Destinados à Payre
20 O Rei assassino
Notas iniciais
Nos últimos dias Angel não tinha sido vista em nenhum lugar da escola. Alexis tinha até mesmo pensado em procurá-la em seu quarto, mas não queria correr o risco de cometer um novo erro. Preferiu deixá-la ter seu próprio espaço para pensar. Sabia que ela ainda estava na Alpha e isso, por enquanto, era o suficiente. Assim como ele, Angel tinha muito para processar desde o último encontro entre eles. Era tortuoso para ele relembrar o que haviam compartilhado, pois era grande o receio de que tivesse sido a única vez. Tinha a convicção de que seria capaz de mantê-la ao seu lado, mas Angel era imprevisível e nada coerente às vezes, então havia a ponta de dúvida que, pela primeira vez na vida, o deixava inseguro sobre a situação e sobre sua própria capacidade em resolver as coisas. Mais uma vez ela o fazia experimentar algo novo e intenso.
Olhando seu reflexo no elevador, suspirou. Só estava indo ao Baile na esperança de que ela fosse também. Embora Angel houvesse aceitado acompanhá-lo, naqueles dias não havia dado uma pista sequer se ainda estava disposta a fazer isso. Seu plano era ficar tempo suficiente para verificar se ela iria ou não. Se Angel realmente não fosse, ele apenas iria embora. O príncipe olhou para o corsage de violetas em suas mãos, da exata cor dos olhos de Angel, preservada dentro de uma caixa transparente, fechada por uma fita de seda branca. Esperava poder entregar a ela naquela noite. Ajeitando a única e delicada violeta em sua lapela, deixou o elevador em direção à festa.
Ao entrar no salão de Baile, percebeu que esse já se encontrava lotado. Muitos casais, elegantemente vestidos, desfilavam pelo lugar. Tradicionalmente os rapazes esperavam as garotas na recepção do Dormitório Feminino, mas como ele não sabia quais eram os planos de Angel, preferiu esperá-la na entrada do salão para não correr o risco de um desencontro. Cumprimentou de forma distante todos que passavam, percebendo os olhares curiosos em direção as flores que trazia. Era óbvio que todos ali estavam cientes de que ele havia convidado Angel para acompanhá-lo, mas ninguém, além dele, sabia qual tinha sido a resposta. Embora Choi tivesse tentado descobrir, sem sucesso, de forma insistentemente irritante ao longo daqueles dias.
De repente, Alexis soltou uma imprecação. Seu pai, o Rei Hamad, entrava no salão, acompanhado por uma mulher de características europeias, provavelmente a atual amante favorita. E ao lado do casal vinha uma garota que parecia ter a idade dele. O vestido verde combinava com os olhos amendoados e com a pele cor de oliva. Um coque elaborado, coberto por presilhas brilhantes, em conjunto com inúmeras joias que ela trazia, prendia os cachos castanhos avermelhados. Parecia indiana, ideia reforçada pela pequena pedra localizada um pouco acima das sobrancelhas. Já podia imaginar que era uma princesa de sangue muito azul e filha de algum bom e velho amigo de Hamad.
Alexis sentiu um incomodo tomá-lo quando o Rei o viu e começou a caminhar em sua direção. Todos foram abrindo caminho para o Rei e suas duas acompanhantes passarem. Nada surpreendente. –- Alexis. Como tem passado? Reparando na total falta de afeto daquelas palavras, Alexis limitou-se a responder, de forma monossilábica:
–- Bem.
Viu que sua atitude irritou o Monarca, o que só lhe causou satisfação. Seu pai tinha a sua altura e embora fosse um homem já não tão jovem, ainda era bonito e sua aura de autoridade lhe garantia muitos olhares femininos. Alexis sabia que por baixo daquela loucura e arrogância, o Rei era um poço de vaidade e adorava ser o centro das atenções. Estava até surpreso por não ver uma comitiva inteira o acompanhando naquela noite, como era o usual.
–- Ótimo. Fico satisfeito em saber. – Tal satisfação não era percebida na dureza de seus olhos negros. — Quero apresentá-lo a princesa Esha Lali Swami Persad Autar Kolesch. Ela é sobrinha do Rei Shaib de Kadah.
