Destinados à Payre
25 Perdas e ganhos
Notas iniciais
Choi estava se sentindo incomodado. Como queriam que ele dormisse? O pior não tinha sido ser transportado para outro Planeta. Ou descobrir que existia um super vilão poderoso que comia gente, e ficava ainda mais poderoso. E que ele tinha sido um dos destinados a lutar contra o tal Drácula Alienígena. Não, de forma alguma. Nem mesmo a descoberta de que tinha passado os últimos três anos dormindo. O pior, o mais detestável, era ser obrigado a conviver diariamente com os irmãos Dewis, Ren e Monalisa.
Ren era particularmente irritante. Gritava e esperneava com todos, pedia que entrassem em contato com seu pai, pois ele certamente pagaria qualquer valor ou negociaria em nome da Terra com os aliens que o tinham sequestrado. Há. Seria hilário se não fosse uma situação tão tensa.
Choi, que estava deitado em uma cama muito estranha, pois tinha o formato de um bote e parecia feita de gel, o que a tornava estranhamente confortável, olhou para o lado. Lá estava a garota chamada Lali, também deitada naquelas camas estranhas, com os olhos fechados, provavelmente adormecida. Ela parecia finalmente ter se acalmado naquelas últimas semanas. Desde que haviam despertado, há muitos meses, ela chorava sem parar. Chamava pelos pais e irmãos, e alguém chamado Tanu, então voltava a chorar ainda mais, até ser induzida a um sono profundo, do qual acordava desorientada e recomeçava tudo de novo.
Ele, apesar de sentir-se incomodado com toda essa choradeira, entendia seu desespero. Ser separado da família tão bruscamente era algo muito doloroso. Sentira isso profundamente quando seu pai o levou para outro país, longe da mãe e da irmã. Imagine só, descobrir que, sem qualquer aviso, foi parar em outro Planeta. Do qual poderia nem mesmo sair viva.
Choi ergueu a mão e olhou para o centro dela. E riu de si mesmo. A quem estava enganando? Ele também estava desesperado. Sentia-se confuso, perdido e com muito medo. Era tanta coisa para compreender, para aceitar. Tantas perdas a somar. Três anos. Havia perdido três anos da sua vida. O que estariam pensando as pessoas que estavam na Terra? Seu pai. Embora não tivessem uma relação próxima, sempre mantiveram contato. Era bizarro saber que não tinha mais dezessete anos, parecia um daqueles filmes de comédia nos quais as pessoas acordavam e “bam”, tinham trinta anos. Tudo bem, ele estava com apenas vinte anos, talvez vinte e um, mas ainda assim, era desconcertante.
E esse tempo passado não era nada menos do que o início do problema. Quanto tempo mais ficariam em Payre? A guerra na qual os jogariam, quisessem eles ou não, já durava séculos, era possível resolver algo tão difícil em dias? Meses? Anos? Quanto?
Além disso, qual era exatamente a tal “missão” deles ali? Nada era dito ou esclarecido. Limitavam-se a dizer que logo saberiam o que seria esperado deles, que por hora eles precisavam se preocupar apenas em adquirir resistência e conhecimento.
Tudo que fizeram nos últimos cinco meses foi treinar, fazendo exercícios em simuladores, que deixavam os vistos em filmes risíveis de tão simplórios se comparados ao que existiam em Payre. Também tinham tomado litros e litros de água por dia. A pura água de Payre, aparentemente o único alimento daqueles seres. Os Curados, os médicos daquele mundo, diziam que esse processo fortaleceria seus corpos e facilitaria a adaptação deles as condições de Payre.
Quando não estavam se entupindo de água ou sendo massacrados nos mais diversos tipos de exercícios, eram colocados para dormir. E ficavam por dias assim. Durante o sono, vários tipos de conhecimento eram passados para eles. O que só tornava o despertar ainda mais traumático, pois era absurdamente difícil lidar com informações jogadas dentro de suas cabeças, que colidiam diretamente com suas lembranças, as memórias do que sempre havia sido a vida deles. E que já não existia mais.
Ele analisou novamente a palma da mão, procurando por alguma cicatriz que sabia que deveria estar ali, mas claro, não estava. Quando foi levado para um quarto, depois de ser retirado daquele maldito túmulo de vidro, que eles chamavam de capsula de cristal, Choi surtou por alguns dias. Não se orgulhava disso, mas não sabia o que estava acontecendo, embora tudo estivesse muito claro na sua cabeça, pois os Curadores haviam implantado em seu cérebro toda a história de Payre e a explicação do seu papel nela. Ele sentia que estava louco e aquilo tudo era uma espécie de alucinação, por isso, num ato de desespero, havia aberto toda a extensão da mão, da metade do dedo médio até o início do pulso, com os próprios dentes.
