Destinados por um acaso
1 Prólogo
Notas iniciais

O acaso pode muito: tem sempre
pronto o anzol; no rio de que nada esperas,
aparecerá o peixe.
Skyler Finley.
— Vou tentar te visitar em New York, pode deixar. — Michael disse, enquanto segurava meu rosto entre as mãos e seus olhos verde mar me encaravam profundamente, e o pior de tudo isso era que eu não poderia mais vê-los, não iria sentir minhas pernas bambas de quando meus olhos se encontravam com os dele, isso só fazia meu coração se apertar mais ainda, tornando-se mais minúsculo do que já estava.
— Eu te amo. — Murmurei, abaixando a cabeça e fechando os olhos com força, sentindo as lágrimas saírem e escorrerem por meu rosto.
— Eu também te amo e isso não vai mudar, independente da distância. — Seus braços me envolveram como um casulo acolhedor, seu abraço era meu porto seguro, era ali onde queria estar e morar, aconchegada em seus braços rígidos e confortáveis. Eles soavam como lar, eles eram meu lar e então, deixariam de ser.
— Podemos continuar juntos mesmo com você estando aqui em Portland e eu em New York, podemos... — Fui interrompida pela voz calma dele.
— Você sabe que não dará certo, Sky. Por mais que eu te ame, sinto que será melhor se terminarmos bem, aqui, do que terminarmos por razões futuramente piores.
— Atenção senhores passageiros, voo 1203 com destino a New York, embarquem no portão 3.
Rapidamente, encostei meus lábios nos dele e novamente outra lágrima rolou. Dei meia volta e puxei minhas duas malas, enquanto andava em direção ao portão 3, sentindo todo meu corpo suar frio e as mãos tremerem sem parar.
— Acorda, bela adormecida! — Escutei alguém falar ao mesmo tempo em que senti algo macio cair no meu rosto, despertando-me de meu sono — ou talvez da lembrança perturbadora. Tirei o objeto aveludado da minha cara e vi que era uma pequena almofada — Não quero que se atrase no primeiro dia de faculdade!
Espreguicei-me até me sentar e ver Annie na minha frente com as mãos na cintura e me olhando de forma inquiridora. Seu cabelo, curto e preto com algumas mechas castanhas, estava com vários fios fora do lugar, que dançavam em volta de seu rosto fino e delicado, porém, ela continuava bela e a roupa que vestia valorizava suas curvas e seus seios avantajados.
— Sonhou ou teve um pesadelo?
— Seria mais para uma lembrança trituradora do passado. — Botei uma mecha rebelde do meu cabelo atrás da orelha.
— Michael?
Assenti com a cabeça.
— Sky, posso falar a verdade? Por mais que vocês se amassem, foi melhor não terem mantido essa coisa de relacionamento à distancia, isso não ia dar certo porque ou você seria corna, ou ele ia ser corno, ou... Ambos iriam ser cornos. — Ela fez sinal de chifre na própria cabeça e sorriu para mim, até dar meia volta e sair do quarto.
Fazia uma semana desde que tinha me mudado de Portland para New York e morar no loft de Annie não era tão confortável. O quarto cheirava a álcool e era totalmente bagunçado, apenas com uma cama de mola, um armário de madeira caindo aos pedaços, uma pilha de roupas minhas que não tinha arrumado desde que me mudei para cá e meu cavalete ao lado da janela fechada, junto com os materiais de tintura. Apesar de tudo isso, os raios de sol que entravam pela janela eram revigorantes e acolhedores, como se me cumprimentassem e chamassem para receber mais um dia.
Levantei-me da cama e caminhei até a pilha de roupas. Peguei uma calça jeans, uma blusa e um sobretudo de lã grossa que era para se limitar até o joelho, mas já que eu era baixinha, ficava um pouco mais abaixo. Troquei de roupa ali mesmo, já que, com certeza, o banheiro estaria ocupado por Annie arrumando o cabelo. Olhei-me no espelho e vi que meu cabelo ruivo estava totalmente bagunçado, então o arrumei passando os dedos nas mechas embaraçadas, deixando as madeixas onduladas um pouco mais no devido lugar.
— Vamos, se não chegaremos atrasadas. — Annie disse da porta e eu concordei baixo.
