Destinados à Payre

26 Detestável mundo novo


Notas iniciais
Oiiiss!! Ok, demorei mais do que o normal dessa vez, mas passei por muita coisa nos últimos dias, estou cansada demais, então tenham dó de mim eheheheh Nesse capítulo quero apresentar a única dos "escolhidos" que não apareceu na primeira parte (tá ela apareceu, mas muuuuuito rapidamente), a Lali. Espero que gostem, boa leitura!

Lali gostava de correr, era o único momento em que conseguia esquecer a loucura na qual havia se metido. Sentir a areia branca sob seus pés descalços, a água fria que eventualmente batia em suas pernas e respingava, molhando e aliviando o calor do sol sobre sua cabeça. A brisa que empurrava sua longa trança e bagunçava sua franja.

Quando corria assim, preferia manter os olhos fechados, apenas sentindo, sem pensar em nada, a cabeça completamente vazia. Nesses minutos que se tornavam horas, era até mesmo capaz de sorrir. E era isso que fazia naquele momento. Sem se importar com a velocidade do exercício, ou mesmo que era um exercício, ergueu os braços para sentir melhor o vento. E sorriu. E riu. Deu gargalhadas.

“O tempo da atividade acabou Lali”.

Ela detestava aquela voz. Mas era apenas mais uma pequena coisa que abominava naquele mundo.

Ela odiava ter que cumprir as mais variadas regras, conviver com desconhecidos que a observavam como a um experimento. Detestava beber apenas água. Não sentir fome. Não sentir frio ou calor. Era angustiante falar línguas que não conhecia, saber e conhecer coisas novas sem ter feito qualquer esforço para isso. Afligia-se ao perceber que estava mais velha, mais forte, mais rápida. Que já não era ela.

Odiava não ouvir a voz dos seus amigos, dos seus pais, dos seus irmãos.

Seus pais e irmãos.

Lali odiava não poder vê-los. Não saber como estavam.

O que estariam pensando sobre seu desaparecimento? O quanto sua mãe estaria chorando? Sua irmã mais velha, grávida do segundo filho, teria passado por alguma situação difícil por culpa sua? Como estaria o bebê? Seu irmão mais velho, prestes a casar, estaria feliz? Seu irmão caçula teria superado a timidez sobre a qual estavam trabalhando? Ainda esperava por ela para terminar a história que haviam começado a ler juntos? Seu pai, com sua saúde frágil, teria suportado bem?

E Tanu?

Pensar em Tanu fez com que algo amargo e ardente ficasse preso em sua garganta. Mas não ia chorar. Tinha que controlar suas emoções.

Seu coração doeu, e não por resultado dos esforços físicos que havia feito, cada vez sentia menos cansaço. Não, a dor pungente e agoniante era saudade.

E também era medo.

Quando acordou naquele lugar, se desesperou tanto que, achando ser apenas um sonho, tentou se ferir de todas as formas possíveis. Mas nada acontecia, permanecia presa naquele pesadelo. Então a realidade começou a cair sobre ela. E com força suficiente para esmagá-la. Foi quando começaram suas crises de choro e o pânico.

Choi, o rapaz que tinha vindo com ela a Payre, tentou ajudá-la e foi graças a ele que Lali tentou se reerguer. Ele lhe mostrou que a única esperança deles era cumprir o que era solicitado, pois só assim seriam mandados de volta para casa, afinal nada mais poderiam fazer.

Ela tinha ficado receosa com as ideias do outro garoto, Ren, pois era também muito provável que estivessem sendo apenas usados e posteriormente seriam eliminados, descartados quando nada mais poderiam oferecer aos seus captores. A coisa toda de serem sempre observados, avaliados e de terem suas cabeças constantemente mexidas, contribuía muito para essa hipótese. Mas Choi a convenceu quando observou alguns pontos bastante óbvios. Se eles estavam querendo apenas dominar a Terra, por que estavam tornando-os mais fortes? Por que se dariam ao trabalho de manter suas memórias originais quando facilmente poderiam destruí-las? E também, qual a necessidade de criar uma história tão fantástica, apenas para matá-los depois?

