Notas iniciais
Oi, pessoas! *desvia das pedras* Desculpem, prometi que terminaria no fim de semana, mas não deu. Rolou um problema sério em minha família e não pude cumprir meus prazos Y_Y Maaaaaas, aqui está o penúltimo capítulo da primeira parte! Espero que curtam a leitura! ^^

Mona viu seu irmão sorrindo para seus dois amigos idiotas, dos quais ela nem lembrava o nome. Ele, ao que parecia, já tinha tudo preparado para o “show”. Percebia que a todo o momento ele buscava por alguém em meio às várias pessoas no salão. Provavelmente estava procurando pela Angel, mas ela ainda não tinha saído da sacada por onde tinha sumido, já há algum tempo, com o príncipe.

Do outro lado do salão avistou seu pai, conversando com várias figuras importantes que estavam presentes na festa. Parecia muito satisfeito com os contatos que fazia. George Lancaster estava ao seu lado, ainda parecendo furioso com a cena provocada pela neta. Seus olhos também vasculhavam o salão, certamente procurava a mesma pessoa que Ren. E para o mesmo objetivo, acabar com ela. Mona sorriu, seria melhor para aquela garota aproveitar bem seus amassos com o príncipe Alexis, pois seriam os últimos, a julgar pelas expressões de George Lancaster, do Rei Hamad e dos planos de Ren.

–- O que causou esse sorriso tão lindo em minha adorável acompanhante?

A garota olhou para o belo e elegante rapaz loiro ao seu lado, ampliando seu elogiado sorriso.

–- Ora, apenas estou satisfeita com a festa. Não acha que está maravilhosa?

–- Desculpe, mas até agora a única coisa maravilhosa aqui tem sido a sua companhia, minha cara. Ver Angel se expondo na pista de dança com o príncipe e assisti-la envergonhar nossa família como fez no episódio com o Rei Hamad, certamente tirou o brilho do evento. Espero que pelo menos ela tenha a decência de não voltar de onde quer que tenha ido se enfiar com o príncipe Alexis.

Mona quase mordeu a língua para evitar gritar em protesto ao comentário de Leonard. Seria muito decepcionante se Angel realmente não voltasse para o salão.

Franzindo o cenho, olhou para a sacada novamente, mas não viu nada que indicasse a presença dos dois. Contudo, a cena que acabou por presenciar, fez um indesejável mal estar tomar seu estômago. Choi estava abraçado a garota que o havia convidado, com o rosto próximo ao dela, falando coisas que a fazia dar gargalhadas. A garota jogava a cabeça para trás, deixando o pescoço e boa parte do decote ousado, exposto de forma sedutora, às vistas do rapaz. Ainda que tentasse Mona, não foi capaz de desviar o olhar, nem mesmo quando os olhos dele encontraram os seus. Para provocá-la, não havia dúvidas quanto as intenções dele, pois os olhos castanhos continuaram nos seus, ele baixou a cabeça e beijou a pele dourada da base do pescoço feminino ao seu alcance. A garota morena, sem deixar passar a oportunidade, o enlaçou pelo pescoço e o beijou na boca. Ele não se afastou.

Sentindo-se zonza, Mona pediu licença a Leonard e procurou um lugar onde não fosse capaz de assistir aquela cena. Era revoltante admitir que ver Choi com outra garota a deixava mal. E o pior, ele sabia disso.

Quando entrou na Alpha, o primeiro a conversar com ela havia sido ele. Nas primeiras semanas, somente Choi tinha se aproximado dela, pois ali eram comuns os grupos fechados nos quais novatos não eram bem vindos. Mas ele era diferente. Não ligava para essas coisas, conversava com ela nas aulas e almoçava em sua companhia. Mona o achava muito gentil e seus lindos olhos castanhos eram sempre alegres. Gostava muito dele, e no fundo, esse havia sido o maior problema, o que a afastou de Choi e a fez tratá-lo com frieza.

Lembrar-se daqueles tempos era algo que, infelizmente, vinha acontecendo cada vez com maior frequência...

Um par de entusiásticos olhos castanhos, atrás de óculos com aros muito grossos e pretos, estava a centímetros dos dela. Choi apoiava as mãos na sua mesa e mantinha o corpo inclinado para frente. Ele sempre fazia isso nas aulas, como se não importasse a curiosidade dos colegas a volta deles.