Saímos do loft e Annie trancou a porta, logo descemos as inúmeras escadas até chegarmos na entrada do apartamento e embarcarmos na rua cheia de neve. Annie ficava murmurando sobre como foi seu primeiro dia de aula na faculdade e como tinha um professor gato que quase pegou, da maneira mais maliciosa da palavra. Porém, o resto da conversa não passou de várias frases que entraram no meu ouvido e saíram pelo outro. Conhecia Annie desde a infância, na época morávamos em Portland e a vida fazia mais sentido para mim quando tinha meus outros dois amigos: Michael e Liam. Annie era dois anos mais velha que eu e sempre tivemos o sonho de vivermos em New York, então, esse sonho se tornou realidade mais rápido para Annie, já que ela prestou o vestibular dois anos antes de chegar minha vez e foi estudar na faculdade de New York, em Manhattan. Eu fiquei muito depressiva com a ida dela, já que era minha melhor amiga, mas de tanto que Michael ficou indo para minha casa me fazer companhia, acabamos namorando, só que dois anos depois, quando eu também passei na faculdade de New York, eu não queria largar meu namorado, minha vida, minha casa, meus pais, meus amigos e nem nada do que eu era apegada, mas meu sonho sempre foi morar lá desde os seis anos de idade, não poderia perder uma chance destas. Com muita conversa dos meus pais e de Michael, vim para Manhattan estudar Belas Artes, e agora cá estava eu. Achava tanto que tudo seria um mar de rosas e no primeiro momento em que botei o pé no aeroporto, senti o medo da perda, da partida e do abandono. E o pior foi que eu apenas não perdi pessoas que eu amava, como perdi a mim mesma.
Nicholas Saltzman.
— Trabalho para semana que vem sobre Fauvismo. Tragam sem falta! — O professor disse, enquanto os alunos se levantavam fazendo barulho em suas carteiras. Peguei meus livros e os botei dentro da mochila, levantei-me e atirei a mochila nas costas. Quando estava prestes a andar em direção à porta, alguém me puxou pelo ombro, fazendo meu corpo se virar para os alunos.
— Esse é o novo monitor da sala, se tiverem dúvida na matéria, falem com ele. — O professor anunciou para a sala e vi os alunos pararem de fazer suas coisas para me olharem.
Sorri sem jeito para o professor e acenei rápido para as pessoas. Vi alguns grupos de meninas comentando entre si e saí o mais rápido possível da sala, já que não queria ser abordado por nenhuma delas para ajudá-las na matéria, porque vamos analisar os fatos: o ano letivo realmente nem começou, então, elas querem ajuda em quê? Em trair o namorado com o aluno-monitor lindo? Em transar e depois não saber nem meu nome? Desse tipo de garota, eu tento manter distãncia. Qualquer garoto normal iria adorar, mas eu não, então que eu seja anormal ou um E.T., não gosto de gente sem conteúdo.
Comecei a andar pelo campus, procurando por Alex. Faculdade, primeiro dia de aula, era para eu estar me sentindo como? Feliz? Animado? Outras pessoas estão tentando fazer amizade ou conversando com amigos e marcando festas, a única coisa que eu quero fazer é sair daqui e pegar o metrô. Há dois anos, quando me mudei da França para New York, eu pensei que tudo seria ótimo, até porque fui chamado para a faculdade de Manhattan com bolsa 100%, não pagaria nada. Minha mãe tinha uma casa aqui que virou minha quando me mudei e não tinha do que reclamar, embora parecesse que a vida não passava apenas de um borrão, como se tudo estivesse em preto e branco e eu não fosse capaz de enxergar as cores. Sempre tem aquela pedra no sapato pertubando, sempre está faltando algo, algo que pode estar longe ou perto de mais, mas o quê seria esse algo?
— Ei, cara. — Alguém disse, tirando-me dos meus pensamentos. Era Alex. — Você vai visitar seu velho hoje?
— Vou. — Respondi.