Lali olhou para as próprias mãos. Ela agora tinha a capacidade de fazer coisas que nunca havia sonhando. Escalava quase qualquer superfície, corria mais rápido que muitos animais velozes da Terra, era capaz de ficar sem respirar por horas, levantava pesos absurdos, sua visão era incrivelmente melhor, assim como sua audição e, segundo lhes disseram, isso tudo era apenas o básico. Apenas o suficiente para sobreviverem ali. Para viver em Payre, Lali não poderia ser ela mesma, precisava ser um deles. Outra coisa para odiar.

–- Gostaria de passear um pouco, Lali? Antes de descansar.

Ela nem olhou para a mulher que a esperava do lado de fora da sala de simulação. Com tristeza, a garota apenas observou a areia, o sol, e a praia desaparecerem no ar, restando apenas uma imensa sala quadrada e vazia, com paredes espelhadas, duas delas de vidro, exibindo o mar maravilhoso próximo de onde o palácio estava. Ela não pode deixar de reparar que, ironicamente, a imagem lá fora era ainda mais bela do que a criada pela tecnologia daqueles seres. Lali podia odiar aquele mundo, mas era incapaz de ser insensível a sua incrível beleza.

–- Onde Angel está agora?

A Curadora sorriu de forma simpática. Lali se sentia ainda mais como um animalzinho indefeso e irritadiço quando aquelas pessoas agiam daquela forma. E fazia com que um leve sentimento de culpa a tomasse também, pois, em toda sua vida, nunca tinha sido tão antipática ou insensível com as pessoas a sua volta. Ela era a princesa Lali, alegre e gentil, a irmã sempre amiga, a filha amada, a namorada atenciosa e amorosa. Agora não passava de uma humana frágil, chorosa e ríspida. Não era apenas seu corpo que estava mudando, sua personalidade também estava sendo afetada e ela não queria isso. Mas era difícil controlar.

–- Angel está no simulador.

–- Me leve até ela, — houve uma breve hesitação – por favor.

–- Não gostaria de se limpar primeiro?

Lali olhou para os pés descalços, cobertos de areia branca, e para a calça azul, de tecido leve, que úmida, colava-se às suas pernas. Seu cabelo também estava grudento de suor e areia. Sim, o simulador era assombrosamente realista.

–- Gostaria de me limpar sim.

Dando as costas para a Curadora, foi em direção a uma espécie de tubo de vidro. Quando entrou, a porta fechou-se e o vidro escureceu, bloqueando a visão dos outros a ela, mas ainda era capaz de observar o que acontecia lá fora.

Calmamente foi tirando suas roupas. Era estranho e ao mesmo tempo fascinante observar que, embora estivesse mais forte, seu corpo basicamente continuava o mesmo. Eles explicaram que o que os fortalecia, em alguns casos, era a chamada “essência”, um tipo de força interna que cada um possuía naturalmente. Mas, era notável que muitos seres daquele mundo se valiam de sua força física também, além de garras, presas e espinhos, tudo regado a muito veneno.

Quando estava completamente nua, após colocar suas roupas sujas em um compartimento na parede, e soltar os cabelos da trança, falou em voz alta:

–- Limpar.

Assim que as palavras foram ditas, sentiu um suave deslocamento de ar ao seu redor. Em menos de um minuto, parou, pois estava limpa. Nada de água ou sabão, toda a sujeira havia literalmente evaporado. Sua pele estava limpa e macia, sabia que poderia até mesmo escolher alguma fragrância, que a envolveria por completo e fixaria nela, de forma suave e duradoura. Mas não estava no clima para essas coisas, queria apenas juntar-se aos outros o mais breve possível.

Assim, tocou no mesmo compartimento em que havia depositado as roupas e uma tela acendeu. A máquina perguntou, com sua voz monótona e, ela reconheceu, em alicano:

–- Gostaria de continuar com suas vestes anteriores, ou prefere novas roupas?

