Destination
4 Revelando Segredos do Passado
É tudo um pesadelo. É tudo um pesadelo. É tudo... Oh meu Deus, isso não é um pesadelo!Percy ainda segurava minha mão enquanto descíamos as escadas e atravessávamos a multidão em direção aos portões de saída. Pelo canto do olho vi brevemente minha amiga procurando alguém — que eu presumi ser eu — e também vi aquele que devia ser meu namorado agarrado com outra. Mas eu não tinha tempo pra me importar com aquelas coisas. O outro garoto de cascos de bode — eu chequei enquanto corríamos e sim, aquilo eram cascos! — balia como uma cabra assustada, e eu confesso que aquilo não me ajudava muito. Eu não sabia o que estava acontecendo e eu queria realmente acreditar que era tudo uma alucinação ou até mesmo mais um sonho maluco meu, mas de uma forma terrivelmente consciente, eu sabia que nada daquilo era ilusão.
Paramos de correr quando alcançamos a calçada, escorando-nos nos carros e espiando pelos vidros a entrada do colégio, que permanecia igual como nos outros dias normais.- Aquilo era... O que era aquelas coisas??- O que foi que você viu, exatamente? — Percy perguntou-me, segurando firmemente uma caneta esferográfica numa das mãos. Ele não parecia tão apavorado quanto o outro.- Como assim o que foi que eu vi? A mesma coisa que você, eu suponho! — Eu não queria dizer em voz alta, pois parecia maluquice demais para uma pessoa só. Mas Percy fitava-me com insistência, então depois de respirar fundo, comecei a falar. — Pareciam... Não sei bem, mas, pareciam... Soldados caveiras.- Bééééé! A nevoa não funciona! A nevoa não funciona com ela Percy! Ela é a garota dos seus sonhos!A situação não pedia, mas nenhum de nós dois conseguiu disfarçar o constrangimento repentino. Assim como eu, as bochechas de Percy estavam vermelhas.- Desculpe-me pelo Grover, ele tomou muito sol na cabeça essa semana.- Eu também sonhei com você. Quero dizer, não com você. Mas, no sonho, me disseram que eu devia ajudar você. — Sorri nervosa, achando aquilo tudo muito bizarro, mas Grover e Percy pareciam aflitos. — Você sabe o que isso significa? Quero dizer, você precisa da minha ajuda mesmo?- Eu... — Percy respirou fundo, parecendo desencorajado num primeiro segundo, mas depois de trocar um único olhar com Grover, assentiu, aderindo um tom de voz mais baixo. — Nós ainda não sabemos como, mas você é a nossa única salvação. Por algum motivo...- É o meu destino. — Completei, lembrando-me claramente de tudo o que a voz disse no meu sonho. "Eles iam querer que você ajudasse. É o seu destino, você precisa ajudar Percy!" — Olha, isso é tudo muito assustador. — sorri nervosa. — Mas, eu não sei como ou onde, mas alguma coisa vai acontecer à meia noite. Uma coisa ruim.- Eu acho que eu sei onde devemos ir.Grover pareceu farejar o ar e depois apontou para a placa onde dizia: Aqualand a 100km. - O que tem lá? — Eu perguntei, apontando pra placa. Meu coração parecia uma britadeira. Todas aquelas coincidências — se é que podemos chamar assim- estavam me tirando da realidade.- Não sei exatamente. Mas eu sinto que devemos ir pra lá.Assenti, sentindo um nó se formar na minha garganta. Eu também sentia alguma coisa vibrar dentro do meu peito, e não era uma das melhores sensações do mundo, devo dizer.XxNa nossa atual situação, eu acho que pegar emprestado é o melhor termo para justificar o sumiço de um Jeep do estacionamento da escola. Eu acho que nós três sabíamos que aquele carro nunca voltaria pro seu dono, mas tentávamos pensar positivo.Quinze minutos depois, indiquei o melhor lugar para que pudéssemos sair sem ser vistos por ninguém. Nos aproximamos sorrateiramente e se alguém nos visse, poderia achar que éramos adolescentes procurando encrenca. Embora tudo aquilo fosse realmente uma encrenca. Das grandes. Quando pulamos os muros, eu senti como se fosse a primeira vez que eu estava pisando ali. Ao longe, os sons de água caindo da cachoeira artificial era o único barulho que nos mantinha preso à realidade. O aquário estava banhado por uma claridade pálida, dando a impressão de estar abandonado há séculos. Parecia até mal assombrado.