— Fui convidado para uma festa por duas gatinhas, e aí eu pensei... Uma gatinha pra você, — ele gesticulou para mim. — e uma para mim. — Alex sorriu convincente. O conheci quando me mudei há dois anos para cá, quando eu tinha ido ao supermercado e quando fui voltar para casa, me perdi, então, ele me ajudou a encontrar o caminho e descobri que ele morava em frente à minha casa. Desde então, viramos amigos e ele começou a praticamente viver na minha casa, já que nunca pagava a conta de luz e cortavam a eletricidade dele. Alex era do tipo garanhão e animado, apesar de eu não gostar muito desse tipo de pessoa, ele tinha uma grande agitação que volta e meia me tirava desse ócio.
— Você sabe que não curto festas. — Respondi, franzindo o cenho. Meus ossos doeram quando um vento gelado passou por nós, estávamos no Inverno e em Manhattan fazia muito frio, e inclusive, nevava bastante.
— Mas curte gatinhas, certo? — Certo, mas gatinhas com algum cérebro. Alex vivia indo para festas e voltando bêbado, falando das meninas que pegou e de como gostou, sempre me chamava, porém eu preferia fazer algo melhor, como ler ou desenhar, já que a faculdade de Belas Artes ensinava várias técnicas de desenho ótimas. Acho que Alex fazia o padrão de beleza das garotas com aquele cabelo negro arrepiado e curto, olhos profundamente azuis e a cara de bad-boy.
Balancei a cabeça em negação.
— Ok, então. Manda um abraço pro coroa! — Ele falou mais alto enquanto se afastava. Assenti e segui meu caminho em direção a estação.
Um tempo depois, cheguei à estação e fiquei esperando. Por incrível que pareça, não estava tão cheia como sempre. Fiquei pensando na festa em que Alex me chamou, eu até deveria ir, ficar com uma menina, me embebedar e voltar ao amanhecer para casa, mas eu simplesmente não tenho vontade para isso e nem consigo ser quem querem que eu seja ou deveria ser. Um dia, eu vou encontrar alguma razão para viver e que me tire dessa rotina monótona, mas antes disso vai dar tudo errado, porque essa é a regra da vida. A gente cai de cara no chão. De novo. E de novo. E quando não tivermos mais forças pra nos levantarmos, vai aparecer alguém pra dar a mão e nos levantar. Acho que esse meu alguém está demorando de mais para aparecer, quem sabe perdido pela cidade. Eu só quero algo que me tire dessa rotina insuportável, desse desgaste temporal, dessa agonia. Quero algo diferente, horários diferentes, pessoas diferentes. Quero algo novo, com aquele gostinho de nostalgia, e uma pitada de emoção, mas algo que eu goste e não festas que eu nem vou me lembrar direito no dia seguinte. Quero algo que me tire dessa vida de simplesmente existir.
Finalmente o metrô para East Harlem chegou, e logo entrei. Estava vazio e aos poucos foi se enchendo, mas não ao ponto de ficar desconfortável. Sentei-me e encostei a cabeça na parede, perdido em meus pensamentos. Alguns minutos depois, olhei em volta, observando as pessoas e as expressões que seus rostos estampavam. Uma senhora estava sentada de mãos dadas com um senhor, essa era apenas uma velhinha que conheceu seu amor quando era jovem e até agora, está com ele. Agora, vejo um cara de meia-idade com cabelo castanho e curto, mexendo no celular e esperando o tempo passar, enquanto devia estar em alguma rede social. Pode parecer estranho, mas eu gosto de fazer isso, observar as pessoas e tentar adivinhar no que elas pensam, o que elas são, qual é sua história e como elas veem esse mundo em que vivemos.
Dessa vez, meus olhos pararam em uma menina ruiva, o cabelo era ondulado e seus olhos azuis encaravam à frente, como se olhasse para algo distante, talvez uma outra dimensão. Ela devia estar pensando em algum ocorrido, absorta em pensamentos profundos. Devia estar no segundo ano do ensino médio e agora se dirigia para casa, sem paciência para suportar a mãe com o padrasto novo. Em seu olhar havia algo incomum, desconfiança provavelmente. Será que ela, assim como eu, achava as pessoas hipócritas?
— Parada para East Harlem. — A voz gravada da mulher anunciou no alto-falante. Ao parar na estação desci do metrô.
Saí da estação e andei em direção ao asilo, que ficava a dois quarteirões. Chegando lá, senti que estava mais quente do que na rua, não tive a sensação de meus ossos sendo quebrados e sim de sendo restaurados. Fui direito à recepção.