–- As mesmas. — Não estava com paciência nem vontade de ficar escolhendo o que vestir. Algo que jamais teria se imaginado capaz antes de chegar em Payre.

A tela escureceu. A lateral da cabine abriu e lá estavam suas roupas de antes, limpas e passadas, prontas para serem usadas novamente. Bem, isso era difícil detestar.

Apressadamente colocou as suas vestes, que eram muito práticas, pois não tinham botões ou zíperes — botões eram meros adereços, o que as prendiam era algo parecido com um velcro, só que transparente e bem mais aderente. Algumas peças simplesmente colavam-se ao corpo.

Finalmente pronta, saiu e foi na direção apontada pela Curadora, que pacientemente havia esperado por ela, ao lado da porta.

Caminhavam pelos corredores em silêncio, quando umas das portas a frente abriu-se. Choi a viu e parou, o seu marcante sorriso já se formando no rosto bonito. Lali correspondeu ao sorriso. Ela o considerava um tipo de salvador, pois com infinita paciência, ele tinha sido capaz de ajudá-la a superar a situação deles ali. Sinceramente, se não fosse por Choi, ela certamente ainda estaria dopada em alguma cama daquele lugar. Devia muito àquele rapaz, que nem sequer tinha conhecido antes de irem parar naquele mundo assustador.

–- Já acabou a simulação ou vai iniciar uma? — Choi perguntou quando se aproximou.

–- Acabo de sair de uma. – Lali respondeu, parando ao seu lado. – Estou indo ver a Angel, ela ainda está praticando.

–- Sério, ainda?

Havia uma inegável surpresa na voz dele, que Lali compreendia perfeitamente. Angel estava efetivamente acordada há apenas dois meses, mas já era capaz de ficar durante horas intermináveis em simulações. Eles, por exemplo, nos primeiros dois meses, mal aguentavam uma hora de exercícios. Os Curadores, sempre avaliando e monitorando tudo, acreditavam que esse fosse o resultado do tempo a mais que ela passou imersa na água de Payre, que talvez, além de curar seu corpo, tinha fortalecido sua essência.

E Angel estava assustadoramente forte. Não mais do que Alexis, o que de certa forma não surpreendia já que, pelo que foi dito, ele nem mesmo era humano. Supostamente Alexis era um Payreano enviado para a Terra para trazê-los com ele.

–- Quantas horas já fazem que ela está treinando? – Choi perguntou para a Curadora.

A Eiff estendeu a mão e uma tela, quase invisível, materializou-se ali. Após tocar em alguns pontos, respondeu:

–- Doze horas e vinte e três minutos.

–- Minha nossa! Alexis deve estar subindo pelas paredes. – Choi riu. – Bem, agora ele pode fazer isso literalmente!

–- Quer vir junto?

–- E ainda pergunta? Dá ultima vez que assisti senti vergonha do meu treino e acabei por me esforçar muito mais nos outros. Ela basicamente me incentiva.

–- A mim também. – Lali comentou, com seriedade, enquanto voltavam a caminhar pelo corredor. – Angel foi a única, além de Alexis, que não enlouqueceu quando acordou aqui. Também foi a única que conseguiu achar algo positivo disso tudo. A vida.

Choi balançou a cabeça e murmurou de forma pensativa, sem qualquer traço de humor agora:

–- A vida.

Quando chegaram na sala onde Angel estava treinando, perceberam uma quantidade atípica de pessoas assistindo. Até mesmo o Rei Erak estava presente.

O lugar era gigantesco, assim como todas as outras salas de simulação eram. Angel estava atrás de uma parede de vidro fazendo seus exercícios, enquanto inúmeras telas dispostas em vários pontos no ar mostravam os mais diversos ângulos da garota escalando uma cachoeira, enquanto era atacada por uma ave com longas asas azuis. E longas garras também.