O choque do que havia feito a si mesmo o tinha deixado mais equilibrado. Mas não menos temeroso sobre o que estava acontecendo com eles. Sobre o que os esperava.
Tinham dito que Alexis e Angel também estavam ali, mas ainda não tinham despertado. Quando era capaz de colocar a cabeça no lugar, Choi se preocupava com eles. Com o porquê de não terem acordado como todos os outros. E também sentia pesar por Alexis, pois se eles, por serem os tais escolhidos de uma Deusa morta, estavam ferrados, Alexis sendo considerado uma espécie de Jesus Cristo, que tinha a missão de salvar a todos em nome de outro Deus, estava ainda mais.
E não apenas isso. Eles estavam ali para cumprir a tal missão e pelo que entenderam, assim que tudo se resolvesse, isso se não fossem mortos no processo, voltariam para a Terra. Alexis não, ele era de Payre. Sua mãe era uma rainha muito antiga e poderosa, seu pai tinha sido um rei lendário e seu irmão era o atual rei. E pelo que todos diziam, Alexis era conhecido como o Predestinado, aquele que salvaria a Terra e Payre, e governaria aquele mundo. Céus, o cara estava muito ferrado.
–- Choi, você precisa relaxar, não conseguiremos prosseguir se ainda estiver acordado.
Ele baixou a mão e olhou para a mulher de voz gentil. Seu cérebro logo registrou que aquela era uma Eiff, a maioria dos Curadores eram dessa raça. Os Eiffs tinham como características marcantes os cabelos ruivos, os olhos em tons de vermelho e roxo, com as pupilas de cobra, e a pele cheia de sardas, geralmente no mesmo tom dos olhos. Essa mulher, por exemplo, tinha suas mechas naturais em tom de vermelho rubi, mescladas com pretas artificiais, e seus olhos eram de um roxo muito vivido.
–- Alguma notícia do Alexis e da Angel?
Ela mordeu o lábio inferior. No início Choi se impressionava com esse tipo de gesto “humano” feito por esses seres tão diferentes, mas agora já não lhe causava qualquer curiosidade. Contudo, esse em particular chamou sua atenção, pois lhe pareceu que ela tentava evitar responder sua pergunta.
–- Se sabe alguma coisa me diga, por favor. Estou cercado por más noticias, entende? Essa coisa toda de me sentir uma experiência de laboratório depois de ter sido transportado para outro mundo não tem contribuído para a minha sanidade.
–- Sinto muito, mas não tenho permissão para dizer qualquer coisa.
–- E quem aqui tem?
–- Bem, suponho que o Curador Falki.
–- E onde ele está agora?
–- Ele está com a Rainha.
Choi, sob os protestos da Eiff, se ergueu da cama.
–- Me leve até lá então.
–- Desculpe, mas tenho ordens para fazê-los descansar agora.
O rapaz, novamente a ignorando, começou a andar em direção a saída. Quando chegou na porta, essa se fechou. Ele virou-se para a mulher que o seguia.
–- Abra a porta.
–- Entenda, você está muito fraco, acabou de sair de uma simulação particularmente extenuante, precisa dormir. Prometo que quando acordar o Curador Falki estará aqui para responder todas as suas perguntas.
–- O que está fazendo Choi?
Choi sentiu uma fisgada em seu coração, mas manteve seus olhos na mulher de cabelos vermelhos.
–- Volte para a cama Monalisa.
–- Não vou dormir! Acha que é o único que tem tido dificuldade para fazer isso nos últimos dias?
A Eiff olhou de um para o outro e então estendeu a mão, com a palma para cima. Uma bolinha, quase transparente, do tamanho de uma bola de pingue-pongue, surgiu.
–- Curador Falki. – Disse ela, olhando para a pequena esfera.
A bola deslizou para o chão, e o Curador chamado por ela surgiu. Ou o que seria uma imagem sua, incrivelmente realista, em tamanho, forma e cores. Choi sabia que se tocasse, sentiria como se fosse o verdadeiro Falki. Era assustadora a tecnologia daquele lugar.
–- Sim, Curadora Yanni?