–- Seus olhos são tão incríveis. São dourados, certo? – Ele sorriu e se afastou um pouco. Mona sentia que seu coração poderia escapar pela boca. – Sabe, eu tinha uma gata. Ela se chamava Core, é o diminutivo de Coreopsis, uma linda flor amarela, porque ela era toda amarelinha, mesmo os olhos. Eles eram iguais aos seus. Lindos.

Mona perguntou curiosa, tentando afastar a vergonha:

–- E onde está a Core?

O garoto sorriu ainda mais. A Mona pareceu que foi uma forma de encobrir a tristeza que brilhou repentinamente nos, até então, alegres olhos do menino.

–- Minha mãe a levou embora.

–- Quando você entrou na Alpha?

–- Não. Quando ela e minha irmãzinha foram morar em outro país.

–- Mas, você não a vê quando volta pra casa nos feriados e nas férias?

Choi coçou a cabeça e olhou para o teto:

–- Meus pais se separaram. Há quatro anos não vejo a Core.

Mona entendeu. Aquele menino não via a irmã e a mãe há quatro anos. Sem pensar, ela tocou a mão que ele mantinha sobre a mesa. Choi voltou a sorrir para ela, dessa vez, calorosamente.

Naquele mesmo dia, ela encontrou uma delicada flor amarela na sua mochila. Era uma Coreopsi. A flor que lembrava a cor de seus olhos. A flor que o fazia recordar uma família que ele já não tinha mais.

Voltando de suas recordações, Mona ergueu o punho e abriu um dos pingentes de flor pendurados à pulseira que sempre usava, dentro havia uma delicada pétala de Coreopsis, envolta em resina, o que mantinha seu lindo dourado. Um pedaço do presente de Choi de três anos atrás.

Era um pouco confuso, e doloroso, como tudo tinha chegado ao ponto em que estavam. Ela havia começado a tratá-lo mal quando percebeu que gostava dele, mais do como amigo. Isso, ela soube, a impediria de continuar o seu plano com relação a Alexis. E mesmo sacrificando algo tão frágil, que mal começava a nascer entre eles, machucando ambos como sempre fazia, não poderia desistir. Mesmo depois que a verdade ficou clara. Os sentimentos podem crescer mesmo quando você não os alimenta da forma correta. E esses doem ainda mais.

Observando Harrison Dewis do outro lado do salão, todo orgulhoso, apresentar Ren para as pessoas que conversavam com ele, ela fechou o pingente com raiva. Ele nem sequer a tinha cumprimentado ainda, embora a tivesse visto várias vezes desde que chegará. Se ela estivesse com Alexis ao seu lado, certamente estaria exibindo aquela mesma satisfação para ela. Somente para a filha que tanto o admirava.

Sua mãe sempre brincou com o fato de Mona ter aprendido a dizer “papa” com facilidade, mais do que qualquer outra palavra. Em como ela havia aprendido a andar, para alcançar o pai que chegava em casa. Em como apenas ouvindo a voz dele pela televisão, discursando para o povo, era o suficiente para fazê-la dormir satisfeita. Que nas redações e trabalhos escolares, o herói e a figura mais importante era sempre o pai. Também havia sido por ele que Mona tinha se esforçado tanto em tudo o que fazia.

Amor e dor eram tão próximos, estavam sempre tão entrelaçados, que ela não tinha escolha. Mona só poderia conseguir um amor e não era capaz de abrir mão daquele que havia sido seu maior sonho, desde as suas primeiras palavras. Sem medir qual era a dor maior. Apenas sob o conforto daquela que era a mais conhecida. O amor de seu pai.

Engolindo seu ressentimento, Mona mostrou a sua mais encantadora expressão e foi em direção ao pai e o irmão. Mais uma vez, para roubar apenas migalhas de atenção.

***

Alexis, recostado contra um pilar, observava as pessoas a sua volta, sem realmente vê-las. Angel tinha ido ao toalete e ele aguardava por ela. Cruzando os braços, respirou fundo. Tinha sido assustador e libertador revelar tudo aquilo para ela. Ser honesto e mostrar quem era e o quanto ela havia o modificado, foi a sua forma de trazê-la mais para perto, de mostrar que ele também era falho e com um passado tortuoso. Que talvez fosse capaz de alcançar a dor que Angel guardava para si mesma. Mas o resultado o tinha surpreendido de certa forma, pois ter colocado em palavras coisas que nem sequer se permitia pensar, mostrou o quanto estivera enganando e mentindo para si mesmo. Ele não era tão corajoso quanto imaginava.