- Eu nunca reparei em como o aquário é assustador à essa hora.- Você trabalha aqui? — Percy perguntou, certamente tentava me distrair. Eu respondi com um murmuro baixo. — É um lugar bacana.- Gosto de pingüins. — Respondi sem pensar, e logo depois começamos a rir. Não era uma resposta que fazia muito sentido.Caminhamos por alguns segundos, sem saber exatamente para que lado seguir. E, mesmo que eu nunca os tivesse visto em toda minha vida, minha intuição me guiou sem que eu percebesse para o tanque central, aquele maior onde os tubarões e arraias viviam. -Annabeth...? — Percy sussurrou, mas Grover o interrompeu. Era estranho pois eu tinha a noção dos corpos deles próximos ao meu, mas ao mesmo tempo era como se eu estivesse muito longe dali. Fechei meus olhos e deixei que a força sobrenatural que me cercava me levasse para onde eu tinha que ir.
Eu vi campos de trigo com um céu extremamente azul acima. Vi cidades que os livros de filosofia ilustravam. E daí por diante, as coisas foram mudando aos poucos. Quando percebi, estava na fazenda de meus avós paternos. Eu não tive a oportunidade de conhece-los pessoalmente, mas eu sabia que eram eles por causa das fotos no álbum de família. Eles estavam sentados na varanda, com os olhos perdidos no horizonte. E então, meu pai apareceu. Não adulto, mas ainda criança. Devia ter a mesma idade que eu, ou um pouco menos. Trazia em suas mãos algo que cintilava por entre os dedos. Forcei minha visão para tentar ver o que era aquilo que ele fitava com tanta admiração. Tentei falar, mas sabia que era tudo apenas um sonho e ele não me ouviria."Papai, olhe, olhe o que eu achei na minha expedição de arqueólogo!" — Ele gritava entusiasmado enquanto subia os degraus de dois em dois. — "Veja que lindo tesouro!""É realmente muito bonito Eduardo!" — Vovó bradou sorridente, acariciando os cabelos negros de meu pai. Ele parecia muito orgulhoso e meus avós se divertiam com aquilo. — "Você será um excelente arqueólogo, vai encontrar muitos tesouros pela vida".A cena tremulou e como se acionassem um botão de avanço rápido, o cenário já era outro. Estávamos na rua do meu apartamento, onde moro atualmente. Meus pais caminhavam calmamente de mãos dadas, ora ou outra meu pai rodopiava minha mãe como se estivessem em um baile, e ela ria divertida. Meu coração se encheu de calor, mas de uma forma muito triste, eu sabia que logo não haveria mais resquícios daquela sensação boa. Reconheci, pendurado no colo de minha mãe por um delicado cordão de ouro, o tesouro que meu pai havia encontrado quando era criança. Um estranho globo esverdeado, que oscilava entre várias cores, como se poeira colorida se movesse lentamente num tipo de liquido transparente.E então eu soube que era aquilo que eles buscavam.Por fim, a cena mudou uma última vez. E eu não gostei muito do que vi. Meus pais corriam e parecia que não se alimentavam direito há dias, em seus semblantes, medo. Eles pareciam perdidos no meio do matagal e eu sabia que não era em terras brasileiras. Subitamente, meu pai puxou minha mãe para uma fenda entre rochas e uma arvore velha, abraçando-a fortemente e pedindo que fizesse silencio. No mesmo segundo répteis que andavam como humanos passaram a toda