Embora preferisse exercícios mais “normais” como corrida e natação, Lali também fazia escaladas em locais difíceis e perigosos, trilhas aéreas por árvores, extensos percursos a pé por neve, desertos e florestas fechadas. Mas nunca com o grau de dificuldade que Angel encarava. Em suas simulações Lali não precisava se preocupar em ser feita em pedaços por uma gigantesca ave, enquanto tentava não escorregar nas pedras pontiagudas de uma cachoeira congelante. E ainda que fosse apenas uma simulação, doía e machucava. Cada queda, embora não os matasse, deixava-os desejando isso. Depois de algum tempo, com o corpo mais forte, as dores se tornaram mais suportáveis e as feridas menos profundas, mas não inexistentes.

Então, era algo hipnotizante assistir uma garota tão pequena, de aparência frágil, escalar, com certa facilidade até, ainda que uma quantidade absurda de água tentasse impedi-la. E Lali arregalou os olhos com cada investida da ave azul contra Angel. Mas isso não parecia o suficiente para desmotivá-la de seu objetivo: atingir o topo da montanha. Quando uma garra foi em sua direção, com uma agilidade invejável, Angel lançou-se para outro ponto de apoio. Em certo momento a ave conseguiu chegar muito perto, tanto que na investida seguinte do animal, Angel não conseguiu deixar o lugar em que estava, assim, soltou as pernas, apenas com os braços apoiados, girou o corpo, subindo na rocha em que antes suas mãos estavam. A garra foi direto para a rocha, destroçando a parte inferior da mesma. O urro do bicho foi ensurdecedor, não era possível identificar se em função da dor ou da frustação por não ter atingido o alvo.

Com as costas coladas contra a rocha, Angel deslizou para o lado, evitando assim cair com os destroços que se soltaram totalmente. Quando a ave foi para cima dela, agora parecendo ainda mais mortal, a garota simplesmente saltou da pedra em direção a água. Lali prendeu a respiração, notando o silencio de todos que assistiam. Durante a interminável queda, a veloz predadora ficou bem ao lado de Angel, tentando atacá-la agora que ela estava ainda mais vulnerável. Uma das poderosas garras fechou-se por toda a extensão da perna de Angel, interrompendo sua descida. Com a velocidade conferida por suas poderosas asas, ela rapidamente foi se afastando da água, com sua presa pendurada e vencida. Se Angel não estivesse mais resistente, já estaria morta aquela altura.

–- Interromper a simulação!

Lali, sem desgrudar os olhos da cena, reconheceu a voz de Alexis, mas não se virou para localizá-lo. Por isso testemunhou a carranca feita por Angel. Embora estivesse molhada e de cabeça para baixo, carregada como uma pequena minhoca por sua adversária, a garota gritou cheia de indignação:

–- Continuar simulação!

–- Deixe a teimosia de lado, você vai ser fatiada por esse bicho e vai sentir uma dor dos infernos, droga!

Para espanto de todos, Angel cruzou os braços. Ela era mesmo uma figura. Sem se abalar com o fato de estar sendo levada diretamente para um ninho com mais três daqueles mesmos animais, ainda que menores, o que não era tão animador levando em conta o que “menor” significava dentro daquele contexto, ela retrucou irritada:

–- Se, em uma situação real, eu precisar enfrentar algo assim, vou simplesmente gritar “ei, desliguem logo essa porra antes que eu quebre a unha!”? Acho que não, não é mesmo?

–- Isso é apenas um maldito treino, Angel!

–- Vem cá, eu me meto nos seus exercícios?

–- Eu não fico preso pelas garras de uma ave três vezes o meu tamanho, sendo carregado como um lanchinho para seus filhotes.

Apesar da situação, Lali riu da expressão absolutamente aborrecida da garota. Como se estivesse buscando muita paciência, Angel disse:

–- Eu não estou presa. Nem serei o lanche de ninguém. Estou apenas seguindo um plano.

–- Claro que está. – Havia ceticismo na voz do Príncipe. Após uma pausa ele declarou. — Ok, continue por ai. Faça do seu jeito então. Apenas não se esqueça de uma coisa: se ficar toda quebrada, vou deixá-la dormindo por dias. Não estará acordada enquanto estiver se curando, entendeu?

–- Você é irritante, sabia?