Alexis nem olhou para a garota, reparou que ela fez uma breve reverencia, mas ele ainda encarava o pai, refletindo nos seus olhos azuis a mesma expressão impassível do outro.
–- Pensei já ter deixado claro que não estou interessado em seus arranjos matrimoniais.
O Rei Hamad olhou para o filho, agora com irritação.
–- Não seja descortês com a filha de um amigo. Estou apenas fazendo uma gentileza. A princesa Lali passará a estudar na Alpha a partir da próxima semana, como eu vinha ao Baile, aceitei acompanha-la até aqui.
–- Muito cavalheira a sua atitude. – Alexis disse com uma ironia não tão sutil.
–- Também espero que seja apenas cavalheirismo a ajuda que tem prestado a uma garota inglesa nesta escola. – Havia uma clara ameaça nas palavras do Rei. Ao passar os olhos pela corsage que o filho trazia nas mãos, seu rosto ficou coberto por uma máscara de desprezo.
Sorrindo friamente, Alexis retrucou, nenhum pouco intimidado com as palavras ou atitudes do Rei.
–- Sabe bem que não sou famoso por ser cortes. Ou cavalheiro.
–- Não ouse fazer algo apenas para me atacar, Alexis. Se quiser uma garota para diverti-lo, serei perfeitamente capaz de entender. Mas, não brinque com meninas que só manchariam a reputação da nossa família. Uma delinquente como eu soube.
Não conseguindo se conter, Alexis riu alto, sem qualquer humor, chamando a atenção dos presentes para si. Ignorando todos os olhares, ele ficou sério novamente e encarou o pai, falando em tom baixo e cortante.
–- Não seja ridículo. Acredita mesmo que está habilitado a falar sobre reputação? Além disso, — ele arqueou uma sobrancelha escura — quem disse que eu estou apenas brincando com ela? Se for nisso que o fizeram acreditar, deveria escolher melhor seus informantes, Majestade.
O Rei ficou vermelho, parecendo prestes a perder o controle, quando um burburinho começou na porta de entrada do salão e logo se alastrou pelo resto do lugar. Alexis não prestou atenção, estava esperando a reação do seu oponente, mas quando o próprio Rei também se virou para a entrada, parecendo muito impressionado, ele olhou naquela direção. E seu coração saltou no peito. Ela não tinha desistido de ir à festa.
Sem desviar os olhos de Angel, Alexis começou a ir em sua direção, ficando cada vez mais maravilhado diante da imagem que ela formava. Sempre notou a beleza impressionante de Angel, mas naquele momento estava além de qualquer coisa que ele pudesse pensar ou dizer.
O vestido tomara que caia em tom de azul escuro revelava o colo alvo e envolvia as curvas do busto e dos quadris de forma sedutora, caindo em ondas suaves, a partir dos joelhos até o chão. Os cabelos prateados, presos na frente por uma delicada tiara de pedras, cascateavam em ondas suaves até a cintura fina. A pele pálida brilhava como seda em contraste com o tecido escuro da roupa. O rosto em forma de coração revelava os lábios cheios e rosados, com os incríveis olhos violetas, enormes e inocentes, que vagavam pelo salão, parecendo procurar algo. Ou alguém.
Quando aqueles olhos o encontraram, Alexis correspondeu sorrindo e voltou a caminhar na direção dela, dessa vez mais apressadamente. Em sua cabeça apenas existia Angel em seu vestido azul e a louca esperança de que tudo daria certo entre eles afinal.
***
Angel prendeu a respiração sem perceber, quando seus olhos cruzaram com os azuis turquesas de Alexis. Meu Deus, como ele estava lindo! O smoking preto ajustava-se perfeitamente a musculatura do corpo masculino, ressaltando os ombros largos e o peito amplo. A camisa branca e o colete com a gravata borboleta em tom cinzento contrastavam lindamente com a pele morena, assim como, com os cabelos negros, apenas jogados para trás, deixando a mostra o rosto sexy, com seu maxilar definido e impressionantes olhos ornados pelos cílios longos e escuros.