velocidade, praguejando em grego antigo. Mamãe apertou o pingente entre seus dedos e, olhando diretamente para mim, ela sorriu cansada. Era um sonho, uma ilusão ou o que quer que aquilo significasse, mas ela olhou para mim. E sussurrando palavras incompreensíveis, uma onda de luz cegou-me. Enquanto eu era trazida à realidade, a figura da garotinha tremeluziu em meio à luz. Ela sorriu e sem mover os lábios, sua voz soou nitidamente em minha cabeça."Sei que não entende o que está acontecendo criança, mas nada nessa vida acontece por acaso. Sempre esteve no destino dos seus pais se encontrarem e terem você. Você, a mortal que levaria o herói até o portal para que a grande profecia se cumpra. Você é o elo entre o perder e o ganhar. Seus pais sabiam disso e se sacrificaram para que você guiasse Percy até a vitória. A salvação do mundo depende da escolha que você deverá fazer. A escolha errada poderá destruir você e tudo o que conhece... Ouça seu coração".Demorou algum tempo até que eu conseguisse encontrar o controle sobre meus sentidos.- Anna, o que foi que houve?Uma lágrima rolou pelo meu rosto, mas eu não tinha tempo para explicar. Por mais que eu quisesse afundar na amarga tristeza de saber que agora a partida de meus pais era definitiva, e por mais que eu estivesse transbordando de inúmeras perguntas, não tínhamos tempo. O relógio em meu pulso marcava onze e quarenta e cinco.- Eu sei o que vocês procuram. — Assenti para o semblante confuso de Percy. — Eu não sei para o que serve, mas eu sei onde encontrar.No fundo do aquário, havia uma replica do monte Olimpo, o lar dos deuses. É, às vezes eu prestava atenção nas coisas que o professor de filosofia dizia. E, no topo do mini monte olimpo, havia uma perola cintilante que há cinco minutos atrás não existia ali.Fácil, era só dar um mergulho e pegar, eu pensei.Mas, como tudo na vida, as coisas não se mostraram tão aptas a ajudar. Sabe aqueles soldados caveiras que eu comentei ter visto lá no colégio? Pois então, eles acabam de explodir as portas de entrada em mil fragmentos. Isso não é bom.Percy destampou a caneta que trazia em punho, e instantaneamente ela se transformou numa espada de bronze brilhante. Aquilo parecia afiada o bastante para ceifar a vida de qualquer um.- Grover, ajude Anna a apanhar a pérola!Grover baliu em resposta e nos pusemos a correr até a parte acessível do tanque, que estava do outro lado do corredor. E de onde vinha mais esqueletos carregando armas.Eu decidi: eu definitivamente vou pegar trauma de halloween.- Nós não vamos conseguir! — Eu gritei, parando bruscamente quando percebi que um exercito inteiro se aproximava de nós dois.- Já praticou salto sobre barras? O quê??! Eu quis exclamar e xingar Grover; aquilo não era uma boa hora para conversamos sobre atividades físicas, mas quando ele se inclinou e juntou as mãos para que eu encaixasse meus pés e tomasse impulso para pular para dentro do tanque, eu entendi.- Mas e você?!- Eu sou um sátiro babe, dou meu jeito pra tudo!Sem pensar nem mais um segundo, segui seu plano maluco. Por um segundo aterrorizante eu acreditei que não ia conseguir. Mas logo depois senti a pressão da água me empurrar para baixo enquanto o ar em meus pulmões tentava me levar para cima. Com dificuldade consegui abrir os olhos, enxergando tudo turvamente. Quando consegui focalizar o brilho esverdeado da esfera, me foquei apenas em nadar até o fundo e apanha-la, tentando não me preocupar com os tubarões que nadavam desconfiados ao meu redor.Pelo vidro eu via o movimento da luta, mas eu não sabia quem estava ganhando. Eu esperava que Percy e Grover estivessem bem.Eu já estava sentindo falta de ar quando