a minha volta estava quente, mas por um segundo, por um milésimo de segundo, eu podia jurar que tudo a minha volta foi coberto por uma névoa de gelo. Não sei quanto tempo permanecemos conectados pelo olhar, mas quando percebi, um outro garoto puxava-o para longe da multidão, desaparecendo logo depois.

Um zunido fraco em meu ouvido emitia vibrações por todo meu cérebro, e eles pareciam imitar a voz do meu sonho: ajude Percy, ajude Percy! Doze badaladas! Instintivamente olhei pro relógio em meu pulso. Onze horas da noite. Meu coração acelerou dentro do peito, e eu estava começando a ficar assustada com tudo aquilo.

- Anna? — Lorena tocou delicadamente em meu ombro, assustando-me. — O que foi? Parece que você viu um fantasma!

Em uma situação comum, eu teria dado risada. Estávamos em uma festa de Halloween; era meio óbvio que haveria muitos fantasmas ali, assim como zumbis e extraterrestres. Mas eu não conseguia formular nenhuma frase coerente, então eu simplesmente abanei minha cabeça, sorrindo tremulamente para minha amiga, que ainda me fitava com preocupação.

- Eu vou tomar um ar, tudo bem?

- Quer que eu vá com você?

- Não, tudo bem! Pode ficar aqui, eu volto já.

Lorena não discutiu, mas me olhou como se eu fosse desintegrar na sua frente numa fração de segundos. Suor se acumulava no meu rosto, mas definitivamente não tinha nada a ver com o calor que fazia ali dentro.

Deixei o piso térreo, subindo dois lances de escadas e finalmente chegando ao terraço. A noite estava bonita. Havia estrelas, uma centena delas. A meia lua iluminava o céu e uma brisa suave tocava meu rosto. Mas havia algo de errado.

Comecei a reparar nas nuvens, nas poucas presentes, na verdade. Tinham uma tonalidade avermelhada e pareciam se enroscar uma nas outras, como serpentes que duelavam entre si. Estava distraída tentando encontrar uma explicação razoável para aquele fenômeno, quando uma voz partindo atrás de mim me trouxe de volta à realidade com um grito agudo que segundos depois eu descobri ter partido de mim.

- Calma, calma! Tudo bem, eu não vou te machucar!

O garoto, o mesmo de minutos atrás, esticava ambas as mãos na minha direção, agitando-as na tentativa de me acalmar. A primeira coisa que pensei quando ouvi sua voz, foi: wow, que voz é essa? E bem depois percebi que ele não falava português. Assim que fixei meu olhar no seu, senti todos meus ossos virarem pó. Havia certo brilho enigmático em suas esferas azuladas que me hipnotizavam.

- Eu... Te conheço de algum lugar? — Perguntei tolamente, sentindo minhas bochechas esquentarem quando ele sorriu meio sem jeito, dando de ombros rapidamente. Sorte ter feito aquele curso de inglês ano passado.

- Ahn, provavelmente não.

- É claro que não. Mas... Presumo que você também não veio estudar aqui, não é?

- Não. — Nervosamente, ele olhou para os lados, como se estivesse fugindo de alguém. — Olha, eu preciso ir, só estava procurando uma...

- Você se chama Percy? — Interrompi o que ele falava, sentindo novamente aquelas coisas estranhas vibrarem dentro de mim. Dessa vez pareciam mais fortes.

- Como... — E como se fosse tomado por um entendimento oculto, ele mudou sua postura, assentindo para si mesmo. — Você por acaso se chamaAnnabeth? — Concordei com um aceno breve, sentindo meu coração acelerar perante o modo como meu nome soava bem em seu timbre. — Como sabe meu nome?

- E-eu não sei bem. — E eu não sabia mesmo. Dizer que eu sonhei com o nome dele ia parecer bizarro demais, por mais que aquela fosse a verdade. — É meio... Confuso.

Percy se aproximou cauteloso, e estava prestes a dizer algo quando aquele outro garoto, o que tinha arrastado Percy para fora de pista de dança antes surgiu correndo alucidamente em nossa direção. O que aconteceu depois foi uma sucessão de rugidos e... Balidos?

- Corre, Percy!!! — O outro garoto gritou e eu podia jurar que ele tinha cascos no lugar dos pés.

Sem pensar duas vezes, Percy agarrou minha mão, puxando-me consigo. Sem saber por que ou de quem corríamos, fiz a mesma coisa que qualquer pessoa na minha situação faria: chequei por sobre o ombro a causa daquele frisson todo.

E eu juro que eu nunca vi coisa mais bizarra em toda minha vida antes.