Alexis parou na sua frente e ela ergueu a cabeça para continuar a olhá-lo nos olhos. Sem dizer nada, ele exibiu uma caixa com o corsage mais delicado que ela já tinha visto. Era feito com pequenas violetas que formavam algo parecido com uma única flor, entremeadas a ela estavam delicados cristais em forma de gota. Uma fita branca cravejada de pedras brilhantes, que ela não soube definir a origem, prendiam o arranjo. Muda, observou Alexis tirar o enfeite da caixa. Quando ele estendeu a mão, ela apenas ofereceu a sua. Com gentileza o Príncipe prendeu o enfeite em seu pulso, por cima da faixa azul que ela usava. Ao terminar, ele inclinou-se e beijou a palma de sua mão, fazendo-a arquejar em resposta.
–- Você está linda.
Nervosa, Angel acabou corando com o elogio. Caramba, que situação! Era difícil não notar os inúmeros olhos sobre eles, além disso, precisava ignorar seu coração que batia como um louco diante do príncipe. Afinal era a primeira vez que o via desde a noite que haviam passado juntos. E aquela coisa toda era muito “conto de fadas” para a sua mente confusa. Sendo assim, nada surpreendente o fato de mal ser capaz de falar normalmente.
–- Obrigado. Você também está... Lindo.
Sorrindo Alexis colou a mão dela, que ainda segurava, sobre o braço dele, guiando-a pelo salão.
–- Onde estamos indo?
–- Dançar. É o que se costuma fazer em eventos como esse.
–- Eu não sei dançar. Nunca fiz isso.
–- Sem problema, basta me acompanhar.
–- Vou pisar no seu pé.
–- Provavelmente nem vou sentir.
–- Ah, mas se eu pisar com o salto que estou usando, garanto que vai sentir, sim.
Ele a analisou brevemente. Ela, que geralmente batia abaixo do seu ombro, agora estava um pouco acima dele.
–- Ou vai quebrar o pescoço se cair dessa altura.
Angel fez uma careta diante do comentário. Apertando mais o braço que segurava, disse:
–- Confesso que andar com essa coisa é mais complicado do que eu imaginava. Se eu mostrar qualquer indício de desiquilíbrio, tenha, por favor, a gentileza de me segurar.
Rindo, ele ficou de frente para ela, puxando-a pela cintura e segurando a mão delicada dela entre as suas. Lentamente começou a se mover, aproximando-a ainda mais de si.
–- Não se preocupe, garantirei que não tenha contato com o chão nessa noite. Seu único contato será comigo.
A garota logo sentiu o familiar cheiro de Alexis. Era impossível não reagir ao notar seus seios contra o corpo dele, as mãos grandes que haviam deslizado por seu corpo e que agora se moviam em lentos círculos por sua cintura. Seu olhar caiu sobre a boca dele e desceu para o queixo e pescoço. Partes que ela havia saboreado e que haviam tocado nela na mais íntima das formas. Suas pernas esbarravam contra as coxas firmes dele e isso a torturava, lembranças do quanto a pele dele era sólida e ainda assim, suave, estavam gravadas em sua mente. Quase sentiu na ponta dos seus dedos a textura dos músculos do peito que roçava em seu corpo, cada vez mais quente e suplicante. Não podia suportar a ideia de não ser capaz de experimentar aquelas sensações novamente, mas não tinha escolha. A decisão estaria nas mãos de Alexis.
Uma pontada de dor atingiu seu coração quando pensou na decisão tomada. No início tinha realmente pensado em não comparecer ao Baile. Mais uma vez havia bolado um plano de fuga e desistido. Chegara a conclusão de que não podia ser covarde a esse ponto, embora nenhum dos dois tivesse dito em voz alta, o relacionamento deles era algo significativo e não poderia ser menosprezado de forma tão leviana. Por isso, não podia mais esconder a verdade dele.
Quando decidiu seguir em frente com Alexis e foi até o quarto dele naquela noite, estava receosa pela dor que poderia causar a si mesma. Tinha hesitado pensando no quanto iria sofrer com suas ações. Mas ao pesar as coisas, não foi difícil chegar a conclusão de que valeria a pena, afinal nada mais tinha a perder. Mas as palavras dele na manhã seguinte tinham mudado tudo. Não eram mais apenas os seus próprios sentimentos que estavam em questão ali.