Antes que Alexis pudesse responder, a ave a largou, a uns sete metros de altura do ninho. Angel era realmente ágil, pois apesar da queda súbita, foi capaz de cair rolando e logo se ergueu, a tempo de evitar ser pisoteada pelas criaturas azuis que se debateram cheias de energia pela chegada da mãe. E claro, pela comida.

Contudo, em função do espaço apertado e sem grandes opções de fuga, Angel logo ficou cercada pelas três aves e pela mãe que voava ao redor do ninho.

–- Vocês até que são bem fofinhas. – ela disse para os filhotes encrespados, prontos para atacá-la.

Quando o primeiro se jogou contra ela, Angel saltou para o lado, o escalou com rapidez e pulou para cima do segundo que vinha na sua direção. Montada no bicho ela puxou-o pela cabeça, fazendo com que ele recuasse e se afastasse dos outros dois. A mamãe logo se irritou com o que acontecia e tentou acertá-la, mas não conseguiu, pois poderia acertar seu filhote. Enquanto os irmãos faziam sons de lamento, Angel continuou guiando-o para trás, até chegar ao limite do ninho. Em um movimento não apenas com a cabeça do animal, mas usando toda a força do seu corpo, ela o fez colidir contra a lateral de galhos, desajeitada, a ave caiu e despencou do ninho, com Angel firmemente presa a sua plumagem.

A gigantesca ave azul logo foi resgatar o filho, com a garra em forma de concha evitou a sua queda e a de Angel. Ela aproveitou a distração da sua perseguidora para subir pela lateral do seu corpo, o filhote estava muito assustado para impedi-la.

Notando que Angel tentava subir em suas costas, a criatura, após devolver o filhote para o ninho, aumentou sua velocidade de voo e começou a rodopiar pelo ar. A garota ainda assim ficou firmemente presa às suas penas, sem parar de galgá-la, chegando cada vez mais próxima do seu objetivo. Assim que conseguiu segurar a plumagem que cobria a nuca, afundou o corpo nas penas azuis até pararem os giros frenéticos pelo ar. Quando cruzaram os céus, em um ponto próximo ao topo da cachoeira que antes ela escalava, Angel ergueu a frente do corpo e aguardou. No momento em que a ave passou sobre o rio com fortes correntezas, basicamente o seu destino final naquele treino, sem hesitação, ela saltou.

Como da vez anterior o bicho foi na sua direção, mas dessa vez Angel tirou de dentro da manga uma linda e delicada pena azul. Era de um dos filhotes. Sorrindo a lançou no ar. Aquilo fez a ave hesitar por alguns segundos, o suficiente para que ela caísse como uma pedra na água. Gritando frustrada, a ave desistiu, afastando-se rapidamente, provavelmente para verificar se seus filhotes estavam bem.

Após algum tempo Angel emergiu, sorrindo triunfante.

–- Ei chaton, não quer vir esfriar essa sua cabeça quente? A água está uma delícia!

Lali sorriu diante da óbvia provocação feita ao Príncipe.

–- Cara, como ela conseguiu fazer isso? – Choi ao seu lado estava francamente admirado. – Comecei a colocar esse tipo de dificuldades em minhas simulações e, devo admitir, nunca apanhei tanto na minha vida!

–- Acho que devíamos ter ficado mais tempo naqueles tubos de cristal. – Lali comentou, com certo lamento na voz.

–- É.

Os dois ficaram observando enquanto Angel saia da simulação e ia ao encontro de Alexis. Ele estava parado ao lado da porta de acesso ao simulador, seu lugar de costume para assisti-la. A Lali parecia claro que ele esperava dessa forma estar o mais próximo possível de Angel para ajudá-la caso fosse necessário. Como acontecera nas tentativas iniciais de Angel no primeiro mês. Ela tinha ficado muito ferida, mais do que eles tinham ficado no início, pois, ao contrario deles, mesmo estando em uma situação difícil ou cansada, Angel era teimosa demais para desistir. Por muitas vezes Alexis tivera que interromper a atividade a fim de poupá-la de mais dor e sempre tinha que praticamente carregá-la para descansar. Ele era realmente persistente e protetor.