–- Estou tendo dificuldades para fazer com que Choi e Mona adormeçam, pois estão preocupados com o Predestinado e a garota Humana.
–- Entendo. – Falki, em uma postura muito calma, as mãos nas costas, olhou para Choi e Mona, e para além deles.
Lali e Ren vinham para se juntar ao grupo.
–- Também gostaria de saber se houve alguma novidade sobre eles. – A voz da princesa indiana estava fraca e levemente rouca, seus olhos muito vermelhos e inchados. Apesar disso, continuava bonita.
–- Isso. Quero saber se aquele sujeito acordou, aposto que do jeito que ele é, vai pelo menos ser útil para nos ajudar a sair desse lugar. – Ren disse, ignorando as expressões de desaprovação dos Curadores.
–- Então trago boas notícias a todos vocês. O Príncipe Alexis e Angel finalmente despertaram.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo. O Curador apenas ergueu a mão, solicitando silêncio, no que foi obedecido imediatamente.
–- Eles estão bem. Mas precisam passar por todo o acompanhamento que vocês já têm recebido. Por isso peço um pouco mais de paciência, no devido tempo poderão vê-los. Eu prometo. – Assim dizendo, Falki ergueu a mão, até a altura da orelha, no característico gesto de despedida dos Eiffs e sua imagem sumiu.
Depois disso, todos voltaram para seus lugares. Ouvindo o choramingo de Lali às suas costas e virado para o outro lado, de frente para Mona, que o observava em silêncio, Choi finalmente adormeceu.
***
Angel sentiu alguém tocando seus cabelos. Mesmo que parecesse loucura, sabia que era Alexis. E não apenas pelo cheiro de sol. Era a forma como sentia seu coração bater. Sorrindo, abriu os olhos. E lá estava ele.
Para sua surpresa, foi esmagada entre os braços dele. Correspondeu com a mesma intensidade, mas não foi capaz de compreender o que acontecia. Quando, depois de um longo tempo, ele a afastou, apenas o suficiente para tocar carinhosamente a sua face, Angel reparou em seus olhos azuis marejados. Aquilo lhe trouxe a memória dos mesmos olhos, molhados e suplicantes, em um quarto silencioso. Apenas o bater rápido do seu coração, traduzido pelo barulho incessante de aparelhos, quebrava aquele silêncio.
A morte. A luz. A água. O sonho.
Serines. Uma mulher muito pálida, sorrindo.
Cheiro forte de Jasmim.
Sua cabeça começou a doer, atordoada, ergueu as mãos e a apertou com força.
“Esqueça e a dor passará”.
Não queria. Não sabia como.
“Esqueça!”
Não!
“Esqueça!”
A dor se tornou insuportável e ela gritou. Em meio aos seus gritos, continuou ouvindo a voz lhe ordenando que esquecesse, seja lá o que fosse. Não sabia o quê! Não sabia como!
Gritou mais alto, percebeu braços a envolvendo com força, alguém gritando por ajuda, mas sua dor era intensa de mais para prestar atenção a isso.
“Esqueça, Angel!”
Ela sentiu lágrimas correrem por seus olhos. Seu coração bateu dolorosamente, mas de forma diferente. Não era uma dor física. Era como se algo importante e querido estivesse sendo arrancado dela. Ela era capaz de reconhecer esse tipo de sentimento. Esse vazio.
Então tudo ficou branco.
E ela esqueceu.
A dor passou.
***
Alexis observou Angel adormecida. Ela estava em uma das camas para as quais os levavam sempre que precisavam descansar, e também para inserir novas informações em suas cabeças. Naquele momento, Angel estava ali para se recuperar da crise pela qual havia passado há quatro dias.
Ninguém sabia o que tinha acontecido. Ela estava bem, disseram que tinha acordado depois que ele desmaiara e logo havia sido tirada da capsula de cristal. Após isso, tinha passado três semanas sendo monitorada e recebendo, em seus sonhos, os mesmos conhecimentos que ele e os demais que tinham vindo da Terra.
No dia seguinte em que Angel despertou e passou mal, Alexis finalmente encontrou-se com os outros. Até então tinha realizado as atividades nos simulares e recebido o acompanhamento dos Curadores enquanto era mantido isolado dos demais. Sabia que era uma forma de verificarem a sua estabilidade emocional, pois pelo que soube todos que tinham vindo da Terra passaram por um longo período de pânico e histeria.