Sempre soube da atração que ele tinha por ela, Alexis na verdade nunca escondeu isso. Mas pensava que era apenas isso, e para ela bastava, possivelmente porque isso tornava tudo menos complicado. Contudo, quando ele definiu o encontro de ambos como “destino” e pior, quando ela viu nos olhos dele muito além do que tinha notado até então, entendeu que estivera errada o tempo todo. Para Alexis, sempre havia sido mais. E no fundo, para ela também. O medo a havia cegado e enganado tão perfeitamente quanto possível.
Angel suspirou e soltou a mão dele, assim, lançou seus braços na cintura do rapaz e apoiou seu rosto nos ombros de Alexis. Precisava ter mais dele para si. Precisava disso desesperadamente como o ar que a fazia viver, o tempo que fosse. Dane-se o que seus colegas iriam falar. Aquele poderia ser o último momento que passaria nos braços do seu arrogante príncipe e não desperdiçaria isso em função dos outros. Já havia decidido ao longo daqueles dias, ele merecia saber a verdade. Sobre suas cicatrizes, sobre Hye Kyo. Sobre seu coração. E essas verdades certamente iriam tirá-lo dela.
Sabia que Alexis gostava dela, agora estava ciente de que era até mais do que havia suposto, mas como ele poderia ficar com ela? Como ele poderia querer isso? Estar com uma garota cheia de complicações, que poderia não fazer mais parte da vida dele a qualquer instante. Quem era idiota de aceitar uma bomba-relógio ao seu lado?
–- Por que tantas caretas? A voz calma de Alexis a tirou de seus devaneios.
–- Estou pensando sobre nós.
–- Não quero saber então. Por suas expressões, não parece ser algo que eu gostaria de escutar. Ela permaneceu com o rosto colado a ele e fechou os olhos.
–- Acho que não. Mas precisa. Nós temos que conversar Alexis.
O Príncipe, que havia passado a abraçar quando ela o enlaçou pela cintura, apoiou o queixo no topo da cabeça loira.
–- Imaginei que sim.
–- Depois do Baile, vamos até a sua sala no GEA.
–- Vejo que está com pressa.
–- Você não está?
O silêncio foi a resposta por longos minutos, então ele declarou.
–- Não vou deixar você ir embora, Ange.
–- Eu não quero ir. – Ela apertou a casaca dele entre seus dedos, como se assim pudesse prendê-lo ao seu lado por mais tempo. – Mas, você vai querer que isso aconteça.
A música acabou, Alexis afastou-se apenas o suficiente para observar o rosto de Angel. Ignorando os casais que se afastavam do centro do salão, onde eram realizadas as danças, eles ficaram ali parados, ainda em um abraço, com os olhos fixos um no outro. Quando uma nova música iniciou, os dois permaneceram do mesmo jeito, até que Alexis inclinou-se e beijou-a de leve nos lábios.
–- Eu já falei antes, não seja precipitada em julgar minhas ações. – Ele disse com a boca próxima a dela.
Angel desviou o olhar. Perceber tanta determinação em Alexis lhe deu uma esperança tão calorosa que precisou de um esforço enorme para afastá-la. Era muito tentador acreditar que ele aceitaria tudo o que tinha escondido dentro de si, sem qualquer hesitação. Sabendo o quão devastadora seria a decepção, resolveu deixar de lado aquele assunto. Não ia se permitir tamanha dor, não ainda.
–- Estou com sede. O que tem em uma festa tão cheia de frufru para beber?
Alexis suspirou. Ela não pode determinar se foi por insatisfação pela mudança do tema ou de alívio por isso ter acontecido. Talvez as duas coisas.
–- Venha, vamos descobrir.
De mãos dadas, começaram a andar em direção ao que parecia o local onde estavam os coquetéis, indiferentes aos inúmeros garçons que circulavam por ali.
–- Droga! – Resmungou Alexis.