O sorriso de Lali morreu com o pensamento, pois Tanu também era assim. Estava sempre protegendo-a e livrando-a dos mais variados problemas em que acabava se metendo, desde de quando era apenas uma garotinha. As suas maiores encrencas na infância haviam sido causadas por seu amor pelos animais feridos. Tanu a repreendia por manter quase que um hospital de animais em seu quarto, escondido dos pais, mas ainda assim, sempre, sem hesitação, a ajudava.

–- Lali! Choi! – Angel os viu e acenou. Lali agradeceu pela interrupção de seus devaneios, pois mais uma vez estava mergulhando em algo proibido e muito doloroso.

–- Essa garota é uma coisa muito estranha. Parece mais feliz aqui do que na Terra. – Choi murmurou.

–- Bem, ao contrário de nós ela está com a pessoa que mais a ama. E que ela ama. Não estaria feliz por isso também?

Lali percebeu uma sombra de tristeza cobrir os olhos castanhos do garoto, algo muito raro, mas que ela já testemunhara algumas vezes. Principalmente quando Mona estava por perto. Lali suspeitava que havia algo entre eles, mas não tinha coragem de tocar no assunto, pois fora esses momentos, ele era totalmente frio e distante quando falava sobre a gêmea de Ren. Como se realmente a detestasse, o que só aumentava a sua curiosidade, pois o que aquela garota tinha para despertar tamanho ressentimento em alguém que era tão alegre e gentil quanto Choi? Lali bem sabia como o amor podia ser confuso, cheio de segredos e culpas.

Quando chegaram onde Angel e Alexis estavam, a pequena loira olhou de forma zombeteira para Choi.

–- Então, nanico. Apanhou muito daquela galinha na floresta?

Choi estreitou os olhos.

–- “Galinha”?

–- Um bicho que tem bico e asas, ainda que não voe, que tem “pezinhos de galinha” e faz “cocóricó”, na minha opinião, é uma galinha.

–- Ah claro, vamos ignorar a parte em que o bico é serrilhado e capaz de triturar facilmente até pedra. Ou que os tais “pezinhos” são na verdade afiados como lâminas e que a tal “galinha” tem mais de dois metros de altura!

Angel deu de ombros.

–- Apenas uma galinha mais robusta, oras.

Choi respirou fundo, então, olhando para um ponto acima da cabeça dela, algo não muito difícil e um gesto que sempre a incomodava, resmungou:

–- Não consegui chegar até o rio ainda na simulação, mas saí da parte central da floresta.

Angel deu pequenas batidinhas no ombro dele. Em tom irritantemente condescendente, o consolou:

–- Não se preocupe, você consegue. Quem sabe facilita se levar um pouco de milho na próxima, talvez dessa forma ela não queira correr atrás da “minhoca”.

Lali tampou a boca com as mãos para evitar a gargalhada. Alexis apenas pigarreou e olhou para o lado. Antes que Choi pudesse responder, ouviram murmúrios próximos. Os quatro se viraram e encontraram o Rei Erak, acompanhado do sujeito chamado Esan, que sempre estava ao seu lado e mais alguns Curadores, além de Noor e outras duas pessoas que eles nunca tinham visto.

Quando o grupo chegou próximo a eles, como resultado de toda educação que havia recebido como membro da realeza, Lali curvou-se de forma graciosa. Mas foi a única a fazer isso, pois Choi, Angel e Alexis apenas encaram o grupo, sem qualquer movimento de cordialidade.

O Rei Erak passou seus olhos cinzentos por cada um deles, antes de informar:

–- Vamos nos reunir na Sala Azul.

Estava prestes a virar-se quando Alexis declarou:

–- Angel está ferida, só iremos depois que ela estiver bem e descansada.

Prontamente a garota se manifestou:

–- Eu não estou fe...

Sem olhar para Angel, ainda encarando Erak, Alexis interrompeu-a com firmeza:

–- Está com um corte atrás do joelho esquerdo, outro na parte superior da coxa esquerda, uma ferida no antebraço direito, e outra próxima a nuca.