Erguendo os olhos, reparou que George Lancaster conversava com o tal Leonard, então os dois foram em direção aos toaletes. Pressentindo que isso seria um problema para Angel, ele seguiu na mesma direção dos dois.

***

Ela estava assustada. Mais do que nunca o medo parecia prestes a engoli-la. Angel sabia que Alexis não era apenas a figura do príncipe frio e perfeito que todos imaginavam. Havia percebido que existia algo mais profundo e até mesmo sombrio nele. Uma história trágica era algo que imaginava, mas não daquele tipo. O próprio pai havia assassinado sua mãe. E isso provocava seu temor, pois quais seriam as chances de alguém, depois de ter passado pelo o que ele passou, aceitar uma garota tão problemática quanto ela?

E mais. Alexis havia negado por anos o papel do pai como um assassino, como aceitaria as coisas que ela própria já tinha feito? Apoiando o corpo contra a pia fria de mármore branco, correu as mãos pelos cabelos, desalinhando o penteado perfeito, mas não prestou atenção a isso. As imagens de uma manhã que mal era capaz de lembrar lhe assombrava a mente. Havia tanto sangue no chão e Hye Kyo estava no meio dele, coberta por ele. Angel olhou para as próprias mãos. Elas também tinham estado tingidas com aquela cor. Com o sangue de sua amiga morta.

Batendo com o punho na pedra, fechou os olhos e respirou fundo. Não era o momento para pirar daquela forma. Não podia. Precisava cumprir a promessa, feita a si mesma, antes de entrar naquela festa. Iria aproveitar a noite ao lado de Alexis e deixaria toda essa dor para depois. Precisava pelo menos levar boas lembranças consigo quando fosse embora da Alpha, provavelmente ainda na próxima semana.

Erguendo os ombros e ajeitando a tiara, Angel olhou para seu reflexo no espelho. Tudo no lugar. O que era surpreendente levando em consideração as mãos muito ligeiras de Alexis em seu vestido. Depois do abraço de consolação, as coisas foram de um beijo bem menos consolador para afagos abrasadores. Finalmente ela teve a oportunidade de tocar naquela bunda sexy, algo que na noite que passaram juntos, com a coisa toda do nervosismo, ela não foi capaz. E como se arrependia disso agora!

Bem, a noite era muito longa e levando em conta o que teria pela frente, era o momento de aproveitar cada pedacinho que pudesse ter do príncipe. Bem, ela tinha uma lista de prioridades em sua maliciosa cabecinha. E apenas uma noite para riscar todas elas, uma a uma.

Estava quase saindo do banheiro, quando uma garota entrou. Ela logo reconheceu a morena que estava com o pai idiota de Alexis. A tal Noiva Adequada. Ignorando-a, continuou seu caminho, mas foi parada pela outra:

–- Espere, por favor!

Estranhando a situação e já pronta para revidar, em palavras ou com os punhos, Angel surpreendeu-se com a franca simpatia nos lindos olhos verdes da indiana.

–- Sei que é estranho, levando em consideração toda a situação que passou, mas eu gostaria de falar com você.

Ela tinha um sotaque cantarolado muito charmoso. Lembrava o tom melodioso de Alexis. Irritada com a comparação que fez entre os dois, Angel já estava pronta para detestar a tal Noiva Adequada. Mas as palavras seguintes a desarmaram:

–- Eu vou estudar na Alpha a partir da próxima semana, nunca estive em uma escola mista por isso estou um pouco insegura. Gosto de ter amigos e conversar, mas todos aqui parecem tão... Intimidantes.

–- E eu não pareço? – Agora Angel estava francamente surpresa. E, admitia, decepcionada.

A garota riu, ficando ainda mais bela. Angel analisou se Alexis poderia achar uma morena de olhos verdes, e alta, mais interessante do que uma branquela de cabelos e olhos claros. E baixinha. Não gostou da conclusão de seus pensamentos, por isso ficou um tanto irritadiça.

–- Você parece muito assustadora. Mas também é impressionante. Nunca imaginei que alguém tivesse coragem de tratar o Rei Hamad daquela forma. – A Noiva Adequada franziu os lábios, e nem assim ficou menos bonita. – Eu também não gosto dele. Mas jamais diria isso! – Parecendo muito feliz, ela estendeu a mão. – Desculpe, nem me apresentei. Sou a princesa Lali de Kadah, mas, por favor, me trate apenas por Lali.