Angel estranhou a imprecação, e de forma automática, virou-se para descobrir o que o tinha incomodado. Várias pessoas circulavam por ali, a maioria olhando na direção deles, mas todos estavam se afastando para a passagem de um homem acompanhado por duas belíssimas mulheres. Era um sujeito mais velho, cerca de cinquenta anos, mas muito bonito e elegante, de cabelos negros, assim como os olhos impressionantes. Ele todo era muito impactante, aliás. Parecia alguém acostumado a comandar tudo a sua volta, mesmo que inconscientemente. Muito parecido com o que via em Alexis e isso foi o que a alertou. Aquele era o Rei Hamad, pai de Alexis.
Voltando sua atenção para as mulheres, se deteve na mais jovem, ela tinha, sem dúvida, a idade deles. Era linda e exótica, provavelmente indiana. Seus olhos verdes exibiam curiosidade e encararam os seus de forma muito direta, depois de deslizarem sobre Alexis. Angel sentiu-se encrespar com aquela inspeção óbvia ao príncipe. Com uma grande carga de zombaria, para encobrir uma ponta de receio, perguntou:
–- Estou, por acaso, prestes a conhecer uma prometida que até então não foi mencionada em nossas conversas? Assim, só para não ser pega desprevenida em uma situação meio chata.
Alexis continuou com sua atitude impaciente e irritada diante da aproximação do Rei.
–- Não. É apenas mais uma princesa que Hamad julgou adequada para o futuro Rei de Quidar e resolveu apresentar, tal qual faria com um objeto qualquer.
Quando o Rei Hamad ficou na frente deles, analisou Angel de cima a baixo, sem qualquer constrangimento. Franzindo os lábios em claro descontentamento, embora um rápido brilho de admiração tivesse passado por seus olhos, dirigiu-se ao filho, em francês, como se ela nem estivesse ali:
–- Percebo o que o levou a deixar seus notórios hábitos celibatários e até entendo como isso resultou em tamanha falta de bom senso, algo que não é do seu feitio. Se quiser realmente continuar com essa garota, sugiro que se torne mais discreto. E arranje uma noiva adequada o mais breve possível, geralmente isso é o bastante para fazer com que as distrações se tornem apenas isso. Distração.
Antes que Alexis pudesse responder, Angel ergueu a mão, em um claro gesto que solicitava a palavra. Surpreso, ele apenas arqueou as sobrancelhas e manteve silêncio. Não passou despercebido ao Rei, e a suas acompanhantes, o inusitado da situação. E mais surpreendente ainda foi quando Angel, no mais perfeito francês, respondeu ao Rei:
–- Agradeço o elogio, Majestade. Mas lhe garanto que o crédito é apenas do vestido. E o salto também tem seu mérito. Contudo, devo observar que seu conselho é bastante questionável. Ou mesmo idiota. Vamos deixar como questionável, já que estou falando com um Rei e seria muito indelicado da minha parte chamar um Rei de imbecil. Ou de idiota. – Ignorando as bocas abertas e os inúmeros olhos arregalados a sua volta, incluindo-se ai o próprio Alexis, Angel continuou. – Sabe, eu tenho uma porrada de defeitos, até imagino que já deva conhecer a maioria deles, mas posso garantir que ser a amante de um príncipe marionete, não está entre eles. Então, pode imaginar como sou grata por Alexis não ser esse tipo de sujeito. Nem do tipo que é facilmente influenciado por qualquer distração. – Ela sorriu e sua beleza ficou se possível, ainda mais evidente. – Além disso, Vossa Excelentíssima pessoa pode ficar certa de uma coisa, eu não sou muito boa em dividir o que é meu.
–- Acha que só porque abre as pernas para o meu filho, ele é seu? – Hamad praticamente cuspiu as palavras venenosas.
Antes que Alexis pudesse intervir, Angel respondeu de forma inocente, mas com um sorriso petulante:
–- Nossa, é claro que não! – Os olhos violetas não desgrudavam dos negros do monarca, tão frios quanto os do seu rival. – Mas o que o faz pensar que eu sou sua para decidir a minha vida?
–- Está louca? Eu não...!