Alexis admitia que tinha sido um enorme trabalho manter-se calmo e o fato de ter conseguido era, em parte, por sua preocupação com Angel. O outro fator que contribuíra para isso havia sido a inexplicável aceitação que o tomava da realidade em que estava. Embora também sentisse um certo estranhamento de tudo aquilo, e mesmo pânico pelo o que estava passando, no fundo era como se fosse naturalmente capaz de alcançar o sentido de tudo aquilo. E era exatamente essa sensação de familiaridade que mais o assustava.
Quando se encontrou com o resto do grupo, surpreendeu-se com a tranquilidade aparente de Choi e Mona, já que tinha ouvido sobre o corte que Choi havia provocado a si mesmo, com os próprios dentes e que ela, Mona, tinha tentado fugir várias vezes e até mesmo se jogara pela janela do quarto. Uma nave que patrulhava o palácio a tinha resgatado. Mas ao que tudo indicava ambos conseguiram superar o terror inicial.
Já Lali, se desmanchara em lágrimas quando o vira e não havia parado mais. Ren, por outro lado, parecera descontrolado de outra forma. Para ele, todos ali haviam sido sequestrados por extraterrestres que estavam usando-os como experimentos para descobrir informações sobre os humanos. Logo seriam mortos e a Terra seria invadida, por isso precisavam tentar entrar em contato de qualquer forma com seu pai, pois ele resolveria a situação.
Diante das circunstancias, até que não era assim tão absurdo pensar dessa forma, mas isso não havia impedido que Alexis o acertasse, de novo, com um soco direto no maxilar. Podia jurar que ouvira o estralo do osso sendo quebrado. O que era bom, significava que estava funcionando o tempo que passava nos simulares, além de consumir a água daquele planeta.
Alexis suspeitava que Ren não era exatamente querido pela equipe de Curadores, pois foi notável a demora em atendê-lo, ainda que estivesse claramente ferido. Não ia entrar na questão do quão rápido ele próprio havia sido cercado pela equipe, estava além da sua paciência a forma como todos o encaravam. Era ainda pior do que na Terra. Algumas pessoas quase iam ao chão ao curvarem-se quando ele passava. E ser chamado de “Predestinado” lhe provocava ainda mais repulsa.
Alexis passou a mão pelo rosto de Angel. Sabia que muito da sua irritabilidade e falta de controle vinha da sua preocupação com ela. Tinha certeza que tudo seria diferente quando ela despertasse. E ele não ousava pensar que seria de outra forma.
Imerso em seus pensamentos, observou a cama vazia ao lado, na qual ele deveria estar descansando. Ele e Angel eram as únicas pessoas que ocupava aquele espaço, pois Alexis queria mantê-la longe dos outros. Principalmente de Ren. Sabia que seria novamente repreendido por não descansar logo depois de fazer os exercícios, mas já passava horas incontáveis longe dela, durante as simulações, e não queria deixá-la sozinha por mais tempo ainda. Assim, reduzia para menos da metade a suas horas de sono. O que deixava a todos surpresos, pois mesmo fazendo isso, seus resultados eram superiores aos demais humanos, ainda que tivesse iniciado bem depois deles. Isso só fazia com que se tornasse o foco de olhares admirados e esperançosos. A coisa toda de ser o “Predestinado”. Era irritante.
–- Minha nossa, como vou conseguir dormir com esses suspiros dramáticos e com essa carranca do meu lado?
Atônito, ele olhou para Angel, encontrando seus sorridentes e sonolentos olhos violetas.
–- Se tenho uma carranca é culpa de uma garota muito problemática que só sabe me deixar preocupado com ela.
–- Ora, deixa essa palerma pra lá, então! Lindo desse jeito, rapidinho arranja outra. Tipo eu.
Alexis riu.
–- Sabe que a garota problema é você, certo?
Angel arqueou as duas sobrancelhas.
–- Acho muito bom que seja mesmo. Não é só porque eu meio que quase morri que você já pode sair por ai todo disponível. – Ela percebeu a tristeza nublar os olhos azuis do Príncipe, então mudou de assunto. – Ei, por que está um pouco, hum, diferente? – Ela tentou erguer-se, mas não conseguiu, desabando novamente na cama. – Caramba, estou me sentindo um bebê!
O Príncipe a ergueu, ajudando-a a ficar sentada. Afastando os cabelos prateados do rosto de Angel, comentou:
–- Está muito fraca, pois ficou adormecida por muito tempo. Estava numa espécie de coma.