Um tanto hesitante, Angel aceitou o cumprimento.

–- Sou Angel.

–- Posso fazer um pedido? Sei que pode soar muito ousado, mas gostaria de ser minha amiga? Seria fantástico conhecer alguém como você!

Sem palavras, Angel apenas fitou Lali. Nunca tinham pedido algo do tipo para ela. Mesmo a sua única, e traidora amiga, apenas se aproximou dela, sem quaisquer palavras do tipo. Era algo novo e estranhamente agradável. Lali parecia francamente ansiosa por sua resposta, tal era o brilho nos olhos verdes. Tocada por isso, Angel apenas balançou a cabeça afirmativamente. Não sabia como uma amizade entre elas poderia dar certo, principalmente com a coisa toda de estar prestes a ser enxotada da Alpha, mas não queria negar algo como aquilo para aquela estranha garota. Sua vida estava passando por tantas mudanças, que talvez fosse o momento de fazer mais algumas.

Depois de se despedir de Lali, Angel ainda estava tão surpresa com a situação toda, que não foi capaz de evitar o puxão em seu braço ao passar pela porta do banheiro. Erguendo o rosto, furiosa, deu de cara com George e Leonard. O avô puxou seu braço com mais violência, enquanto vociferava, sem dar tempo para qualquer reação sua:

–- Como ousou nos humilhar daquela forma diante do Rei Hamad, sua pequena bastarda! Eu juro, você não vai mais ter a oportunidade de jogar o nome dos Lancasters na lama! Hoje mesmo vai voltar para aquela gaiola de loucos até definhar e finalmente desaparecer das nossas vidas!

–- Não, Lancaster. Você vai definhar e desejar morrer em alguma pocilga de Londres, se não soltar Angel agora!

Angel, George e Leonard estremeceram diante da voz fria de Alexis. Ele nem sequer tinha falado alto, mas soou com tamanha ferocidade que George largou a neta na mesma hora e o observou horrorizado.

Ela já vira Alexis com raiva antes, nas brigas que tiveram, por exemplo, mas nunca daquela forma. Era um pouco assustador, ainda que soubesse que toda aquela raiva estava direcionada a outra pessoa.

–- E-eu...

Alexis estreitou os olhos e isso bastou para o Lancaster mais velho fechar a boca com força, interrompendo o que estava tentando dizer.

–- Não tenha a ilusão de que ainda tem algum poder sobre a Angel. Isso acabou, eu lhe garanto. – Alexis se aproximou o suficiente para estender a mão para Angel que a agarrou sem hesitação.

Os dois se afastaram de mãos dadas. George e o neto ficaram parados e pálidos, temendo até mesmo respirar mais alto.

***

–- Você está bem?

Ele notou que os lindos olhos violetas pareciam meio perdidos, tristes. Aquilo o deixou ainda mais irritado com o avô dela. Como gostaria que Lancaster fosse alguns anos mais jovem, assim não precisaria conter sua vontade de esmurrar aquela cara pedante, como era sua verdadeira intenção. Quase acertara Leonard, apenas para saciar a sua vontade de bater em alguém, mas provocar uma cena não era tão importante quanto tirar Angel de perto daquelas pessoas detestáveis.

–- Estou bem. Mesmo. Não sei como ainda fico assim com as palavras dele. Depois de tudo.

Se o que ele havia presenciado foi apenas uma amostra de como Angel era tratada pela família, o que ela já não tinha suportado com os Lancasters? Para consolá-la, mas também para controlar os próprios sentimentos, ele a abraçou, e ali mesmo, começou a girar com ela no embalo da música suave que tocava. Era reconfortante a sensação de ter Angel em seus braços, esperava que também fosse assim para ela. Sentia, nesses momentos, que seria capaz de protegê-la dos seus fantasmas do passado.

Após alguns minutos, as luzes se apagaram por completo e a música parou. Alexis, mantendo Angel junto ao seu corpo, procurou descobrir o que acontecia. Então viu uma luz brilhar no meio do palco, não muito longe de onde estavam. Era uma tela projetora. Suaves focos de luz foram se acendendo e mostrando que todos haviam parado para olhar para o palco.

Na tela, em um vermelho chamativo, as palavras “Vamos conhecer a verdade sobre uma assassina” apareceram. Em seguida, imagens foram surgindo, algumas rapidamente, outras mais demoradamente. Mas todas eram igualmente chocantes.