–- Sim! É isso que está fazendo, caro Rei. No momento em que me coloca como uma sombra do seu filho, uma garota descartável, está definindo o meu futuro. E você não é Meu Rei, nem meu pai, nem qualquer outra pessoa que eu deva respeitar e aceitar esse tipo de imposição! E se eu descobrir que Alexis é apenas um covarde capaz de aceitar tamanha interferência na sua vida sem se opor, acredite Majestade, nesse momento eu já não serei mais um problema no seu lindo espetáculo real!
O Rei Hamad deu um passo para frente, totalmente tomado pela raiva. Alexis, no entanto, foi mais rápido, ficou na frente de Angel e encarou o pai. Em tom baixo e ameaçador, apenas para Hamad ouvir, disse:
–- Fico feliz em lembrá-lo que há muitos anos foi determinado por meu avô que eu me tornaria o Rei de Quidar. Mesmo que você não aprove. Isso significa que não tenho qualquer motivo para obedecê-lo. Sendo assim, sugiro que volte para seu trono em Quidar e aproveite o máximo que puder sua permanecia nele. Aproveito ainda, para dar-lhe um conselho. Da próxima vez que estiver na presença da minha namorada, seja um homem respeitoso. Supondo, é claro, que seja ainda capaz de lembrar o que é isso.
Sem esperar resposta, Alexis deu as costas ao pai e afastou-se dali com Angel. Quando já estavam longe do ódio mortal de Hamad, ela questionou curiosa:
–- Você vai ser Rei de Quidar mesmo que o Rei babaca não queira? Como pode ser isso?
–- Sim. Hamad foi indicado ao trono após a morte do irmão mais velho. Sempre houve suspeitas de que a morte do meu tio não foi acidental, por isso meu avô, quando foi obrigado a passar o trono a ele, pois estava muito doente, deixou bem claro que isso seria até que eu estivesse apto a assumir Quidar. Por isso Hamad se esforçou tanto para ser o melhor Rei que o povo já viu. E em alguns aspectos ele conseguiu, mas por outro lado, nunca foi capaz de conter totalmente sua crueldade e sede de poder.
Angel puxou Alexis pela mão para a sacada que estava livre, no caminho pegou uma taça com um liquido laranja. Alexis pegou outro. Quando alcançaram a parte mais afastada do local, Angel bebeu um gole e indagou, com surpresa indisfarçável:
–- Seu pai pode ter assassinado o próprio irmão?
Ele apenas balançou a cabeça afirmativamente. Depois de um tempo, virou o rosto para ela: –- Você deve ter lido sobre a morte da minha mãe.
–- Sim, li que foi em uma explosão terrorista.
Angel não entendeu a relação entre os dois assuntos, mas sua pele se arrepiou quando percebeu uma dor desconhecida brilhar de forma estranha naqueles olhos azuis. Sem poder se conter exclamou:
–- Meu Deus!
Alexis olhou para o copo em sua mão, balançando o liquido suavemente, confidenciou:
–- Quando eu tinha cinco anos minha mãe fugiu com seu amante, um Sheik, amigo de infância de Hamad. Eu era muito novo para entender o que tinha acontecido, meu pai apenas disse que ela havia nos abandonado. Fiquei com muita raiva dela na época, mas agora entendo que foi mais uma fuga de Hamad, do que algo relacionado ao homem com quem ela estava tendo um caso. – Ele olhou para o horizonte, parecendo refletir sobre o que dizia. – Dias depois ela foi encontrada morta em uma ilha, junto ao amante. Não sobrou muito dos dois. O lugar foi completamente destruído. Falavam em explosões e artilharia de guerra. Todos associaram a cena a um ataque terrorista contra o Sheik. Eu pensei dessa forma até meus doze anos.
–- O que aconteceu? – Ela perguntou baixinho.
–- Meu pai estava muito bêbado, era seu estado normal depois da morte da rainha. Mas dessa vez ele foi a minha procura, algo meio incomum, pois sóbrio ou bêbado, ele sempre me evitava. Quando me viu, tentou arrancar meus olhos com sua adaga. Eles eram parecidos com os da minha mãe.