Ela o fitou novamente, dessa vez com mais atenção. Ergueu a mão e passou os dedos delicadamente por seu rosto.
–- Você está diferente. Eu só não sei dizer como.
Colocando a mão sobre a dela, que estava pousava sobre a sua bochecha, Alexis disse:
–- Estou mais velho. Nós estamos. Não é muita coisa, mas é possível reparar quando se observa bem e também porque foi muito recente para nós.
Angel o observou confusa.
–- Como assim? Do que está falando?
Alexis hesitou. E se ela surtasse como os outros? Ou como já havia feito antes? Não queria que isso acontecesse, mas não tinha como evitar o assunto, ela só precisaria olhar para os lados para perceber que não estavam em um lugar normal. Um hospital não estaria tão repleto de vidros e plantas exóticas, e ao fundo, uma parede toda mostrava um mundo totalmente novo a eles, com pequenas naves voando a distância e edifícios que pareciam mesclar-se com a natureza. Por isso, com cuidado, perguntou:
–- Onde acha que estamos, Ange?
Ela pensou um pouco, sua testa se franziu como se estivesse lutando com o que passava por sua mente. Ele era capaz de compreender isso. Quando finalmente respondeu, soou mais como uma outra pergunta:
–- Não estamos na Terra, não é? Estamos em um lugar chamado Payre.
–- Sim, estamos. Sabe por que nos trouxeram até aqui?
Nova pausa. A voz suave saiu com mais firmeza dessa vez.
–- Então não foi um sonho, tudo o que me disseram sobre os Três Deuses e esse mundo foi real, certo? Estamos realmente em um Planeta que está em guerra, e vamos fazer parte disso. – Os olhos violetas o encararam cheios de confiança e uma sombra de súplica. – Acredita mesmo nisso Alexis?
O Príncipe tocou a face macia, devolvendo a mesma confiança em seu olhar direto. Mas não podia atender o pedido por outra verdade, que não aquela que tinha para lhe dar.
–- Sim, acredito. Infelizmente é o que está acontecendo, minha querida.
Ela fechou os olhos, não antes de exibir o mais profundo terror, as pequenas mãos tremeram, por isso ele colocou-as entre as suas, apertando-as com força, para mostrar que estava ao seu lado, que não estava sozinha. Quando Angel voltou a fitá-lo, agora parecendo mais calma, Alexis continuou.
–- Além disso, nós dormimos por quase quatro anos, Ange.
Ela o encarou por um longo tempo, primeiro chocada, após piscar vezes seguidas sua expressão foi se alterando, então balançou a cabeça afirmativamente, um brilho diferente tomando todo seu rosto.
–- Certo. Agora eu tenho vinte, talvez vinte e um anos?
Para surpresa de Alexis, ela sorriu. Lágrimas começaram a correr por seus olhos, mas ela continuava sorrindo. Preocupado com outra possível crise, ele tentou fazê-la deitar-se novamente.
–- Não! Não! Eu quero me levantar!
–- Você não está bem. Precisa descansar. Vou chamar um Curador para ver qual é sua condição.
–- Eu estou bem Alexis. Sério. – Angel o encarou, seus olhos ainda úmidos pelas lágrimas vertidas. – Eu apenas estou feliz. Sei que a situação é pra lá de bizarra e tudo o mais. Mas imagine só, desde os meus oito anos me diziam que eu não chegaria aos vinte anos. Que eu estaria morta. Eu passei dez anos da minha vida me imaginado morta com essa idade. Consegue entender isso? Consegue imaginar isso, Alexis? Eu estou viva!
Ele não respondeu. Ergueu-a da cama e a envolveu em um abraço apertado, tomando o cuidado para não machucá-la.
Com o rosto enterrado entre as mechas prateadas, Alexis murmurou:
–- Eu não sou capaz de entender completamente o que passou. Ninguém poderia. Mas da mesma forma, você não é capaz de compreender o que eu senti quando descobri que você estava viva. Que eu estava em um mundo no qual ainda seria capaz de encontrá-la.
Alexis a afastou, então a beijou, entre o desespero e a alegria. Havia gosto de sal nos lábios deles, mas era o beijo mais doce que já tinham tido.
Eles estavam juntos, e naquele momento, era a única coisa que realmente importava.
***
–- Angel!
Ela ouviu um resmungo. Sinceramente não foi capaz de determinar a origem, se foi de Alexis ou dela.