Paralisado, Alexis viu fotos de uma Angel, com aproximadamente dez anos, deitada no chão, os pulsos cobertos por sangue, o mesmo sangue que manchava o piso a sua volta. Era tanto sangue que ela parecia estar morta. Mas um vídeo, ainda que com imagem desfocada, mostrou a pequena criança sentada em uma maca, com os mesmos pulsos enfaixados. Ela parecia completamente perdida. Logo outra cena surgiu, ela parecia um pouco mais velha, e novamente o sangue a cobria. Se possível, ainda mais dele.

Um novo vídeo, parecendo de um repórter dessa vez, pois além da imagem possuir melhor qualidade, alguém tentava fazer perguntas ao homem que a carregava, desacordada, no colo. “A garota se jogou da ponte?” “Sabe quem é ela?”. Embora não obtivesse resposta, a câmera continuava mostrando Angel ensopada e ensanguentada. O vídeo cortou para outra cena, Angel parecia sob efeito de alguma medicação, usava um vestido todo branco em uma sala igualmente branca, toda acolchoada. Uma sala psiquiátrica. A única mobília era a cadeira em que estava sentada. Seus pulsos, cobertos por faixas, pousavam em seu colo. Suas mãos pálidas e muito magras, tremiam incontrolavelmente. Uma voz feminina surgiu perguntando, com calma distante:

–- Por que tentou se matar, Angel?

Ela não respondeu, apenas começou a balançar os pés, delicados e descalços, no ar. Era tão pequena que eles não tocavam o chão.

–- Seus pais pediram para que fizesse isso?

Os pés pararam e seus vazios olhos viraram diretamente para a câmera.

–- Eles estão mortos. Todos eles. Eu os matei. E também os meus irmãos.

–- Por que acha isso?

–- Eu sobrevivi. Apenas eu. Eles não. Só eu. Sozinha.

–- Pessoas morrem Angel, e outras vivem. As vivas não são culpadas por isso.

Lágrimas começaram a correr pelos olhos violetas e sua cabeça foi jogada para frente.

–- Não! Não! Não! Eu sou malvada! Eu quero que eles me amem! Eu ainda quero que eles me amem! Mas eu sou tão, tão, má!

–- Quem você quer que a ame?

A cabeça loira voltou a se erguer, seu rosto pálido coberto pelos cabelos prateados, mal revelavam seus olhos.

–- Meus pais. Meus irmãos. Meu avô.

–- Seus pais a amavam, minha querida. E seu avô também a ama.

Ela tampou os ouvidos e seus ombros se encolheram.

–- Nããoooo! Mentira! Mentira! Mentira! Mentira!

Ainda ecoando os gritos desesperados, a imagem sumiu.

E novamente Angel estava coberta de sangue, em um outro lugar. Um quarto. Mas dessa vez não era a única pessoa. A imagem mostrava uma mulher caída ao seu lado, parecendo ainda mais ensanguentada do que ela. A câmera aproximou-se e foi possível ver os olhos violetas, injetados e vermelhos, se abrirem com muito esforço. Desorientada Angel olhou para o lado, antes de um policial a levantar pelo braço. Quando ela viu a mulher, tentou escapar do policial, mas outro veio para ajudar a contê-la.

A câmera se afastou e o som foi ligado. Uma voz feminina, parecendo animada, descreveu a situação.

–- Estamos no quarto onde acabei de descobrir um corpo. Essa é uma aluna da nossa escola, Angel Lancaster. Ela está drogada e uma arma foi encontrada no local. Sua empregada está com dois tiros, um na barriga e outro no peito. Provavelmente ela se drogou a matou a mulher oriental. Que pirada!

–- Largue essa câmera, garota. – Um dos policiais solicitou, para quem quer que estivesse filmando.

–- Cara, você não sabe com quem está falando. Apenas faça o seu trabalho! Eu vou continuar filmando essa porra se eu quiser!

A imagem perdeu o foco, mas foi possível perceber, antes disso, Angel dar um soco em um dos policiais e cair sobre o corpo no chão. Seus gritos encerraram o vídeo.

Mais fotos continuaram sendo exibidas. Imagens que mostravam Angel cercada pela morte. Coberta por ela. Em diferentes momentos da sua vida.