Angel sentiu seu estômago revirar ao imaginar a cena. De alguma forma, lembrou do frio que sentiu naquele dia, no cemitério, diante dos túmulos dos seus pais e irmãos. Seu avô não tentou arrancar nenhum membro seu. Mas arrancou sua alma.
–- Enquanto eu tentava me defender, ele confessou que tinha matado os dois. Foi por ordens dele que a mansão havia sido destruída daquela forma. Desde então passei a evitá-lo, não ia para o palácio nas férias e quando ia era apenas para visitar minha avó. Ela morreu há três anos. Durante esses anos não fui mais a Quidar.
Os dois ficaram em silêncio, contemplando o horizonte escuro. Tal qual as lembranças que tinham de suas infâncias. Quebrando o silêncio, em tom distante, como se as palavras estivessem saindo por conta própria, diretamente de sua alma, Alexis revelou:
–- Nunca contei isso para ninguém. Acho que receava o quanto se tornariam reais as perversidades do meu pai. Soube ainda na infância os segredos sobre a morte do meu tio, mas nunca levei a sério. Nem mesmo quando minha avó me disse sobre a determinação do antigo Rei, de que eu seria seu sucessor e que Hamad seria apenas um Rei temporário. Honestamente duvidei da crueldade dele ainda depois de ter tentado me ferir. Afastei-me depois disso, mas sempre procurei agir de acordo com as orientações dele. Racional, desvalorizando qualquer tipo de laços ou sentimentos, acreditando que dar importância a essas coisas apenas me tronaria igual ao homem destruído que Hamad se tornou. – Alexis olhou para ela, seus olhos brilhando na escuridão de uma forma que fazia seu coração bater muito rápido. Aquele diante dela era um Alexis totalmente exposto. – Mas percebi que estava totalmente enganado. Não foram as ações da minha mãe que desencadearam na loucura do Rei. Ao contrário, ela provavelmente evitou que isso acontecesse enquanto estava com ele. Deve ter sido sufocante demais conter, sozinha, um homem como Hamad. Então fugiu.
–- Por que pensa dessa forma?
–- Porque todos no palácio comentavam o quanto ele mudou quando casou com ela. E o quanto mudou quando ela foi embora. O mesmo homem de antes. Não conseguia entender isso, não era capaz de compreender essa situação. Culpava as emoções, como Hamad me ensinou.
–- O que o fez mudar de ideia agora?
Alexis sorriu, de uma forma um tanto triste, ainda mergulhado na tragédia de seus pais:
–- Você me mudou. Quando me permiti sentir as emoções que você causava, fui capaz de repensar muitas questões que sempre bloqueei da minha mente. Como a relação dos meus pais. Era mais fácil pensar que o descontrole de sentimentos tinha tornando ele o que é, do que admitir que tenho um pai que foi o responsável pela morte do próprio irmão e da esposa. Não é fácil dizer: meu pai matou minha mãe, não por ciúme, por ter se sentido traído. Ele a matou porque essa é a sua verdadeira natureza. Eu sou filho desse assassino.
Angel entendia a dificuldade em aceitar a crueldade das pessoas que deveria amar. Não foi fácil para ela perceber o quanto era detestada e o quanto isso era errado da parte de seus parentes. Sua própria atitude de ferir o avô não passava de uma forma de fazê-lo perceber que ela estava ali, ainda viva, ainda precisando da atenção dele. Sabia que jamais receberia carinho de qualquer um dos Lancasters, quase não ligava mais para isso. Mas não significava menos dor.
Em um impulso, ela aproximou-se e o abraçou pela cintura, encostando o rosto no ombro dele. Sentiu quando Alexis retribuiu o abraço e apoiou a cabeça sobre a sua, da mesma forma que havia feito na pista de dança. Agora tinha se tornado ainda mais difícil falar o que tinha para dizer a ele. Como poderia causar ainda mais dor a seu príncipe, já tão ferido?
E como confessar seus próprios crimes?
Ela também podia ser uma assassina, capaz de matar a pessoa mais próxima que já teve em sua vida.
Como ele olharia para ela então? Com o mesmo desprezo que olhava para o pai? Ela teria forças para suportar isso?
Perderia a única pessoa que se importava com ela. Novamente.
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