Com curiosidade Lali observou Angel verificar os locais indicados por Alexis e, surpresa, a garota confirmava o que era dito. Ao final arqueou as duas sobrancelhas, fitando-o admirada.

–- Quando foi que desenvolveu visão de raio x?

Lali sorriu, todos ali sabiam que não se tratava de nada disso, mas sim que Alexis estava sempre de olhos muito atentos para qualquer perigo em que a namorada pudesse se meter. E Angel era bastante criativa nisso.

Ignorando a conversa dos dois, o Rei olhou diretamente para Alexis.

–- Ela poderá descansar depois.

–- Angel está acordada a apenas dois meses, ficou mais tempo do que qualquer outro dentro daquelas capsulas e vocês não tem a mínima ideia do efeito que isso pode ter sobre ela. – O tom frio de Alexis era absolutamente cortante. – Eu não vou arriscar a vida dela por “teorias”. Que garantias tem de que toda essa disposição demonstrada tão inexplicavelmente por ela não se trata apenas de uma espécie de pico de adrenalina antes de se esgotar novamente? Mais alguém teve uma crise como a da Angel ao acordar? Você pode me dizer algo realmente concreto sobre a situação dela, Majestade?

Silêncio. Ninguém poderia garantir nada sobre nenhum deles. Eles eram humanos e por mais que a medicina e a ciência de forma geral fosse muito avançada em Payre, havia uma quantidade imensa de variantes ali, como a tal essência mencionada pelos Curadores, a água daquele planeta e a biologia de seus corpos. Alexis tinha razão em questionar qualquer descuido a respeito da saúde de Angel.

Mas o Rei Erak, como Lali já havia notado nos poucos momentos em que o vira com Alexis, tinha um antagonismo indisfarçável por aquele que, teoricamente, era seu irmão mais velho. Por isso não foi surpresa quando ele deu um passo a frente, ficando mais próximo de Alexis, em clara tentativa de intimidação.

Alexis e Erak juntos formavam uma imagem ao mesmo tempo bela e arrepiante. Ambos eram altos, fortes, frios e com uma aura de domínio sobre o ambiente e as pessoas que quase sufocava. Erak era apenas alguns centímetros mais alto que o irmão, mas sua figura era mais sólida, sem dúvida devido às inúmeras batalhas que certamente já havia enfrentado, pois ele não parecia o tipo de Rei que se contentava em ficar apenas sentado em um trono. Alexis, no entanto, embora não apresentasse a musculatura de um guerreiro Viking, não era nenhum magricela desengonçado, também era forte, mas de uma forma mais esguia e elegante.

Quebrando a quietude que se instalara, de forma pausada, como se estivesse controlando sua fúria, o Rei Erak lembrou a Alexis:

–- Eu ainda sou o Rei. Eu decido como as coisas devem ser em Sylesth.

Alexis, como Lali já havia percebido, não era um sujeito tão simples de ser intimidado e, mesmo diante do Rei, não foi diferente. Com tom levemente irônico, o rapaz comentou:

–- É mesmo? – após arquear uma sobrancelha negra, continuou. – Então por que me parece que está pedindo minha autorização para suas ações?

Os olhos prateados do Rei brilharam de forma ameaçadora, uma luz sobrenatural emanando deles. As pessoas as suas costas se afastaram, quase que sem perceberem, a própria Lali recuou alguns passos, um frio gelado passando por todo seu corpo. Reparou que Choi fez o mesmo. Angel por outro lado, aproximou-se mais de Alexis, que não havia feito qualquer recuo, e também afrontou o Rei enraivecido com seus gelados olhos violetas.

Alexis percebendo a aproximação da garota, sem desviar a atenção do seu oponente, colocou o corpo de forma a sutilmente protegê-la do outro. Ainda que o movimento tivesse sido muito discreto, Erak percebeu. Seus olhos desviaram-se para Angel por breves segundos, quando voltaram para Alexis, a luz sobrenatural havia desaparecido.