— Ah, oi, Nicholas. — Susana disse quando me viu, acho que todos daqui me conheciam de tanto que eu visitava meu avô. — Ele está no quarto.
— O Alzheimer piorou? — Perguntei, preocupado.
— Não, ainda no Estágio 1. Ele está meio desorientado, ainda sem lembrar a maioria das coisas.
Respirei fundo.
— Ele perguntou de você hoje! — Ela disse, tentando me animar.
Sorri de leve e fui em direção ao quarto dele, passei por uma sala, entrei no corredor e logo, no quarto. Meu avô estava sentado na cama de mola, de costas para mim enquanto observava pela janela o mundo afora, pensando talvez em como sua vida era chata por ter de viver em um asilo degradante desde que a esposa morreu. Isso se ele ainda se lembrasse dela.
— Vô?
Ele pareceu tomar um leve susto, até se virar para mim e sorrir. O cabelo grisalho estava bagunçado, suas olheiras e as marcas da velhice em seu rosto desviavam a atenção de seus belos olhos azuis, que ainda expressavam a vida que havia nele, únicas coisas que o tempo e a doença não roubaram.
— Venha cá. — Ele gesticulou para mim.
Botei minha mochila no chão e andei até ele. Ele apontou para a janela e falou, com a voz rouca:
— Um dia, vamos naquele prédio. — Tentei identificar qual prédio ele estava falando, procurei qual era o mais diferente dos outros.
— O azul? — Perguntei.
— É.
— Pode deixar. — Eu sabia que o prédio se tratava de vários andares de empresas super famosas, mas decidi não comentar.
Olhei para meu avô e vi que ele ainda olhava fixamente pela janela. Peguei a cadeira de ferro que estava no canto e botei em frente a ele, dessa vez, ele me olhou.
— Sua avó não me visita há tanto tempo... Quando ela vai vir? — Aquela pergunta fez meu coração acelerar e minha espinha gelar.
— Ela mo... Morreu. Há dois anos. — Meu avô ficou pálido, a boca se abriu e os olhos se arregalaram. — Não se lembra?
— Não. — Ele pareceu ofendido e magoado, talvez consigo mesmo ou até comigo, eu não sabia. — Eu fui ao enterro dela?
Assenti com a cabeça.
— Mas como não me lembro? — Abaixei a cabeça, estendendo um grande silêncio, até ser quebrado. — Como foi a faculdade?
— Mesma coisa.
— E a vida? Como vai?
— Mesma coisa também. — Percebi o próprio desânimo em minha voz.
— O que seria mesma coisa?
— Chata, nada de bom nem de ruim acontece. Minha rotina é movida pelo tédio e fico à espera de dias melhores onde coloco expectativas que algo bom venha aparecer, mas nada parece me surpreender mais. É estranho acordar e dormir com uma sensação de vazio e não ter noção de como preenchê-lo. — Meu avô sempre me perguntava as coisas para qualquer outra pessoa eu teria mentido, mas para ele eu dizia a verdade, pois respeitava a sabedoria que ele tinha, mesmo que eu não tenha entendido de qual maneira ele tenha ajudado.
— Tinha esquecido como você era depressivo e chato. — Ele disse, fazendo-me rir, e logo depois estávamos rindo juntos — Tudo tem seu tempo, meu jovem, vai chegar uma hora que tudo vai mudar.
— Talvez essa hora esteja adiada para nunca.
— Acredite em mim, na nossa vida, acontecem várias coisas que não percebemos. Talvez aquele sorveteiro que você conheceu se torne seu melhor amigo, talvez esse seu emprego de monitor na faculdade te leve a diferentes oportunidades.
— O que está querendo dizer com isso, vô? — Perguntei interessado. As palavras de meu avô estavam por se concretizar e acho que eu sabia disso, ele sempre tinha razão, independente de como ele esteja.
— Está faltando alguém ou algo na sua vida?
Aquela pergunta fez-me coçar a cabeça.
— Não sei, vô, não é só porque conheço alguém que essa pessoa será diferente em minha vida.
— Ninguém cruza nosso caminho por acaso, meu jovem, e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão.
TO BE CONTINUED...
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