Quando ele se afastou, ainda mantendo-a erguida no ar, em um abraço firme, ela virou a cabeça para identificar quem tinha sido insensível o suficiente para interromper aquele comovente encontro dos dois.
Choi. Claro.
Espere. Choi?
–- O que você está fazendo aqui?
Sorridente, o rapaz se aproximou, ignorando totalmente a expressão irritada de Alexis.
–- Ora, é bom ver você também! Como tem passado? Vejo que continua uma nanica.
Angel exibiu os dentes numa carranca e Choi sorriu mais ainda, dando de ombros acrescentou:
–- Sou apenas mais um tripulante dessa loucura toda! Seja bem-vinda a bordo!
Angel piscou rapidamente diante da afirmação. Alguém havia lhe explicado, em uma espécie de sonho, que eles tinham sido enviados até ali para cumprir uma missão. Uma profecia. Quatro humanos haviam sido escolhidos.
–- Quem mais está aqui? Outro aluno perdido da Alpha?
Choi deu uma rápida olhada para Alexis, então respondeu:
–- Lembra a princesa indiana que conheceu no Baile?
–- Ah, sim. A “Noiva Perfeita”. Lali. Certo, mais alguém que eu conheça?
–- Hum, na verdade mais dois. Ren e Mona.
O olhar de Angel se tornou sombrio.
–- Só pode estar me zoando! Se essa porra está toda do avesso, vai me dizer que o filho da puta do Leonard também está por aqui?
–- Não. Ele não está.
Angel tentou se libertar de Alexis, mas ele continuou a mantendo no ar.
–- Me solte. Quero descer!
–- Você não está forte o suficiente, não será capaz de se firmar com as próprias pernas ainda. Dentro de alguns dias estará pronta pra isso. Agora é melhor voltar para a cama.
–- Não! Sabe que não vai conseguir me deter. Eu quero ver aquele cretino do Ren!
Eles ficaram se encarando por algum tempo, então Alexis resmungou:
–- Garota idiota e teimosa.
Ele a levou até o chão com delicadeza e continuou a segurando pela cintura. Angel tentou dar um passo, mas suas pernas cederam, sem equilíbrio segurou-se em Alexis que prontamente a amparou. Irritada, ela tentou novamente, mas o resultado foi o mesmo. Já ia para a terceira vez, quando foi erguida como uma pluma e mais rápido do que esperava, já estava sobre a cama na qual acordara antes.
–- Escute aqui, Angel. – Alexis falava com a sua conhecida voz fria e baixa, que costumava deixar todos apreensivos. – Você vai ficar nessa cama até ser examinada por um Curador. Se sequer passar por essa cabeça de pedra sair daqui, vou fazer com que lhe deem algo para dormir até estar totalmente recuperada, entendeu?
Os olhos violetas brilhavam como as chamas do inferno. Não havia nenhuma concordância ali. Indignada ela praticamente gritou:
–- Quem você pensa que é para fazer isso?
–- Hum, na verdade ele é, tipo, o Príncipe daqui também. É até meio engraçado isso, sabe. Ah, e o Todo-Poderoso-Salvador. – Choi quase sussurrou.
Angel cruzou os braços, sem desviar os olhos de Alexis.
–- Nossa. Agora fiquei impressionada. – Mas a expressão dela não exibia nada além de rebeldia.
Alexis estreitou os olhos. O azul ficou quase negro.
–- Vamos esclarecer algumas coisas. Primeiro. Comparada a Ren, no momento, você não passa de uma indefesa gatinha. Eles têm treinado e passado por adaptações a esse mundo durante meses, enquanto você apenas dormia. Segundo. Eu não vou permitir que se machuque, entendo a raiva que sente, mas o mais importante é ficar totalmente curada e fortalecida. Terceiro. Não me obrigue a matar aquele infeliz.
Não havia dúvidas nem hesitação, nas palavras e no brilho dos olhos de Alexis, por isso Angel sentiu sua raiva esfriar. Encarando-o com firmeza, disse:
–- Eu não quero ver ele.
–- Você não vai ver. Eu prometo.
–- Certo.
Sem dizer mais nada, ela fechou os olhos.
–- Ah, Angel. – Era a voz de Choi. – Talvez possa a ajudar a ter bons sonhos saber que Alexis quebrou a mandíbula do Ren assim que o viu aqui em Payre. Ele chorou feito uma garotinha. Foi meio engraçado.
Mantendo os olhos cerrados, Angel sorriu.
–- Sim, isso vai me fazer dormir melhor. Obrigada Choi.
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