estiquei meu dedo e toquei na esfera, mas ela parecia presa. Forcei um pouco mais e então eu ouvi. Não mais a voz da doce menina, mas uma voz muito mais antiga, fria e maléfica.Já esta ficando estranho esse monte de voz dentro da minha cabeça."Você realmente quer ajudar aquele que causou a morte dos seus pais?"Parei de forçar, piscando lentamente no fundo do aquário. Não havia ninguém ali alem de mim e dos peixes, que mantinham uma distancia segura de mim. As arraias pareciam sentir o mesmo que eu. Medo."Saia da minha cabeça!" — Exclamei, ouvindo a risada pesada e fria soar dentro de meus tímpanos."Mortal tola! O que você vai ganhar ajudando um desconhecido? O que acha que vai acontecer depois que entregar a esfera para ele? Ele vai partir, vai continuar com os planos dele e te descartará como um objeto que só lhe foi útil para conseguir o que ele quer! Não se envolva em uma luta que não lhe pertence!"As palavras dele faziam sentido. Quem era Percy? De onde ele viera, afinal? Que segredos ele trazia por trás daqueles olhos azuis? Para que ele queria aquela esfera aparentemente insignificante? Eu comecei a ficar com raiva. Minha vida era tão normal até dois dias atrás e de repente eu me vejo no meio de uma luta com coisas surreais, como caveiras que empunham armas e um garoto que tem pernas de cabra! Percy era culpado por aquilo e acima de tudo, era culpado pela morte de meus pais. Eles estavam sumidos desde o ano passado e tudo por conta daquela maldita pérola que vai ajuda-los a fazer não sei o que. Eles ganham o que querem, mas e eu? Eu nunca vou ter meus pais de volta. Nunca."Isso garota, é isso mesmo. Não compensa ajudar vermes como eles. Destrua a pérola e castigue Percy pelo seu egoísmo!"Eu estava começando a sufocar. Meu pulmão parecia prestes a explodir e meus sentidos começaram a ficar confusos. Meus dedos fraquejaram ao redor da pérola. A voz maléfica riu dentro de minha cabeça. Ele estava conseguindo o que queria. Me desmotivar, me colocar contra Percy, que no fundo eu sabia não ter culpa alguma.Mas era aquilo que qualquer um sentiria no meu lugar, não é mesmo?Zonza pela falta de oxigênio, lembrei-me do sorriso caloroso de mamãe. Ela costumava sorrir daquela forma sempre que eu lhe trazia meu boletim escolar e lhe mostrava minhas excelentes notas ou quando eu conseguia vencer meu pai no vídeo game. Era seu sorriso de orgulho. E era o mesmo sorriso que ela exibiu para mim antes de desaparecer em meio àquela explosão de luz.
Ela sentia orgulho porque sabia que eu faria o que era certo. Ela conhecia a mim e sabia que eu nunca guardaria rancor deles por suas escolhas. Meus pais me amavam e, mesmo sabendo o que estava reservado para nossa família no futuro, eles não desistiram.Aquilo era o bastante para que eu continuasse também.Juntando toda a força que ainda restava em mim, impulsionei meu corpo para cima enquanto meus dedos se firmavam em torno da esfera que parecia brilhar ainda mais.Assim que a senti firme em minhas mãos, a trouxe para perto de meu tronco, abraçando-a e mantendo-a segura, caso não conseguisse chegar até a superfície.Quando minha consciência ameaçou falhar, senti o ar entrar em meus pulmões novamente e eu quase engasguei com ele. Desconcertada, percebi que ainda estávamos dentro do aquário, mas era como se uma bolha me envolvesse. E eu não estava sozinha. Percy segurava-me firmemente pelos ombros, mantendo-o em pé. Exibiu um sorriso confortador e com um único impulso, nos atirou para fora da água.Enquanto recuperava minha sanidade deitada na borda do tanque, eu me senti leve.Leve como há tempos não me sentia.
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