Alexis estava tão entorpecido com tudo aquilo, que demorou para perceber que Angel havia saído dos seus braços. Ela abraçava o próprio corpo, os olhos arregalados encarando as imagens que passavam para uma plateia atônita e silenciosa. Seu corpo todo estava trêmulo e isolado no centro de um círculo. Os colegas haviam se afastado dela, como se estivessem com medo. Como se ela fosse uma espécie de monstro.

Cerrando os punhos, ele foi em direção ao palco. Estava furioso com tudo. Com a pessoa que fez aquela apresentação. Com a família Lancaster. Com ele mesmo por ter ficado parado, sem conseguir reagir diante da situação. Com Angel por causar aquela dor em seu coração, que ele não era capaz de definir ainda onde o levaria. O que deveria fazer? O que ele queria fazer?

Não desejava pensar. As imagens dela, a ideia de que Angel tivesse tentado tirar a própria vida, eram insuportáveis demais para ele. Era aterrador imaginá-la como alguém capaz de matar outra pessoa. Como seu pai. Angel uma assassina? E da mulher que a havia criado?

Quando passou por uma cadeira, Alexis a pegou e, com violência desmedida, arremessou contra a tela, interrompendo a projeção e provocando um barulho ensurdecedor quando ela se chocou contra seu alvo. Cabos ficaram faiscando e pedaços de seu material foram espalhados pelo palco, alguns atingindo as pessoas que gritaram de pavor e tentaram se proteger, alguns até mesmo se jogando no chão.

Fora de si, Alexis passou os olhos pela multidão, sem saber bem o que procurava, e então pararam em Ren. O irmão de Mona ficou pálido e tentou passar pelas pessoas no seu caminho, claramente tentando fugir. Aquilo o alertou para o óbvio. Vingança. Aquilo tudo tinha sido arquitetado por vingança. O Príncipe foi na direção de Ren com tamanha rapidez, que o rapaz mal tinha dado alguns passos quando foi parado por um puxão em sua roupa. Com agilidade, Alexis o virou e levou o punho para trás para tomar impulso, com isso, o soco que acertou a cara assustada de Ren, o fez ser jogado contra os colegas chocados. Ele deslizou para o chão, levando alguns consigo, e não se mexeu mais. Estava desmaiado.

Sentindo ainda uma raiva cega, Alexis começou a ir na direção do rapaz caído, mas o grito de Choi o parou:

–- Angel! Alexis, a Angel precisa de você!

Olhando na direção que Choi apontava, ele paralisou momentaneamente. Sua mente bloqueou tudo o mais, sua raiva, seu ressentimento, suas dúvidas. Enquanto ia na direção dela, só pensava em protegê-la. Pois não era capaz de suportar ver Angel daquela forma. Encolhida no meio de pessoas que murmuravam palavras como “drogada”, “assassina”, “suicida”, “louca”. Sua Angel não era aquela criatura trêmula que cobria os ouvidos e chorava desesperadamente. Não, ela era forte e orgulhosa. E não era as coisas pelas quais a chamavam. Alexis não acreditava nisso, porque já vira em seus olhos, tristeza, solidão, alegria, carinho. Nunca crueldade. E ele, mais do que ninguém, sabia como eram os olhos de um assassino. Os conhecia desde a infância. E Angel não tinha esses olhos.

Ao chegar ao lado de Angel, Alexis abaixou-se, apenas o suficiente para pegá-la em seus braços. De forma protetora, a carregou para fora dali, longe daquelas pessoas que a feriam, quando ela já estava tão cheia de cicatrizes, algumas visíveis e outras não. Quando passou pela porta, olhou para Angel e seu coração doeu. Ela ainda mantinha os olhos firmemente fechados, enquanto as mãos tampavam seus ouvidos. Entre soluços sussurrava “Hye Kyo”. A amiga cuja culpa da morte jogaram sobre ela. Alexis prometeu a Angel, iria descobrir quem tinha feito isso e essa pessoa pagaria por isso. Pagaria por cada lágrima derramada por ela naquela noite.

Notas finais
E ae, o que acharam??? Hein? Hein?? Ren é ou não é um sem noção e sem coração?? Quase deu para suportar a Mona, pelo menos um tantinho assim ó?? Choi, como sempre, o amigo pra toda hora *.* No próximo, e último capítulo dessa parte, mais revelações sobre a morte de Hye Kyo e outras coisitas mais!! Beijos e até! .... .... Quê?! Claro que eu não esqueci de pedir comentários! Comentem oras!