Sem dizer nada, ele deu as costas a todos e saiu da sala.

Quando o grupo que o acompanhava também os deixou, restando apenas dois Curadores, Lali aproximou-se de Angel e tocou sua mão.

–- Você está bem? Achei que ele tinha feito algo com alguma magia daqueles olhos estranhos.

–- Não, ele não fez nada. — Angel respondeu, após respirar fundo prosseguiu. – Que Rei mais filho da puta! – Assim que as palavras saíram de sua boca, ela fez uma careta e desviou os olhos para Alexis. – Foi mal.

Alexis, enquanto respondia, fez sinal para que um Curador se aproximasse.

–- Vamos ser realistas, me sinto tão parte dessa acolhedora família quanto me sentia da minha na Terra.

O Curador curvou-se para Alexis em uma reverência respeitosa

–- Sim, Alteza?

–- Angel precisa tratar seus ferimentos e descansar.

–- Claro, Alteza. – Sorrindo com gentileza, o Eiff de sardas laranjas indicou o caminho para que Angel o seguisse.

Suspirando de forma resignada ela quase se arrastou atrás dele. Quando Angel se foi, Lali percebeu que Alexis ficou a observar o chão, no exato local que a garota tinha estado antes. Havia uma poça de sangue ali. Sem poder se conter, Lali exclamou:

–- Minha nossa, ela está muito ferida!

–- Sim, está. Aquela cabeça dura.

Sem dizer mais nada, Alexis seguiu pela trilha que o sangue de Angel havia formado.

Um pensamento passou pela cabeça da garota. Será que o Rei havia visto aquele sangue e isso foi o que o fez ceder? Bem, se essa foi a razão, talvez o Rei Erak não fosse o monstro que ela já imaginava. Podia estar apenas confuso e cheio de ódio pela situação em que estava, pois não devia ser fácil para ele também. Era o Rei de um lugar que esteve sempre em guerra, um conflito que havia matado seu pai e levado seu irmão para outro planeta.

Quantas responsabilidades o Rei Erak deveria assumir, querendo ou não, pois era o que esperavam dele, havia sido preparado para isso, sem qualquer outra escolha. Não era muito parecido com o que ela própria estava passando? Estava odiando tudo profundamente, tendo passado apenas alguns meses. O que Erak sentia, tento passado nisso toda a sua vida? Ela, como princesa sabia, não era mais fácil apenas porque tinha nascido para isso. Era mais duro e cruel, pois seu caminho já estava traçado desde o início. Não havia espaço para sonhos e desejos. Havia apenas um destino a ser cumprido.

Notas finais
Então? Gostaram? Eu sei que ficou meio longo, mas tinha tanta coisa que eu queria colocar nesse capítulo que não pude evitar eeheheh E o que estão achando de Payre? Conseguem imaginar como é esse mundo e seus habitantes? Quero ver se faço um mapa, mas como as minhas habilidades com programas são beeem limitadas (para não dizer inexistentes xD) vai ser muita vergonha ahahahahah Mas tentarei, até mesmo para descrever melhor as raças, quem é aliado de quem, e essas coisas todas... Enfim... Não poderia deixar de agradecer pelas recomendações! A Thays, que já faz um tempo (acho até que já comentei kkk) e o Aoi Kun, mais recentemente!! Obrigada seus lindos!! *O* Aliás, Aoi Kun, Gellexis é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito tuuuuudo!! AMEI!! s2 Beijos aos leitores, aos fantasmas e, principalmente, aos meus querid@s CisneNegro, Thays, Ayara e Ailatan que estão, mesmo da forma mais simples, sempre comentando e incentivando a minha escrita. Obrigada! *se sentindo no programa da xuxa hoje* HAHAAHHAHAH P.S.: já que estou na onda, aproveito para mandar um beijo para a minha "revisora" CisneNegro!! kkkkkk Agora se acharem alguma vírgula fora de lugar ou coisa do tipo, posso dividir a culpa com ela eeeehhhhhhhhhhh o/ ahahahahaahahahahh